{"id":2373,"date":"2012-02-07T20:48:22","date_gmt":"2012-02-07T20:48:22","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2373"},"modified":"2012-02-07T20:48:22","modified_gmt":"2012-02-07T20:48:22","slug":"alexandr-yakovlev-e-o-anti-comunismo-cavernicola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2373","title":{"rendered":"Alexandr Yakovlev e o anti-comunismo cavern\u00edcola"},"content":{"rendered":"\n<p>Para a trag\u00e9dia hist\u00f3rica que foi a derrota do socialismo na URSS contribu\u00edram muitos e muito complexos factores de ordem social, pol\u00edtica, econ\u00f3mica, ideol\u00f3gica. E contribuiu tamb\u00e9m a trai\u00e7\u00e3o de dirigentes que, fingindo-se comunistas, alcan\u00e7aram posi\u00e7\u00f5es-chave a partir das quais lan\u00e7aram o assalto final. Um dos mais destacados \u00e9 Alexandr Yakovlev.<\/p>\n<p>O russo Alexandr Yakovlev \u00e9 quase um desconhecido em Portugal e nos demais pa\u00edses da Europa Ocidental.<\/p>\n<p>Amigo \u00edntimo de Mihail Gorbatchov e seu conselheiro principal, desempenhou um papel fundamental no processo contra-revolucion\u00e1rio que conduziu \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Por mero acaso encontrei h\u00e1 dias na livraria de uma pequena cidade alentejana um livro seu editado em Portugal em 2004: &#8220;Um S\u00e9culo de Viol\u00eancia na R\u00fassia Sovi\u00e9tica&#8221;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/mur\/yakovlev_04fev12.html#notas\" target=\"_blank\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que este manual de anticomunismo tenha sido recebido com entusiasmo nos EUA. Yakovlev na falsifica\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria vai al\u00e9m de tudo o que sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se escreveu sobre o tema.<\/p>\n<p>\u00c9 esclarecedor que os editores portugueses tenham considerado \u00fatil transcrever na contra-capa a opini\u00e3o sobre este livro de Zbignew Brzezinsky, o conselheiro de seguran\u00e7a nacional do presidente Carter: &#8220;A revela\u00e7\u00e3o profundamente comovedora e solidamente documentada dos crimes de Lenine e Estaline, escrita por um homem de consci\u00eancia que fez parte do Politburo nos anos do fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica&#8221;.<\/p>\n<p>Alexandr Yakovlev orgulhava-se de ter persuadido Gorbachov a destruir a URSS atrav\u00e9s de uma &#8220;reestrutura\u00e7\u00e3o&#8221; do regime, a Perestroika, apresentada ao Partido e ao povo sovi\u00e9ticos como iniciativa revolucion\u00e1ria cujo objectivo seria o regresso \u00e0s origens do leninismo.<\/p>\n<p>Falecido em 2005 com 82 anos, foi durante mais de quatro d\u00e9cadas considerado um comunista exemplar. Membro do Partido desde 1944, entrou no Comit\u00e9 Central dez anos depois, destacando-se em tarefas ligadas \u00e0 ideologia e \u00e0 propaganda.<\/p>\n<p>Absteve-se sempre de criticar o regime. Comportava-se como zeloso comunista.<\/p>\n<p>Nomeado embaixador no Canada em 1973, desenvolveu uma amizade fraternal com o primeiro-ministro Pierre Trudeau. Foi em Otawa que conheceu Gorbachov, em l983, durante uma visita \u00e0quele pa\u00eds do futuro secret\u00e1rio-geral do PCUS. Transcorridos muitos anos, quando a R\u00fassia j\u00e1 era um pa\u00eds capitalista, Gorbachov revelou que as conversas mantidas com o embaixador o ajudaram muito a compreender que era necess\u00e1rio destruir o regime sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Tais elogios fez de Yakovlev no regresso que Yuri Andropov o chamou a Moscovo e o nomeou director do Instituto de Economia Mundial e de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Academia das Ci\u00eancias da URSS. E em 87, j\u00e1 em plena Perestroika, tornou-se membro do Secretariado e do Politburo do CC do PCUS.<\/p>\n<p>Decidiu ent\u00e3o que chegara o momento de tirar a m\u00e1scara. Da cr\u00edtica do socialismo passou sem transi\u00e7\u00e3o ao elogio do capitalismo. Acompanhou Gorbachov na primeira visita aos EUA e as suas catilin\u00e1rias contra o regime sovi\u00e9tico valeram-lhe os t\u00edtulos de &#8220;arquitecto da perestroika&#8221; e &#8220;pai da glasnost&#8221;.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia que exercia sobre o secret\u00e1rio-geral era t\u00e3o ostensiva que o ex presidente do Soviete Supremo, Anatoly Lukyanov, me disse durante uma visita minha \u00e0 R\u00fassia em 1994 que todos &#8220;olhavam para Yakovlev quando Gorbachov falava&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O \u00d3DIO E A CAL\u00daNIA <\/strong><\/p>\n<p>Ieltsine n\u00e3o escondia a sua admira\u00e7\u00e3o por Yakovlev. Mais de uma vez elogiou o trabalho que o autor de\u00a0<em>The Fate of Marxism in R\u00fassia <\/em>\u2013 publicado pela Universidade de Yale \u2013 realizou como presidente de uma Funda\u00e7\u00e3o da Democracia Internacional, criada em Moscovo para falsificar a hist\u00f3ria da URSS.<\/p>\n<p>Mas o ex-presidente russo n\u00e3o podia prever que hoje, sete anos ap\u00f3s falecer, Alexandr Yakovlev inspire um sentimento generalizado de desprezo aos intelectuais russos. Mesmo no Ocidente o seu livro\u00a0<em>Um S\u00e9culo de Viol\u00eancia na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica <\/em>n\u00e3o \u00e9 mais considerado um instrumento \u00fatil de combate ao comunismo.