{"id":23761,"date":"2019-08-14T05:28:37","date_gmt":"2019-08-14T08:28:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23761"},"modified":"2019-08-14T05:28:37","modified_gmt":"2019-08-14T08:28:37","slug":"colombia-sob-pressao-dos-criminosos-de-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23761","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia sob press\u00e3o dos \u201ccriminosos de paz\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogs.sl.pt\/cloud\/thumb\/ace079f333728b918346dc0ef3080fad\/pelosocialismo\/2019\/Sem%20T\u00edtulo.0.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->BLOG PELO SOCIALISMO<\/p>\n<p>Maurice Lemoine *<\/p>\n<p>\u2026 os dois homens [Macron e Duque], infelizmente, n\u00e3o tiveram tempo de evocar os 7 milh\u00f5es de deslocados internos colombianos, nem os 462 dirigentes sociais, comunit\u00e1rios, ind\u00edgenas, camponeses e defensores dos direitos humanos assassinados no pa\u00eds, de janeiro de 2016 a fevereiro de 2019 (incluindo 172 em 2018), a crer no Provedor de Justi\u00e7a (Ombudsman) Carlos Negret, nem os 133 ex-guerrilheiros executados (assim como 34 membros da sua fam\u00edlia), depois de haverem deposto as armas, confiantes na palavra do Estado.<\/p>\n<p>Em visita oficial \u00e0 Fran\u00e7a, o presidente colombiano, Iv\u00e1n Duque, foi recebido, em 19 de junho, no Pal\u00e1cio do Eliseu. Na ocasi\u00e3o, o presidente Emmanuel Macron recordou o empenho de Paris no pleno \u00eaxito dos acordos de paz, assinados em 24 de novembro de 2016, entre o poder e as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC), \u201cacordos financeiramente apoiados numa base bilateral, com a intermedia\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia\u201d, real\u00e7ou ele. No que lhe diz respeito, Duque evocou sobretudo \u201ca sua preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias na Col\u00f4mbia da crise migrat\u00f3ria venezuelana\u201d. Em linha com o seu interlocutor \u2013 Paris e Bogot\u00e1 reconheceram o \u201cimagin\u00e1rio presidente\u201d venezuelano, Juan Guaid\u00f3 e invocaram o Tribunal Penal Internacional (TPI) para julgar o leg\u00edtimo chefe de Estado, Nicol\u00e1s Maduro, que, obstinadamente, se recusa a deixar-se derrubar \u2013 Macron anunciou que a Fran\u00e7a ir\u00e1 duplicar este ano sua contribui\u00e7\u00e3o para o Alto Comissariado da ONU para os refugiados (ACNUR) e para o Comit\u00ea Internacional da Cruz vermelha (CICV), colocando sobre a mesa 1 milh\u00e3o de euros para ajudar os migrantes e deslocados venezuelanos.<\/p>\n<p>Com uma agenda manifestamente muito carregada, os dois homens, infelizmente, n\u00e3o tiveram tempo de evocar os 7 milh\u00f5es de deslocados internos colombianos [1], nem os 462 dirigentes sociais, comunit\u00e1rios, ind\u00edgenas, camponeses e defensores dos direitos humanos assassinados no pa\u00eds, de janeiro de 2016 a fevereiro de 2019 (incluindo 172 em 2018), a crer no Provedor de Justi\u00e7a (Ombudsman) Carlos Negret, nem os 133 ex-guerrilheiros executados (assim como 34 membros da sua fam\u00edlia), depois de haverem deposto as armas, confiantes na palavra do Estado [2].<\/p>\n<p>Para n\u00e3o deixar o campo aberto a uma poss\u00edvel e leve sensa\u00e7\u00e3o de desconforto, o ministro da Transi\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica, Fran\u00e7ois Henri Goullet de Rugy (\u201cmacronista\u201d de fresca data, tend\u00eancia \u201co verde est\u00e1 no fruto\u201d [3]), assinou um acordo bilateral de coopera\u00e7\u00e3o para a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente e dos recursos naturais com o seu hom\u00f3logo Ricardo Lozano, que fazia parte da delega\u00e7\u00e3o colombiana. Tamb\u00e9m a\u00ed, por uma quest\u00e3o de equil\u00edbrio e de n\u00e3o inger\u00eancia nos assuntos internos de um Estado soberano, foi assumido n\u00e3o mencionar a autoriza\u00e7\u00e3o dada por Bogot\u00e1 para a explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o convencional, por fratura\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica (\u201cfracking\u201d), do petr\u00f3leo e do g\u00e1s de xisto presentes no subsolo colombiano; as primeiras experi\u00eancias v\u00e3o arrancar continuamente em 33.915 quil\u00f4metros quadrados, nos departamentos de Santander, C\u00e9sar, Bol\u00edvar e Antioquia [4]. Caro ao presidente franc\u00eas \u2013 como este recordou por ocasi\u00e3o da assinatura de um acordo de livre com\u00e9rcio entre a Uni\u00e3o Europeia e o Mercado Comum do Sul (Mercosul) \u2013 a implementa\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas encontrar-se-\u00e1, sem d\u00favida, muito facilitado&#8230;<\/p>\n<p>Paradoxalmente, foi dos Estados Unidos que, para o presidente de extrema-direita Iv\u00e1n Duque, vieram as contrariedades. Com efeito, em 18 de maio, numa manchete de uma \u201cprimeira p\u00e1gina\u201d muito notada, o New York Times afirmou: \u201cAs novas ordens do ex\u00e9rcito colombiano para matar preocupam\u201d [5]. Baseada em documentos oficiais e testemunhos an\u00f4nimos de oficiais de alta patente, a investiga\u00e7\u00e3o revelou as instru\u00e7\u00f5es do comandante em chefe das for\u00e7as armadas nomeado por Duque, em dezembro de 2018, o general Nicacio Mart\u00ednez, exigindo das suas tropas que duplicassem o n\u00famero de \u201ccapturas\u201d e de \u201celimina\u00e7\u00e3o de criminosos\u201d. A injun\u00e7\u00e3o recorda a sinistra pr\u00e1tica dos \u201cfalsos positivos\u201d que, para \u201cfazer n\u00famero\u201d, levaram \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de civis apresentados como guerrilheiros mortos em combate \u2013 2.248 v\u00edtimas, entre 1988 e 2014 (oficialmente), dos quais, mais de 90% durante os dois mandatos do mentor de Duque, \u00c1lvaro Uribe (2002-2010).<\/p>\n<p>Sob o fogo da justi\u00e7a, em rela\u00e7\u00e3o a 283 destas execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais, nos departamentos de Cesar e da Guajira, entre outubro de 2004 e janeiro de 2006, a 10.\u00aa Brigada Blindada tinha ent\u00e3o como Vice-comandante e Chefe do Estado Maior &#8230; Nicacio Mart\u00ednez (nomeado depois por Duque \u00e0s mais altas fun\u00e7\u00f5es, bis repetita).<\/p>\n<p>Percebendo uma poss\u00edvel reprova\u00e7\u00e3o internacional, o Ex\u00e9rcito suspendeu essa diretiva dois dias ap\u00f3s a revela\u00e7\u00e3o do New York Times (NYT). Todavia, o \u201cincidente\u201d n\u00e3o terminou a\u00ed. Depois de o ministro da Defesa, Guillermo Botero, ter denunciado o artigo como estando \u201ccheio de incoer\u00eancias\u201d, foi desencadeada uma feroz ca\u00e7a \u00e0s bruxas dentro das unidades militares para encontrar, amea\u00e7ar e punir os respons\u00e1veis por aquelas revela\u00e7\u00f5es. Os dois colaboradores do NYT, o jornalista Nicholas Casey e o fot\u00f3grafo Federico R\u00edos, foram objeto de violentas rajadas de declara\u00e7\u00f5es agressivas \u2013 incluindo as do senador e ex-presidente Uribe, ou da senadora Mar\u00eda Fernanda Cabal (esposa de Jos\u00e9 Felix Lafaurie, presidente da Fedegan, a poderosa federa\u00e7\u00e3o de latifundi\u00e1rios, os principais benefici\u00e1rios das terras arrancadas aos camponeses por paramilitares) \u2013 e insultados, acusados e, at\u00e9, amea\u00e7ados de morte nas redes sociais, pelo que tiveram de deixar o pa\u00eds por raz\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Tendo feito de Duque um de seus principais comparsas na Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) para desestabilizar a Venezuela, Donald Trump, em 6 de maio de 2019, nomeou embaixador em Bogot\u00e1, Philip Goldberg, diplomata expulso da Bol\u00edvia em 2008, pelo seu papel numa violenta tentativa de derrubar o presidente Evo Morales. Isto \u00e9 simb\u00f3lico. Para n\u00e3o dizer um programa. No entanto, por vezes acontece que os Estados Unidos restringem com uma m\u00e3o o que estimulam com a outra. Sobretudo em per\u00edodo eleitoral! Os oponentes a um segundo mandato de Trump lan\u00e7am-se assim contra os aspectos mais absurdos de sua pol\u00edtica \u2013 mat\u00e9ria que n\u00e3o falta, no caso da Am\u00e9rica Latina em geral e da Col\u00f4mbia em particular.