{"id":23677,"date":"2019-07-31T04:05:52","date_gmt":"2019-07-31T07:05:52","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23677"},"modified":"2019-07-31T04:05:52","modified_gmt":"2019-07-31T07:05:52","slug":"arquitetura-da-destruicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23677","title":{"rendered":"Arquitetura da destrui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/criticadaeconomia.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Brasil-Moro-Ohi.jpg?resize=626%2C498&amp;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Cr\u00edtica da Economia<\/p>\n<p>por Ana Ara\u00fajo e Jos\u00e9 Martins<\/p>\n<p>Aumenta a ingovernabilidade. E a conjuntura pol\u00edtica ferve. Nesta semana, com bem mais desenvoltura, as classes dominantes brasileiras e seu atual governo jogaram mais fichas em uma radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e engessamento das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O presidente da Rep\u00fablica, Jair Messias Bo\u00e7alnaro, e seu ministro da justi\u00e7a, S\u00e9rgio Moro, s\u00e3o os principais protagonistas dentre outros in\u00fameros meliantes que povoam atualmente o pal\u00e1cio do Planalto. Aumenta a possibilidade de paralisa\u00e7\u00e3o e fechamento do regime.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio de nova etapa de radicaliza\u00e7\u00e3o do governo aparece com mais clareza com duas a\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas: a \u201copera\u00e7\u00e3o hacker\u201d, da Pol\u00edcia Federal, e a edi\u00e7\u00e3o da portaria n\u00ba 666, de 25 de julho 2019, ambas a\u00e7\u00f5es comandadas pessoalmente pelo ministro da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Em seu Art. 1\u00ba, a portaria 666 estabelece com toda a clareza e indisfar\u00e7ada viol\u00eancia o seguinte: \u201cEsta Portaria regula o impedimento de ingresso, a repatria\u00e7\u00e3o, a deporta\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria, a redu\u00e7\u00e3o ou cancelamento do prazo de estada de pessoa perigosa para a seguran\u00e7a do Brasil ou de pessoa que tenha praticado ato contr\u00e1rio aos princ\u00edpios e objetivos dispostos na Constitui\u00e7\u00e3o Federal\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1 sobrando quase nada mais do direito individual \u00e0 privacidade e a uma m\u00ednima livre express\u00e3o, como se vivia at\u00e9 agora. Na democracia, quando desvanece o poder de governar, a viol\u00eancia potencial do Estado \u00e9 substitu\u00edda pela viol\u00eancia cin\u00e9tica. Um enfraquecimento da capacidade repressiva do Estado.<\/p>\n<p>Este quadro de nova etapa de radicaliza\u00e7\u00e3o do governo e ruptura com a ordem institucional foi corretamente evidenciado por alguns poucos analistas pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Como o jornalista Luis Nassif, que descreve corretamente as recentes a\u00e7\u00f5es do governo:<\/p>\n<p>\u201cA opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal contra os supostos hackers do interior paulista indica o in\u00edcio da estrat\u00e9gia Opera\u00e7\u00e3o Inc\u00eandio de Reichstag, que marcou a ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha. \u00c9 uma t\u00e1tica recorrente em governos que caminham para o autoritarismo. V\u00e3o sendo testadas arma\u00e7\u00f5es que insuflem a malta contra o inimigo comum fabricado. Mant\u00e9m o clima de conflito permanente at\u00e9 que se tenha o grau de fervura adequado para o golpe final\u2026 Enfim, j\u00e1 come\u00e7ou a contagem regressiva para a radicaliza\u00e7\u00e3o final do governo. Ou as institui\u00e7\u00f5es acordam enquanto \u00e9 tempo, ou ser\u00e1 tarde. O tempo para reagir tornou-se dramaticamente curto.\u201d<\/p>\n<p>Entretanto, antes que alguma an\u00e1lise mais superficial eleja as grandes ideias ou os grandes homens (pequen\u00edssimos, no caso brasileiro) como os demiurgos criadores do processo hist\u00f3rico, \u00e9 muito mais inteligente considerar que na origem do atual governo e nas suas tentativas atuais de fechar o regime existe uma base material perfeitamente definida.<\/p>\n<p>Bo\u00e7alnaro, Moro e demais milicianos atualmente instalados no trono em Bras\u00edlia n\u00e3o s\u00e3o um raio no c\u00e9u azul da democracia. Na base dos fen\u00f4menos pol\u00edticos brasileiros e no enfraquecimento de governo das classes propriet\u00e1rias existe um processo econ\u00f4mico depressivo e um desemprego crescente que essas classes n\u00e3o conseguir\u00e3o interromper.<\/p>\n<p>Portanto, para quem est\u00e1 interessado em saber o que est\u00e1 determinando o tumultuado quotidiano pol\u00edtico no Brasil e seus explosivos desdobramentos \u00e9 altamente recomend\u00e1vel que se observe mais de perto a fal\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o industrial do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Veja-se, por exemplo, como \u00e9 reportado pelo jornal O Estado de S\u00e3o Paulo o que est\u00e1 acontecendo no estado de S\u00e3o Paulo, maior polo industrial do Pa\u00eds, que registrou o fechamento de 2.325 ind\u00fastrias de transforma\u00e7\u00e3o e extrativas nos primeiros cinco meses do ano.<\/p>\n<p>Os \u00edndices de \u00f3bitos na base mais importante da produ\u00e7\u00e3o de capital no Brasil atingem os n\u00edveis mais elevados dos \u00faltimos dez anos e 12% maior que o do ano passado, segundo a Junta Comercial de S\u00e3o Paulo. Veja essa evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No grupo das que fecharam as portas neste ano, h\u00e1 ind\u00fastrias nacionais e multinacionais estrangeiras. Algumas transferiram filiais para outras unidades da mesma companhia para cortar custos e outras encerraram totalmente a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De uma forma ou de outra deixaram um rastro de grandes contingentes de desempregados, a maior parte deles sem receber sal\u00e1rios atrasados e indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria de autope\u00e7as Indebr\u00e1s, por exemplo, na zona oeste de S\u00e3o Paulo, deixou de operar em abril e colocou na rua cento e cinquenta funcion\u00e1rios. Com sal\u00e1rios atrasados e sem verbas rescis\u00f3rias, eles ficaram acampados em frente \u00e0 f\u00e1brica por 48 dias. Ap\u00f3s acordo na Justi\u00e7a do Trabalho, a empresa prop\u00f4s fazer o pagamento em 18 parcelas mensais.