{"id":23817,"date":"2019-08-23T04:16:51","date_gmt":"2019-08-23T07:16:51","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23817"},"modified":"2019-08-23T04:16:51","modified_gmt":"2019-08-23T07:16:51","slug":"o-dia-em-que-frantz-fanon-encontrou-um-marxista-puro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23817","title":{"rendered":"O dia em que Frantz Fanon encontrou um \u201cmarxista puro\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/08\/fanon_jones_boitempo.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Jones Manoel<\/p>\n<p>\u00c0 sua maneira de \u2018fazer\u2019 filosofia consiste em despender tesouros de intelig\u00eancia e sutileza para nada mais que ruminar na filosofia. Quanto a mim, trato a filosofia de outro modo, pratico-a, como queria Marx, de acordo com o que ela \u00e9. \u00c9 isto o que julgo ser \u2018materialista dial\u00e9tico\u2019.\u201d<\/p>\n<p>L\u00caNIN, CARTA A GORKI, 7,<\/p>\n<p>FEV. 1908<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 fui cat\u00f3lico por cinco anos. Naquela \u00e9poca, tinha bastante costume de conversar com o padre da minha igreja sobre teologia. Ele me explicava que existe o \u201cMundo de Deus\u201d e o \u201cMundo dos Homens\u201d: no primeiro, a alma humana alcan\u00e7a sua plenitude e sua fun\u00e7\u00e3o de frui\u00e7\u00e3o eterna no para\u00edso longe do pecado; no segundo, a alma humana se corrompe a partir das pr\u00e1ticas do corpo \u2013 sempre tendente ao pecado, \u00e0 luxuria, \u00e0 gula, \u00e0 cobi\u00e7a, \u00e0 viol\u00eancia etc. A fun\u00e7\u00e3o do verdadeiro crist\u00e3o na Terra seria, portanto, se esfor\u00e7ar ao m\u00e1ximo para agir como se estivesse no \u201cMundo de Deus\u201d, negando na cotidianidade o \u201cMundo dos Homens\u201d para, assim, conseguir de verdade entrar no reino de Deus.<\/p>\n<p>Contudo, j\u00e1 com 18 anos debatendo com o meu amigo padre, logo percebi uma contradi\u00e7\u00e3o l\u00f3gica (ser\u00e1 ontol\u00f3gica?) na argumenta\u00e7\u00e3o dele: se o \u201cMundo de Deus\u201d \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o por ess\u00eancia do \u201cMundo dos Homens\u201d, se \u00e9 imposs\u00edvel para o homem, em vida, ser santo, j\u00e1 que o homem \u00e9 constitu\u00eddo pelo pecado, como \u00e9 poss\u00edvel se comportar na terra como algu\u00e9m que est\u00e1 no \u201cMundo de Deus\u201d? Nesse caso, em termos filos\u00f3ficos, temos um \u201cvir a ser\u201d que nunca ser\u00e1; um \u201cvir a ser\u201d que n\u00e3o consegue ter materialidade pr\u00e1tica, gerando um dualismo estrutural eterno: a ideia e a pr\u00e1tica nunca se encontram.<\/p>\n<p>O meu simp\u00e1tico padre nunca conseguiu me explicar como resolver essa contradi\u00e7\u00e3o. E eu deixei de ser cat\u00f3lico\u2026 O tempo passou e depois eu me tornei comunista. Desde que comecei a ter contato com o marxismo, antes de entrar na universidade, tive a sorte de ser introduzido nessa tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica por revolucion\u00e1rios ligados \u00e0 pr\u00e1tica pol\u00edtica: Rosa Luxemburgo, Tr\u00f3tski, L\u00eanin, Florestan Fernandes (o Florestan do p\u00f3s-golpe de 1964), entre outros. Esse marxismo que aprendi estava baseado na famosa \u201ctese onze\u201d de Karl Marx: \u201cOs fil\u00f3sofos t\u00eam apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 transform\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>O que esta frase significa em seu sentido pleno? Repare, nenhuma corrente te\u00f3rica est\u00e1 situada em um lugar n\u00e3o-pol\u00edtico. Weberianismo, positivismo, estruturalismo, fenomenologia, p\u00f3s-estruturalismo e afins cumprem uma fun\u00e7\u00e3o na luta de classes. Como lembra o velho L\u00eanin, uma das formas da luta de classes \u00e9 a luta te\u00f3rica (cabe lembrar que L\u00eanin diz isso no livro Que Fazer? onde est\u00e1 a famosa frase \u201csem teoria revolucion\u00e1ria, n\u00e3o h\u00e1 movimento revolucion\u00e1rio\u201d; como se sabe, esse livro \u00e9 dedicado a pensar, fundamentalmente, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u2026). Por\u00e9m, essas e outras correntes te\u00f3ricas ocupam um lugar pol\u00edtico a posteriori, enquanto elemento global da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, cultura e teoria, como um fato dado.