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que, em 29 de maio, preocupados com a viragem dos acontecimentos, com o apoio da Casa Branca, setenta e tr\u00eas membros democratas do Congresso norte-americano apresentaram uma carta aberta muito cr\u00edtica ao Secret\u00e1rio de Estado, Mike Pompeo, pedindo-lhe para pressionar Duque, com o objetivo de deixar de p\u00f4r em causa os Acordos de Paz. De onde, refor\u00e7ando essa acusa\u00e7\u00e3o, um outro editorial do New York Times \u2013 \u201cColombia\u2019s peace is too precious to abandon\u201d (\u201cA paz na Col\u00f4mbia \u00e9 preciosa demais para ser abandonada\u201d) \u2013, os m\u00e9dia e o pessoal pol\u00edtico (neste caso democrata), sob a cobertura de informa\u00e7\u00e3o independente, seguem muitas vezes de m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>Por que se havia de duvidar&#8230; \u00c9 tamb\u00e9m o NYT, embora muito pouco alinhado com Caracas, que atirou uma pedra ao charco, confirmando, com atraso, o que um punhado de jornalistas independentes clamava no deserto: no espet\u00e1culo que pretendia fazer entrar \u201cajuda humanit\u00e1ria\u201d na Venezuela, desde C\u00facuta (Col\u00f4mbia), em 23 de fevereiro, foram partid\u00e1rios do \u201cfantoche\u201d Guaid\u00f3 \u2013 e n\u00e3o as for\u00e7as de seguran\u00e7a \u201cde Maduro\u201d \u2013 que incendiaram um cami\u00e3o da caravana de \u201cbenfeitores da humanidade\u201d; um s\u00edtio da Web, libert\u00e1rio conservador, o PanAm Post, revelou-lhe a corrup\u00e7\u00e3o dos \u201crepresentantes\u201d de Guaid\u00f3, que, no lado colombiano da fronteira, desviaram dezenas de milhares de \u201cd\u00f3lares humanit\u00e1rios\u201d, teoricamente destinados a essa generosa opera\u00e7\u00e3o; por sua vez, a CNN em espanhol confirmou a tentativa de assassinato do presidente Nicol\u00e1s Maduro, com a ajuda de dois drones carregados de explosivos, em 4 de agosto de 2018, entrevistando na Col\u00f4mbia, onde vive em completa tranquilidade, um dos participantes neste magnic\u00eddio frustrado (por pouco). Tantas a\u00e7\u00f5es escabrosas e pesados fracassos imput\u00e1veis \u00e0 pol\u00edtica de Trump e dos seus falc\u00f5es, Mike Pompeo, John Bolton (assessor de seguran\u00e7a nacional) e Eliott Abrams (\u201cenviado especial\u201d \u00e0 Venezuela), que, como os seus comparsas venezuelanos, saem ridicularizados. Da\u00ed algumas revela\u00e7\u00f5es, mas a ofensiva contra Caracas continua noutros campos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, notar-se-\u00e1 incidentalmente \u2013 desculpe-se este aparte! &#8211; que essas fugas dos m\u00e9dia livres raramente excedem um razo\u00e1vel limite. Como testemunha um edificante epis\u00f3dio, relatado (28 de junho de 2019) por Daniel Espinosa, no seman\u00e1rio peruano Hildebrandt en sus trece. Em 15 de junho, o NYT publica um artigo revelador sobre a escalada de \u201cataques cibern\u00e9ticos\u201d realizados pelos Estados Unidos contra&#8230; a rede el\u00e9trica russa (o que, entre par\u00eanteses, refor\u00e7a as suspeitas causadas pela gigantesca falha de energia que, recentemente, paralisou a Venezuela). Como \u00e9 seu h\u00e1bito e num instante, Trump atira-se por Tweet ao New York Times: a difus\u00e3o desta informa\u00e7\u00e3o constitui \u201cum virtual ato de trai\u00e7\u00e3o\u201d. Em rela\u00e7\u00e3o ao que, com grande candura, o departamento de comunica\u00e7\u00e3o do \u201c\u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o (muito) independente\u201d responde e revela: \u201cN\u00f3s submetemos este artigo ao governo, antes da sua publica\u00e7\u00e3o. Como o mencionamos na nota, os oficiais de seguran\u00e7a nacional de Trump disseram-nos que n\u00e3o havia problema\u201d &#8230;<\/p>\n<p>Nas circunst\u00e2ncias, e o que quer que se pense destas rela\u00e7\u00f5es, adversas ou incestuosas, consoante o momento, o atual conluio \u201cantiTrump\u201d tem apenas aspectos negativos. Por\u00e9m, h\u00e1 todos os motivos para nos preocuparmos com uma alian\u00e7a ainda mais mort\u00edfera: a da extrema direita colombiana e do Partido Republicano Americano.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2019, Duque apresentou a sua nova pol\u00edtica de defesa e seguran\u00e7a: esta interdita, a partir de agora, as tr\u00e9guas bilaterais no quadro do conflito armado interno, que continua a opor o Estado ao Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN), hist\u00f3rica guerrilha ainda em atividade. Uma medida perigosamente contraproducente para o relan\u00e7amento de uma poss\u00edvel \u201cnegocia\u00e7\u00e3o\u201d, atualmente congelada, especialmente quando se observa que, desde a sua chegada ao poder, Duque est\u00e1 a fazer tudo para rasgar os compromissos assumidos em nome do Estado pelo seu antecessor, Juan Manuel Santos, quando ele concretizou o fim do conflito com as FARC. Um terr\u00edvel precedente. E, acima de tudo, representa o assassinato de um Pr\u00eamio Nobel!<\/p>\n<p>O quinto ponto do Acordo de Paz, assinado em 24 de novembro de 2016, no teatro Col\u00f3n de Bogot\u00e1, previa um \u201csistema de justi\u00e7a, verdade, repara\u00e7\u00e3o e n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o\u201d, incluindo uma jurisdi\u00e7\u00e3o especial para a paz, que o Congresso colombiano aprovou, em 27 de novembro de 2017.<\/p>\n<p>\u201cNi trizas ni rizas!\u201d (\u201cnem rompimentos nem regozijos\u201d). Fortalecido pela consulta popular, durante a qual, em 2 de outubro de 2016, ap\u00f3s uma intensa campanha orquestrada pelo ex-presidente Uribe, 50,2% dos eleitores se pronunciaram contra o texto original dos Acordos, Duque, antes mesmo de sua elei\u00e7\u00e3o, e seguindo \u00e0 letra as impreca\u00e7\u00f5es do seu mentor, nunca escondeu a sua inten\u00e7\u00e3o de retornar \u00e0 espinha dorsal do dispositivo: a Justi\u00e7a Especial para a Paz (JEP). Implementada, ela faria suar mais do que um membro do \u201cestablishment\u201d. Originalmente, deveriam comparecer perante ela trinta e oito magistrados, 13.000 ex-guerrilheiros (que respeitam este compromisso e est\u00e3o prontos a assumir as suas responsabilidades), pol\u00edcias e militares, assim como atores comprometidos da sociedade dita \u201ccivil\u201d \u2013 empres\u00e1rios ligados ao financiamento do paramilitarismo e agentes (n\u00e3o membros da for\u00e7a p\u00fablica) do Estado. Com, como poss\u00edvel castigo, senten\u00e7as de restri\u00e7\u00e3o da liberdade (mas sem pris\u00e3o) de cinco a oito anos \u2013 ou, mesmo, de vinte anos de pris\u00e3o efetiva para quem, autor dos mais graves abusos, tentasse subtrair-se \u00e0 revela\u00e7\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>Crimes de guerra, crimes contra a humanidade&#8230; Eles bem puderam dar-se ares de seguran\u00e7a, \u00c1lvaro Uribe e os seus n\u00e3o quiseram ir longe. J\u00e1 em setembro de 2017, o muito \u201curibista\u201d Procurador Geral da Rep\u00fablica, N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez, se recusou a cooperar com a procuradora do Tribunal Penal Internacional (TPI), Fatou Bensouda, e a entregar-lhe os relat\u00f3rios e documentos por ela solicitados. Ela mostrou-se muito irritada (mas sem grandes consequ\u00eancias). Os mesmos lutam, desde ent\u00e3o, como o diabo numa pia de \u00e1gua-benta, para bloquear o outro canal de acesso \u00e0s atrocidades sob o terrorismo de Estado, aberto pela JEP.