{"id":23746,"date":"2019-08-08T06:06:12","date_gmt":"2019-08-08T09:06:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23746"},"modified":"2019-08-08T06:06:12","modified_gmt":"2019-08-08T09:06:12","slug":"a-revolucao-africana-e-a-luta-contra-o-racismo-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23746","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o Africana e a luta contra o racismo hoje"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Thomas-Sankara-Divulga%C3%A7%C3%A3o-1200x750.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->CARTA CAPITAL<\/p>\n<p>Historiador Jones Manoel fala sobre seu livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado, \u2018Revolu\u00e7\u00e3o Africana\u2019, e a luta antirracista revolucion\u00e1ria<br \/>\nO que tr\u00eas d\u00e9cadas de luta revolucion\u00e1ria na \u00c1frica t\u00eam a somar na luta contra o racismo no Brasil? Para responder a esta pergunta, o historiador e mestre em Servi\u00e7o Social pela Universidade Federal de Pernambuco, Jones Manoel, e o advogado Gabriel Landi Fazzio acabam de lan\u00e7ar a colet\u00e2nea Revolu\u00e7\u00e3o Africana \u2013 Uma antologia do pensamento marxista.<\/p>\n<p>O livro apresenta tradu\u00e7\u00f5es de artigos e discursos de te\u00f3ricos revolucion\u00e1rios radicais, como Frantz Fanon, Kwame Nkrumah, Am\u00edlcar Cabral, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Agostinho Neto, Thomas Sankara e Samir Amin. O livro \u00e9 o primeiro volume da cole\u00e7\u00e3o Quebrando as Correntes, que prev\u00ea 15 t\u00edtulos com tradu\u00e7\u00f5es do pensamento marxista da periferia geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os textos de Revolu\u00e7\u00e3o Africana abordam, principalmente, a rela\u00e7\u00e3o entre o racismo, o capitalismo e o colonialismo, e refor\u00e7am a necessidade da ado\u00e7\u00e3o de ideais antiliberais para combater as bases das opress\u00f5es contra a popula\u00e7\u00e3o negra. Em entrevista a CartaCapital, Jones Manoel fala sobre a reprodu\u00e7\u00e3o de ideais liberais dentro do movimento negro e a import\u00e2ncia da aproxima\u00e7\u00e3o dos militantes com as teorias revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>CartaCapital: Os autores selecionados passam por algum processo de apagamento hist\u00f3rico?<\/p>\n<p>Jones Manoel: O projeto Quebrando as Correntes \u00e9 uma proposta mais ampla de publica\u00e7\u00e3o editorial. Este livro, Revolu\u00e7\u00e3o Africana, \u00e9 apenas o primeiro. A ideia \u00e9 publicar, no mercado editorial brasileiro, uma s\u00e9rie de revolucion\u00e1rias e revolucion\u00e1rios que n\u00e3o t\u00eam tradu\u00e7\u00e3o no portugu\u00eas, que n\u00e3o circulam totalmente, ou circulam muito pouco no mercado editorial e no conjunto da milit\u00e2ncia e da luta pol\u00edtica brasileira. A partir dos anos 70, especialmente, come\u00e7ou a ser divulgada uma lenda de que a esquerda tradicional, leia-se, os socialistas, comunistas, anarquistas, nunca tratou da quest\u00e3o racial e da luta contra as opress\u00f5es de maneira geral. S\u00f3 a partir dos anos 70, especialmente dos anos 80, com o surgimento da chamada nova esquerda, as quest\u00f5es das opress\u00f5es passariam a ter mais aten\u00e7\u00e3o, a serem tratadas, teorizadas, articuladas no contexto pol\u00edtico. A gente defende que isso \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O movimento comunista, centrado na Internacional Comunista, criada ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, sempre deu import\u00e2ncia \u00e0 quest\u00e3o racial e colonial, e tem uma contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica gigantesca, que, nos \u00faltimos anos, sumiu da consci\u00eancia m\u00e9dia dos militantes. Ent\u00e3o, dos autores que a gente publicou no livro, o \u00fanico que \u00e9 mais conhecido \u00e9 o Frantz Fanon, um te\u00f3rico revolucion\u00e1rio que ficou conhecido como um dirigente te\u00f3rico da Revolu\u00e7\u00e3o Argelina, s\u00f3 que hoje \u00e9 muito lido como um pensador p\u00f3s-estruturalista, especialmente a partir de sua tese de doutorado, o livro Peles