<\/p>\n<p>Um weberiano, por exemplo, pode ser algu\u00e9m compromissado na sua pr\u00e1tica com a luta dos trabalhadores. Um positivista pode ser algu\u00e9m que dedica sua vida \u2013 e morre em nome disso \u2013 \u00e0 luta dos povos origin\u00e1rios e ind\u00edgenas. Ser estruturalista, weberiano, positivista e afins n\u00e3o significa, no n\u00edvel imediato, ser comprometido com tal ou qual classe social em conflito na sociedade burguesa \u2013 ainda que uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-universal das tend\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica coloque, corretamente, essas correntes como formas de consci\u00eancia burguesa.<\/p>\n<p>J\u00e1 um marxista \u00e9 \u2013 ou deveria ser \u2013 algu\u00e9m comprometido com a classe trabalhadora e todos os oprimidos. Note, quando algu\u00e9m se apresenta como marxista n\u00f3s automaticamente imaginamos o que? Que o sujeito \u00e9 um socialista, comunista etc. Isso ocorre porque o marxismo tem um compromisso de classe aberto, constitutivo, fundante. Esse compromisso fundante com os explorados e oprimidos tem como um dos seus fundamentos a nega\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica \u2013 a nega\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia como uma contempla\u00e7\u00e3o apartada da pr\u00e1tica social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Ser marxista significa tomar a op\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica de estar ao lado dos trabalhadores e trabalhadoras e construir suas an\u00e1lises a partir do materialismo hist\u00f3rico-dial\u00e9tico e de toda tradi\u00e7\u00e3o marxista, sempre condicionando os temas de pesquisa e sua forma de exposi\u00e7\u00e3o aos problemas reais enfrentados pela classe explorada no seu processo de constitui\u00e7\u00e3o como sujeito revolucion\u00e1rio. Marxismo \u00e9 teoria orientada pela pr\u00e1tica pol\u00edtica revolucion\u00e1ria e pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria orientada pela teoria.<\/p>\n<p>O materialismo dial\u00e9tico da filosofia marxista possui duas particularidades mais evidentes. A primeira \u00e9 o seu car\u00e1ter de classe: ela afirma abertamente que o materialismo dial\u00e9tico serve ao proletariado; a outra \u00e9 o seu car\u00e1ter pr\u00e1tico: sublinha o fato de a teoria depender da pr\u00e1tica, de a teoria basear-se na pr\u00e1tica e, por sua vez, servir \u00e0 pr\u00e1tica. A verdade de um conhecimento ou de uma teoria \u00e9 determinada n\u00e3o por uma aprecia\u00e7\u00e3o subjetiva, mas sim pelos resultados da pr\u00e1tica social objetiva. O crit\u00e9rio da verdade n\u00e3o pode ser outro sen\u00e3o a pr\u00e1tica social (Mao Tse-Tung, Sobre a contradi\u00e7\u00e3o e sobre a pr\u00e1tica, S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2004, p. 15)<\/p>\n<p>Nesse sentido, o marxismo sem pr\u00e1tica constitui uma contradi\u00e7\u00e3o em termos. \u00c9 um n\u00e3o marxismo; no m\u00e1ximo, o uso de algumas categorias e conclus\u00f5es do materialismo-hist\u00f3rico dentro de outra abordagem te\u00f3rico-filos\u00f3fica. Note: aqui n\u00e3o h\u00e1 qualquer concep\u00e7\u00e3o redutora de pr\u00e1tica. Atuar na pr\u00e1tica n\u00e3o significa, necessariamente, estar em um ch\u00e3o de f\u00e1brica, em uma ocupa\u00e7\u00e3o urbana ou na rua fazendo panfletagem e conversando com os trabalhadores ao final da sua jornada de trabalho \u2013 embora eu recomende tudo isso para quem se considera marxista, especialmente os intelectuais de origem pequeno-burguesa.