<\/p>\n<p>Com efeito, desejando beneficiar das adapta\u00e7\u00f5es das suas penas em troca da verdade devida \u00e0s v\u00edtimas, mais de 300 paramilitares pedem para comparecer perante a jurisdi\u00e7\u00e3o, para revelar o seu papel e o dos setores pol\u00edticos que financiaram e promoveram o seu movimento. Pelas mesmas raz\u00f5es, 1.914 militares, incluindo cinco generais e vinte coron\u00e9is, alguns dos quais fortemente condenados (por \u201cfalsos positivos\u201d ou liga\u00e7\u00f5es ao paramilitarismo), apresentaram-se \u00e0 JEP para beneficiar dos seus mecanismos, resultando da sua confiss\u00e3o e das suas revela\u00e7\u00f5es penas muito inferiores \u00e0s da justi\u00e7a ordin\u00e1ria (sabendo-se que eles n\u00e3o podiam ter acesso \u00e0 JEP, antes de terem passado pelo menos cinco anos na pris\u00e3o).<\/p>\n<p>Um grande passo para repor a verdade, mas um pesadelo para os seus superiores e os seus patrocinadores, os \u201cassassinos de colarinho branco\u201d. Raz\u00e3o pela qual o presidente Duque declarou a sua inten\u00e7\u00e3o de reformar alguns artigos da lei.<\/p>\n<p>A tentativa de desmantelamento da institui\u00e7\u00e3o criada para julgar e mostrar ao pa\u00eds a realidade de um conflito sangrento, com mais de cinquenta anos, n\u00e3o \u00e9 de hoje. J\u00e1 em 13 de julho de 2018, ap\u00f3s uma longa passagem pelo Congresso, o Tribunal Constitucional eliminou a possibilidade da JEC convocar civis \u2013, ficando apenas autorizado um comparecimento \u201cvolunt\u00e1rio\u201d destes. Depois de uma senten\u00e7a (570 p\u00e1ginas) obrigar um n\u00e3o combatente a comparecer perante este tribunal, tal passaria a ser \u201ccontr\u00e1rio \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o\u201d, porque afasta o juiz natural do processo civil, que \u00e9 a justi\u00e7a ordin\u00e1ria. Esta, al\u00e9m disso, na pessoa do Procurador Geral, N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez, n\u00e3o deixou de expressar a sua hostilidade ao que considera como uma inst\u00e2ncia ileg\u00edtima. O confronto de poderes foi at\u00e9 o questionamento, em setembro de 2018, da diretora dos Assuntos jur\u00eddicos da JEP, Martha Luc\u00eda Zamora, e de dois advogados e consultores, July Milena Henr\u00edquez e Luis Ernesto Caicedo Ramirez, acusados de \u201caconselhar e proteger\u201d antigos combatentes das FARC. A alta funcion\u00e1ria foi empurrada para a demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Finalmente remetida pelo Tribunal Constitucional ao Congresso, em dezembro de 2018, para que fosse assinada pelos presidentes da C\u00e2mara e do Senado, encarregados de a remeter, em seguida, ao Chefe de Estado, a lei estatut\u00e1ria da JEP n\u00e3o terminou assim o seu percurso de combate. Enquanto Duque disse que levaria \u201ctodo o tempo necess\u00e1rio\u201d para a ratificar, o seu assessor para a paz, Miguel Antonio Ceballos, anunciou que o governo pretendia \u201cfazer obje\u00e7\u00e3o \u00e0 lei\u201d por \u201cinconveni\u00eancia\u201d (literalmente: \u201cinconveniente\u201d). A \u00fanica possibilidade que resta quando o Tribunal Constitucional julga uma lei conforme com a Constitui\u00e7\u00e3o, a \u201cobje\u00e7\u00e3o por inconveni\u00eancia\u201d permite ao Chefe de Estado modific\u00e1-la, parcial ou totalmente, devendo o Congresso decidir em seguida se aceita ou recusa a \u201cobje\u00e7\u00e3o\u201d. Por outras palavras, Duque tenta usar a sua maioria parlamentar para desrespeitar os Acordos e a decis\u00e3o do Tribunal Constitucional, inst\u00e2ncia suprema que lhe coloca areia na engrenagem.<\/p>\n<p>Foi, ent\u00e3o, em 10 de marco de 2019, num discurso televisionado que Duque anunciou, efetivamente, a sua inten\u00e7\u00e3o de alterar seis dos cento e cinquenta e nove artigos que regulam a JEP, dos quais um, altamente sens\u00edvel, se refere \u00e0 extradi\u00e7\u00e3o dos ex-guerrilheiros. Um tema tanto mais delicado quanto, no quadro de um caso particularmente \u201carrevesado\u201d e altamente significativo, os Estados Unidos reclamam especificamente a extradi\u00e7\u00e3o de um dos mais prestigiados ex-comandantes das FARC, Seuxis Paucias Hern\u00e1ndez Solarte, mais conhecido sob o nome de guerra que usava no comando do Bloco do Caribe: \u201cJes\u00fas Santrich\u201d. Intelectual, sofrendo de cegueira, ele dirigia a\u00ed, essencialmente, as a\u00e7\u00f5es de agita\u00e7\u00e3o e de propaganda, mais do que as opera\u00e7\u00f5es estritamente militares da oposi\u00e7\u00e3o armada.<\/p>\n<p>Em Havana, de outubro de 2012 a agosto de 2016, Santrich foi um dos mais duros negociadores das FARC frente aos emiss\u00e1rios de Juan Manuel Santos. Excelente orador, brilhante analista, ele devia ocupar uma das dez cadeiras do Congresso (cinco membros, cinco senadores) reservadas, durante duas legislaturas, aos dirigentes da For\u00e7a Alternativa Revolucion\u00e1ria do Comum (FARC) \u2013, novo nome da guerrilha transformada em partido pol\u00edtico, conforme acordado no final das conversa\u00e7\u00f5es. No entanto, em 9 de abril de 2018, foi preso com base numa circular vermelha da Interpol, emitida pelo Tribunal Federal do distrito sul de Nova York, acusado de \u201cconspira\u00e7\u00e3o\u201d, pelo envio de dez toneladas de coca\u00edna para os Estados Unidos.<\/p>\n<p>A prova (que n\u00e3o prova nada): uma foto alegadamente tirada em 8 de fevereiro de 2018, enquanto Santrich estava supostamente \u201cnegociando&#8221; a expedi\u00e7\u00e3o para o Norte do carregamento de cerca de US $ 15 milh\u00f5es, com um agente \u201cinfiltrado\u201d da Administra\u00e7\u00e3o de Repress\u00e3o da Droga (DEA, os \u201cstups\u201d [estupefacientes \u2013 NT] dos EUA) e alguns c\u00famplices \u2013 incluindo um certo Marlon Mar\u00edn, sobrinho de Iv\u00e1n M\u00e1rquez (o principal negociador das FARC em Havana).<\/p>\n<p>Curiosa maneira de conspirar discretamente com perigosos narcotraficantes: o sulfuroso encontro teve lugar na casa de Santrich, vigiado e protegido de forma permanente pela pol\u00edcia, por causa da personalidade sens\u00edvel do seu habitante! Num v\u00eddeo produzido ulteriormente, veem-se os mesmos \u201cverdadeiros falsos narcotraficantes\u201d discutindo e entregando um documento ao ex-guerrilheiro. Detalhe que mata: nos referimos que Santrich \u00e9 cego. Algu\u00e9m poderia oferecer-lhe a B\u00edblia, fazendo-o acreditar que \u00e9 o Alcor\u00e3o. Nenhum som permite ouvir as palavras \u201ccoca\u00edna\u201d, \u201cbranco\u201d, \u201cdroga\u201d, \u201cnarc\u00f3tico\u201d, \u201ccheiro\u201d, \u201ccarga\u201d ou algum outro nome aproximado.<\/p>\n<p>Contudo, o conte\u00fado da acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser muito s\u00e9rio. Santrich protesta em sua boa f\u00e9. Tendo-se apresentado como o sobrinho de Iv\u00e1n M\u00e1rquez, Marlon Mar\u00edn inspirava-lhe confian\u00e7a. Ele e os outros, incluindo o provocador da DEA, falavam nesse dia sobre fundos para \u201cum projeto produtivo, especificamente de fazenda agr\u00edcola, nas zonas onde os acordos da reforma rural deveriam ser implementados\u201d destinados, entre outras coisas, \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o dos antigos combatentes. \u201cIsso far-se-ia com funcion\u00e1rios do Minist\u00e9rio do P\u00f3s-conflito, inclusive com o doutor [Rafael] Pardo [6]\u201d.<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o permanece, avan\u00e7ada pela toupeira dos stups americanos e Marlon Mar\u00edn (imediatamente extraditado para os Estados Unidos, onde vive como \u201ctestemunha protegida\u201d sem ter, em qualquer momento, testemunhado perante a justi\u00e7a colombiana): misturado com a Venezuela (for\u00e7osamente!) e o cartel de Sinaloa, no M\u00e9xico, Santrich n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de um vulgar narcotraficante.