{"id":23815,"date":"2019-08-23T04:13:02","date_gmt":"2019-08-23T07:13:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23815"},"modified":"2019-08-23T04:13:02","modified_gmt":"2019-08-23T07:13:02","slug":"o-discurso-da-esquerda-e-seus-obstaculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23815","title":{"rendered":"O discurso da esquerda e seus obst\u00e1culos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sites.google.com\/a\/correo.unimet.edu.ve\/tics-y-derecho-a-la-libertad\/_\/rsrc\/1458330006494\/home\/pagina-web-3\/la-libertad-de-expresion-y-su-importancia\/LIBERTAD-DE-EXPRESION-3.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Hiran Roedel<\/p>\n<p>Renato Prata Biar<\/p>\n<p>Por que o discurso da esquerda n\u00e3o tem conseguido mobilizar a classe trabalhadora e a classe popular? Identificar os fatores dessa dificuldade \u00e9 um passo importante para super\u00e1-la. Contudo, abord\u00e1-lo isolado da conjuntura e de seu contraponto, o discurso das for\u00e7as conservadoras (a direita pol\u00edtica), seria descontextualiz\u00e1-lo e poderia passar a falsa ideia de pura incompet\u00eancia discursiva da esquerda.<\/p>\n<p>Elegemos, nesse sentido, aquele que, a nosso ver, \u00e9 o mote central do discurso das esquerdas: a defesa da democracia na tentativa de dialogar com a classe popular. Por outro lado, observaremos, tamb\u00e9m, qual tem sido a estrat\u00e9gia do discurso do campo conservador no di\u00e1logo com essa classe.<\/p>\n<p>Para iniciarmos o debate, partimos da constata\u00e7\u00e3o de que, desde as grandes manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, presenciamos dois fatos: o avan\u00e7o ideol\u00f3gico de direita, de um lado e, de outro, a rea\u00e7\u00e3o das esquerdas em defesa das conquistas democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Ao direcionarmos nosso foco para a composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da direita, podemos observar que os interesses hegem\u00f4nicos desta correspondem aos das classes economicamente dominantes (empres\u00e1rios da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio, banqueiros, empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio, rentistas, fra\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias, empres\u00e1rios da f\u00e9, etc). Nesse conjunto, somam-se, tamb\u00e9m, aqueles em proximidade com grupos criminosos\/paramilitares.<\/p>\n<p>Para se perceber qu\u00e3o complexas s\u00e3o essas for\u00e7as, destacamos, inclusive, a importante sustenta\u00e7\u00e3o social oferecida pela c\u00fapula dirigente das igrejas neopentecostais, por fornecerem o fundamental elo ideol\u00f3gico de liga\u00e7\u00e3o com fra\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis da classe popular. C\u00fapula, e n\u00e3o podemos deixar de destacar, que se confunde em um misto de empres\u00e1rios e agentes da f\u00e9.<\/p>\n<p>Esse complexo conjunto de for\u00e7as pol\u00edticas \u00e9 um importante elemento de coes\u00e3o e submiss\u00e3o da classe popular \u00e0s classes economicamente dominantes, em que se mescla a depend\u00eancia econ\u00f4mica, o terror e a f\u00e9. Isto \u00e9, os poderes econ\u00f4mico, pol\u00edtico e ideol\u00f3gico da direita, ao contaminarem, por extens\u00e3o, parcelas consider\u00e1veis da classe popular, trabalham na cria\u00e7\u00e3o de um consenso em torno de valores e alternativas pol\u00edticas que, a longo prazo, se apresentam como antag\u00f4nicas aos interesses populares.<\/p>\n<p>Para, no entanto, n\u00e3o passar a ideia de que a classe popular n\u00e3o tem consci\u00eancia e, por isso, se constitui em massa de manobra passiva de for\u00e7as mal\u00e9volas, afirmamos, de imediato, que isso n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. Ela \u00e9 sim detentora de consci\u00eancia, por\u00e9m, se encontra limitada \u00e0 vis\u00e3o de mundo do senso comum. Ou seja, esta tem, enquanto produto das condi\u00e7\u00f5es e das rela\u00e7\u00f5es sociais a ela imposta, uma forma bruta de apreens\u00e3o da realidade, onde predomina a concep\u00e7\u00e3o materialista, dogm\u00e1tica, supersticiosa, fragment\u00e1ria e incoerente.