Negras, M\u00e1scaras Brancas. Mas a contribui\u00e7\u00e3o de Fanon no pensamento revolucion\u00e1rio da luta antirracista radical foi apagada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a gente percebeu que \u00e9 muito comum hoje, no movimento negro, se falar da ancestralidade africana, da import\u00e2ncia de voltar o pensamento, a epistemologia, para a \u00c1frica, s\u00f3 que a contribui\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes revolucion\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 tratada nem estudada para pensar o movimento negro radical revolucion\u00e1rio que combata o racismo, compreendendo que o racismo \u00e9 um fen\u00f4meno estrutural intrinsecamente ligado ao capitalismo. Como diria Malcolm X, n\u00e3o existe capitalismo sem racismo.<\/p>\n<p>CC: Como os te\u00f3ricos revolucion\u00e1rios africanos contribuem com a luta antirracista no Brasil atual?<\/p>\n<p>JM: Ent\u00e3o, Fanon, Amilcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel, Thomas Sankara, e tantos outros que est\u00e3o presentes no livro, trataram de v\u00e1rios problemas que a gente enfrenta. Hoje, no movimento negro, existe uma centralidade muito grande dos debates culturais e identit\u00e1rios. No sentido de que um conjunto gigantesco de organiza\u00e7\u00f5es da luta antirracista centra seus esfor\u00e7os na ideia de que o combate ao racismo se d\u00e1 combatendo a inferioriza\u00e7\u00e3o do negro e da sua cultura, inserindo o negro em espa\u00e7os estabelecidos, em comerciais de banco, pap\u00e9is em emissoras de TV, cargos eletivos. \u00c9 a ideia de que existe racismo porque a popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o est\u00e1 devidamente representada no \u00e2mbito da cultura das institui\u00e7\u00f5es postas.<\/p>\n<p>Esse debate de que, com a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os institucionais, o racismo seria combatido ou enfraquecido, j\u00e1 foi tratado pelos te\u00f3ricos revolucion\u00e1rios africanos. \u00c9 um debate que j\u00e1 foi travado nos anos 50, 60. Ent\u00e3o, o livro ajuda a pensar os limites do que eu chamo de \u201cantirracismo de mercado\u201d, que, ao nosso ver, n\u00e3o \u00e9 capaz, n\u00e3o tem a pot\u00eancia pol\u00edtica necess\u00e1ria para atingir o racismo em suas bases. Kwame Nkrumah, um revolucion\u00e1rio de Gana, l\u00edder da independ\u00eancia, no texto \u201cSocialismo Africano Revisitado\u201d, que tamb\u00e9m est\u00e1 na colet\u00e2nea, debate como se configura essa uni\u00e3o org\u00e2nica entre capitalismo e racismo, e como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel destruir o racismo sem transformar radicalmente as estruturas econ\u00f4micas, sociais, culturais, que s\u00e3o a base da sociedade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 um livro que diz muito da gente hoje, e ajuda muito a pensar a luta antirracista no Brasil. Al\u00e9m disso, contribui para resgatar uma tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, uma cultura revolucion\u00e1ria de luta contra opress\u00f5es. Sabemos que o combate ao racismo vai para muito al\u00e9m do que a tentativa de ocupar espa\u00e7os nas estruturas postas, ou ent\u00e3o de colocar negros em lugares de visibilidade da estrutura capitalista, tal como existe hoje.<\/p>\n<p>CC: Como voc\u00eas selecionaram os te\u00f3ricos e os textos que constam na colet\u00e2nea?<\/p>\n<p>JM: Existe uma quantidade gigantesca de revolucion\u00e1rios e revolucion\u00e1rias da \u00c1frica. A maioria dos l\u00edderes dos processos de liberta\u00e7\u00e3o nacional era composta por homens. O n\u00famero de mulheres nas lideran\u00e7as e na formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica era baixo, por causa da pr\u00f3pria estrutura patriarcal herdada do colonialismo e intensificada com algumas tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas da \u00c1frica. Qual foi o crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o que a gente fez? Como \u00e9 um empreendimento que tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o comercial, a gente pensou em alguns autores que t\u00eam algum n\u00edvel de circula\u00e7\u00e3o, que sejam um pouco conhecidos, porque isso \u00e9 importante para a divulga\u00e7\u00e3o do projeto. Mesmo Am\u00edlcar Cabral n\u00e3o sendo t\u00e3o lido hoje, n\u00e3o \u00e9 um autor desconhecido do movimento negro brasileiro. O mesmo a gente pode dizer de Agostinho Neto.