<\/p>\n<p>Seja qual for o lado por que se lhe pegue e com toda a necess\u00e1ria prud\u00eancia, esta hist\u00f3ria \u201cfede\u201d a provoca\u00e7\u00e3o. E, depois, a evidente vontade do Centro Democr\u00e1tico (partido de Uribe e Duque), da Procuradoria de N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez e das turbulentas organiza\u00e7\u00f5es de Washington de descartar um tem\u00edvel opositor, torpedear moralmente as FARC e quebrar o impulso dos partid\u00e1rios da paz.<\/p>\n<p>Mesmo do ponto de vista legal, o processo usado para prender Santrich \u00e9 proibido na Col\u00f4mbia. No mundo da espionagem, existem dois tipos de opera\u00e7\u00f5es: a do agente clandestino (\u201cundecover agent\u201d), que se infiltra numa organiza\u00e7\u00e3o para a\u00ed recolher informa\u00e7\u00f5es; e a do agente provocador, que engana a sua presa (\u201centrapment\u201d) e incita-a a cometer um delito. Amplamente utilizada nos (e pelos) Estados Unidos, esta \u00faltima t\u00e9cnica foi proibida na Col\u00f4mbia pelo artigo 243 do C\u00f3digo de Processo Penal e por, pelo menos, duas senten\u00e7as do Tribunal Constitucional (C-176, de 1994 e C-156, de 2016) [7].<\/p>\n<p>Esta grosseira viola\u00e7\u00e3o da lei n\u00e3o impede Juan Manuel Santos, ent\u00e3o presidente, de justificar a pris\u00e3o como \u201cnecess\u00e1ria para tornar cred\u00edvel um Acordo de Paz que os colombianos acreditam ter sido excessivamente generoso com os rebeldes\u201d e de esclarecer: \u201cA minha m\u00e3o n\u00e3o tremer\u00e1 para autorizar a extradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAntes morrer do que apodrecer numa cadeia nos Estados Unidos\u201d, reagiu Santrich. Ele inicia uma greve de fome, em abril\/maio de 2018, que duraria 43 dias.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed tem in\u00edcio uma batalha legal para saber quem deve decidir o seu destino. Se o delito, o crime ou a \u201cconspira\u00e7\u00e3o\u201d destinada a comet\u00ea-los ocorreram at\u00e9 \u00e0 entrada em vigor dos acordos de paz (1\u00ba de dezembro de 2016), a JEP \u00e9 competente e, conforme especifica a lei, qualquer extradi\u00e7\u00e3o est\u00e1 exclu\u00edda. Se ocorreram posteriormente, a justi\u00e7a ordin\u00e1ria toma conta do alegado delinquente, com todas as suas poss\u00edveis consequ\u00eancias (incluindo uma viagem gratuita e sem fim \u00e0s infernais pris\u00f5es americanas), sabendo-se que as duvidosas provas apresentadas (foto e v\u00eddeo) n\u00e3o permitem determinar a data exata da \u201cconspira\u00e7\u00e3o\u201d. Mesmo se, neste ponto, Santrich nunca tivesse mantido qualquer ambiguidade: a reuni\u00e3o suspeita ocorreu \u201cdepois\u201d da data chave. O verdadeiro problema reside no fato de se tratar de uma manipula\u00e7\u00e3o destinada a difam\u00e1-lo, para o esmagar.<\/p>\n<p>Em 20 de junho de 2018, a JEP considera-se competente para julgar o caso. H\u00e1 linchamentos no ar: roxo de raiva, N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez acusa a jurisdi\u00e7\u00e3o \u201cconcorrente\u201d de \u201camea\u00e7ar a ordem constitucional\u201d. Tenaz como a var\u00edola, recusa duas vezes o pedido de habeas corpus apresentado pela Santrich. A tomada de posse oficial de Duque, a 7 de agosto, aumenta a energia. \u00c0 JEP, que lhe pediu o dossi\u00ea de extradi\u00e7\u00e3o do ex-guerrilheiro, ele enviou, em setembro, presum\u00edveis provas diferentes daquelas que a justi\u00e7a norte-americana alegadamente disp\u00f5e (sem nunca as ter comunicado aos colombianos). O que leva uma comiss\u00e3o rogat\u00f3ria da JEP a reclam\u00e1-las a quem de direito, atrav\u00e9s do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a (colombiana) e do Departamento de Estado (americano). Sem resultado. No in\u00edcio de fevereiro de 2019, o embaixador dos EUA, Kevin Whitaker, contentou-se em afirmar: \u201cAt\u00e9 agora, n\u00e3o recebemos nada do governo [colombiano] sobre este assunto\u201d.<\/p>\n<p>O p\u00e9ssimo folhetim torna-se rid\u00edculo (ou obsceno): quando est\u00e1 para terminar o prazo de quarenta dias concedido pela JEP ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a para lhe remeter as provas que os Estados Unidos disp\u00f5em contra Santrich, a ministra Gloria Mar\u00eda Borrero anuncia descobrir \u201ccom surpresa\u201d que a solicita\u00e7\u00e3o oficial, uma \u201ccarta ordin\u00e1ria\u201d enviada a Washington atrav\u00e9s do servi\u00e7o postal p\u00fablico 4-72, se perdeu&#8230; no Panam\u00e1 [8].<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, e na esperan\u00e7a de deslegitimar a t\u00e3o inc\u00f4moda JEP, os duvidosos m\u00e9todos da DEA fazem das suas. Em mar\u00e7o, no bar do luxuoso hotel JW Mariott, situado na \u201czona rosa\u201d, bairro financeiro e de entretenimento do norte de Bogot\u00e1, a pol\u00edcia prende em flagrante delito um juiz da JEP, Carlos Julio Bermeo. Acabava de receber uma primeira parcela de 40.000 d\u00f3lares dos 500.000 que lhe prometeram para \u201cadulterar&#8221; o dossi\u00ea de Santrich, para evitar a sua extradi\u00e7\u00e3o. Corrompido em pot\u00eancia e perfeito \u201cpombo\u201d, Bermeo nunca duvidou que estava lidando com um agente provocador da&#8230; Procuradoria colombiana [9].<\/p>\n<p>Quando os fundamentos do \u201cshow\u201d s\u00e3o descobertos, o procurador que os musicou justifica os m\u00e9todos utilizados e afirma que se deve considerar como \u201cnormal\u201d que o procurador-geral N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez tenha autorizado a utiliza\u00e7\u00e3o dos 500.000 d\u00f3lares, assinando uma resolu\u00e7\u00e3o para permitir retir\u00e1-los dos \u201cfundos especiais\u201d da Procuradoria.<\/p>\n<p>As provas solicitadas aos Estados Unidos nunca chegam. E como o seu hom\u00f3logo Trump, Duque vai sempre \u201cmais al\u00e9m\u201d. Claramente preocupada, a Miss\u00e3o de verifica\u00e7\u00e3o da ONU na Col\u00f4mbia exige que seja respeitado \u201cintegralmente, o Acordo de paz assinado com as FARC\u201d. Em 8 de abril, apesar da presen\u00e7a onipresente no hemiciclo de um furioso N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez e das press\u00f5es do novo embaixador norte-americano, Kevin Whitaker, a C\u00e2mara dos Deputados rejeita as \u201cobje\u00e7\u00f5es\u201d do Chefe de Estado, com uma clara maioria de 110 vozes contra 44. A sua derrota acentua-se quando o Senado vota no mesmo sentido, no in\u00edcio de maio.<\/p>\n<p>Voltados de costas, o Centro Democr\u00e1tico e os seus aliados contestam falsamente o resultado da \u00faltima vota\u00e7\u00e3o \u2013 faltaria \u201cuma voz\u201d \u2013 e pedem ao Tribunal Constitucional para resolver. Este \u00faltimo apenas destaca o \u00f3bvio, em 29 de maio: um qu\u00f3rum de 93 senadores foi convocado para votar e 47 rejeitaram as \u201cobje\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 estas foram rejeitadas. O bra\u00e7o de ferro inclina-se, cada vez mais, contra o governo.<\/p>\n<p>Em 15 de maio, a Jurisdi\u00e7\u00e3o Especial para a Paz anunciou que recusava o pedido de extradi\u00e7\u00e3o de Santrich: \u201cAs provas apresentadas pela Procuradoria dos EUA n\u00e3o permitem afirmar [que este] fez tr\u00e1fico de droga depois da entrada em vigor do Acordo de paz\u201d. Por outro lado, considerou a senten\u00e7a, \u201cos membros da DEA [que desenvolveram a provoca\u00e7\u00e3o] n\u00e3o foram legalmente autorizados pela Procuradoria colombiana, que teria podido (e devido) faz\u00ea-lo, atrav\u00e9s dos mecanismos existentes em mat\u00e9ria de coopera\u00e7\u00e3o judici\u00e1ria\u201d. Por outras palavras: os \u201cservi\u00e7os\u201d ianques acreditam que podem atuar na Col\u00f4mbia como num pa\u00eds conquistado.