<\/p>\n<p>Pr\u00e1tica significa uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, a partir de diversos meios e da infinidade de possibilidades existentes, contribua com as lutas, organiza\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia, dilemas e forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-cultural da classe trabalhadora. Significa, no caso do intelectual, uma produ\u00e7\u00e3o voltada na forma de exposi\u00e7\u00e3o e no conte\u00fado para os interesses dos trabalhadores \u2013 interesse hist\u00f3rico-universal, como classe revolucion\u00e1ria, e interesses imediatos, enquanto classe em si. Ent\u00e3o, por exemplo, se sou um intelectual marxista, e minha maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 publicar em revistas lidas apenas pelos meus pares, livros visitados apenas pelos meus pares, debatendo as conclus\u00f5es das minhas pesquisas apenas com meus pares nos muros da universidade, fazendo do marxismo n\u00e3o uma arma pol\u00edtica potencial, mas uma teoria social como qualquer outra com categorias filomarxistas, eu estou desligado da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O m\u00ednimo que se espera de um intelectual marxista \u00e9 ajudar a divulgar o marxismo no meio dos seus pares (um marxismo que clame pela pr\u00e1tica pol\u00edtica) e que tenha a postura de intelectual p\u00fablico, que busca romper com o isolamento social t\u00edpico da universidade brasileira \u2013 um marxismo popularizado. E repito: o m\u00ednimo. Todavia, que efeito pr\u00e1tico se tem em debater um suposto marxismo puro, n\u00e3o contaminado pela pr\u00e1tica, n\u00e3o deformado por todos, inclusive Engels?<\/p>\n<p>Veja, em 2013 conheci uma tend\u00eancia muito estranha no marxismo brasileiro. Eles defendem que todos os sindicatos, partidos, movimentos populares e afins seriam n\u00e3o revolucion\u00e1rios, \u201cpraticistas\u201d, longe do verdadeiro marxismo. Todos esses movimentos e organiza\u00e7\u00f5es seriam ainda \u201cpoliticistas\u201d. Ou seja, n\u00e3o compreenderiam a ontonegatividade da politicidade e ignoram que a verdadeira pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria n\u00e3o passaria pela pol\u00edtica e pela disputa do Estado ou pela constru\u00e7\u00e3o de um Estado prolet\u00e1rio, um poder popular, etc., mas sim pela destrui\u00e7\u00e3o do capital. Passei a pesquisar mais um pouco tentando responder \u00e0 pergunta natural que ent\u00e3o surge: afinal, onde esses \u201cmarxistas\u201d atuam construindo os verdadeiros sindicatos, partidos e movimentos populares?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 a seguinte: n\u00e3o existem. A nega\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 seguida de uma afirma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem os verdadeiros instrumentos de luta dos trabalhadores, n\u00e3o contaminados pelas concep\u00e7\u00f5es ontonegativas da politicidade ou da pol\u00edtica. Bem mais do que debater a validade desse conceito, chamo aten\u00e7\u00e3o para como ele \u00e9 desprovido de qualquer materialidade pr\u00e1tica: ser\u00e1 que n\u00e3o tem porque seus defensores ainda n\u00e3o constru\u00edram os instrumentos de emancipa\u00e7\u00e3o baseados nele ou porque efetivamente n\u00e3o pode ter?