{"id":23748,"date":"2019-08-08T06:13:38","date_gmt":"2019-08-08T09:13:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23748"},"modified":"2019-08-17T04:25:10","modified_gmt":"2019-08-17T07:25:10","slug":"e-urgente-politizar-a-luta-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23748","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 urgente politizar a luta comum!&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/8BN_NMMlNo79CYnsfXavQ5cyVTh9kjjRVp4Sav7y536_sazW8pf6ZDigv2oAylRsLXU9aFf7iLU67aidvwF0mL8j7IGl7UcBfeObTtAf8DWg9_2X-p9D-wlLjYpOgkJLQNIJURt9LNylLDm9yOmmoyrcrl0y6iXpX_8qkg2SyjN-9lgx6UJXE5YDEPAmSmogTdYy3xJfCPUDcaa5XV-rEghcanjTAqhrtIFbtelUc6hzCrKBEn-X4FaOeR9_gfxqY44yRxkD8FrjMofST1ThG_d0RBXXqNy7yZc32_WPOuNjwgs4ORTWifb5Lct5pzaJ7thNggW5XRuu3DGETkBI6QR2fmpHsAcsZcOLS2Q-MjGL9i3wM9OF7Mhr_9x1Wqzpe-IP3DoHcfrTx_FUom5WXFQv2DzvQrxsJ4dlHeSdelUrbCOL6QFqTIBKls9vENAtL5_SwZgEr8ue2MRJB2y-i3qYKrFkdTB79-aRbYwEeHBhLUybOHPqP5zsYUTSEBqRX4iyT-xdOSHD_S3sAkxZbO31PpmHRVBCnvoJcMbT8E0QgmKCKDaOGXCMQmLC87RljWOvgc1ueXduVuPs3CxbNcCxU_nNvyud8oHA_WnLRE3S3-wZg27njfksc9z-ylU9TrPVEVT3BzSNJ9IMNZ14YQ8uiJmOVQPe=w615-h346-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Entrevista concedida por Ivan Pinheiro (membro do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro \u2013 PCB ) ao Portal PCB\/SC<\/p>\n<p>Ivan analisa o cen\u00e1rio pol\u00edtico internacional, o governo Bolsonaro e aponta os desafios colocados para a classe trabalhadora na constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Segundo Ivan: \u201cPara reverter essa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel e avan\u00e7ar na luta \u00e9 necess\u00e1rio combater as ilus\u00f5es em solu\u00e7\u00f5es institucionais, jogar toda a energia militante na conscientiza\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e das camadas populares e promover, no campo da esquerda socialista, um urgente debate com o objetivo de unificar e politizar a luta comum&#8221;.<\/p>\n<p>PCB\/SC: Vamos come\u00e7ar falando sobre a conjuntura mundial. Como voc\u00ea tem observado o conflito entre os Estados Unidos e a China? H\u00e1 uma nova configura\u00e7\u00e3o do imperialismo no atual momento hist\u00f3rico?<\/p>\n<p>Ivan: O conflito entre os Estados Unidos e a China, na atualidade em forma de acirradas disputas geopol\u00edticas e econ\u00f4micas, \u00e9 a express\u00e3o maior do agravamento das contradi\u00e7\u00f5es interimperialistas com o fim do mundo unipolar que, a partir da contrarrevolu\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (1991), garantira aos Estados Unidos uma hegemonia absoluta em todos os aspectos, por cerca de duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O fator mais perigoso desta acirrada disputa multipolar, em que, a grosso modo, polarizam Estados Unidos\/Uni\u00e3o Europeia e China\/R\u00fassia, \u00e9 a volta da corrida armamentista, que pode levar a conflitos militares de enormes propor\u00e7\u00f5es. Grandes guerras sempre foram inevit\u00e1veis em todos os momentos da hist\u00f3ria marcados por mudan\u00e7as na hegemonia mundial, como este em que vivemos na atualidade, ainda mais dramatizado pela crise sist\u00eamica do capitalismo.<\/p>\n<p>Esse quadro nos coloca novamente diante da quest\u00e3o da paz e da guerra. Para os revolucion\u00e1rios, volta \u00e0 ordem do dia a luta contra as guerras imperialistas, pela paz entre os povos, n\u00e3o entre as classes. A crise mundial do capitalismo acirra as disputas entre os grandes monop\u00f3lios por mat\u00e9rias primas, tecnologia, mercados, rotas e territ\u00f3rios e, entre os principais pa\u00edses e blocos imperialistas, por hegemonia nos campos econ\u00f4mico, pol\u00edtico, cultural e militar.<\/p>\n<p>Sem pretender aqui alimentar qualquer ilus\u00e3o de que essa multipolaridade torne a ONU \u201cdemocr\u00e1tica\u201d e \u201cprogressista\u201d e muito menos que favore\u00e7a as revolu\u00e7\u00f5es socialistas, considero que seu aspecto positivo \u00e9 que o imperialismo estadunidense j\u00e1 n\u00e3o pode mais tomar atitudes unilaterais, como ocorreu em suas covardes agress\u00f5es ao Afeganist\u00e3o, ao Iraque, \u00e0 L\u00edbia, em alian\u00e7a com pot\u00eancias europeias (OTAN), sempre precedidas de mentiras e manipula\u00e7\u00f5es para satanizar os governos locais e tendo como objetivos a venda de mais armas, a ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios estrat\u00e9gicos, o saque das riquezas naturais dos povos.<\/p>\n<p>Na sua \u00faltima aventura militar, os EUA j\u00e1 n\u00e3o puderam mais se valer do at\u00e9 ent\u00e3o sil\u00eancio c\u00famplice e conciliador da R\u00fassia e da China, no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. A S\u00edria deve sua sobreviv\u00eancia como pa\u00eds \u00e0 mudan\u00e7a de atitude dessas duas pot\u00eancias, cujos interesses geopol\u00edticos estavam sendo amea\u00e7ados, sobretudo no Oriente M\u00e9dio. Tendo sofrido na S\u00edria uma grande derrota pol\u00edtica e militar, o imperialismo estadunidense volta agora as armas de suas guerras h\u00edbridas contra pa\u00edses que n\u00e3o abrem m\u00e3o de sua soberania e disp\u00f5em de imensas reservas de petr\u00f3leo, como o Ir\u00e3 e a Venezuela.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que a a\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e da China, cada qual \u00e0 sua maneira, tem sido fundamental para confrontar e, em alguns casos, conter o \u00edmpeto do imperialismo estadunidense, como foi o caso de sua postura de recuo frente \u00e0 Coreia do Norte. Devemos saudar este fato, mas sem ilus\u00f5es, pois o motor desta a\u00e7\u00e3o s\u00e3o os interesses econ\u00f4micos e geopol\u00edticos destas duas grandes pot\u00eancias, tamb\u00e9m imperialistas, e n\u00e3o o exerc\u00edcio do internacionalismo prolet\u00e1rio! Nesse contexto, cabe aos comunistas saber aproveitar as contradi\u00e7\u00f5es interimperialistas para avan\u00e7ar o processo revolucion\u00e1rio em cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>PCB\/SC: Um dos fen\u00f4menos que observamos como consequ\u00eancia da crise capitalista originada em 2007\/08 \u00e9 que a burguesia passou a apostar em alternativas capitaneadas pela extrema-direita como sa\u00edda para os seus problemas. Como voc\u00ea observa esse processo no contexto internacional?<\/p>\n<p>Ivan: Para enfrentar os efeitos da crise, que impactam negativamente a taxa de lucro e a reprodu\u00e7\u00e3o do capital, as burguesias v\u00eam adotando medidas que afetam de forma dram\u00e1tica os interesses dos trabalhadores e das camadas populares, como o arrocho salarial, a destrui\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas, previdenci\u00e1rios e sociais, o saque ao or\u00e7amento e ao patrim\u00f4nio p\u00fablico, uma pauta que acirra as contradi\u00e7\u00f5es entre o capital e o trabalho e, por conseguinte, a luta de classes.<\/p>\n<p>\u00c9 duro termos de reconhecer que, em \u00e2mbito mundial, essa ofensiva se d\u00e1 num momento em que o reformismo predomina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as revolucion\u00e1rias e que a hegemonia do capital \u00e9 de tal ordem que sua m\u00e1quina de propaganda chega a convencer parcelas da classe trabalhadora a aceitar o discurso da \u201cresponsabilidade fiscal\u201d como forma de garantir seus empregos, atuais ou futuros, ainda que com menos direitos.<\/p>\n<p>Para tentar levar a efeito essas medidas, o estado burgu\u00eas precisa restringir as liberdades democr\u00e1ticas conquistadas e fortalecer seu aparato de repress\u00e3o, a fim de intimidar e conter as lutas em defesa dos direitos amea\u00e7ados. Medidas e leis repressivas v\u00eam sendo adotadas na maioria dos pa\u00edses, em graus diferenciados, a depender das necessidades e possibilidades das suas classes dominantes, da cultura pol\u00edtica do pa\u00eds e da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n<p>Entretanto, nem sempre a burguesia precisa se valer de alternativas de extrema-direita, simplesmente porque j\u00e1 exerce uma confort\u00e1vel hegemonia pol\u00edtica e cultural em todos os principais poderes e institui\u00e7\u00f5es, estatais ou sociais, de fato e de direito. Na grande maioria de pa\u00edses, a melhor forma de domina\u00e7\u00e3o continua sendo a velha e ilus\u00f3ria democracia burguesa, um instrumento flex\u00edvel para administrar a vig\u00eancia e o grau das chamadas liberdades democr\u00e1ticas e cuja principal arma s\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas, que lhe conferem legitimidade e legalidade.