<\/p>\n<p>O Tribunal Constitucional est\u00e1 agora caminhando no mesmo sentido. Depois de treze longos meses de encarceramento, decide ele, Santrich deve ser libertado! Acusando a JEP de \u201cdesafiar a ordem jur\u00eddica\u201d e \u201camea\u00e7ar a democracia\u201d, o procurador-geral N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez anuncia espetacularmente a sua demiss\u00e3o e apela aos cidad\u00e3os \u201cpara se mobilizarem com determina\u00e7\u00e3o no restabelecimento da legalidade e da defesa da paz\u201d. A ministra da Justi\u00e7a, Gloria Mar\u00eda Borrero segue-o. Na sua miss\u00e3o de se alinhar com os descontentes, Washington anula o visto a um membro (John Jairo C\u00e1rdenas), que denunciou publicamente a inger\u00eancia do embaixador Kevin Whitaker, e anunciou san\u00e7\u00f5es contra tr\u00eas ju\u00edzes \u2013 dois do Tribunal Constitucional (Antonio Jos\u00e9 Lizarazo, Diana Fajardo) e um do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a (Eyder Pati\u00f1o).<\/p>\n<p>Decidida em 13 de maio, a liberta\u00e7\u00e3o da Santrich arrasta-se inexplicavelmente, obrigando a defesa a apresentar um novo habeas corpus. Ainda foi preciso esperar at\u00e9 ao dia 17 para que o ex-guerrilheiro deixasse a pris\u00e3o de alta seguran\u00e7a de La Picota, em p\u00e9ssimo estado, numa cadeira de rodas. E, golpe de teatro, \u00e9 recapturado dez minutos depois, por ordem do Procurador. Tudo isto sem explica\u00e7\u00f5es. Dependendo das suas opini\u00f5es, este golpe de teatro entusiasma, petrifica ou escandaliza os colombianos. Mas s\u00f3 mais tarde se poder\u00e1 reconstituir a cadeia de acontecimentos.<\/p>\n<p>A ordem para libertar o ex-guerrilheiro entregue pela JEP \u00e0s autoridades do Instituto Nacional Penitenci\u00e1rio e Prisional (INPEC) chegou a 17 de maio, \u00e0s 9h. Nada acontece, nenhuma autoridade aparece. Em todo o lado farfalham as conversas, o \u201cdisse me disse\u201d. Desde o dia 13, o ex-presidente Uribe dispara em todas as dire\u00e7\u00f5es. De acordo com o que espalha aos quatro ventos, Santrich vai ser transferido para a base do Comando a\u00e9reo de transporte militar (CATAM), pr\u00f3xima do aeroporto internacional el Dorado, de Bogot\u00e1, entregue \u00e0 DEA e enviado manu militari para os Estados Unidos. Hip\u00f3tese confirmada quando, vindo das altas esferas, surgiu um pequeno ru\u00eddo: Duque vai decretar o Estado de como\u00e7\u00e3o interna e, efetivamente, entregar o detido [10].<\/p>\n<p>Santrich tomou conhecimento desses rumores. E descobre que, apesar das ordens da JEP, continua preso. Ele anunciou sempre a cor. Em nenhum caso sofrer\u00e1 o destino do seu camarada Ricardo Palmera Pineda (conhecido como \u201cSim\u00f3n Trinidad\u201d), preso em 2 de janeiro de 2003, no Equador, entregue por Uribe, um ano depois, aos Estados Unidos, e enterrado vivo durante 60 anos numa pris\u00e3o de alta seguran\u00e7a, no meio do deserto, no Colorado. Absolvido pelos tribunais norte-americanos depois dos tr\u00eas primeiros julgamentos (dois por narcotr\u00e1fico e um por tomada de ref\u00e9ns), Sim\u00f3n Trinidad foi finalmente condenado por pertencer ao Secretariado (o Estado-Maior) das FARC \u2013 de que n\u00e3o era membro! \u2013, respons\u00e1vel pela \u201ctomada de ref\u00e9ns\u201d de tr\u00eas mercen\u00e1rios norte-americanos em miss\u00e3o de espionagem e capturados pela guerrilha, depois de esta ter abatido o seu avi\u00e3o, em fevereiro de 2003. Num mundo normal, estes homens s\u00e3o classificados como \u201cprisioneiros de guerra\u201d. &#8230;<\/p>\n<p>Mergulhado neste precedente e como ele mais tarde confirmar\u00e1 ao senador de esquerda Iv\u00e1n Cepeda, Santrich tenta suicidar-se, abrindo as veias. Quando, na tarde do dia 17, acontece o simulacro da sua liberta\u00e7\u00e3o, as dezenas de c\u00e2maras que o aguardam no port\u00e3o da pris\u00e3o filmam um homem meio comatoso e, sobretudo, ap\u00f3s a chegada da pol\u00edcia, de surpresa, a sua deten\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p>O Procurador, em seguida, afirma ter novas provas contra ele. Elementos que ele nunca comunicou \u00e0 JEP e provenientes da \u201ctestemunha protegida\u201d Marlon Mar\u00edn e da \u201ccoopera\u00e7\u00e3o internacional\u201d dos Estados Unidos. Esta tentativa de \u201cjulgamento expresso\u201d fracassa. Em 29 de maio, de uma vez por todas, o Supremo Tribunal ordenou a imediata liberta\u00e7\u00e3o de Santrich e interrompeu qualquer tentativa de extradit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Pode, a partir da\u00ed, considerar-se que \u201ctudo est\u00e1 bem no melhor dos mundos\u201d. A primeira decis\u00e3o que permitiu tal abordagem foi a do Conselho de Estado. Este considerou que Santrich manteve a sua investidura como deputado, na medida em que, se ele n\u00e3o tinha tomado posse e ocupado o seu lugar ao assumir o cargo na nova Assembleia, em 20 de julho de 2018, foi por uma raz\u00e3o de for\u00e7a maior \u2013 tinha sido preso! O Supremo Tribunal de Justi\u00e7a confirmou que Santrich era deputado e acrescentou que, portanto, a sua acusa\u00e7\u00e3o por \u201cnarcotr\u00e1fico\u201d s\u00f3 poderia ser julgada por si. Pelo que, em 10 de junho, Santrich p\u00f4de finalmente prestar juramento no cargo de vice-presidente da Assembleia e, em 11 de junho, sentar-se pela primeira vez como membro do Parlamento.<\/p>\n<p>No entanto, o cozido nauseabundo que o precedeu provocou, em profundidade, uma tripla movimenta\u00e7\u00e3o, com consequ\u00eancias ainda imprevis\u00edveis: uma divis\u00e3o no seio da FARC; uma crise institucional no cora\u00e7\u00e3o do poder; um inquietante enfraquecimento das esperan\u00e7as de paz.<\/p>\n<p>Desafiando a palavra do Estado quando os assinou, os Acordos de Paz foram constantemente modificados unilateralmente, atrav\u00e9s dos mais altos tribunais (Tribunal Constitucional, Supremo Tribunal de Justi\u00e7a) e da maioria de direita do Congresso. Em detrimento da reintegra\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica dos insurgentes e das reformas necess\u00e1rias para superar a injusti\u00e7a estrutural que provocou o conflito, juntando-se \u00e0 campanha de terror realizada atrav\u00e9s do assassinato seletivo e di\u00e1rio de dirigentes sociais, a ofensiva dos Estados Unidos (via DEA) e da dupla \u201cDuque-Uribe\u201d (atrav\u00e9s de N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez) contra Santrich, tornou claro que as fac\u00e7\u00f5es mais arcaicas da direita colombiana (e \u201cyanquee\u201d) apostavam na pol\u00edtica do quanto pior melhor.