<\/p>\n<p>A gente tamb\u00e9m selecionou escritos dos autores que versam sobre alguns temas centrais. Primeiro, a rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo, racismo e colonialismo, porque a gente quis destacar o car\u00e1ter estrutural do racismo. O racismo n\u00e3o \u00e9 apenas um fen\u00f4meno cultural, n\u00e3o \u00e9 um aspecto de heran\u00e7a da escravid\u00e3o que permaneceu. \u00c9 um fen\u00f4meno estruturante do modo de ser do capitalismo. Um segundo elemento \u00e9 que os textos tamb\u00e9m refletem sobre a pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria de supera\u00e7\u00e3o do racismo. Ent\u00e3o, por exemplo, nos artigos do Am\u00edlcar Cabral, ele reflete muito sobre organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, forma\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre partido e massas, como um partido vai se organizar para garantir a luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Nos artigos selecionados de Samora Machel, tamb\u00e9m tem essa dimens\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e da estrutura\u00e7\u00e3o do poder popular.<\/p>\n<p>Um terceiro elemento muito presente \u00e9 a ideia de que a luta contra o racismo n\u00e3o vai se dar apenas no \u00e2mbito de um suposto resgate das origens ancestrais. \u00c9 muito comum, hoje, no movimento negro, tratar como se a supera\u00e7\u00e3o do racismo fosse dada numa esp\u00e9cie de recupera\u00e7\u00e3o da ancestralidade africana. V\u00e1rios autores que a gente selecionou debatem essa ideia de resgate de uma \u00c1frica pr\u00e9-colonial, mostrando que isso n\u00e3o faz sentido, que a \u00c1frica pr\u00e9-colonial foi destru\u00edda. Evidentemente, existem algumas tradi\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, menos individualistas, que ainda sobrevivem e que ainda ser\u00e3o aproveitadas na constru\u00e7\u00e3o do socialismo na \u00c1frica. Mas a gente n\u00e3o pode partir para a idealiza\u00e7\u00e3o do passado, porque o passado foi superado.<\/p>\n<p>E um \u00faltimo elemento foi a reflex\u00e3o desses l\u00edderes sobre a import\u00e2ncia da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher no combate ao colonialismo e ao racismo, numa constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Ent\u00e3o, Thomas Sankara e Samora Machel, em especial, destacam muito a import\u00e2ncia da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher e levam a s\u00e9rio uma m\u00e1xima de L\u00eanin, que dizia que o grau de maturidade do socialismo \u00e9 expresso pelo quanto a mulher \u00e9 livre.<\/p>\n<p>CC: Voc\u00ea acredita que o movimento negro est\u00e1 numa rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com ideais liberais?<\/p>\n<p>JM: Veja, eu considero que, hoje, os setores hegem\u00f4nicos do movimento negro s\u00e3o liberais. Ent\u00e3o, existe um liberalismo muito forte no movimento negro, at\u00e9 porque existe um discurso mundial, a partir de diversas ONGs e funda\u00e7\u00f5es, como a Funda\u00e7\u00e3o Ford e Rockefeller, para difundir uma concep\u00e7\u00e3o liberal da quest\u00e3o racial. De tal sorte que, hoje, o movimento negro, em seus setores hegem\u00f4nicos, n\u00e3o que exista somente esta concep\u00e7\u00e3o, ele compreende a luta antirracista como uma luta pela ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os institucionais das estruturas que est\u00e3o postas, e como um combate cultural, est\u00e9tico e identit\u00e1rio, procurando valorizar o negro como uma pessoa bonita, que tem cultura, que deve ocupar os espa\u00e7os de visibilidade da grande m\u00eddia e por a\u00ed vai. A gente compreende que essa forma de tentar combater o racismo nunca vai conseguir super\u00e1-lo. Inclusive, j\u00e1 temos experi\u00eancias disso nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Depois do movimento por direitos civis, houve uma s\u00e9rie de pol\u00edticas de igualdade racial muito semelhante \u00e0s que foram aplicadas no Brasil, nos \u00faltimos anos, como pol\u00edtica de cotas, que n\u00e3o combateram o racismo. Foram importantes para criar um setor negro na classe m\u00e9dia, para fortalecer um setor negro da burguesia, mas enquanto enfrentamento dos fundamentos do racismo, foram totalmente ineficientes.