<\/p>\n<p>Arrisco dizer que os atuais governos mais not\u00f3rios de extrema direita n\u00e3o eram as op\u00e7\u00f5es priorit\u00e1rias dos setores hegem\u00f4nicos das respectivas classes dominantes. Venceram na margem de erro de cada elei\u00e7\u00e3o. Na It\u00e1lia, Pol\u00f4nia e Hungria, exemplos mais vis\u00edveis, o que pesou mais na elei\u00e7\u00e3o de candidatos de extrema-direita foi o discurso contra os imigrantes, alimentado por um nacionalismo xen\u00f3fobo. O mesmo fator resultou num crescimento da ultradireita nas recentes elei\u00e7\u00f5es do Parlamento Europeu. No Brasil, Bolsonaro s\u00f3 passou a ser apoiado pelo capital depois que ficou claro que nenhum dos seus candidatos mais confi\u00e1veis (Alckmin, Meirelles, Amoedo) iria para o segundo turno, pois o objetivo, em raz\u00e3o da crise, era descartar a concilia\u00e7\u00e3o de classe petista.<\/p>\n<p>PCB\/SC: Na Am\u00e9rica Latina, governos de direita e extrema-direita ganharam for\u00e7a nos \u00faltimos anos. No entanto, a Venezuela tem conseguido manter a denominada Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana resistindo \u00e0 ofensiva de um forte ataque externo, capitaneado pelos EUA. Como voc\u00ea analisa esse cen\u00e1rio?<\/p>\n<p>Ivan: A Am\u00e9rica Latina, considerada o quintal dos fundos do imperialismo estadunidense, em que \u2013 com a gloriosa exce\u00e7\u00e3o de Cuba Socialista \u2013 todas as aspira\u00e7\u00f5es e possibilidades de soberania e progresso social foram sufocadas pelos Estados Unidos, torna-se hoje um fator importante na cena mundial e um dos palcos das disputas interimperialistas. O resultado da ofensiva que os Estados Unidos movem contra a Venezuela ter\u00e1 importante impacto na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mundial e sobretudo na Am\u00e9rica Latina. Por isso, independentemente de qualquer restri\u00e7\u00e3o que possamos fazer aos rumos atuais do processo bolivariano, nossa solidariedade n\u00e3o pode faltar ao povo venezuelano, em especial \u00e0s suas organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Muitos motivos levam os EUA a n\u00e3o desistir da tentativa de derrubar o governo do PSUV, hoje encabe\u00e7ado por Maduro, e entreg\u00e1-lo aos setores da oligarquia venezuelana que lhes s\u00e3o servis. Tentam isso desde 2002, quando sequestraram Hugo Ch\u00e1vez e o levaram para uma base militar e as massas ganharam as ruas exigindo sua liberta\u00e7\u00e3o e sua volta ao governo. Nunca deixaram de conspirar, provocar a\u00e7\u00f5es violentas, satanizar o processo e suas lideran\u00e7as e, principalmente, boicotar a economia venezuelana, de todas as formas poss\u00edveis, para jogar o povo e a opini\u00e3o p\u00fablica mundial contra o governo. Mas agora a instabilidade se agravou e estamos \u00e0s v\u00e9speras de um desfecho. Nesse sentido, devemos denunciar as tentativas de golpe de Estado do imperialismo estadunidense e das classes dominantes venezuelanas para derrubar o Governo Maduro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser palco do processo de mudan\u00e7as que mais avan\u00e7ou em termos sociais e pol\u00edticos na regi\u00e3o, o pa\u00eds disp\u00f5e de uma das maiores reservas de petr\u00f3leo (pr\u00f3ximas ao territ\u00f3rio norte-americano), \u00e9 uma refer\u00eancia para os povos latino-americanos, desenvolve intensas rela\u00e7\u00f5es bilaterais de colabora\u00e7\u00e3o com Cuba e, al\u00e9m do mais, \u00e9 a principal porta de entrada de capitais russos e chineses na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Como dissemos anteriormente, n\u00e3o podemos subestimar o respaldo que a Venezuela bolivariana vem recebendo da R\u00fassia e da China, sem o qual o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU j\u00e1 poderia ter autorizado uma interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos, com o respaldo de pa\u00edses sul-americanos governados pela direita, que comp\u00f5em o chamado Grupo de Lima. Mas n\u00e3o se pode confiar cegamente em pot\u00eancias estrangeiras, cujos interesses estrat\u00e9gicos podem lev\u00e1-las a mover suas pe\u00e7as no tabuleiro global.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos subestimar tamb\u00e9m o apoio, at\u00e9 aqui determinante, das For\u00e7as Armadas venezuelanas, mas sem deixar de levar em conta a possibilidade de um eventual agravamento da crise econ\u00f4mica e social, que torne o pa\u00eds ingovern\u00e1vel, lev\u00e1-las a outros caminhos, inclusive pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>As for\u00e7as revolucion\u00e1rias venezuelanas exigem corretamente que o socialismo deixe de ser apenas fonte de discursos e promessas e comece a ser constru\u00eddo de fato, com a forma\u00e7\u00e3o de uma frente revolucion\u00e1ria e a ado\u00e7\u00e3o de medidas como a urgente estatiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro e dos monop\u00f3lios privados e a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, sob controle dos trabalhadores, para garantir a substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es e p\u00f4r fim \u00e0 depend\u00eancia exclusiva do petr\u00f3leo, geradora do rentismo parasit\u00e1rio da burguesia, incluindo sua parcela incrustada no governo, principal fator de conten\u00e7\u00e3o de novos avan\u00e7os e de pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o, inerente ao sistema capitalista, ainda vigente no pa\u00eds. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel enfrentar a grave crise (agravada pelo imperialismo e as oligarquias locais), com medidas socializantes e n\u00e3o com paternalismo e as pol\u00edticas compensat\u00f3rias que t\u00eam prevalecido.<\/p>\n<p>Definitivamente, o fator decisivo ser\u00e1 a capacidade do processo de mudan\u00e7as radicalizar, no sentido da revolu\u00e7\u00e3o socialista e da tomada do poder do estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>V\u00edtima de guerra econ\u00f4mica que provoca desabastecimento, queda na qualidade nos servi\u00e7os p\u00fablicos e infla\u00e7\u00e3o galopante e tendo sofrido neste ano apag\u00f5es el\u00e9tricos e tentativas de golpe \u2013 a \u201cajuda humanit\u00e1ria\u201d nas fronteiras com Brasil e Col\u00f4mbia e a \u201csubleva\u00e7\u00e3o militar\u201d em Altamira \u2013 e em meio a uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na Am\u00e9rica Latina altamente desfavor\u00e1vel, o bolivarianismo ainda sobrevive porque os trabalhadores e as camadas populares valorizam as conquistas reais que tiveram, sobretudo nas \u00e1reas da sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o. Mas, neste momento complexo e decisivo, o apoio popular s\u00f3 ser\u00e1 garantido com a radicaliza\u00e7\u00e3o do processo.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o for superada a crise pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica, n\u00e3o podemos subestimar a possibilidade de um retrocesso pol\u00edtico na Venezuela, seja atrav\u00e9s de algum novo golpe de direita mais forte ou da concilia\u00e7\u00e3o em torno de um pacto de \u201cuni\u00e3o nacional\u201d com a oposi\u00e7\u00e3o, como sugerem os di\u00e1logos mediados pela Noruega, mas que podem tamb\u00e9m ser rompidos em raz\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o que v\u00eam gerando nos setores mais radicalizados dos dois lados, ou seja, \u00e0 esquerda de Maduro e \u00e0 direita do fantoche ianque Guaid\u00f3, o que poria fim \u00e0 tr\u00e9gua t\u00e1cita e inst\u00e1vel que assistimos hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode descartar tamb\u00e9m a possibilidade de uma insurrei\u00e7\u00e3o ou mesmo guerra civil, levando-se em conta que h\u00e1 setores organizados e armados tanto nas classes dominadas como nas dominantes. Sejam quais forem os desdobramentos da crise venezuelana, jogar\u00e1 um papel significativo o principal legado do chavismo: a conscientiza\u00e7\u00e3o do proletariado e a grande rede de organiza\u00e7\u00f5es de massa, os coletivos, brigadas e comunas, uns criados de cima para baixo e outros de forma independente, a partir das bases.