<\/p>\n<p>Causalidade, finalidade, consequ\u00eancias &#8230; Desde a pris\u00e3o do seu \u201ccamarada\u201d Santrich, em abril de 2018, o emblem\u00e1tico Iv\u00e1n M\u00e1rquez (de seu nome verdadeiro Luciano Mar\u00edn Arango), primeiro dos negociadores das FARC em Havana, denuncia \u201cuma montagem\u201d e anuncia que, na aus\u00eancia de garantias suficientes, ele pr\u00f3prio n\u00e3o tomar\u00e1 posse do seu assento senatorial, em julho: o Minist\u00e9rio P\u00fablico e a DEA, segundo ele, e com m\u00e9todos semelhantes, pretendem acus\u00e1-lo pelo mesmo tipo de delitos. M\u00e1rquez insta os ex-guerrilheiros agrupados nos vinte e quatro Espa\u00e7os Territoriais de Treino e Reincorpora\u00e7\u00e3o (ETCR) a \u201cexigir a liberta\u00e7\u00e3o imediata de Santrich\u201d e a \u201cdefender a implementa\u00e7\u00e3o dos acordos\u201d. Por outro lado, o ex-comandante-em-chefe dos rebeldes e atual l\u00edder do novo partido FARC, Rodrigo Londo\u00f1o Echeverri (mais conhecido por seu nome de guerra de Timole\u00f3n Jim\u00e9nez ou Tymoshenko), apela \u00e0 calma e pede pondera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma primeira e clara divis\u00e3o aparece quando M\u00e1rquez deixa Bogot\u00e1 e se junta \u00e0 ex-base de guerrilheiros do ETCR de Miravalle (Caquet\u00e1), antes de passar \u00e0 clandestinidade. L\u00e1, encontrou Hern\u00e1n Dar\u00edo Vel\u00e1squez Saldarriaga (tamb\u00e9m conhecido como \u201cEl Paisa\u201d) e Henry Castellanos Garz\u00f3n (\u201cRoma\u00f1a\u201d) e outros ex-comandantes de primeira linha em ruptura. Sem pertencer de nenhum modo \u00e0 minoria de ex-insurgentes que se recusaram a depor as armas, seja por raz\u00f5es pol\u00edticas ou para se entregar a atividades mafiosas, eles manifestam-se regularmente em mensagens, como a de 25 de dezembro de 2018 \u2013 \u201cN\u00f3s realmente ag\u00edamos como cegos quando n\u00e3o quer\u00edamos ver os in\u00fameros antecedentes de trai\u00e7\u00e3o desta oligarquia, depois da assinatura de epis\u00f3dios de paz\u201d \u2013 ou a que, no final de janeiro de 2019, denuncia a agress\u00e3o dos Estados Unidos, com a cumplicidade de Duque, contra a Venezuela bolivariana.<\/p>\n<p>Em setembro do ano passado, numa carta ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, \u201cRoma\u00f1a\u201d confirmou o seu compromisso de cumprir os acordos, exigiu fundos prometidos aos ex-guerrilheiros para o financiamento de projetos produtivos e pediu \u201cseguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d em apoio \u00e0 sua inten\u00e7\u00e3o de \u201cn\u00e3o voltar \u00e0 ilegalidade\u201d. Ao mesmo tempo, um outro \u201chist\u00f3rico\u201d, Fabi\u00e1n Ram\u00edrez, ratificou, atrav\u00e9s de um comunicado \u00e0 Comiss\u00e3o de Paz do Congresso, que se mantinha no quadro do \u201cpacto firmado com o governo de Santos\u201d, explicando as raz\u00f5es do seu desaparecimento na natureza: \u201cPor este motivo [a perda de confian\u00e7a devido \u00e0 montagem contra Santrich] e pela nossa seguran\u00e7a pessoal, optamos por n\u00e3o ser uma v\u00edtima adicional da manobra suja orquestrada atrav\u00e9s do roteiro dado a Marlon Mar\u00edn para que manchasse o nome de alguns dos nossos camaradas com acusa\u00e7\u00f5es totalmente falsas [11]\u201d.<\/p>\n<p>O Partido balan\u00e7a. Ele tamb\u00e9m reafirma a sua vontade de continuar o processo de paz, mas, temendo a sua influ\u00eancia na base, pede aos seus dirigentes discordantes que respeitem as suas obriga\u00e7\u00f5es e, em particular, permane\u00e7am no ETCR, sem conseguir unanimidade nas suas fileiras. Enquanto alguns, na dire\u00e7\u00e3o, s\u00e3o muito cr\u00edticos dos \u201cdissidentes\u201d, outros compreendem e aprovam os seus motivos.<\/p>\n<p>O debate agudiza-se ainda mais quando, no final de abril de 2019, o governo oferece uma recompensa de US $ 1 milh\u00e3o por qualquer informa\u00e7\u00e3o que permita a pris\u00e3o de El Paisa. Convocado tr\u00eas vezes pela JEC, n\u00e3o compareceu. Esta revoga a \u201cliberdade condicional\u201d de que beneficiava e, em 15 de maio, confirma o mandado de pris\u00e3o contra ele. A medida chega num momento em que, apesar de uma ordem de liberta\u00e7\u00e3o, Santrich \u00e9 mantido na pris\u00e3o. \u00c9 demais para Iv\u00e1n M\u00e1rquez. Numa carta incendi\u00e1ria destinada aos milhares de ex-rebeldes, ele \u201cd\u00e1 um murro na mesa\u201d: \u201cColegas do ETCR: em nome dos comandantes militares do antigo Estado-Maior Central das FARC, comandantes das frentes e das colunas, afetados pela trai\u00e7\u00e3o do Acordo de Paz de Havana perpetrada pelo Estado, reiteramos, de uma forma autocr\u00edtica, que foi um grave erro ter entregado armas a um Estado trapaceiro, confiantes na boa f\u00e9 do parceiro. Que ingenuidade n\u00e3o nos termos lembrado das s\u00e1bias palavras de nosso comandante em chefe Manuel Marulanda V\u00e9lez, que nos advertiu que as armas eram a \u00fanica garantia de cumprimento desses acordos [12]\u201d.<\/p>\n<p>Desta vez, podemos falar de uma verdadeira fratura. Quando Santrich, saindo em cadeira de rodas da Pris\u00e3o de La Picota, foi espetacularmente detido novamente, \u201cTymoshenko\u201d, o n\u00famero \u201cum\u201d do partido, fez o servi\u00e7o m\u00ednimo, em termos de solidariedade com um dos seus: se Santrich \u00e9 extraditado ou n\u00e3o, \u201cestamos com a paz, aconte\u00e7a o que acontecer\u201d. Ele reage infinitamente mais \u00e0 carta de M\u00e1rquez, que ele acusa de \u201cprocurar o aplauso de um punhado de cabe\u00e7as quentes\u201d: \u201cInfelizmente, Iv\u00e1n n\u00e3o percebeu a dimens\u00e3o do cargo que a nossa longa luta o levou a ocupar. Partiu, sem dar qualquer explica\u00e7\u00e3o e recusou-se a ocupar o seu lugar no Senado, deixando a nossa representa\u00e7\u00e3o parlamentar sem dire\u00e7\u00e3o, num momento que exigiria ainda mais a sua presen\u00e7a\u201d. Chega a culp\u00e1-lo do papel do sobrinho Marlon Mar\u00edn, na tenebrosa s\u00e9rie intitulada \u201cNarcos\u201d.<\/p>\n<p>No seio da FARC, muitos continuam sem voz. Ouvem-se os primeiros murm\u00farios. Disparam-se cr\u00edticas mais ou menos filtradas: para o deputado do partido, Benedicto Gonz\u00e1lez, a opini\u00e3o de \u201cTymoshenko\u201d \u00e9 \u201crespeit\u00e1vel\u201d, mas \u201cn\u00e3o podemos fazer crer que \u00e9 partilhada pelo Conselho Nacional dos Comuns [a maior autoridade do partido das ex-FARC que agora se designa For\u00e7a Alternativa Revolucion\u00e1ria do Comum \u2013 NT], nem pelas bases\u201d. No seio das quais uma perda de confian\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o se torna percept\u00edvel, amea\u00e7ando, desta vez realmente, a coes\u00e3o de ex-guerrilheiros a cada dia mais insatisfeitos com as condi\u00e7\u00f5es execr\u00e1veis em que se desenrola a sua suposta reintegra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na trincheira oposta, o Estado, como tal, sai enfraquecido desta sequ\u00eancia, abalado pela guerra aberta entre as suas v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es. Do lado do governo, o tempo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para triunfalismos. Os acontecimentos n\u00e3o se viraram a seu favor. Mesmo as elites econ\u00f4micas est\u00e3o divididas entre \u201carcaicos\u201d e \u201cmodernos\u201d, repetindo (ou continuando) as discord\u00e2ncias entre os ex-presidentes Uribe e Santos, depois deste ter sido eleito para a presid\u00eancia, em 2010. Ao rejeitar as \u201cobje\u00e7\u00f5es\u201d do atual chefe de Estado, a C\u00e2mara dos Deputados e o Senado infligiram-lhe, claramente, uma humilha\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o disp\u00f5e de uma maioria autom\u00e1tica para governar. Os partid\u00e1rios de Santos, ex-aliados (Cambio Radical), os Verdes e o centro-esquerda juntaram for\u00e7as para impedir, na medida do poss\u00edvel, o atropelo final dos Acordos de Paz.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia de acontecimentos provocou tanta discuss\u00e3o que n\u00e3o foi poss\u00edvel a Duque declarar o estado de como\u00e7\u00e3o interna (por enquanto). A ren\u00fancia do seu grande aliado N\u00e9stor Humberto Mart\u00ednez tamb\u00e9m lhe p\u00f4s uma pedra no sapato. N\u00e3o escapou a ningu\u00e9m que o Procurador Geral aproveitou a oportunidade para sair pela \u201cporta grande\u201d \u2013 a da \u201cconvic\u00e7\u00e3o desrespeitada\u201d \u2013 quando se aproximava dele, a alta velocidade, uma an\u00e1lise do seu papel no esc\u00e2ndalo \u201cOdebrecht\u201d \u2013 do nome do gigante da constru\u00e7\u00e3o civil brasileiro, que salpica todo o continente [13]. Advogado da empresa de servi\u00e7os financeiros Corficolombiana, s\u00f3cia da Odebrecht na Col\u00f4mbia, Mart\u00ednez sabia das irregularidades no grupo de constru\u00e7\u00e3o, na ordem de US $ 6,5 milh\u00f5es, e n\u00e3o as denunciou. Um caso que \u00e9 ainda mais complicado, porque tr\u00eas testemunhas capitais morreram em condi\u00e7\u00f5es mais do que suspeitas nestes \u00faltimos meses. E que outro grande caso de corrup\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 abalando as altas esferas do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Finalmente, o outro grande \u201cs\u00f3cio\u201d, Donald Trump, \u00e9 t\u00e3o imprevis\u00edvel e vers\u00e1til com Duque como com qualquer outra pessoa. Aos abra\u00e7os e cenouras (para atingir a Venezuela), sucedem-se os golpes quando, queixando-se do aumento de 50% das culturas de coca e da produ\u00e7\u00e3o decorrente de coca\u00edna, o inquilino da Casa Branca declara secamente \u201cDuque \u00e9 um bom rapaz, mas n\u00e3o fez nada por n\u00f3s\u201d. J\u00e1 vimos amigos mais calorosos.