<\/p>\n<p>Outro exemplo pode ser dado pela \u00c1frica do Sul, onde, ao fim do apartheid, o governo Nelson Mandela assumiu um programa econ\u00f4mico neoliberal e estabeleceu pol\u00edticas de igualdade racial muito t\u00edmidas em que a situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra de maneira geral, do ponto de vista socioecon\u00f4mico, n\u00e3o foi transformada. A gente compreende que o racismo n\u00e3o \u00e9 uma heran\u00e7a da escravid\u00e3o, que permanece. Ele \u00e9 um elemento estruturante das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas do Brasil, e est\u00e1 totalmente entrela\u00e7ado com as formas de produzir e distribuir a riqueza e com o processo de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E que a quest\u00e3o racial s\u00f3 pode ser enfrentada por uma perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>CC: E no Brasil?<\/p>\n<p>JM: Os governos do PT promoveram pol\u00edticas importantes de igualdade racial. Concomitante a isso, o n\u00famero de negros encarcerados e assassinados pelo Estado cresceu durante o per\u00edodo petista. Assim como a situa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a configura\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial da divis\u00e3o social de trabalho n\u00e3o foi alterada. Ent\u00e3o, as pol\u00edticas p\u00fablicas de igualdade racial durante os governos petistas foram importantes. Eu sou o primeiro da minha fam\u00edlia a entrar na universidade, fiz gradua\u00e7\u00e3o, mestrado, minha m\u00e3e \u00e9 empregada dom\u00e9stica e s\u00f3 tem at\u00e9 a quarta s\u00e9rie. Houve import\u00e2ncia a n\u00edvel de mobilidade social e uma democratiza\u00e7\u00e3o muito t\u00edmida de alguns direitos sociais, como a educa\u00e7\u00e3o superior, mas n\u00e3o alterou em nada a configura\u00e7\u00e3o de classe e racial no Brasil. A popula\u00e7\u00e3o negra continua sendo superexplorada, submetida \u00e0 intensa viol\u00eancia estatal, hiperencarcerada.<\/p>\n<p>Quando os governos petistas foram derrubados no golpe jur\u00eddico-parlamentar de 2016, e ascendeu ao poder essa direita bolsonarista, as pautas de igualdade racial simplesmente perderam qualquer tipo de for\u00e7a porque n\u00e3o estavam enraizadas numa concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria para al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o dentro do Estado. Ent\u00e3o, quando o Estado fechou o espa\u00e7o para as pol\u00edticas de igualdade racial, elas simplesmente sa\u00edram de cena, deixaram de ter import\u00e2ncia na arena p\u00fablica. A experi\u00eancia no Brasil, nos Estados Unidos e na \u00c1frica do Sul deixam muito claro que esse antirracismo de mercado, de que \u00e9 poss\u00edvel superar o racismo dentro do capitalismo, a partir de pol\u00edticas p\u00fablicas e ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os institucionais tais como est\u00e3o postos, n\u00e3o \u00e9 capaz de dar resposta \u00e0s quest\u00f5es urgentes da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 a mais afetada pela contrarreforma da Previd\u00eancia, pela contrarreforma trabalhista aprovada no governo [de Michel] Temer, pelo congelamento por 20 anos dos investimentos p\u00fablicos em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a v\u00edtima priorit\u00e1ria da intensifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de repress\u00e3o e de exterm\u00ednio do Estado. A gente est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, onde somos cada vez mais explorados, encarcerados e assassinados, e ocupar espa\u00e7os em emissoras e comerciais de TV e revistas n\u00e3o vai dar resposta a nada disso. Precisamos de uma concep\u00e7\u00e3o radical, que v\u00e1 at\u00e9 a raiz dos problemas, que coloque em quest\u00e3o o racismo como a estrutura de legitima\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo, da explora\u00e7\u00e3o e do exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o negra. Devemos entender os limites da democracia liberal representativa e como ela n\u00e3o consegue dar solu\u00e7\u00e3o aos problemas estruturais e hist\u00f3ricos do povo negro trabalhador.