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, a heroica sobreviv\u00eancia do processo de mudan\u00e7as na Venezuela bolivariana \u2013 a despeito de seus limites \u2013 \u00e9 uma refer\u00eancia importante para refletirmos sobre as raz\u00f5es das recentes derrotas de governos classificados como progressistas em nosso continente, alguns em processos eleitorais e outros por variadas formas de golpes, todos exatamente por n\u00e3o terem promovido as mudan\u00e7as que haviam prometido.<\/p>\n<p>Na Venezuela bolivariana n\u00e3o se trata apenas de governos \u201cprogressistas\u201d, como os que administram o capitalismo prometendo humaniz\u00e1-lo e que caem porque essa \u00e9 uma tarefa imposs\u00edvel. Trata-se de um processo de mudan\u00e7as radicalizado, com acentuado vi\u00e9s anti-imperialista, e que resultou em conquistas reais a favor das camadas populares, no fim do monop\u00f3lio da m\u00eddia burguesa, no avan\u00e7o da conscientiza\u00e7\u00e3o e da organiza\u00e7\u00e3o das massas.<\/p>\n<p>PCB\/SC: Fale ent\u00e3o um pouco mais sobre o aparente esgotamento do ciclo dos chamados governos \u201cprogressistas\u201d na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Ivan: Al\u00e9m do Brasil, que merece uma reflex\u00e3o espec\u00edfica, em dois outros pa\u00edses do nosso continente governos progressistas foram derrubados por golpes de estado: Honduras (2009) e Paraguai (2012). Nas duas ocasi\u00f5es, estive pessoalmente em miss\u00e3o de solidariedade, em nome do PCB.<\/p>\n<p>Como em todos os golpes de estado na Am\u00e9rica Latina, o imperialismo norte-americano teve papel determinante nestes epis\u00f3dios, em alian\u00e7a com as oligarquias locais. Em Honduras, essa presen\u00e7a foi \u00e0s claras. Manuel Zelaya, um burgu\u00eas progressista e nacionalista que havia se aproximado de Hugo Ch\u00e1vez e da ALBA, foi retirado \u00e0 for\u00e7a da sede do governo por militares e levado preso a uma base dos EUA no pr\u00f3prio territ\u00f3rio hondurenho. A resist\u00eancia popular foi massiva e aguerrida, mas acabou derrotada por violenta repress\u00e3o e, n\u00e3o podemos deixar de registrar, pela falta de uma vanguarda revolucion\u00e1ria que conduzisse a luta para al\u00e9m do espontane\u00edsmo. Pelas mesmas raz\u00f5es, uma poss\u00edvel insurrei\u00e7\u00e3o popular foi derrotada em Honduras recentemente.<\/p>\n<p>No Paraguai, o golpe parlamentar que derrubou Fernando Lugo foi r\u00e1pido e sem muita resist\u00eancia. Apesar de seu governo ter gerado grandes mobiliza\u00e7\u00f5es populares e uma in\u00e9dita frente pol\u00edtica e social de esquerda, o pr\u00f3prio Presidente, humanista e pacifista, que fora Bispo da Igreja Cat\u00f3lica, acatou publicamente a decis\u00e3o do Senado pelo seu impedimento, em um processo forjado que tramitou a toque de caixa, em menos de uma semana.<\/p>\n<p>Em outros pa\u00edses, governos tidos como progressistas assumiram e ca\u00edram atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es e \u2013 ouso aqui levantar uma hip\u00f3tese \u2013 muitos deles poder\u00e3o voltar ao governo pela mesma via, provavelmente menos progressistas, pagando pre\u00e7os mais altos em termos de alian\u00e7as com setores da burguesia para tentar garantir a governabilidade institucional, inclusive podendo aplicar certas pol\u00edticas de \u201causteridade fiscal\u201d, de forma menos r\u00e1pida e profunda, em compara\u00e7\u00e3o a governos de direita.<\/p>\n<p>Ocorre que, no quadro da crise sist\u00eamica do capitalismo, vem se consolidando em muitos pa\u00edses uma bipolaridade pol\u00edtica entre for\u00e7as que administram o capital. Numa \u00e9poca em que caracteriza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas precisam ser relativizadas, podemos usar um vasto card\u00e1pio para classificar essa bipolaridade em cada pa\u00eds, tais como centro-esquerda, socialdemocratas, reformistas ou progressistas X direita, centro-direita, neoliberais ou conservadores. O certo \u00e9 que as diferen\u00e7as entre estes polos v\u00eam diminuindo. Por vezes, mudam os nomes de candidatos e mesmo os de partidos ou frentes. Mas n\u00e3o mudam o fato de que s\u00e3o duas alternativas que cabem perfeitamente nos limites da democracia burguesa e do capitalismo e que tendem a se revezar, na chamada \u201caltern\u00e2ncia do poder\u201d, que prefiro chamar de altern\u00e2ncia de governo, j\u00e1 que, atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es, nunca est\u00e1 em jogo o poder do estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Essa altern\u00e2ncia se d\u00e1 porque, em geral, o governo de turno \u00e9 derrotado em elei\u00e7\u00e3o seguinte, por n\u00e3o ter podido cumprir as promessas que fez em campanha para superar o desemprego, a pobreza, a inseguran\u00e7a, os p\u00e9ssimos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>No Chile, a altern\u00e2ncia tem se dado de forma mon\u00f3tona, com os mesmos personagens e partidos, a quatro elei\u00e7\u00f5es seguidas: Bachelet (2006), Pi\u00f1era (2010), Bachelet (2014) e Pi\u00f1era (2018). Michelle Bachelet \u00e9 um bom exemplo de outro fen\u00f4meno: a degenera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e a coopta\u00e7\u00e3o ao sistema que gera o exerc\u00edcio da administra\u00e7\u00e3o do capitalismo. Depois de dois mandatos como Presidente, o segundo menos progressista que o primeiro, tornou-se Alta Comiss\u00e1ria da ONU para Direitos Humanos e acaba de divulgar um relat\u00f3rio parcial e mentiroso sobre a situa\u00e7\u00e3o na Venezuela, prestando um relevante servi\u00e7o ao imperialismo norte-americano.<\/p>\n<p>Na Argentina, o revezamento deve se dar nas elei\u00e7\u00f5es agora em outubro. Cristina Kirchner despontava como favorita em todas as pesquisas. No entanto, satanizada como progressista radical, decidiu formar uma chapa que sugere modera\u00e7\u00e3o, em que ela vem como vice de Alberto Fern\u00e1ndez (bem aceito pelo \u201cmercado\u201d), na denominada Frente de Todos. Ao que tudo indica, o ultraliberal Macri poder\u00e1 ser derrotado, porque n\u00e3o aconteceu o \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d que havia prometido. Nesse caso, o pr\u00f3ximo governo argentino tende a ser mais pragm\u00e1tico e menos progressista que os dos Kirchners (N\u00e9stor e Cristina).<\/p>\n<p>No Equador, a altern\u00e2ncia se deu de maneira surpreendente. Rafael Correa, em seu primeiro mandato como Presidente (2007\/2012), convocou uma Constituinte soberana, promoveu algumas mudan\u00e7as e desafiou o imperialismo norte-americano, despejando-o da base militar de Manta, a maior da Am\u00e9rica Latina. Ap\u00f3s um segundo mandato (2012\/2017) em que n\u00e3o deu continuidade \u00e0s mudan\u00e7as nem preparou um sucessor progressista \u2013 e sem poder legalmente candidatar-se a uma segunda reelei\u00e7\u00e3o \u2013 Correa se viu obrigado a apoiar a candidatura de Lenin Moreno, que havia sido seu Vice-Presidente, numa alian\u00e7a com setores burgueses. Depois de eleito e empossado, em 2018, Lenin (que ironia!) devolveu a base de Manta aos EUA, juntou-se aos governos de direita da regi\u00e3o contra a Venezuela bolivariana e atualmente se soma a uma campanha de criminaliza\u00e7\u00e3o de Rafael Correa, para que este, como Lula, n\u00e3o possa ser candidato \u00e0s pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Qualquer semelhan\u00e7a com Michel Temer, que era o vice de Dilma Rousseff, n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia!<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o do desgaste e da acomoda\u00e7\u00e3o pol\u00edtica causados pelos limites da administra\u00e7\u00e3o do capitalismo, at\u00e9 mesmo dois governos progressistas longevos \u2013 Uruguai (desde 2005) e Bol\u00edvia (desde 2006) \u2013 est\u00e3o \u00e0s voltas com as mais dif\u00edceis elei\u00e7\u00f5es que disputaram e que ocorrer\u00e3o este ano. Ambos j\u00e1 procuram parecer mais moderados. No caso do Uruguai, o ex-Presidente Pepe Mujica e o novo candidato da progressista Frente Ampla (Daniel Mart\u00ednez) v\u00eam declarando publicamente que o governo Maduro \u00e9 uma ditadura! No caso da Bol\u00edvia, que avan\u00e7ou positivamente em muitas mudan\u00e7as pol\u00edticas e sociais e resistiu com o povo nas ruas a v\u00e1rias tentativas golpistas, Evo Morales tem adotado atitudes regressivas, como prestigiar pessoalmente a posse de Bolsonaro, aceitar a redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do g\u00e1s que a Bol\u00edvia vende ao Brasil e negar asilo pol\u00edtico a Cesare Battisti, o que obviamente resultou na sua entrega \u00e0 pol\u00edcia brasileira e sua extradi\u00e7\u00e3o para a It\u00e1lia, onde cumpre pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, a elei\u00e7\u00e3o do progressista L\u00f3pez Obrador refor\u00e7a a tese da altern\u00e2ncia de governo. Esse fen\u00f4meno ultrapassa as fronteiras da Am\u00e9rica Latina. Para ficar entre os pa\u00edses sobre os quais temos mais informa\u00e7\u00f5es, esse revezamento bipolar da administra\u00e7\u00e3o do capitalismo vem acontecendo na Fran\u00e7a, Espanha, Portugal, It\u00e1lia e na Gr\u00e9cia, onde o socialdemocrata Syriza acaba de ser derrotado pela centro-direita, depois de ter implantado as pol\u00edticas de austeridade fiscal ditadas pela Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comiss\u00e3o Europeia).<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a esquerda revolucion\u00e1ria n\u00e3o prefere um governo de direita, na l\u00f3gica do \u201cquanto pior, melhor\u201d, na suposi\u00e7\u00e3o de que \u201cacentua as contradi\u00e7\u00f5es e abre caminho para a revolu\u00e7\u00e3o socialista\u201d. Em qualquer circunst\u00e2ncia, o que pode levar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 a conscientiza\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e capacidade de luta do proletariado e a presen\u00e7a de uma consistente vanguarda revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por outro lado, mesmo n\u00e3o sendo prioridade, n\u00e3o devemos subestimar os processos eleitorais, momentos importantes para fazer o trabalho pol\u00edtico e ideol\u00f3gico junto aos trabalhadores, apresentar nossas propostas, t\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas, denunciar a explora\u00e7\u00e3o capitalista e o jogo marcado da democracia burguesa, objetivos que recomendam nossa participa\u00e7\u00e3o com identidade pr\u00f3pria, mesmo que em coliga\u00e7\u00e3o com outras for\u00e7as. Se as circunst\u00e2ncias nos levarem a apoiar um candidato que signifique um \u201cmal menor\u201d, n\u00e3o podemos deixar de dizer aos trabalhadores, com todas as letras, que se trata do \u201cmenos ruim\u201d!<\/p>\n<p>PCB\/SC: Voc\u00ea n\u00e3o falou da Col\u00f4mbia. Como v\u00ea a situa\u00e7\u00e3o por l\u00e1, ap\u00f3s o acordo de paz assinado pelas FARC-EP?<\/p>\n<p>Ivan: Pois \u00e9, camaradas. Est\u00e1vamos tratando de altern\u00e2ncia de governo, que na hist\u00f3ria da Col\u00f4mbia s\u00f3 se deu at\u00e9 hoje entre fac\u00e7\u00f5es da oligarquia, entre a direita e a ultradireita.<\/p>\n<p>Mesmo para quem acompanhou relativamente de perto os Di\u00e1logos de Havana, \u00e9 dif\u00edcil entender e fazer um ju\u00edzo de valor sobre a abrupta decis\u00e3o das FARC-EP de aceitar a exig\u00eancia de entrega pr\u00e9via das armas para assinar o \u201cacordo de paz\u201d. Essa alternativa nunca foi aventada em toda a hist\u00f3ria invicta deste partido comunista em armas. Uma hip\u00f3tese que pode justificar esta decis\u00e3o \u00e9 a de que houvesse um risco iminente de derrota militar, em fun\u00e7\u00e3o de um certo desequil\u00edbrio que vinha causando o uso de novas tecnologias (m\u00edsseis \u201cinteligentes\u201d, drones, chips etc.) por parte de um poderoso aparato militar, treinado e armado pelo imperialismo norte-americano, que disp\u00f5e de nove bases no pa\u00eds. Agora membro associado da OTAN, a Col\u00f4mbia \u00e9 uma cabe\u00e7a de ponte dos EUA, localizada estrategicamente entre as Am\u00e9ricas do Sul e Central e de frente para o Caribe, uma esp\u00e9cie de Israel em nosso continente.<\/p>\n<p>A dissid\u00eancia que se cristaliza entre os antigos comandantes guerrilheiros, e que vai se tornando p\u00fablica, certamente em algum momento jogar\u00e1 luz sobre as circunst\u00e2ncias pol\u00edticas em que se deu aquela decis\u00e3o, que surpreendeu a todos, inclusive \u00e0s for\u00e7as pol\u00edticas solid\u00e1rias. H\u00e1 a hip\u00f3tese tamb\u00e9m de alguma influ\u00eancia das ideias reformistas e socialdemocratas que grassam na esquerda mundial, inclusive em parte do movimento comunista, nomeadamente as ilus\u00f5es eleitorais e institucionais.<\/p>\n<p>Independente das raz\u00f5es que levaram a este desfecho, penso que esta foi a pior derrota que tivemos na Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos tempos. Diferentemente de derrotas eleitorais, que sempre podem ser revertidas, esta \u00e9 uma derrota pol\u00edtica e ideol\u00f3gica de longo alcance, para al\u00e9m da Col\u00f4mbia. Uma das consequ\u00eancias foi deixar desguarnecida a extensa fronteira entre a Col\u00f4mbia e a Venezuela, onde era muito forte a presen\u00e7a militar das FARC, o que pode facilitar a infiltra\u00e7\u00e3o de paramilitares ou soldados regulares colombianos, uma das alternativas dos EUA contra a Venezuela bolivariana.<\/p>\n<p>Alguns dos antigos comandantes t\u00eam se pronunciado publicamente de forma autocr\u00edtica. Iv\u00e1n M\u00e1rquez recentemente classificou como inoc\u00eancia pol\u00edtica a forma da entrega das armas e a desmobiliza\u00e7\u00e3o, enquanto J\u00e9sus Santrich, v\u00edtima de uma farsa judicial com tentativa de extradi\u00e7\u00e3o aos EUA, vinha denunciando o exterm\u00ednio de ex-guerrilheiros e militantes sociais, tendo aconselhado publicamente o ELN (Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional) a n\u00e3o entregar suas armas nos marcos das negocia\u00e7\u00f5es que mant\u00e9m com o governo colombiano, atualmente suspensas por este. Encontrando-se na mira do estado colombiano, correndo iminente risco de vida, h\u00e1 not\u00edcias de que ambos se encontram foragidos.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso deixar claro que a cr\u00edtica aqui n\u00e3o \u00e9 por considerar que as FARC-EP deveriam manter a mesma forma de luta armada at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria final, a que jamais chegariam por esta \u00fanica via, ou seja, se n\u00e3o contassem com um amplo e combativo movimento de massas e uma vanguarda revolucion\u00e1ria nas grandes cidades e entre o campesinato. Foi correto compor a mesa de di\u00e1logos com o governo, para a busca de uma \u201csolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do conflito\u201d, no conceito da insurg\u00eancia, que sempre evitou a express\u00e3o \u201cacordo de paz\u201d (usada pelo governo), j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 paz na luta de classes, ainda mais num estado terrorista como o colombiano. Foi correto buscar uma solu\u00e7\u00e3o para o conflito que durante toda a sua hist\u00f3ria de mais de 50 anos custou a vida apenas de filhos do proletariado, nos dois lados em armas. Durante os di\u00e1logos em Havana, houve um extraordin\u00e1rio crescimento do movimento de massas, j\u00e1 que as FARC-EP haviam se transformado em porta-voz das reivindica\u00e7\u00f5es populares, muitas delas contempladas no documento assinado entre as partes, mas em sua maioria tornadas letras mortas.<\/p>\n<p>O a\u00e7odamento e principalmente a forma da desmobiliza\u00e7\u00e3o da insurg\u00eancia abriram espa\u00e7o para o governo descumprir e inviabilizar a aplica\u00e7\u00e3o dos principais pontos acordados, o que provocou desilus\u00e3o e descr\u00e9dito no povo colombiano e o consequente refluxo do movimento de massas. Tratou-se de uma cilada, uma paz de cemit\u00e9rios. Ao inv\u00e9s da idealizada concilia\u00e7\u00e3o nacional, assistimos hoje ao recrudescimento do terrorismo de estado. Desde a desmobiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 foram assassinados centenas de militantes sociais e mais de 140 ex-guerrilheiros, enquanto o Estado lava as m\u00e3os, atribuindo os crimes ao paramilitarismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o serviu de exemplo o comportamento hist\u00f3rico da oligarquia colombiana, que descumpriu todos os compromissos assumidos com diversas guerrilhas, inclusive com as pr\u00f3prias FARC, que, ap\u00f3s um acordo com o governo Belis\u00e1rio Bitencourt, se desmobilizaram parcialmente e, em 1985, juntamente com o Partido Comunista Colombiano, criaram um partido legal, a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica. Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 1986, em que a UP teve um bom desempenho, elegendo 5 senadores e 14 deputados, al\u00e9m de prefeitos e vereadores, come\u00e7ou um exterm\u00ednio, atribu\u00eddo a grupos paramilitares, que resultou no assassinato de 4.000 militantes, no epis\u00f3dio que a oligarquia batizou cinicamente de El Baile Rojo.<\/p>\n<p>PCB\/SC: E sobre Cuba? Como vai enfrentando as san\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as do governo Trump? Qual a import\u00e2ncia da ilha na atualidade?<\/p>\n<p>Ivan: A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana segue sendo um grande exemplo para todos os povos do mundo. Cuba \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds em que me sinto pessoalmente seguro de dizer que mant\u00e9m uma experi\u00eancia de constru\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/p>\n<p>Apesar de 60 anos de um cruel e desumano bloqueio levado a efeito pela maior pot\u00eancia mundial, a poucas milhas de seu territ\u00f3rio, Cuba segue soberana. Apesar do fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que sempre lhe deu suporte pol\u00edtico, econ\u00f4mico e militar, o socialismo sobreviveu em Cuba, com muito sacrif\u00edcio, ao chamado per\u00edodo especial que se seguiu, num momento em que o fim do socialismo no pa\u00eds era estimado em dias, meses ou em poucos anos. Apesar das dificuldades de construir o socialismo praticamente em um s\u00f3 pa\u00eds, uma pequena ilha, Cuba continua revolucion\u00e1ria, internacionalista e anti-imperialista.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos deixar de reconhecer e compreender que a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, por conta de todas essas dificuldades, sobretudo econ\u00f4micas, n\u00e3o achou outra alternativa sen\u00e3o a ado\u00e7\u00e3o de algumas mudan\u00e7as que v\u00eam abrindo espa\u00e7o \u00e0 iniciativa privada, para poder manter alguns dos mais importantes princ\u00edpios da Revolu\u00e7\u00e3o: as garantias de trabalho e de gratuidade em todos os n\u00edveis da educa\u00e7\u00e3o e em todos os servi\u00e7os de sa\u00fade. Uma das solu\u00e7\u00f5es encontradas foi um plano de demiss\u00e3o volunt\u00e1ria de servidores p\u00fablicos em \u00e1reas com grande excesso de pessoal, em troca do direito de empreender alguma atividade que lhes gerasse renda com seu trabalho e de pessoas de sua fam\u00edlia, num sistema que ficou conhecido como contrapropismo.<\/p>\n<p>Entretanto, na busca por mais valor (e confirmando a inescap\u00e1vel lei da acumula\u00e7\u00e3o capitalista), alguns desses empreendimentos, sobretudo na diversificada e importante \u00e1rea do turismo, se desenvolveram e passaram a utilizar m\u00e3o de obra informal de terceiros. Esse tema foi objeto de amplo debate no recente processo de revis\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Cubana, que envolveu praticamente toda a popula\u00e7\u00e3o. O anteprojeto que resultou desta consulta foi submetido a um referendo nacional, sendo aprovado por 87% dos cubanos, com comparecimento \u00e0s urnas de 90% dos eleitores. Entre as principais mudan\u00e7as constitucionais est\u00e3o medidas para conter a expans\u00e3o do setor privado na economia, com regras r\u00edgidas para coibir a explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, o aumento de pre\u00e7os dos produtos de consumo popular, a evas\u00e3o de impostos, al\u00e9m de v\u00e1rios ajustes e corre\u00e7\u00f5es de rumo para resolver os principais problemas do pa\u00eds, dentro de um contexto de reafirma\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/p>\n<p>J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s manobras, provoca\u00e7\u00f5es e agress\u00f5es do imperialismo norte-americano \u2013 que nunca deu tr\u00e9gua nos 60 anos de Revolu\u00e7\u00e3o Socialista \u2013 a atual crise na Venezuela suscitou uma nova onda de amea\u00e7as e san\u00e7\u00f5es espec\u00edficas contra Cuba, mas que na realidade t\u00eam o objetivo de tentar \u201cmatar dois coelhos com uma s\u00f3 cajadada\u201d, ou seja, atingir e tentar fragilizar esses dois pa\u00edses que n\u00e3o se submetem aos seus des\u00edgnios, procurando debilitar uma rela\u00e7\u00e3o bilateral que beneficia os dois povos. Com este objetivo, o governo Trump mente descaradamente para apertar o cerco econ\u00f4mico contra a Ilha, afirmando que h\u00e1 tropas cubanas na Venezuela.<\/p>\n<p>Baseada na famigerada Lei Helms-Burton, de 1996 (governo Clinton), a ofensiva atual ataca exatamente as duas necessidades fundamentais para a solu\u00e7\u00e3o dos problemas econ\u00f4micos cubanos: os investimentos estrangeiros e o setor do turismo, suas principais fontes de receitas em moedas estrangeiras e de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda. Para afastar investimentos, usando seu arbitr\u00e1rio poder extraterritorial, o governo dos EUA resolveu impor san\u00e7\u00f5es \u00e0s empresas que tenham alguma rela\u00e7\u00e3o comercial em im\u00f3veis nacionalizados h\u00e1 d\u00e9cadas pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e, para estancar o crescente fluxo de turistas estrangeiros na ilha caribenha (4 milh\u00f5es, em 2018), estabeleceu fortes restri\u00e7\u00f5es a viagens de cidad\u00e3os estadunidense a Cuba.<\/p>\n<p>Mas a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana tem como uma de suas principais marcas a supera\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos, que n\u00e3o t\u00eam sido poucos nem f\u00e1ceis de vencer. Nunca se entregou! E mais uma vez vencer\u00e1!<\/p>\n<p>Por conta desta hist\u00f3ria de resist\u00eancia invicta, da m\u00edstica revolucion\u00e1ria de Fidel, Che, Camilo Cienfuegos e seus camaradas da Sierra Maestra, de sua determina\u00e7\u00e3o de criar uma sociedade sem opressores nem oprimidos, por ser na atualidade o \u00fanico pa\u00eds, povo e governo do mundo a praticar o internacionalismo prolet\u00e1rio, nunca lhe faltou nem faltar\u00e1 a solidariedade vinda de todas as partes do mundo, sobretudo de todas as express\u00f5es pol\u00edticas e sociais comprometidas com a constru\u00e7\u00e3o de um mundo sem guerras, sem fome nem mis\u00e9ria, onde todos possamos compartilhar os mesmos direitos e deveres e, como em Cuba, nos chamarmos de companheiros.<\/p>\n<p>PCB\/SC: Vivemos o esgotamento do ciclo lulista, que foi derrotado pelo Golpe de 2016, que culminou com a pris\u00e3o de Lula e a derrota de Haddad nas elei\u00e7\u00f5es de 2018. O que levou \u00e0 crise e \u00e0 derrota desse projeto? Por que, mesmo com o desgaste do projeto petista, a esquerda socialista n\u00e3o conseguiu se apresentar como uma alternativa real para a classe trabalhadora brasileira?<\/p>\n<p>Ivan: O golpe contra Dilma foi consequ\u00eancia do agravamento no Brasil da crise mundial do capitalismo, que levou a burguesia a prescindir da concilia\u00e7\u00e3o de classes dos governos petistas que, enquanto a economia ia bem (favorecida pelo \u201cboom das commodities\u201d), garantiam a expans\u00e3o e os lucros do capital e, ao mesmo tempo, amaciavam a luta de classes com pol\u00edticas compensat\u00f3rias, a coopta\u00e7\u00e3o e o apassivamento do movimento sindical e popular.