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, \u00e9 preciso ser muito esperto para o prever. O \u00faltimo golpe de teatro (antes do pr\u00f3ximo): quando teve de comparecer perante o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, em 9 de julho, para ser ouvido sob a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cnarcotr\u00e1fico\u201d, Jes\u00fas Santrich desapareceu, no dia 30 de junho. Multiplicam-se os coment\u00e1rios duros e a especula\u00e7\u00e3o arriscada. As mesmas palavras, os mesmos racioc\u00ednios de antes. Esquecendo uma verdade fundamental: o presente explica-se sempre pelo passado. Vamos mencionar aqui algumas hip\u00f3teses, tomando o cuidado de excluir a palavra \u201ccerteza\u201d (\u201cpalavra que um homem que viveu um pouco risca do seu dicion\u00e1rio\u201d, segundo Voltaire, precisamente no seu Dicion\u00e1rio, no artigo \u201cCerto\u201d).<\/p>\n<p>Assim que, a 11 de junho, Santrich finalmente tomou o seu lugar na C\u00e2mara dos Representantes, o presidente Duque, depois de regressar da Argentina, onde conspirava com o seu colega Mauricio Macri, para descobrir como acabar com Maduro, acabara de pedir ao Minist\u00e9rio P\u00fablico \u201cque impedisse esta tomada de posse\u201d, apesar de o Conselho de Estado a ter claramente aprovado. O chefe de Estado teve de a aceitar, n\u00e3o sem comentar acidamente: \u201cN\u00e3o podemos deixar de chamar as coisas pelo seu nome. Ali\u00e1s, Jes\u00fas Santrich \u00e9 um mafioso e todo o pa\u00eds sabe que ele negociou a expedi\u00e7\u00e3o de um carregamento de coca\u00edna\u201d.<\/p>\n<p>De Washington chovem as cr\u00edticas contra o Supremo Tribunal da Col\u00f4mbia, por ter libertado o ex-guerrilheiro. \u201cConsideramos esta decis\u00e3o lament\u00e1vel e que \u00e9 essencial e urgente um recurso\u201d, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Morgan Ortegas (antes de aquecer o ambiente com a discuss\u00e3o da alian\u00e7a entre os dois pa\u00edses, na tentativa de introduzir ajuda humanit\u00e1ria e soldados na Venezuela para \u201cfazer frente\u201d a Maduro).<\/p>\n<p>Quando, finalmente, o novo deputado, impass\u00edvel atr\u00e1s dos seus \u00f3culos escuros, os ombros cobertos com seu eterno keffiyeh palestiniano, toma o seu lugar na Assembleia, d\u00e1-se uma bronca. Representantes do Centro Democr\u00e1tico exibem cartazes \u201cFora com Santrich!\u201d. Mesmo os chamados \u201cVerdes\u201d exibem faixas: \u201cDefendemos a paz, n\u00e3o Santrich\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso um meteorologista para saber em que dire\u00e7\u00e3o sopra o vento. Em tal contexto, com tais press\u00f5es de todos os lados, que hip\u00f3teses tem Santrich para escapar das nuvens negras que se acumulam sobre a sua cabe\u00e7a? Um julgamento e um veredicto muito incertos do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a? Ao terem in\u00edcio os procedimentos contra ele, descobriu que n\u00e3o era \u201cnecess\u00e1rio, proporcional ou razo\u00e1vel\u201d encarcer\u00e1-lo durante esta etapa, porque a sua poss\u00edvel priva\u00e7\u00e3o de liberdade poderia ser decidida ap\u00f3s t\u00ea-lo ouvido no enquadramento da informa\u00e7\u00e3o judicial (\u201cindagat\u00f3ria\u201d) de 9 de julho, com o risco, em caso de pris\u00e3o seguida de condena\u00e7\u00e3o, de v\u00ea-lo extraditado, uma vez que a JEP tinha sido afastada! N\u00e3o havia a certeza se o rebelde queria jogar a roleta russa &#8230;<\/p>\n<p>Quando deixou La Picota, tinha declarado claramente o seu alinhamento com alguns dos seus camaradas: \u201c[Iv\u00e1n] M\u00e1rquez assumiu uma posi\u00e7\u00e3o autocr\u00edtica, mas reiterou o seu desejo de paz; envio-lhe uma mensagem de amor e fraternidade. (&#8230;) O que fazem M\u00e1rquez e El Paisa \u00e9 insistir na necessidade de respeitar o acordo, e \u00e9 tamb\u00e9m o que vou fazer [14]\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 que estamos falando de M\u00e1rquez, notemos de passagem que, em 14 de junho, o Conselho de Estado decretou a sua perda de lugar no Senado, por n\u00e3o o ter tomado dentro do tempo requerido e \u201csem apresentar qualquer prova\u201d do que ele considera \u201cuma aus\u00eancia de garantias\u201d.<\/p>\n<p>A enumera\u00e7\u00e3o dos poss\u00edveis esconderijos de Santrich varia at\u00e9 o infinito: alguns veem-no em casa do diabo mais velho, protegido pelo ELN; outros, na Venezuela, com (ou sem) o seu camarada M\u00e1rquez, ajudado pelo seu \u201cc\u00famplice\u201d Maduro; outros ainda, com um dos grupos armados remanescentes das FARC; ou \u00e0 procura de asilo pol\u00edtico num pa\u00eds garantidor dos acordos de paz (Noruega e Cuba). Seusis Jos\u00e9 Hern\u00e1ndez, seu filho, mostra-se muito preocupado: \u201cDuvido que o desaparecimento do meu pai tenha a ver com um ato de rebeldia ou qualquer coisa que v\u00e1 contra a paz\u201d, diz ele, n\u00e3o descartando que o ex-guerrilheiro tenha sido sequestrado e se tenha juntado \u00e0 longa lista dos \u201cdesaparecidos\u201d [15].<\/p>\n<p>Onde quer que esteja, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa para ningu\u00e9m. Exceto, talvez, para os advers\u00e1rios da paz e da JEC, a come\u00e7ar por Duque, que dizem fanfarronadas, comem do bom e do melhor e gozam a vida. Assim que a not\u00edcia foi dada, o movimento cidad\u00e3o \u201cDefendamos a Paz\u201d, temendo as consequ\u00eancias previs\u00edveis, pediu a Santrich que informasse as autoridades sobre o seu paradeiro e comparecesse perante o CSJ, em 9 de julho, como estava previsto.<\/p>\n<p>Nesse dia, em que apenas os seus advogados compareceram e Santrich n\u00e3o reapareceu, o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a emitiu um mandado de pris\u00e3o e ordenou a sua captura. Ei-lo agora marcado com o status de \u201cfora da lei\u201d. Sem surpresa, o centro, a direita e a extrema direita reagiram de forma mec\u00e2nica e com \u00f3dio, como rob\u00f4s. Da esquerda moderada de Gustavo Petro \u2013 candidato do P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo (PDA), na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o presidencial (41,8% dos votos) \u2013 at\u00e9 ao altamente comprometido senador Iv\u00e1n Cepeda, veio uma reprova\u00e7\u00e3o un\u00e2nime. Alguns claramente vituperaram, maldisseram, culparam e condenaram o rebelde. \u201cO que aconteceu \u00e9 triste\u201d, disse Cepeda, que tinha acompanhado Santrich quando foi libertado da pris\u00e3o e que estava preocupado pelos danos causados ao processo de constru\u00e7\u00e3o da paz.