{"id":2376,"date":"2012-02-07T21:08:02","date_gmt":"2012-02-07T21:08:02","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2376"},"modified":"2012-02-07T21:08:02","modified_gmt":"2012-02-07T21:08:02","slug":"lukacs-e-a-atualidade-do-marxismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2376","title":{"rendered":"Luk\u00e1cs e a atualidade do Marxismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Georg Luk\u00e1cs nasceu um Budapeste, oriundo de fam\u00edlia burguesa. Recusou-se a seguir a vida dos neg\u00f3cios para dedicar-se ao estudo das artes e da literatura, tendo grande talento para a cr\u00edtica. Pela Universidade de Budapeste, torna-se doutor em Leis em 1906 e em Filosofia, em 1909. Desenvolve s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o humanista, ao conviver com intelectuais como B\u00e9la Bart\u00f3k, Eugene Varga, Max Weber, Ernst Bloch, Mannheim e outros, sofrendo forte influ\u00eancia da sociologia e da filosofia neokantiana.<\/p>\n<p>Aprofundou suas leituras de Marx, Engels e Rosa Luxemburgo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e, no ano seguinte, entusiasmado com as possibilidades do processo revolucion\u00e1rio mundial, ingressou no Partido Comunista da Hungria. Em mar\u00e7o de 1919, eclode a revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara e \u00e9 proclamada a Rep\u00fablica Prolet\u00e1ria dos Conselhos, a Comuna H\u00fangara, sob a lideran\u00e7a de B\u00e9la Kun.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs \u00e9\u00a0designado vice-comiss\u00e1rio do Povo para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica, realizando profunda reforma educacional, socializa\u00e7\u00e3o das editoras e abertura dos museus e teatros aos trabalhadores. Em agosto, por\u00e9m, as tropas fascistas de Horthy massacram a experi\u00eancia socialista na Hungria (5.000 pessoas executadas, 75.000 presas e 100.000 for\u00e7adas ao ex\u00edlio) e obrigam o PC a atuar na clandestinidade.<\/p>\n<p>No ex\u00edlio em Viena, ap\u00f3s livrar-se da extradi\u00e7\u00e3o e da condena\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0morte gra\u00e7as \u00e0 ampla mobiliza\u00e7\u00e3o de intelectuais alem\u00e3es, prepara os originais de\u00a0<em>Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/em>. Por sofrer forte influ\u00eancia do pensamento de Hegel, acabou se tornando um de seus livros mais pol\u00eamicos, renegado pelo pr\u00f3prio autor na sua maturidade intelectual e pol\u00edtica, mas que serviu de refer\u00eancia e inspira\u00e7\u00e3o para te\u00f3ricos da Escola de Frankfurt (como Adorno e Benjamin) e do existencialismo (Sartre).<\/p>\n<p>A obra ataca o marxismo vulgar da II Internacional, a vertente revisionista de Bernstein e o positivismo dominante nas ci\u00eancias sociais, al\u00e9m de se alinhar com Rosa Luxemburgo na perspectiva da eclos\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria mundial, que n\u00e3o veio. Neste livro, Luk\u00e1cs formula a teoria da\u00a0<strong>reifica\u00e7\u00e3o <\/strong>(no capitalismo, os fen\u00f4menos sociais e as rela\u00e7\u00f5es entre os homens assumem sempre a apar\u00eancia de coisas), assim como desenvolve a an\u00e1lise segundo a qual a realidade s\u00f3 pode ser estudada cientificamente a partir do ponto de vista da totalidade.<\/p>\n<p>O ponto pol\u00eamico \u00e9\u00a0a ideia de que somente o proletariado pode conhecer a realidade em sua totalidade, pois ci\u00eancia e consci\u00eancia coincidiriam nele, por ele ser, ao mesmo tempo, sujeito e objeto do conhecimento, ou melhor, o conhecimento de si mesmo significaria o conhecimento de toda a sociedade.<\/p>\n<p>Mas esta consci\u00eancia n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0 dada de forma imediata; seria, isto sim, produto da luta de classes: pela resist\u00eancia \u00e0\u00a0sua redu\u00e7\u00e3o a mera condi\u00e7\u00e3o de mercadoria, pela luta contra a coisifica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, o operariado tenderia a descobrir e questionar o processo de reifica\u00e7\u00e3o, revelando o car\u00e1ter fetichista de toda a mercadoria. Assim, a consci\u00eancia de si do proletariado seria, simultaneamente, o conhecimento do conjunto das rela\u00e7\u00f5es capitalistas.