<\/p>\n<p>Enquanto os efeitos mais graves da crise n\u00e3o chegavam aqui, os governos petistas se mantiveram de p\u00e9, sem muitos sobressaltos, por tr\u00eas mandatos consecutivos (2003\/2014). A governabilidade petista neste per\u00edodo era garantida por uma ampla alian\u00e7a com partidos burgueses, que assegurava folgada maioria no parlamento, ao custo da impossibilidade de promover qualquer mudan\u00e7a estrutural. Uma das consequ\u00eancias foi n\u00e3o ter sido feito absolutamente nada ao menos para mitigar o monop\u00f3lio da m\u00eddia burguesa. Pelo contr\u00e1rio, os governos petistas tentavam, em v\u00e3o, neutraliz\u00e1-la com robustas verbas p\u00fablicas. H\u00e1 um PT na oposi\u00e7\u00e3o e outro no governo. Com a posse de Lula em 2003, seu partido, que havia liderado a luta pela reestatiza\u00e7\u00e3o da Vale do Rio Doce, privatizada no governo FHC, calou-se e n\u00e3o moveu uma palha a respeito.<\/p>\n<p>Quando a crise econ\u00f4mica atingiu em cheio o final do primeiro mandato de Dilma, os governos petistas se tornaram anacr\u00f4nicos para o sistema, pois n\u00e3o podiam mais sustentar a concilia\u00e7\u00e3o de classes (como se viu a partir das manifesta\u00e7\u00f5es de 2013) nem assegurar, de forma r\u00e1pida e intensa, as contrarreformas de que o capital necessita para sair da crise \u00e0s custas dos trabalhadores. A burguesia precisava de um governo para chamar de seu. Dilma ainda tentou agradar o capital, com a nomea\u00e7\u00e3o de um Ministro da Fazenda de absoluta confian\u00e7a do mercado. Mas sua sorte j\u00e1 estava lan\u00e7ada.<\/p>\n<p>As medidas adotadas pelo governo Temer deixam bem claro que as raz\u00f5es do impedimento da Presidente Dilma n\u00e3o foram as \u201cpedaladas fiscais\u201d, pretexto que at\u00e9 hoje pouca gente sabe do que se trata. Mesmo com um \u00edndice de rejei\u00e7\u00e3o popular recorde e enredado em graves den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, Temer conseguiu, em seu breve mandato, aprovar a contrarreforma trabalhista, a generaliza\u00e7\u00e3o das terceiriza\u00e7\u00f5es, o \u201cteto de gastos p\u00fablicos\u201d por 20 anos, sem que nem as imagens de uma mala com 500 mil reais carregada por assessor de sua confian\u00e7a lhe amea\u00e7assem o mandato.<\/p>\n<p>O golpe parlamentar, judicial e midi\u00e1tico contra Dilma s\u00f3 foi poss\u00edvel porque os trabalhadores e as camadas populares \u2013 diferente do que vem ocorrendo na Venezuela \u2013 n\u00e3o atenderam ao chamado para defend\u00ea-la, exatamente porque n\u00e3o havia conquistas significativas nem mudan\u00e7as estruturais a preservar. E foi facilitado pela concilia\u00e7\u00e3o dos governos petistas: pela campanha de sataniza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia que n\u00e3o combateram, pelo oportunismo dos Ministros do STF que nomearam e pela trai\u00e7\u00e3o do Vice-Presidente e dos partidos burgueses com os quais se coligaram. Em resumo: o PT foi v\u00edtima da sua pr\u00f3pria concilia\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Apesar desta derrota, considero um erro a teoria do \u201cesgotamento do ciclo petista\u201d, surgida em nosso meio ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 e refor\u00e7ada depois do golpe contra Dilma. Essa teoria induziu ao voluntarismo de achar que o PT estaria morrendo e que chegara a hora e a vez de as for\u00e7as da esquerda revolucion\u00e1ria dirigirem um novo ciclo de lutas, no qual o reformismo n\u00e3o teria mais espa\u00e7o, o que \u00e9 outra ilus\u00e3o. Mesmo que o PT tivesse desaparecido, o reformismo migraria para outro partido socialdemocrata, pois esta \u00e9 uma ideologia predominante na pequena burguesia. Por sinal, o PSOL j\u00e1 vem se beneficiando do desgaste do PT.<\/p>\n<p>Se levarmos em conta que o sistema teve que prender Lula para ele n\u00e3o vencer as elei\u00e7\u00f5es de 2018 e que \u2013 a despeito de toda a sataniza\u00e7\u00e3o dele e do PT (como se tivessem inventado a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil) \u2013 Haddad ainda assim foi para o segundo turno e o PT elegeu novamente a maior bancada de Deputados Federais, temos que reconhecer que o petismo sofreu um grande desgaste, mas n\u00e3o se esgotou, inclusive no movimento sindical, em que ainda \u00e9 a maior for\u00e7a. O PT pode at\u00e9 voltar ao governo pelo voto em 2022, j\u00e1 que a crise econ\u00f4mica d\u00e1 sinais de que pode agravar-se. Nesta hip\u00f3tese, n\u00e3o podemos descartar que essa eventual volta ao governo se d\u00ea com o apoio \u2013 no primeiro ou segundo turno \u2013 de setores das classes dominantes que dever\u00e3o ser prejudicados pela contrarreforma da previd\u00eancia (que dever\u00e1 provocar a retra\u00e7\u00e3o do consumo das camadas m\u00e9dias e populares), pela desindustrializa\u00e7\u00e3o, que se aprofundar\u00e1 com o acordo Mercosul\/Uni\u00e3o Europeia, e com o alinhamento incondicional aos EUA, que afasta mercados importantes para os produtos brasileiros. Ainda mais se as revela\u00e7\u00f5es dos bastidores da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Lava Jato\u201d forem mais fundo e deixarem evidentes a parcialidade e a politiza\u00e7\u00e3o do julgamento de Lula.<\/p>\n<p>A esquerda socialista n\u00e3o se tornou alternativa ao desgaste do petismo por v\u00e1rias raz\u00f5es. Uma delas foi que a m\u00eddia transformou o PT em sin\u00f4nimo de esquerda, de socialismo e at\u00e9 de comunismo. Mas h\u00e1 outros fatores que pesam, como a d\u00e9bil inser\u00e7\u00e3o na classe oper\u00e1ria e nos setores populares, a incapacidade de forjar frentes de luta unit\u00e1ria para al\u00e9m de elei\u00e7\u00f5es, o movimentismo e o identitarismo que predominam na grande maioria das correntes que reivindicam a esquerda socialista. Muitas delas se movimentam tendo como b\u00fassola a sua performance nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. A mais de um ano das elei\u00e7\u00f5es municipais de outubro de 2020 \u2013 e em plena tramita\u00e7\u00e3o da contrarreforma da previd\u00eancia \u2013 os partidos reformistas j\u00e1 come\u00e7am a tratar como prioridade o debate sobre coliga\u00e7\u00f5es e candidaturas a prefeitos e vereadores. Nas s\u00e1bias palavras de um camarada, nos anos \u00edmpares esta esquerda se prepara para as elei\u00e7\u00f5es, que se d\u00e3o nos anos pares!<\/p>\n<p>PCB\/SC: Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre os primeiros meses do governo Bolsonaro? Como analisa a crise interna do governo e as consequ\u00eancias do vazamento dos bastidores da Lava Jato? Nesse cen\u00e1rio o que deve ser defendido pelas esquerdas? Como os movimentos sociais e populares podem interferir nesse processo? Qual a alternativa para a classe trabalhadora mudar uma conjuntura t\u00e3o adversa?<\/p>\n<p>Ivan: O governo Bolsonaro s\u00f3 n\u00e3o conseguiu ser pior, do nosso ponto de vista, em fun\u00e7\u00e3o das trapalhadas di\u00e1rias que cria, das crises e conspira\u00e7\u00f5es urdidas por seus filhos, seu ide\u00f3logo Olavo de Carvalho e seus ministros, que atrasam o ritmo do seu pr\u00f3prio projeto de destrui\u00e7\u00e3o do que resta do estado social, dos direitos trabalhistas, civis e pol\u00edticos e da pr\u00f3pria soberania nacional. Mas o retrocesso j\u00e1 \u00e9 muito grande, em todos os aspectos.<\/p>\n<p>Pelo que se observa na m\u00eddia hegem\u00f4nica \u2013 a fonte mais reveladora dos humores das classes dominantes \u2013 h\u00e1 entre elas um desconforto com as asneiras e destemperos di\u00e1rios do inacredit\u00e1vel presidente que elegeram. Suas propostas preconceituosas e ultraconservadoras e suas declara\u00e7\u00f5es histri\u00f4nicas, algumas de inspira\u00e7\u00e3o fascista, dificultam a pressa da imensa maioria de direita no parlamento em implantar as reformas neoliberais que dependem de iniciativa legislativa. A burguesia est\u00e1 preocupada com medidas a seu favor para a supera\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica, n\u00e3o com o \u201cmarxismo cultural\u201d, a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d e outras bizarrices.<\/p>\n<p>A crise do momento, em que se destacam os bastidores da Lava Jato (que acirram o conflito entre o STF e o MPF) e as declara\u00e7\u00f5es torpes e mentirosas do Presidente sobre a pris\u00e3o e o assassinato de Fernando Santa Cruz pela ditadura burguesa sob a forma militar, se desenrola exatamente no rein\u00edcio da tramita\u00e7\u00e3o no parlamento da contrarreforma da previd\u00eancia, considerada pelo \u201cmercado\u201d como a m\u00e3e de todas as chamadas reformas estruturantes a favor do capital.