<\/p>\n<p>CC: A luta antirracista no Brasil est\u00e1 afastada do marxismo? \u00c9 a partir desta concep\u00e7\u00e3o que o livro tenta aproximar o movimento negro da teoria de Marx?<\/p>\n<p>JM: Acho que existe um desconhecimento dos setores hegem\u00f4nicos do movimento negro sobre a contribui\u00e7\u00e3o marxista na luta antirracista. Como eu disse, desde os anos 70 \u00e9 divulgado, com muita for\u00e7a, que a chamada esquerda tradicional, como os comunistas, nunca deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 luta contra opress\u00f5es. De tal sorte que hoje \u00e9 poss\u00edvel um militante do movimento negro admirar Angela Davis, uma militante hist\u00f3rica da luta antirracista nos Estados Unidos e no mundo, e n\u00e3o saber que Angela Davis \u00e9 marxista, \u00e9 socialista. Assim como \u00e9 poss\u00edvel um militante admirar o partido dos Panteras Negras, usar roupas, ter p\u00f4steres em casa, e n\u00e3o saber que era uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria marxista-leninista.<\/p>\n<p>Existe um processo de desconhecimento muito grande da contribui\u00e7\u00e3o dos pensadores, dos movimentos e dos partidos da luta antirracista. Muitas pessoas que leem Frantz Fanon n\u00e3o sabem que ele era marxista. H\u00e1 um processo de apagamento dessa rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica entre marxismo e a luta antirracista. A fun\u00e7\u00e3o do Revolu\u00e7\u00e3o Africana \u00e9 oferecer para o militante do movimento antirracista um material hist\u00f3rico que mostre que existe uma tradi\u00e7\u00e3o de luta antirracista revolucion\u00e1ria de inspira\u00e7\u00e3o marxista, que a gente precisa conhecer, at\u00e9 para julgar suas qualidades, defici\u00eancias, seus limites, o que hoje \u00e9 aproveit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando a gente apaga a hist\u00f3ria dos revolucion\u00e1rios marxistas, isso serve para legitimar uma concep\u00e7\u00e3o liberal da luta antirracista. Resgatar essa mem\u00f3ria \u00e9 um instrumento para difundir a concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dessa luta. \u00c9 fundamental oferecer isso para os militantes do movimento negro para que eles n\u00e3o se afastem ou n\u00e3o neguem o marxismo por puro desconhecimento da contribui\u00e7\u00e3o desse pensamento.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"ACsBgmqUWL\"><p><a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/a-populacao-negra-e-a-mais-afetada-pela-contrarreforma-da-previdencia\/\">&#8220;A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 a mais afetada pela contrarreforma da Previd\u00eancia&#8221;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#8220;&#8220;A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 a mais afetada pela contrarreforma da Previd\u00eancia&#8221;&#8221; &#8212; CartaCapital\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/a-populacao-negra-e-a-mais-afetada-pela-contrarreforma-da-previdencia\/embed\/#?secret=ACsBgmqUWL\" data-secret=\"ACsBgmqUWL\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Revolucion\u00e1rio marxista de Burkina Faso, Thomas Sankara est\u00e1 entre os te\u00f3ricos do livro &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Africana&#8221;. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23746\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[177],"tags":[224],"class_list":["post-23746","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6b0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23746"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23746\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}