<\/p>\n<p>\u201cO receio \u00e9 que a empresa pague as primeiras parcelas e depois suspenda o pagamento, como j\u00e1 ocorreu em acordos anteriores fechados por outras empresas\u201d, diz o diretor do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo, \u00c9rlon Souza.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o de capacidade produtiva instalada e crescente desemprego da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora aparecem amea\u00e7adoramente para a sociedade civil como a \u00fanica perspectiva do regime capitalista brasileiro para a pr\u00f3xima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros ainda n\u00e3o t\u00e3o elevados (em termos absolutos) de fechamento de ind\u00fastrias e de desemprego, acima ilustrados com o caso de S\u00e3o Paulo, devem ser generalizados para todo o pa\u00eds e multiplicados por dez ou vinte nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o mais importante a ser considerado na an\u00e1lise da atual situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: os capitalistas nacionais e internacionais que agem impunemente no Brasil j\u00e1 sabem, como os leitores da Cr\u00edtica da Economia h\u00e1 muito mais tempo, que eles ser\u00e3o incapazes de recuperar o crescimento econ\u00f4mico interno nos pr\u00f3ximos dez anos.<\/p>\n<p>Ou mais de dez anos, pois este longo prazo vai depender do fato que no meio do caminho a economia brasileira ser\u00e1 atingida por um choque global de magnitude in\u00e9dita nos \u00faltimos setenta anos. Por enquanto a economia mundial continua se segurando, bem ou mal, no ocaso do atual per\u00edodo de expans\u00e3o global.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que se assiste neste momento um aumento do pessimismo dos economistas do mercado e do governo com a sua manifesta impot\u00eancia para fazer qualquer pol\u00edtica econ\u00f4mica expansionista. Sabem que sem esta recupera\u00e7\u00e3o seu regime de explora\u00e7\u00e3o vai para o vinagre.<\/p>\n<p>A grande m\u00eddia do sistema procura festejar ruidosamente qualquer min\u00fasculo \u201csinal de recupera\u00e7\u00e3o da economia\u201d. Eles sabem que isso \u00e9 crucial para a sobreviv\u00eancia do atual regime de explora\u00e7\u00e3o. Mas fica cada vez mais dif\u00edcil convencer a assustada opini\u00e3o p\u00fablica que sua propaganda n\u00e3o \u00e9 enganosa.<\/p>\n<p>\u00c9 importante salientar que essa impot\u00eancia burguesa de garantir a reprodu\u00e7\u00e3o do capital tamb\u00e9m existiria em um hipot\u00e9tico novo governo mais popular (militar ou civil) e mais interessado em aplicar uma pol\u00edtica econ\u00f4mica antic\u00edclica estilo Guido Mantega para recuperar a governabilidade e evitar a guerra civil.<\/p>\n<p>Acontece que \u2013 como a Cr\u00edtica da Economia vem analisando exaustivamente em in\u00fameros boletins nos \u00faltimos anos \u2013 a causa do travamento da economia brasileira, como de resto das demais economias da periferia dominada do sistema imperialista, encontra-se na asfixiante nuvem deflacion\u00e1ria que cobre o mercado mundial desde o \u00faltimo choque peri\u00f3dico global (2008\/2009).<\/p>\n<p>Frente a este irrevers\u00edvel fen\u00f4meno de achatamento dos pre\u00e7os m\u00e9dios no mercado global e das correspondentes mudan\u00e7as na divis\u00e3o internacional do trabalho as classes dominantes brasileiras jogaram finalmente a toalha.<\/p>\n<p>E confessam, na forma de um vazio de solu\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e na ingovernabilidade pol\u00edtica sem freios, que s\u00e3o incapazes de garantir a produ\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia de noventa por cento da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Come\u00e7am, ent\u00e3o, a eutan\u00e1sia da ind\u00fastria. Uma dolorosa arquitetura de liquida\u00e7\u00e3o de uma incur\u00e1vel economia da periferia imperialista.<\/p>\n<p>O governo atual de Bo\u00e7alnaros, Moros e demais paus-mandados da desordem pol\u00edtica nacional \u00e9 a forma burguesa mais adequada para a realiza\u00e7\u00e3o desta imunda arquitetura da destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma arquitetura projetada por classes parasitas e propriet\u00e1rias de todos os meios sociais de produ\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que j\u00e1 perderam qualquer justificativa ou legitimidade moral para continuar governando e decidindo o que, como, e para quem produzir.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"O2xDSUs8Ar\"><p><a href=\"https:\/\/criticadaeconomia.com\/2019\/07\/ha-algo-no-ar-alem-dos-avioes-de-carreira\/\">Arquitetura da destrui\u00e7\u00e3o<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#8220;Arquitetura da destrui\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; \" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/criticadaeconomia.com\/2019\/07\/ha-algo-no-ar-alem-dos-avioes-de-carreira\/embed\/#?secret=O2xDSUs8Ar\" data-secret=\"O2xDSUs8Ar\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23677\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[226],"class_list":["post-23677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-69T","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23677"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23677\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}