<\/p>\n<p>Pesquisando um pouco mais, descobri que, para esses senhores \u2013 ou melhor, para alguns deles \u2013 todas as experi\u00eancias socialistas e de liberta\u00e7\u00e3o nacional (inclusas as atuais, como Cuba), seus l\u00edderes, partidos, te\u00f3ricos e militantes teriam deformado o marxismo. Essa deforma\u00e7\u00e3o do marxismo, inclusive, teria come\u00e7ado com Engels, que seria positivista e nunca teria compreendido bem a dial\u00e9tica de Marx. Ali\u00e1s, para muitos desses senhores, nunca sequer existiram experi\u00eancias socialistas. Tudo n\u00e3o passou de capitalismo de Estado ou qualquer no\u00e7\u00e3o assemelhada \u2013 o porqu\u00ea de milh\u00f5es de pessoas terem achado que estavam construindo o socialismo \u00e9, realmente, um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Como provam isso? Citando trechos de textos de Marx e fazendo uma compara\u00e7\u00e3o direta, n\u00e3o mediada, entre o escrito e uma certa apreens\u00e3o do real. Ent\u00e3o, por exemplo, Marx disse em tal ou qual texto que o socialismo \u00e9 os trabalhadores gerirem a produ\u00e7\u00e3o sem Estado; se em alguma experi\u00eancia socialista existe um Estado para se defender de coisas mundanas, tipo a OTAN, isso n\u00e3o \u00e9 socialismo. O significado em si e para si est\u00e1 no texto \u2013 o fato de, na \u00e9poca de Marx, n\u00e3o ter existido nada parecido com a OTAN, armamento at\u00f4mico ou uma pot\u00eancia imperialista com bases militares espalhados em todo mundo \u00e9 um mero detalhe; n\u00e3o \u00e9 algo que faz repensar a teoria \u00e0 luz do real\u2026 (Ah, ainda fa\u00e7o notar como a apreens\u00e3o do texto \u00e9 estranha, j\u00e1 que Marx formulou claramente sobre a necessidade da ditadura do proletariado durante a transi\u00e7\u00e3o socialista).<\/p>\n<p>\u00c9 assim que os partidos n\u00e3o servem. Os movimentos populares n\u00e3o servem. Os sindicatos n\u00e3o servem. A hist\u00f3ria do movimento comunista e seus l\u00edderes n\u00e3o serve. O melhor \u00e9 fazer um \u201cretorno a Marx\u201d buscando uma hermen\u00eautica n\u00e3o contaminada pela\u2026 hist\u00f3ria. Uma esp\u00e9cie de Marx puro, anterior ao leninismo, stalinismo, mao\u00edsmo, castrismo, gramscianismo, luxemburguismo, etc.<\/p>\n<p>Esse tipo de vis\u00e3o do marxismo, no geral, permite tr\u00eas autores: Luk\u00e1cs, Chasin e M\u00e9sz\u00e1ros. Junte a isso uma esp\u00e9cie de fixa\u00e7\u00e3o em debates do que chamamos de marxologia: a melhor tradu\u00e7\u00e3o de Marx, o verdadeiro significado de aliena\u00e7\u00e3o e estranhamento, o verdadeiro conceito de classe, o verdadeiro conceito de capital, o verdadeiro conceito de trabalho, e assim segue. (Essa busca do verdadeiro conceito d\u00e1-se sempre na obra de Marx, dando pouca import\u00e2ncia ao real). N\u00e3o que precis\u00e3o te\u00f3rica e rigor conceitual n\u00e3o sejam importantes \u2013 eles s\u00e3o, e muito, especialmente em tempos \u201cp\u00f3s-modernos\u201d. Por\u00e9m, vejamos : por qual motivo esse rigor \u00e9 aplicado primordialmente numa exegese obcecadamente pura da obra de Marx?<\/p>\n<p>Agora podemos chegar no ponto interessante deste escrito: isso n\u00e3o \u00e9 marxismo, isso \u00e9 teoricismo. O teoricismo \u00e9 um desvio pol\u00edtico e filos\u00f3fico que compreende que a teoria \u00e9 um fim em si mesmo e que a qualidade ou pureza da produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 um processo imanente, buscado na pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, fazendo da teoria algo que s\u00f3 a posteriori pode intervir na realidade. Como se, por exemplo, o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio de uma teoria fosse um componente intr\u00ednseco e n\u00e3o o resultado f\u00e1tico de encontro: \u201cmas a teoria tamb\u00e9m se torna for\u00e7a material quando se apodera das massas\u201d, diria Marx (Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel, p. 12).