<\/p>\n<p>Presa ao senso comum, a classe popular busca a satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades quotidianas de forma imediata e acr\u00edtica. Uma vis\u00e3o de mundo, por assim dizer, ca\u00f3tica. Por isso, n\u00e3o se trata de neg\u00e1-la ou ignor\u00e1-la, mas sim de super\u00e1-la!<\/p>\n<p>Por isso que, como estrat\u00e9gia de di\u00e1logo da direita pol\u00edtica com a classe popular, aquela busca interpretar a forma de compreens\u00e3o popular da realidade. Nesse movimento, estabelece uma via de m\u00e3o dupla oferecendo a possibilidade de atender parcialmente as demandas sociais, como forma de atra\u00e7\u00e3o dessa classe para o campo conservador e, ao mesmo tempo, utiliza os aparelhos ideol\u00f3gicos, controlados pela classe dominante, como ferramentas fundamentais de explora\u00e7\u00e3o do senso comum, pois n\u00e3o tem o interesse em super\u00e1-lo, mas de consolid\u00e1-lo. O que quer dizer, portanto, que o senso comum tamb\u00e9m se constitui em uma maneira de organiza\u00e7\u00e3o intelectual.<\/p>\n<p>Por isso podemos identificar, no conte\u00fado do discurso hegemonizado pela direita, aspectos pr\u00e1ticos de sobreviv\u00eancia do quotidiano econ\u00f4mico e social da maioria da popula\u00e7\u00e3o. Os elementos elencados que d\u00e3o coes\u00e3o a essa estrat\u00e9gia discursiva s\u00e3o, por assim dizer, de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o e postos separadamente ou articulados a mais um ou dois outros na veicula\u00e7\u00e3o promovida, especialmente, pelos aparelhos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Se por um lado a cren\u00e7a na solu\u00e7\u00e3o dos problemas materiais atrav\u00e9s da f\u00e9 oferece o conforto espiritual, por outro, na perspectiva pol\u00edtica, o fio condutor importante dessa estrat\u00e9gia discursiva \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es desconectadas para se resolver problemas pontuais. A partir dessa situa\u00e7\u00e3o, as estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia da classe popular encontram-se capturadas pelo imediatismo de sua solu\u00e7\u00e3o, o que a submete, por seu entendimento, ao poder pol\u00edtico de grupos e fra\u00e7\u00f5es de classe que t\u00eam vincula\u00e7\u00e3o, acesso e\/ou controle da burocracia estatal de forma oficial ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas e o outro lado dessa disputa de narrativas: a perspectiva da esquerda? Aqueles que t\u00eam na defesa da democracia a t\u00f4nica de seu discurso? Qual tem sido o seu principal conte\u00fado?<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00f3rio que o discurso de vi\u00e9s de classe perdeu espa\u00e7o no campo pol\u00edtico das esquerdas, assim como, tamb\u00e9m, o discurso do trabalhismo. Eles foram fortemente afetados pelas mudan\u00e7as estruturais do capitalismo e a hegemonia da ideologia neoliberal.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia da nova conjuntura levou \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da pauta identit\u00e1ria como fator principal de mobiliza\u00e7\u00e3o adotada pela esquerda. Isto \u00e9, as liberdades individuais de g\u00eanero, cor, identifica\u00e7\u00e3o sexual, etc., enquanto sin\u00f4nimo e abrang\u00eancia do que se entende como democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Dessa forma, a matriz desse discurso se concentra na diversidade de temas e interesses que, justas e necess\u00e1rias tais reivindica\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se