<\/p>\n<p>No esfor\u00e7o para apresentar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como um Inferno mais tenebroso do que o ideado por Dante, Yakovlev gera no leitor uma reac\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 visada.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 um grito de \u00f3dio. E o \u00f3dio n\u00e3o convence, desprestigia.<\/p>\n<p>O panorama de viol\u00eancia que esbo\u00e7a pretende ser baseado em documenta\u00e7\u00e3o oficial. Mas as fontes a que recorre ou carecem de credibilidade ou as cita\u00e7\u00f5es feitas s\u00e3o com frequ\u00eancia manipuladas ou truncadas.<\/p>\n<p>Historiadores, fil\u00f3sofos e soci\u00f3logos respeitados, russos e ocidentais, publicaram nas \u00faltimas d\u00e9cadas trabalhos s\u00e9rios que permitem j\u00e1 uma vis\u00e3o abrangente sobre as Revolu\u00e7\u00f5es Russas de Fevereiro e Outubro de 1917 e os acontecimentos que ficaram a assinalar as sete d\u00e9cadas de exist\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Pensadores como o h\u00fangaro Istvan Meszaros e o italiano Domenico Losurdo, de prestigio mundial, \u2013 apenas dois exemplos \u2013 iluminaram sem paix\u00e3o os erros e desvios do chamado &#8220;socialismo real&#8221;, e simultaneamente as transforma\u00e7\u00f5es revolucionarias ben\u00e9ficas que da vit\u00f3ria e desafio bolcheviques resultaram para a Humanidade. N\u00e3o escondem crimes que ficaram a assinalar esses anos de transi\u00e7\u00e3o do capitalismo rumo ao socialismo, mas coincidem na conclus\u00e3o de que a desagrega\u00e7\u00e3o da URSS foi uma trag\u00e9dia para a Humanidade que abriu portas \u00e0 barb\u00e1rie imperialista.<\/p>\n<p>Antag\u00f3nico \u00e9 o berreiro de Yakovlev. Que credibilidade pode merecer um intelectual para o qual a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi um golpe contra-revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na sua opini\u00e3o, democr\u00e1ticos e progressistas eram os governos do pr\u00edncipe Lvov e de Kerensky. Para ele a R\u00fassia imperial era uma monarquia constitucional (em fase de acelerado progresso) que se transformou em Fevereiro de 17 numa rep\u00fablica democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Poderia o leitor imaginar que o alvo principal deste livro \u00e9 Estaline. Mas fica transparente que esbo\u00e7ar de Lenine o retrato de um ser demon\u00edaco, brutal, inimigo da humanidade, \u00e9 o grande objectivo do autor.<\/p>\n<p>Para Yakovlev, &#8220;Vladimir Ilich Ulianov (Lenine) dirigente m\u00e1ximo do primeiro governo sovi\u00e9tico, ap\u00f3s a violenta tomada do poder em 1917&#8221; \u00e9 &#8220;o expoente do terror e da viol\u00eancia as massas, da ditadura do proletariado, da luta de classes e de outros conceitos desumanos&#8221;. Afirma que Lenine criou &#8220;campos de concentra\u00e7\u00e3o para crian\u00e7as&#8221;, \u00e9 respons\u00e1vel pela morte &#8220;de milh\u00f5es de cidad\u00e3os russos&#8221; e como tal &#8220;pass\u00edvel de condena\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma por crimes contra a humanidade&#8221;.<\/p>\n<p>Ao lado de Hitler, coloca Lenine e Estaline como &#8220;os piores criminosos do s\u00e9culo (\u2026) o s\u00e9culo de Ca\u00edm, o s\u00e9culo que viu a R\u00fassia arruinada e o seu modelo de desenvolvimento deitado por terra&#8221;. A &#8220;R\u00fassia \u2013 afirma \u2013 estava no bom caminho. O que aconteceu n\u00e3o foi que a R\u00fassia se atrasou, foi que os bolcheviques lhe partiram as pernas, lhe esvaziaram o c\u00e9rebro e o repuseram virado ao contr\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Lenine \u00e9 tamb\u00e9m acusado de estimular a tortura. &#8220;Era o pr\u00f3prio Inquisidor Mor \u2013 escreve Yakovlev \u2013 quem decidia quais as torturas a usar com que detidos, de modo a obter confiss\u00f5es de culpa e era ele pessoalmente que averiguava o bom cumprimento das suas ordens&#8221;.<\/p>\n<p>Este livro de pesadelo finda com 15 par\u00e1grafos em que o autor responsabiliza o bolchevismo por crimes monstruosos.<\/p>\n<p>N\u00e3o resisto a transcrever o primeiro: &#8220;O bolchevismo n\u00e3o pode escapar \u00e0 responsabilidade pela contra-revolu\u00e7\u00e3o, pelo violento golpe contra-revolucion\u00e1rio de 1917&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel que um livro t\u00e3o profundamente reaccion\u00e1rio tenha sido publicado, com um pref\u00e1cio altamente elogioso, por uma editora portuguesa tradicional.<\/p>\n<p>04\/Fevereiro\/2012<\/p>\n<p>(1) Alexandr Yakovlev, Um S\u00e9culo de Viol\u00eancia na R\u00fassia Sovi\u00e9tica, Editora Ulisseia, Junho\/2004.<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2367\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2367<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Miguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2373\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Ch","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2373\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}