<\/p>\n<p>Numa declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o Conselho Pol\u00edtico Nacional da FARC esclareceu que a conduta de Santrich \u201c\u00e9 de sua \u00fanica responsabilidade\u201d e que, \u201ctal como fez com outras decis\u00f5es pessoais, n\u00e3o [consultou] o partido nem a sua dire\u00e7\u00e3o\u201d. Olhando para o movimento como um todo, a declara\u00e7\u00e3o concluiu expressando a sua confian\u00e7a em que \u201ca comunidade internacional e a justi\u00e7a saber\u00e3o fazer a diferen\u00e7a entre as determina\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos ou grupos que rejeitam o que foi assinado nos Acordos de Havana, e a grande maioria de nosso partido FARC, que se mant\u00e9m leal e firme no seu projeto de paz com justi\u00e7a social\u201d.<\/p>\n<p>Por estas linhas, compreendeu-se facilmente a l\u00f3gica dos l\u00edderes de um partido j\u00e1 impopular na opini\u00e3o publica, diretamente afetado pela reprova\u00e7\u00e3o geral que, por ricochete, recai sobre eles. Os l\u00edderes est\u00e3o tamb\u00e9m preocupados com o sinal negativo que esse regresso \u00e0 clandestinidade envia a milhares de guerrilheiros de base que, tanto respeitam Iv\u00e1n Marquez ou \u201cEl Paisa\u201d, como apreciam e admiram Santrich. No entanto, a dureza do tom em rela\u00e7\u00e3o a este \u00faltimo chocou muitos \u201ccamaradas\u201d. Em particular, o tom do senador da FARC, Carlos Antonio Lozada, ex-negociador em Havana, particularmente virulento nas suas observa\u00e7\u00f5es: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhuma justifica\u00e7\u00e3o para que Santrich se tenha ido embora assim! [16]\u201d.<\/p>\n<p>Curioso, mesmo assim &#8230; Porque \u00e9 esse mesmo Lozada que, no dia 10 de julho, informou no Twitter e atrav\u00e9s de v\u00e1rios meios de comunica\u00e7\u00e3o que vai apresentar uma queixa, em nome do partido, e trar\u00e1 \u201cprovas, ou pelo menos pistas\u201d de que \u201cest\u00e1 em marcha um plano para assassinar os [altos] dirigentes das FARC\u201d. No dia anterior, dois novos ex-guerrilheiros foram executados no distrito de Cauca, elevando para 137 o n\u00famero de \u201ccamaradas\u201d assassinados.<\/p>\n<p>Poucos dias antes (6 de julho), numa carta enviada ao presidente Duque, tr\u00eas civis que nunca pegaram numa arma (mas da oposi\u00e7\u00e3o e muito envolvidos na implementa\u00e7\u00e3o dos Acordos de Paz!), os senadores Iv\u00e1n Cepeda, Roy Barreras e Antonio Sanguino, denunciaram ser v\u00edtimas de escutas ilegais da Dire\u00e7\u00e3o Nacional de Intelig\u00eancia (DNI), destinadas a neutraliz\u00e1-los atrav\u00e9s de \u201cmontagens judiciais\u201d. Como Santrich? De qualquer forma, este \u00e9 um bom e velho retorno \u00e0s \u201cchuzadas\u201d, escutas e investiga\u00e7\u00f5es clandestinas sobre ativistas, sindicalistas, pol\u00edticos, partidos tradicionais, jornalistas e membros do Supremo Tribunal efetuadas pelo Departamento Administrativo de Seguran\u00e7a (DAS), dependendo diretamente de uma presid\u00eancia da Rep\u00fablica ocupada por \u00c1lvaro Uribe, entre 2002 e 2010. O mesmo DAS \u2013 mas quem se lembra? \u2013 que passava as informa\u00e7\u00f5es aos paramilitares, para assassinarem oponentes pol\u00edticos [17].<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es, vamos esperar para saber mais para nos pronunciarmos definitivamente sobre o \u201ccaso Santrich\u201d. Afinal de contas, a sua decis\u00e3o de escapar pode ter boas raz\u00f5es. O futuro o dir\u00e1. Infinitamente mais preocupantes s\u00e3o, para a Col\u00f4mbia, as amea\u00e7as que pairam sobre os oponentes e o processo de paz.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>[1] Segundo a Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os refugiados, 7,4 milh\u00f5es, em mar\u00e7o de 2017 \u2013 https:\/\/www.unhcr.org\/fr\/news\/briefing\/2017\/3\/58c2d740a\/hausse-deplacements-forces-colombie-malgre-signature-laccord-paix.html<\/p>\n<p>[2] Ao ritmo de (no m\u00ednimo) duas ou tr\u00eas v\u00edtimas por semana ; estes n\u00fameros aumentaram consideravelmente depois desta contagem.<\/p>\n<p>[3] https:\/\/www.lepoint.fr\/politique\/francois-de-rugy-epingle-pour-des-diners-luxueux-a-l-hotel-de-lassay-10-07-2019-2323748_20.php?M_BT=638344349633#xtor=EPR-6-[Newsletter-Mi-journee]-20190710<\/p>\n<p>[4] Uma das principais consequ\u00eancias da fratura\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica \u00e9 a polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e dos solos. Alguns pesquisadores acreditam que ela poderia estar relacionada com terremotos, deslizamentos de terras e outras atividades s\u00edsmicas. Outros evocam sequelas sanit\u00e1rias, por vezes importantes para as popula\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<p>[5] https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/05\/18\/world\/americas\/colombian-army-killings.html?module=inline<\/p>\n<p>[6] Ministro da Defesa durante o mandato do presidente C\u00e9sar Gaviria (1990-1994), Pardo tornou-se um alto conselheiro para o p\u00f3s-conflito, os Direitos do Homem e a Seguran\u00e7a, em novembro de 2015.<\/p>\n<p>[7] Semana, Bogot\u00e1, 3 de junho de 2019.<\/p>\n<p>[8] Em 2006, alegando \u201cproblemas financeiros\u201d, a Administra\u00e7\u00e3o postal nacional (Adpostal) foi liquidada pelo governo colombiano. Em sua substitui\u00e7\u00e3o, criou o 4-72, a atual rede p\u00fablica.<\/p>\n<p>[9] O advogado Bermeo apresentou-se \u00e0s elei\u00e7\u00f5es regionais, em 2015, no Departamento de Cauca, apoiado pelo partido Op\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, do ex-senador Luis Alberto Gil, condenado em 2011 (saiu da pris\u00e3o em 2013) pelas suas liga\u00e7\u00f5es ao paramilitarismo. Tamb\u00e9m envolvido na provoca\u00e7\u00e3o ligada ao \u201cdossi\u00ea Santrich\u201d, Gil foi preso ao mesmo tempo que Bermeo, que estava a acompanhar.<\/p>\n<p>[10] Na Col\u00f4mbia, sem dissolver o Congresso nem suspender (teoricamente) as liberdades fundamentais, o \u201cEstado de como\u00e7\u00e3o interna\u201d (Estado de s\u00edtio) permite ao governo legislar por decreto e suspender a aplica\u00e7\u00e3o de certas leis.<\/p>\n<p>[11] El Tiempo, Bogot\u00e1, 10 de setembro de 2018.<\/p>\n<p>[12] De seu verdadeiro nome Pedro Antonio Marin, Manuel Marulanda, ali\u00e1s \u201cTirofijo\u201d (tiro certeiro), foi fundador e dirigente das FARC, de 1964, ano do seu nascimento, at\u00e9 \u00e0 sua morte, em 26 de mar\u00e7o de 2008, de morte natural. Tinha abra\u00e7ado a guerrilha em 1948, nas mil\u00edcias de autodefesa camponesas, durante o per\u00edodo chamado \u201cla Violencia\u201d.<\/p>\n<p>[13] Advogado da sociedade de servi\u00e7os financeiros Corficolombiana, ele pr\u00f3prio associado \u00e0 Odebrecht, na Col\u00f4mbia, Martinez estava ao corrente das irregularidades do grupo de constru\u00e7\u00e3o, ascendendo a 6,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares, e n\u00e3o as denunciou.<\/p>\n<p>[14] https:\/\/www.elheraldo.co\/politica\/los-tres-escenarios-para-santrich-tras-su-fuga-647828<\/p>\n<p>[15] Digital BLU Radio, 2 de julho de 2019.<\/p>\n<p>[16] Semana, Bogot\u00e1, 7 de julho de 2019.<\/p>\n<p>[17] Hernando Calvo Ospina, \u201cQuand l\u2019Etat colombien espionne ses opposants [Quando o Estado colombiano espia os seus opositores]\u201d, Le Monde diplomatique, avril 2010.<\/p>\n<p>*Maurice Lemoine \u00e9 jornalista.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.medelu.org\/La-Colombie-sous-la-coupe-des-criminels-de-paix, publicado em 2019\/07\/11, acedido em 2019\/07\/18<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do franc\u00eas de TAM<\/p>\n<p>https:\/\/pelosocialismo.blogs.sapo.pt\/colombia-sob-a-pressao-de-criminosos-72498<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23761\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[234],"class_list":["post-23761","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6bf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23761"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23761\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}