mostram capazes de se universalizar. S\u00e3o vistas e entendidas, pela maioria da popula\u00e7\u00e3o, como um mosaico de reivindica\u00e7\u00f5es que dizem respeito a comunidades espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Podemos dizer que esse tipo de discurso tem dois aspectos fundantes: a valoriza\u00e7\u00e3o da individualidade e a forma\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios discursivos. O primeiro aspecto \u00e9 individualista, pois busca a supera\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de comportamentos socioculturais estabelecidos historicamente a partir do direito isolado do indiv\u00edduo, enquanto o segundo, ao fragmentar a sociedade em territ\u00f3rios narrativos, oculta as reais for\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es geradoras desses aspectos, remetendo a sua solu\u00e7\u00e3o \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia desses territ\u00f3rios. N\u00e3o \u00e9 de fato o enfrentamento e a supera\u00e7\u00e3o de uma forma de pensar e agir socialmente constru\u00edda que se pretende combater, mas estabelecer a aceita\u00e7\u00e3o de um conv\u00edvio com identidades m\u00faltiplas sem o questionamento da historicidade de suas condi\u00e7\u00f5es de gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse discurso, as rela\u00e7\u00f5es socioculturais e econ\u00f4micas estruturantes s\u00e3o reordenadas, mas n\u00e3o questionadas. Elas permanecem exercendo sua for\u00e7a, mesmo que ocultadas, na forma do pensar social. Ou seja, a esquerda n\u00e3o tem assumido a cr\u00edtica radical da hegemonia das velhas classes dominantes, assim como tem se esquivado de trabalhar a partir do senso comum para educar a classe popular na perspectiva de uma nova cultura. Dessa forma, ao ignorar a cr\u00edtica a essa hegemonia, acaba por penalizar o senso comum; busca a concilia\u00e7\u00e3o com formas e conte\u00fados fossificados na sociedade, o que incapacita essa estrat\u00e9gia discursiva de se universalizar.<\/p>\n<p>O identitarismo n\u00e3o pode ser universal porque vira as costas ao fato de que o \u201cmodo de produ\u00e7\u00e3o da vida material condiciona o processo da vida social, pol\u00edtica e espiritual\u201d, como observa Marx. Ou seja, a consci\u00eancia dos homens \u00e9 determinada a partir de suas condi\u00e7\u00f5es concretas de vida e esse tipo de discurso fragment\u00e1rio representa interesses de grupos que idealizam ser seu conte\u00fado universal, por\u00e9m, sem articul\u00e1-lo \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o da vida material e suas consequ\u00eancias para a classe popular.<\/p>\n<p>Ao passarem ao largo da produ\u00e7\u00e3o da vida material, sustentando-se pela individualidade e pela territorialidade narrativa, o discurso da esquerda acaba por se aproximar da forma dogm\u00e1tica do senso comum. Por isso, n\u00e3o lhe \u00e9 central o fato concreto de que quase cinco milh\u00f5es e meio de crian\u00e7as at\u00e9 14 anos passam fome, de 700 mil pessoas constitu\u00edrem a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, de que 55 milh\u00f5es se encontram na situa\u00e7\u00e3o de pobreza, ou que 15 milh\u00f5es estejam na extrema pobreza. Nem muito menos por que 28 milh\u00f5es vivem com menos de 1\/4 do sal\u00e1rio m\u00ednimo, conforme demonstram os pr\u00f3prios dados oficiais.<\/p>\n<p>Diante disso, ficam evidentes as limita\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas desse discurso. Pois ele tem mostrado, em sua pr\u00e1tica, n\u00e3o a disposi\u00e7\u00e3o ao rompimento das amarras ideol\u00f3gicas estabelecidas pelo conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais hegem\u00f4nicas, mas sim a de buscar o seu lugar ao sol no universo das disputas pol\u00edticas institucionais.