<\/p>\n<p>Isso significa que a teoria nunca ser\u00e1 um algo em si. \u00c9 puro desvio te\u00f3rico achar que primeiro se difunde uma concep\u00e7\u00e3o de mundo marxista precisa, pura, revolucion\u00e1ria e depois, s\u00f3 depois, uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coerente. E trata-se de um desvio te\u00f3rico com consequ\u00eancias pol\u00edticas graves. Por exemplo, \u00e9 in\u00fatil tentar debater com os adeptos dessa vers\u00e3o pura do marxismo os problemas de organiza\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o de finan\u00e7as, agita\u00e7\u00e3o e propaganda, comunica\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, trabalho de base e afins. Pouco ou nada tem a dizer sobre isso. Aparentemente, uma compreens\u00e3o correta, pura, do marxismo ir\u00e1 resolver como em um passe de m\u00e1gica todas essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse tipo de \u201cmarxismo\u201d teoricista existe desde o come\u00e7o do marxismo. N\u00e3o \u00e9 novidade. E enquanto existirem camadas sociais pequeno-burguesas com espa\u00e7os institucionais com uma din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica insulada das demandas pol\u00edticas em um clima sociopol\u00edtico mais ou menos democr\u00e1tico burgu\u00eas , ele vai continuar existindo. Esse tipo de coisa produz, inclusive, algumas contribui\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas ao marxismo. Alguns desses \u201cmarxistas\u201d brasileiros eu leio \u2013 e de fato aprendo bastante com eles. Mas n\u00e3o se trata de nada mais do que isso: contribui\u00e7\u00f5es t\u00f3picas. O marxismo na m\u00e3o desses senhores nunca ser\u00e1 uma for\u00e7a material que encontra as massas.<\/p>\n<p>Isso muito me lembra os debates que Frantz Fanon teve em vida. Um livro em especial, o cl\u00e1ssico Os condenados da terra, \u00e9 um exemplo de como um revolucion\u00e1rio marxista (sim, Fanon era marxista!) enfrenta os advers\u00e1rios da pr\u00e1xis de cada \u00e9poca hist\u00f3rica. Acompanhe.<\/p>\n<p>Fanon mostra como os intelectuais africanos, na onda dos processos de descoloniza\u00e7\u00e3o, buscaram destruir a historiografia colonizante do imperialismo valorizando os modos de vida, cultura e civiliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9-coloniais. Fanon descreve a import\u00e2ncia desse momento da luta colonial: o combate aos mitos do colonizador, a descoberta das tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do povo, a defesa da cultura nacional e continental, a exalta\u00e7\u00e3o do negro, a constru\u00e7\u00e3o de novas identidades nacionais etc. Fanon tra\u00e7a um panorama de toda essa constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica, seus condicionantes e contradi\u00e7\u00f5es para, mesmo reconhecendo sua import\u00e2ncia, colocar um questionamento fundamental:<\/p>\n<p>\u201cO homem da cultura colonizado n\u00e3o deve se preocupar em escolher o n\u00edvel do seu combate, o setor que decide travar o combate nacional. Combater pela cultura nacional, \u00e9 primeiro combater pela liberta\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o, matriz material a partir da qual a cultura se torna poss\u00edvel\u201d (Frantz Fanon, Os condenados da terra, Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2015, p. 267 \u2013 grifos nossos).<\/p>\n<p>Fanon, neste trecho, destaca que a produ\u00e7\u00e3o de uma cultura africana n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo \u2013 nenhuma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica deve o ser \u2013, mas est\u00e1 subordinada \u00e0 tarefa primordial que \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o nacional, o fundamento real, material, da cultura nacional. Em seguida, destaca que a cultura nacional \u201cem pa\u00edses subdesenvolvidos\u201d deve se situar no pr\u00f3prio centro da \u201cluta de liberta\u00e7\u00e3o nacional que esses pa\u00edses travam\u201d; depois disso, passa a ironizar os \u201chomens da cultura negro-africana\u201d que \u201cmultiplicam congressos\u201d e que n\u00e3o percebem que sua atividade se \u201creduziu a confrontar pe\u00e7as ou a comparar sarc\u00f3fagos\u201d (Os condenados da terra, p. 268).