<\/p>\n<p>Entretanto, ao menos no curto prazo, tudo indica que n\u00e3o haver\u00e1 qualquer iniciativa no andar de cima com vistas a uma campanha pelo impedimento do Presidente. Motivos n\u00e3o faltariam: as fake news nas elei\u00e7\u00f5es, a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima do cl\u00e3 com as mil\u00edcias no Rio de Janeiro, o poss\u00edvel envolvimento no assassinato de Marielle Franco, o esquema de lavagem de dinheiro de Fl\u00e1vio Bolsonaro, as evidentes manobras para impedir a candidatura de Lula.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o principal desta sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ainda que constrangida, \u00e9 que, bem ou mal, a agenda das reformas que interessam ao capital come\u00e7ou a andar no parlamento e tamb\u00e9m em mat\u00e9rias que s\u00e3o da al\u00e7ada do executivo, como foi a privatiza\u00e7\u00e3o em tempo recorde da BR Distribuidora, ali\u00e1s, com respaldo do STF. \u00c9 bom lembrar que a m\u00eddia e os tr\u00eas poderes estatais est\u00e3o perfeitamente afinados com o projeto do capital e s\u00f3 colocam obst\u00e1culos a propostas estapaf\u00fardias do executivo, que extrapolem limites do que consideram civilizado, como a libera\u00e7\u00e3o da posse e do porte de armas e o afrouxamento das multas de tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>Para garantir seu mandato, Bolsonaro tende a adotar cada vez mais iniciativas que satisfa\u00e7am o apetite do capital por extrair mais valor. \u00c9 o caso da recente Medida Provis\u00f3ria 881\/2019, apresentada pelo governo com o esperto t\u00edtulo de \u201cMP da Liberdade Econ\u00f4mica\u201d, mas que, a pretexto de desburocratizar as empresas, amplia os efeitos perversos da contrarreforma trabalhista de Temer, estabelecendo o aumento da jornada de trabalho de v\u00e1rias categorias, a permiss\u00e3o de trabalho aos domingos e feriados sem negocia\u00e7\u00e3o coletiva, a suspens\u00e3o de normas sobre sa\u00fade e seguran\u00e7a do trabalho, inclusive a possibilidade de extin\u00e7\u00e3o das Comiss\u00f5es Internas de Preven\u00e7\u00e3o de Acidentes, entre outras perdas de direitos trabalhistas\u2026<\/p>\n<p>Outra raz\u00e3o importante que vem garantindo a governabilidade \u00e9 que Bolsonaro ainda possui uma s\u00f3lida base social, radicalizada e idiotizada, que venderia caro uma tentativa de seu impedimento, contando com o apoio das igrejas neopentecostais, da maioria do comando e principalmente das bases das for\u00e7as armadas, das pol\u00edcias de todos os \u00e2mbitos e esferas, do agroneg\u00f3cio, dos caminhoneiros (que podem parar o pa\u00eds) e de mil\u00edcias e organiza\u00e7\u00f5es de ultra direita que podem transformar em epis\u00f3dios sangrentos a defesa do seu \u201cmito\u201d.<\/p>\n<p>A burguesia s\u00f3 recorrer\u00e1 ao processo de impedimento contra Bolsonaro se n\u00e3o houver mais condi\u00e7\u00f5es de administrar as constantes crises que ele gera e se aprofundarem-se o seu isolamento pol\u00edtico, inclusive entre seus fiadores militares, e o desgaste em sua base social, a ponto de ele passar a n\u00e3o dispor mais de meios razo\u00e1veis para tentar um autogolpe.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a burguesia, que n\u00e3o pode esperar, j\u00e1 arranjou uma maneira informal, provis\u00f3ria ou n\u00e3o (a depender dos desdobramentos), de levar \u00e0 frente sua pauta no legislativo, sem precisar contar com Bolsonaro e, em alguns casos, apesar dele. Dispondo de uma bancada parlamentar de centro-direita maior do que a soma das bancadas da oposi\u00e7\u00e3o de centro-esquerda e do partido de extrema-direita de Bolsonaro, forjou-se um parlamentarismo de fato, sob a lideran\u00e7a de Rodrigo Maia, al\u00e7ado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de primeiro ministro de fato e, qui\u00e7\u00e1, de pr\u00f3ximo candidato a Presidente da Rep\u00fablica da maioria das classes dominantes, expressando um campo de centro-direita, neoliberal na economia e \u201cdemocr\u00e1tico\u201d na pol\u00edtica e nos costumes. Essa articula\u00e7\u00e3o chamou para si a contrarreforma da previd\u00eancia e j\u00e1 se prepara para conduzir outras reformas de interesse do capital, a come\u00e7ar pela tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>J\u00e1 no campo da oposi\u00e7\u00e3o dita de esquerda e do movimento popular h\u00e1 muitas apostas em solu\u00e7\u00f5es institucionais que em nada alterariam a atual correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1 os que torcem para Bolsonaro ficar na presid\u00eancia at\u00e9 o fim do mandato, considerando que ele complica os projetos da burguesia e chegaria desgastado \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2022, facilitando a vit\u00f3ria de Lula ou de outro candidato progressista. J\u00e1 os que torcem por Mour\u00e3o (e, portanto, pelo impedimento do Presidente) iludem-se com a maquiagem que o general vem fazendo em sua imagem, contrapondo suas opini\u00f5es \u00e0s do Presidente. Acham que ele n\u00e3o causaria tantos retrocessos e estaria aberto ao di\u00e1logo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso acabar com essas ilus\u00f5es. Um processo de impedimento antes das principais reformas neoliberais e do aprofundamento do desgaste de Bolsonaro atrasaria mais os planos das classes dominantes do que a diarreia verbal incontinente do Presidente e ainda poderia trazer instabilidade pol\u00edtica e social. Por outro lado, os militares ainda apoiam e participam do governo Bolsonaro. N\u00e3o s\u00e3o democratas nem nacionalistas. V\u00e1rios dos seus expoentes, inclusive os generais Mour\u00e3o, Heleno e Vilas-Boas, pronunciaram-se publicamente a favor do golpe contra Dilma e contra a liberta\u00e7\u00e3o de Lula, chantageando a opini\u00e3o p\u00fablica, o parlamento e o poder judici\u00e1rio, e n\u00e3o levantaram uma s\u00f3 palavra contra a entrega da Embraer \u00e0 Boeing e da base de Alc\u00e2ntara aos EUA e tampouco a sanha privatizante do governo. Humilhados pela fritura de alguns de seus generais e sem conseguir cumprir o papel moderador que imaginavam, os militares sair\u00e3o desmoralizados por sua participa\u00e7\u00e3o neste governo.<\/p>\n<p>Doces ilus\u00f5es! N\u00e3o podemos nos comportar como torcedores, na expectativa de solu\u00e7\u00f5es vindas de cima que pare\u00e7am \u201cmenos ruins\u201d. S\u00f3 a conscientiza\u00e7\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o e a luta dos trabalhadores e das camadas populares, com independ\u00eancia de classe, poder\u00e3o evitar a destrui\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, sociais, civis e pol\u00edticos e avan\u00e7ar em outras conquistas. Essa \u00e9 a nossa tarefa principal, n\u00e3o pensando apenas na atual conjuntura, mas em qualquer cen\u00e1rio, qualquer correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, a qualquer tempo. N\u00e3o podemos subestimar as divis\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es interburguesas, que s\u00e3o inerentes ao capitalismo; quando poss\u00edvel, devemos aproveit\u00e1-las a nosso favor. Mas sem ilus\u00f5es! N\u00e3o h\u00e1 diverg\u00eancias inconcili\u00e1veis nas classes dominantes sobre a pauta que as levaram a apoiar Bolsonaro. Muito menos no governo, onde as diferen\u00e7as s\u00e3o de forma e estilo, n\u00e3o de conte\u00fado!<\/p>\n<p>Um outro entrave ao movimento de massas \u00e9 o fato de o campo petista privilegiar o \u201cLula Livre!