<\/p>\n<p>Por isso trata de maneira tangencial, por exemplo, o crescente exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o pobre promovido pela pol\u00edcia no Brasil, que em 2018 foi de 6.160 pessoas vitimadas, de acordo com o N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da USP e o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Esse discurso aponta, como condi\u00e7\u00e3o fundamental para tal exterm\u00ednio, a exclusividade da cor da pele, mas negligencia o fundamento s\u00f3cio-hist\u00f3rico e econ\u00f4mico dessa situa\u00e7\u00e3o. Dessa forma, acaba por remeter para segundo plano a luta de classes e o questionamento \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o vigentes, verdadeiras respons\u00e1veis pelo exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Igual tratamento se d\u00e1 no que diz respeito \u00e0 popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria. Apesar de ter o Brasil a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo, o questionamento central ocorre, mais uma vez, pela cor da pele.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de considerar que em um pa\u00eds com passado escravocrata, que nunca assistiu, de fato, um movimento pol\u00edtico oriundo da classe popular com for\u00e7a suficiente para se postar na contram\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais hegem\u00f4nicas, as pessoas se acostumaram a conviver com as condi\u00e7\u00f5es de vida de extrema escassez dos descendentes dos negros escravizados. Condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas a que foram, e ainda hoje o s\u00e3o, submetidas essas popula\u00e7\u00f5es, que impuseram a elas a nega\u00e7\u00e3o de seus direitos \u00e0 cidadania, tendo transformado-as em invis\u00edveis sociais, como diria Bauman.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o se trata de simples aloca\u00e7\u00e3o de recursos no combate \u00e0 pobreza, no investimento em intelig\u00eancia policial, de gritar pelo fim da pol\u00edcia militar, ou outras tantas sa\u00eddas superficiais. N\u00e3o \u00e9 essa a quest\u00e3o central! \u00c9 necess\u00e1rio questionar, a partir de condi\u00e7\u00f5es concretas da classe popular, as rela\u00e7\u00f5es sociais geradoras do exterm\u00ednio, da fome, da falta de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, da viol\u00eancia f\u00edsica e simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Por esse ponto de vista, a direita se aproveita de forma eficiente das mazelas sociais e, ao consolidar em sua estrat\u00e9gia discursiva a vis\u00e3o do senso comum, tem conseguido se afirmar como for\u00e7a pol\u00edtica hegem\u00f4nica. \u00c9 por isso que o tema da seguran\u00e7a assume papel central, mas nunca observado de forma articulada, e sim de maneira fragmentada pela direita. Se, por um lado, esse discurso atua como ferramenta de terror e controle da classe popular, por outro oculta o enorme mercado que o cerca.<\/p>\n<p>Somente para situar o assunto, diante da conjuntura de crescente viol\u00eancia e inseguran\u00e7a mundial, o setor de servi\u00e7os em seguran\u00e7a privada tem se mostrado um promissor e lucrativo mercado nos Estados Unidos, na Europa e na \u00c1sia. A previs\u00e3o \u00e9 de que a receita em tecnologia e servi\u00e7os de seguran\u00e7a, como: venda de seguros para casas, estabelecimentos comerciais, carros, etc., fornecimento de equipamentos para vigil\u00e2ncia (circuitos internos e externos de tv, cercas el\u00e9tricas, alarmes, armas letais e n\u00e3o letais, etc.), chegue a US$ 96,3 bilh\u00f5es em 2019.