<\/p>\n<p>O livro foi objeto de vigorosa condena\u00e7\u00e3o por parte da Internacional Comunista em seu V Congresso (1924), atacado por Bukharin e Zinoviev pelas \u201creca\u00eddas no velho hegelianismo\u201d e pelo \u201crevisionismo te\u00f3rico\u201d. Luk\u00e1cs acabou por afastar-se da pol\u00edtica partid\u00e1ria ao ser amea\u00e7ado de expuls\u00e3o do PC h\u00fangaro ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o de suas\u00a0<em>Teses de Blum <\/em>(pseud\u00f4nimo usado na clandestinidade), derrotadas no II Congresso do Partido (1929), por defender a \u201cditadura democr\u00e1tica do proletariado e do campesinato\u201d e retratar a classe trabalhadora como herdeira da melhor tradi\u00e7\u00e3o da humanidade \u2013 incluindo a\u00ed a tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria burguesa \u2013 e n\u00e3o apenas a criadora da nova cultura oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs entendia que a alternativa ao fascismo de Horthy deveria ser um regime de liberdades pol\u00edticas, constru\u00eddo a partir de uma ampla frente pol\u00edtica. Na \u00e9poca, a Internacional Comunista passou a repudiar a alian\u00e7a com a socialdemocracia, advogando a t\u00e1tica da \u201cclasse contra classe\u201d.<\/p>\n<p>Em 1930, Luk\u00e1cs segue para Moscou, onde, trabalhando no Instituto Marx-Engels, aprofunda seus conhecimentos sobre o pensamento marxiano ao dedicar-se \u00e0 leitura dos\u00a0<em>Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos de 1844<\/em>, o que o permite superar as concep\u00e7\u00f5es idealistas presentes em\u00a0<em>Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/em>. No plano te\u00f3rico cultural, busca construir uma est\u00e9tica marxista,aprofundando a concep\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>realismo cr\u00edtico<\/strong>, em contraposi\u00e7\u00e3o ao<em>naturalismo <\/em>pr\u00f3prio da literatura burguesa e mesmo da arte proposta pelo \u201crealismo socialista\u201d (stalinista), m\u00e9todo voltado \u00e0 mera descri\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>Com o fim da guerra e a derrota do fascismo, Luk\u00e1cs retorna a Budapeste, \u00e9\u00a0eleito membro do parlamento h\u00fangaro e volta a participar ativamente da vida cultural europeia, mas, entre 1949 e 1953, sofre persegui\u00e7\u00e3o dos seguidores de St\u00e1lin, atrav\u00e9s de campanha de \u201cdescr\u00e9dito ideol\u00f3gico\u201d orquestrada por militantes e dirigentes do PC h\u00fangaro. Volta, ent\u00e3o, suas energias a escrever\u00a0<em>A Destrui\u00e7\u00e3o da Raz\u00e3o<\/em>, importante obra na qual investiga as ra\u00edzes hist\u00f3ricas da trag\u00e9dia alem\u00e3 (do\u00a0<em>caminho prussiano <\/em>ao nazismo), identificando a Alemanha como o \u201cpa\u00eds cl\u00e1ssico do irracionalismo\u201d e criticando a postura da intelectualidade moderna (com destaque para Nietzsche), representante da decad\u00eancia ideol\u00f3gica da burguesia na etapa imperialista, cujas caracter\u00edsticas principais seriam o ataque ao materialismo dial\u00e9tico e a apologia ao capitalismo.<\/p>\n<p>Deflagrado o processo de \u201cdesestaliniza\u00e7\u00e3o\u201d no XX Congresso do PCUS, Luk\u00e1cs defende a democratiza\u00e7\u00e3o da Hungria, participa do renovado Comit\u00ea Central do PC h\u00fangaro e assume o cargo de Ministro da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura do governo de Nagy (1956). Mas se demite ao discordar da aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias ocidentais. As tropas do Pacto de Vars\u00f3via interv\u00eam, Luk\u00e1cs \u00e9 deportado para a Rom\u00eania e, quando retorna a seu pa\u00eds, \u00e9 expulso do PC. Na d\u00e9cada de 1960, ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de sua\u00a0<em>Est\u00e9tica<\/em>, ambiciosa tentativa de constituir uma teoria marxista das manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, dedica-se \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de uma \u00c9tica marxista, resultando, ap\u00f3s estudos iniciais sobre os fundamentos dos valores inscritos na pr\u00e1xis humana, na reda\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Ontologia do Ser Social<\/em>, obra somente publicada na \u00edntegra postumamente.<\/p>\n<p>Por mais cr\u00edticas que tivesse aos Estados socialistas de seu tempo, fortemente marcados por pr\u00e1ticas antidemocr\u00e1ticas e burocratizantes, em entrevista do in\u00edcio de 1970, Luk\u00e1cs n\u00e3o deixava d\u00favidas a respeito de seu posicionamento pol\u00edtico e ideol\u00f3gico, ao qual foi fiel em toda a vida: \u201cO pior socialismo \u00e9 prefer\u00edvel ao melhor capitalismo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fonte:\u00a0Imprensa Popular. Edi\u00e7\u00e3o Fevereiro de 2012<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: nybooks\n\n\n\n\n\n\n\n\nRicardo Costa, secret\u00e1rio de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do PCB\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2376\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[96],"tags":[],"class_list":["post-2376","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c109-imprensa-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Ck","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2376","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2376"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2376\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}