\u201d como a bandeira principal, em detrimento da luta contra a ofensiva do capital. Essa prioridade debilita o movimento de massas, estimulando a ilus\u00e3o de que s\u00f3 com elei\u00e7\u00f5es e a volta de Lula ao governo podemos assegurar nossos direitos. N\u00e3o se trata aqui de negar a justeza desta bandeira. O julgamento de Lula foi pol\u00edtico e seletivo, um novo golpe para evitar sua candidatura em 2018. Devemos prestar nossa solidariedade ao ex-Presidente, participando de algumas iniciativas espec\u00edficas da campanha por sua liberta\u00e7\u00e3o, mas sem priorizar esta bandeira nem abrir m\u00e3o das necess\u00e1rias cr\u00edticas \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o dos governos petistas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m combater as ilus\u00f5es de classe disseminadas por setores da socialdemocracia \u201cde esquerda\u201d, que enganam e desmobilizam as massas com a v\u00e3 esperan\u00e7a de derrotarmos ou mitigarmos os planos do capital no parlamento ou na justi\u00e7a (institui\u00e7\u00f5es do estado burgu\u00eas), como vimos durante a fase da luta contra a \u201creforma\u201d da previd\u00eancia anterior \u00e0 vota\u00e7\u00e3o em primeiro turno na C\u00e2mara dos Deputados, onde, por sinal, os reformistas negociam e conciliam com o seu Presidente, cacifando ainda mais este l\u00edder emergente da centro-direita, queridinho da m\u00eddia e do \u201cmercado\u201d. Os deputados do PcdoB, por exemplo, votaram nele para Presidente da C\u00e2mara, j\u00e1 no primeiro turno, mesmo havendo um candidato da bancada de esquerda!<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o \u00e9 a caracteriza\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro. Apesar de declara\u00e7\u00f5es e atitudes de inspira\u00e7\u00e3o fascista da parte dele e de seu entorno pol\u00edtico mais pr\u00f3ximo, n\u00e3o me parece correto definir o governo como fascista ou neofascista e nem exagerarmos os riscos do advento de uma ditadura aberta. Isso nos levaria ao erro de privilegiar os esfor\u00e7os por uma gelatinosa frente democr\u00e1tica policlassista e n\u00e3o pela necess\u00e1ria unidade na a\u00e7\u00e3o com a esquerda socialista e os movimentos sindicais e populares. Significaria privilegiar a luta em defesa da democracia burguesa, em detrimento dos direitos trabalhistas e sociais.<\/p>\n<p>Apesar de Bolsonaro, o chamado \u201cestado democr\u00e1tico de direito\u201d funciona normalmente nestes sete meses de governo, embora com vi\u00e9s autorit\u00e1rio. O fato de haver neofascistas no governo n\u00e3o significa que estejamos sob o fascismo. Seria o mesmo que caracterizar os governos petistas como socialistas ou comunistas s\u00f3 porque deles participavam partidos que ainda mant\u00eam nos seus nomes esses conceitos. N\u00e3o h\u00e1 qualquer ind\u00edcio de que as classes dominantes em nosso pa\u00eds apoiariam, nos dias de hoje, uma ditadura aberta ou um processo de fascistiza\u00e7\u00e3o, alternativas a que recorreram, em 1964, quando viram amea\u00e7as concretas de mudan\u00e7as estruturais, com o avan\u00e7o do movimento de massas que empurrava o governo Jo\u00e3o Goulart para a esquerda. Isso se deu no auge da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e em plena Guerra Fria, na \u00e9poca das revolu\u00e7\u00f5es socialistas e de liberta\u00e7\u00e3o nacional e numa Am\u00e9rica Latina rebelde, onde a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana inspirava movimentos revolucion\u00e1rios, o que levou o imperialismo a apoiar e articular ditaduras burguesas fascistizantes em quase todo o nosso continente.<\/p>\n<p>Nos dias de hoje, o rompimento do \u201cestado democr\u00e1tico de direito\u201d, al\u00e9m de anacr\u00f4nico e absolutamente desnecess\u00e1rio para o sistema, seria um tiro no p\u00e9 dos interesses das classes dominantes, exatamente quando clamam de joelhos por investimentos estrangeiros, que dependem de seguran\u00e7a jur\u00eddica e estabilidade pol\u00edtica. Al\u00e9m do mais, desde a chamada \u201ctransi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d \u2013 lenta, gradual e segura, como convinha aos interesses das classes dominantes \u2013 nunca houve uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as t\u00e3o favor\u00e1vel para assegurar os interesses do capital.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que a democracia burguesa (em verdade uma ditadura de classe) n\u00e3o possa recrudescer seu lado repressor. Ela \u00e9 flex\u00edvel, em fun\u00e7\u00e3o das necessidades do capital e da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Por isso \u2013 sem nos desviarmos da centralidade da luta contra a ofensiva do capital em rela\u00e7\u00e3o aos direitos trabalhistas e sociais -, n\u00e3o podemos perder de vista a defesa das liberdades democr\u00e1ticas, entendidas como o conjunto de direitos pol\u00edticos conquistados, nomeadamente os de express\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, n\u00e3o podemos descuidar do di\u00e1logo, de forma pontual e independente, com as for\u00e7as reformistas de centro-esquerda nem das necess\u00e1rias precau\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 seguran\u00e7a e autodefesa. Quanto mais se desgasta o governo e ficam evidentes as barreiras aos seus del\u00edrios, mais radicalizados e ousados ficar\u00e3o seus fi\u00e9is apoiadores.<\/p>\n<p>Se fizermos um balan\u00e7o realista da atual correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em nossa sociedade, infelizmente teremos que reconhecer que a disputa pelo poder n\u00e3o \u00e9 entre esquerda e direita, como aqui em 1964 ou na Venezuela na atualidade, mas entre a direita e a centro-direita, de cujos embates \u00e9 que podem surgir aventuras golpistas e autorit\u00e1rias. De certa forma, ainda pagando o pre\u00e7o dos governos petistas de concilia\u00e7\u00e3o de classe e do reformismo que hegemoniza o que chamamos de esquerda, temos influ\u00eddo pouco na conjuntura, sendo mais espectadores da cena pol\u00edtica do que atores.<\/p>\n<p>Para reverter essa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel e avan\u00e7ar na luta \u00e9 necess\u00e1rio combater as ilus\u00f5es em solu\u00e7\u00f5es institucionais, jogar toda a energia militante na conscientiza\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e das camadas populares e promover, no campo da esquerda socialista, um urgente debate com o objetivo de unificar e politizar a luta comum. Nesse sentido, seria fundamental a realiza\u00e7\u00e3o de um encontro nacional das centrais e correntes sindicais e dos movimentos, entidades e coletivos populares classistas, com vistas a unificar as bandeiras pol\u00edticas, a pauta comum e uma articula\u00e7\u00e3o nacional, superando a fragmenta\u00e7\u00e3o dos recentes dias nacionais de luta, que t\u00eam sido convocados de forma setorial, ora apenas pelas centrais sindicais ora por entidades de estudantes ou de professores para a defesa de pautas espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos comunistas revolucion\u00e1rios (com perd\u00e3o da necess\u00e1ria redund\u00e2ncia), a crise mundial do capitalismo e o consequente aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o e da barb\u00e1rie nos propiciam melhores argumentos e condi\u00e7\u00f5es para esclarecer as massas sobre a natureza da luta de classes e do estado burgu\u00eas, favorecendo a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda do socialismo e do comunismo e, portanto, as nossas possibilidades de inser\u00e7\u00e3o entre o proletariado e as camadas populares, fator indispens\u00e1vel para o crescimento qualitativo do partido revolucion\u00e1rio e para o acerto da linha pol\u00edtica, nos princ\u00edpios do marxismo-leninismo.<\/p>\n<p>Nosso principal desafio \u00e9 avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do partido, girando a milit\u00e2ncia para atua\u00e7\u00e3o nas lutas do movimento sindical e oper\u00e1rio e da juventude prolet\u00e1ria, promovendo atividades pr\u00f3prias e aut\u00f4nomas em rela\u00e7\u00e3o a outras for\u00e7as e praticando uma pol\u00edtica de alian\u00e7as com independ\u00eancia e identidade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pcbsc.wordpress.com\/2019\/08\/07\/o-mundo-a-america-latina-e-o-brasil-na-opiniao-de-um-comunista\/\">O mundo, a Am\u00e9rica Latina e o Brasil, na opini\u00e3o de um&nbsp;comunista!<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23748\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5,20],"tags":[221],"class_list":["post-23748","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s4-pcb","category-c1-popular","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6b2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23748"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23748\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}