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente no Brasil, cujo mercado de vigil\u00e2ncia privada, segundo o Sindicato das Empresas de Seguran\u00e7a do Estado do Rio de Janeiro, movimenta R$ 11 bilh\u00f5es no pa\u00eds. O combust\u00edvel para a expans\u00e3o desse mercado tem sido o apelo da popula\u00e7\u00e3o, em geral, por seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse tipo apelo, fruto de condi\u00e7\u00f5es objetivas e da constru\u00e7\u00e3o discursiva, levou ao efetivo de seguran\u00e7as privadas no Brasil ser maior do que o efetivo da PM, da Pol\u00edcia Civil e dos Bombeiros juntos. Ele cresce, em m\u00e9dia, mais de 10% ao ano. Devido \u00e0 sua diversidade, fatura anualmente 50 bilh\u00f5es de reais, com proje\u00e7\u00e3o de aumento de at\u00e9 16% em 2019.<\/p>\n<p>No estado do Rio de Janeiro, o n\u00famero de vigilantes subiu de 86 mil para 91 mil entre 2013 e 2014, ou seja, quase o dobro do efetivo da Policia Militar. O crescimento foi registrado, tamb\u00e9m, em todo o pa\u00eds, onde j\u00e1 se contabilizam 989 mil vigilantes, isto \u00e9, quase cinco vezes o contingente do Ex\u00e9rcito brasileiro.<\/p>\n<p>Mas quem s\u00e3o os donos dessas empresas de seguran\u00e7a privada? Esses empres\u00e1rios s\u00e3o, em sua maioria, oficiais das For\u00e7as Armadas, oficiais da PM, delegados da Pol\u00edcia Civil e Pol\u00edcia Federal, deputados, senadores (a famosa Bancada da Bala), etc. Ou seja, aqueles que administram e t\u00eam como fun\u00e7\u00e3o primar por uma seguran\u00e7a p\u00fablica eficiente e de qualidade, n\u00e3o possuem qualquer interesse de que esse servi\u00e7o p\u00fablico realmente funcione, pois atrapalharia os seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Portanto, os respons\u00e1veis, aqueles que administram a Seguran\u00e7a P\u00fablica, est\u00e3o cada vez mais interessados na (In)Seguran\u00e7a P\u00fablica. Os interesses da popula\u00e7\u00e3o numa seguran\u00e7a p\u00fablica que funcione e garanta seus direitos como cidad\u00e3o s\u00e3o completamente contr\u00e1rios, opostos, aos dos empres\u00e1rios desse setor.<\/p>\n<p>\u00c9 por esse motivo que o discurso da viol\u00eancia e da seguran\u00e7a, utilizado pela direita, \u00e9 abordado de forma desconectada de uma vis\u00e3o de totalidade. Como ferramenta de controle, ele deve se pautar e refor\u00e7ar o senso comum e, como tal, desviar-se das condi\u00e7\u00f5es sociais e focar em aspectos isolados, mas sem se afastar das condi\u00e7\u00f5es concretas, materiais, facilmente percebidas na realidade. Desse modo, transforma a opini\u00e3o e os interesses privados da classe dominante em interesses gerais, em opini\u00e3o p\u00fablica, conforme Bourdieu.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia com a viol\u00eancia quotidiana leva, portanto, e com raz\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o a reclamar por seguran\u00e7a. Por sua vez, o outro lado da moeda \u00e9 que mais que votos e mandatos essa estrat\u00e9gia tem significado enormes fortunas para um seleto grupo que domina esse mercado.<\/p>\n<p>Sob o aspecto do controle da classe popular, o discurso da seguran\u00e7a gerou, por exemplo, o projeto das Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), no Rio de Janeiro. O controle se mostra evidente a partir de sua l\u00f3gica central: a militariza\u00e7\u00e3o das localidades onde foram instaladas.<\/p>\n<p>Paralelo \u00e0s UPPs, e que ganha vulto com a fal\u00eancia destas, se apresenta um eficiente modelo de (In)Seguran\u00e7a P\u00fablica para a conten\u00e7\u00e3o dos pobres a partir do terror: as mil\u00edcias. \u00c1reas por elas dominadas s\u00e3o negociadas como verdadeiros \u201cfeudos\u201d entre grupos de policiais, pol\u00edticos e empres\u00e1rios. Pois as mil\u00edcias se mostram mais \u201ceficientes\u201d porque fazem o trabalho sujo sem o envolvimento direto do Estado e\/ou gastos exorbitantes com projetos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Geograficamente teremos, portanto, um mar de lugares controlados de forma extremamente violenta por \u201csenhores feudais\u201d e algumas ilhas de \u201cnormalidade\u201d, onde a classe dominante poder\u00e1 transitar com um pouco menos de preocupa\u00e7\u00e3o e de medo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a e, principalmente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a dos seus t\u00e3o \u201csagrados\u201d patrim\u00f4nios e propriedades. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o efetivo policial militar, no estado do Rio de Janeiro, saltou, entre o ano de 2009 e o ano de 2014, de 47 mil para cerca de 60 mil. Mais de 20% em cinco anos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se partilham e se distribuem territ\u00f3rios onde reside a maior parte da pobreza (favelas, morros e periferias) \u00e0 mil\u00edcia, essa pr\u00e1tica alimenta e fortalece o discurso da seguran\u00e7a, proferido pela direita, ao impor o regime do terror como realidade. S\u00e3o localidades que v\u00eam sendo tratadas como \u201cpropriedades\u201d de alguns membros da alta c\u00fapula da pol\u00edcia e comandantes de batalh\u00f5es, os quais, segundo den\u00fancia feita pelo ex-ministro da Justi\u00e7a Torquato Jardim, em outubro de 2017, \u201cs\u00e3o s\u00f3cios do crime organizado no Rio\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o discurso difundido pela esquerda de que temos uma pol\u00edcia despreparada n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade, pois uma pol\u00edcia que mata, tortura e prende milhares e milhares de pessoas todos os anos, o faz exatamente devido ao seu alto grau de prepara\u00e7\u00e3o. Essa pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 despreparada; nunca foi! Ela \u00e9 preparada exatamente para cumprir essa fun\u00e7\u00e3o que vem fazendo h\u00e1 d\u00e9cadas: manter o pobre sob controle.<\/p>\n<p>O que se chama de despreparo deveria, na verdade, ser chamado de estrat\u00e9gia pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o de uma determinada classe social. Matar, torturar, encarcerar e intimidar essa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 o verdadeiro objetivo da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica, devido ao car\u00e1ter de classe que possui o Estado, pois essa pol\u00edcia n\u00e3o erra o CEP, a cor e a classe de suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Exemplo desse preparo (ideol\u00f3gico) da pol\u00edcia, podemos citar, foi o ocorrido em Costa Barros, no morro da Pedreira, na cidade do Rio de Janeiro, onde cinco jovens estudantes e trabalhadores foram fuzilados por policiais com 111 tiros dentro de um carro, em 28\/11\/2015. Ou, tamb\u00e9m, os 200 tiros efetuados por soldados do Ex\u00e9rcito, em 09\/05\/2019, contra o carro de uma fam\u00edlia em Guadalupe (Rio), resultando na morte de 2 pais de fam\u00edlia. E n\u00e3o ver\u00e1 exatamente porque esses policiais sabem com quem e onde esse tipo de a\u00e7\u00e3o pode ser efetuada.<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u00e9 importante frisar que n\u00e3o somente os funcion\u00e1rios ligados ao aparato repressivo constituem a mola mestra da pol\u00edtica de terror e controle da classe popular ent\u00e3o vigente. Os empres\u00e1rios da f\u00e9 desempenham um importante papel de elo nessa corrente. A presen\u00e7a de pastores neopentecostais na lavagem de dinheiro do tr\u00e1fico dos morros cariocas chegou a ser tema de pesquisadora na UFF, assim como em fevereiro de 2018, publicado pela m\u00eddia, foi desbaratada uma rede de lavagem de dinheiro do PCC que, al\u00e9m de pastor, envolvia tamb\u00e9m donos de empresas de autom\u00f3veis, a\u00e7ougues e imobili\u00e1rias.<\/p>\n<p>Not\u00edcia e estrat\u00e9gia discursiva que trabalham, mais uma vez, sob a perspectiva desarticulada do todo. Como se essas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o fizessem parte da pr\u00f3pria l\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es de poder hegem\u00f4nicas. Mas trat\u00e1-las de forma isolada corresponde entender os envolvidos n\u00e3o pela sua condi\u00e7\u00e3o de classe, mas como indiv\u00edduos. E, dessa forma, mant\u00e9m e refor\u00e7a esse tipo ca\u00f3tico de organiza\u00e7\u00e3o intelectual predominante do senso comum de compreender a realidade.<\/p>\n<p>Isso demonstra, portanto, as ramifica\u00e7\u00f5es da matriz do discurso conservador hoje hegem\u00f4nico na pol\u00edtica brasileira. Os temas por ele elencado, assim podemos dizer, se encontram imbricados em uma teia de neg\u00f3cios de tal modo que formam e articulam um mercado milion\u00e1rio que transcende as fronteiras e mant\u00e9m o controle da classe popular atrav\u00e9s da mescla de terror e f\u00e9.<\/p>\n<p>Nesse sentido, observamos que o conjunto de for\u00e7as que det\u00e9m o controle pol\u00edtico do pa\u00eds se reorganizou e n\u00e3o tem em seu projeto a alian\u00e7a com os trabalhadores. Mais ainda, um bloco de poder de direita que cada vez mais se sustenta na for\u00e7a paramilitar como forma de controle f\u00edsico da classe popular. Dessa forma, a concilia\u00e7\u00e3o de classes n\u00e3o tem mais vez, assim como n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o discurso exclusivamente de vi\u00e9s identit\u00e1rio. N\u00e3o se trata de um projeto que se pretenda democr\u00e1tico, mas sim de subjuga\u00e7\u00e3o de classe, de opress\u00e3o aberta.<\/p>\n<p>Mas se a tarefa da esquerda \u00e9 a da cr\u00edtica ideol\u00f3gica, cultural, junto aos grupos e fra\u00e7\u00f5es de classe orientados pelo individualismo pragm\u00e1tico do quotidiano, esta n\u00e3o pode ocorrer desconsiderando a forma de organiza\u00e7\u00e3o intelectual da classe popular. A batalha cultural deve levar em conta a for\u00e7a do senso comum, mesmo que o entenda como vis\u00e3o de mundo ca\u00f3tico, mas competindo \u00e0 esquerda educ\u00e1-lo e reorient\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Sem abandonar a luta por dentro das institui\u00e7\u00f5es e da democracia burguesas, mas usando-as para denunciar justamente a aus\u00eancia de liberdade e da falta de reais condi\u00e7\u00f5es que busquem atender as necessidades de emprego, sa\u00fade e de uma educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e libertadora. Construindo possibilidades para se alcan\u00e7ar n\u00edveis dignos de alimenta\u00e7\u00e3o, saneamento b\u00e1sico, moradia e transporte.<\/p>\n<p>Articular as diversas lutas dos oprimidos a partir da perspectiva de classe implica, portanto, construir alian\u00e7as em torno de projetos coletivos e n\u00e3o simplesmente conquistar ades\u00f5es pol\u00edticas. Por isso, a batalha ideol\u00f3gica e cultural a ser promovida pela esquerda, constitui, necessariamente, em articular, de forma expl\u00edcita, no discurso e na pr\u00e1tica pol\u00edtica, a cr\u00edtica profunda ao capitalismo e ao Estado burgu\u00eas, apontando-se a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de alternativas vi\u00e1veis e palp\u00e1veis vinculadas \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o da vida material vigente. Caso contr\u00e1rio, sem outro projeto de sociedade, a esquerda sucumbir\u00e1 na din\u00e2mica do jogo pol\u00edtico eleitoral e na eterna luta pelo chamado Estado democr\u00e1tico de direito!<\/p>\n<p>Hiran Roedel e Renato Prata s\u00e3o militantes do PCB-RJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23815\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[222],"class_list":["post-23815","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6c7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23815"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23815\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}