<\/p>\n<p>Seria Fanon um anti-intelectualista? N\u00e3o. Sua tarefa central \u00e9 mostrar a todo momento que n\u00e3o existe florescimento cultural \u2013 e acrescentamos: te\u00f3rico \u2013 sem \u201ccontribuir concretamente [leia-se: politicamente] para a exist\u00eancia dessa cultura, isto \u00e9, a para liberta\u00e7\u00e3o do continente\u201d (idem, p. 270). O cap\u00edtulo de Os condenados da terra dedicado \u00e0 cultura nacional \u00e9 um verdadeiro manifesto em defesa da pr\u00e1xis: \u201cpensamos que a luta organizada e consciente empreendida por um povo colonizado para restabelecer a soberania da na\u00e7\u00e3o constitui a manifesta\u00e7\u00e3o mais plenamente cultural que exista\u201d (p. 280).<\/p>\n<p>O que \u00e9 essa liberta\u00e7\u00e3o nacional para Fanon? Um processo objetivo de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural \u2013 mas cultural em um sentido preciso, n\u00e3o como ret\u00f3rica autocentrada. N\u00e3o se trata de construir uma \u201cArg\u00e9lia argelina\u201d, negando, em abstrato, a \u201cArg\u00e9lia francesa\u201d do colonizador: a quest\u00e3o \u00e9 entre Arg\u00e9lia independente ou Arg\u00e9lia colonial, \u201ctodo o resto \u00e9 literatura [no sentido de palavr\u00f3rio] ou tentativa de trai\u00e7\u00e3o\u201d. Na constru\u00e7\u00e3o dessa emancipa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o interessa ao nosso revolucion\u00e1rio um debate bizantino se a revolu\u00e7\u00e3o na Arg\u00e9lia ser\u00e1 socialista ou democr\u00e1tico burguesa, um debate em si descolado das tarefas concretas da luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Fanon era socialista, dizia claramente que o socialismo \u201cnos permitir\u00e1 ir mais longe, mais harmoniosamente\u201d e que o capitalismo \u201cenquanto modo de vida\u201d n\u00e3o permite \u201crealizar nossa tarefa nacional e universal\u201d, mas esses debates na sua forma escol\u00e1stica podem perder de vista o fundamento material da emancipa\u00e7\u00e3o: o pa\u00eds subdesenvolvido no seu processo de liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, precisar\u00e1 de \u201ccapitais, t\u00e9cnicos, engenheiros, mec\u00e2nicos\u201d, \u201cmodificar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho\u201d (p. 120). Em suma, evitar que a vit\u00f3ria sobre o colonialismo se torne a entrada no neocolonialismo, que a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se torne anexa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mantendo a mesma divis\u00e3o internacional do trabalho de antes.<\/p>\n<p>Um marxista \u201cpuro\u201d poderia, neste momento, afirmar que Fanon n\u00e3o seria marxista, j\u00e1 que ele, aparentemente, n\u00e3o coloca no centro de sua an\u00e1lise a contradi\u00e7\u00e3o capital\/trabalho e n\u00e3o est\u00e1 falando de autogest\u00e3o dos produtores associais e, muito menos, do fim da propriedade privada. Fanon, como todo bom marxista, defendia uma pol\u00edtica antiburguesa e que a Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FNL) n\u00e3o deixasse a dire\u00e7\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio cair nas m\u00e3os da burguesia:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 por isso que precisamos saber que a unidade africana s\u00f3 pode fazer-se sob o impulso e sob a dire\u00e7\u00e3o dos povos, isto \u00e9, desprezando os interesses da burguesia [\u2026]. Nos pa\u00edses subdesenvolvidos, a burguesia n\u00e3o deve encontrar condi\u00e7\u00f5es para sua exist\u00eancia e para seu desenvolvimento. Em outras palavras, o esfor\u00e7o conjugado das massas enquadradas num partido e dos intelectuais altamente conscientes e armados de princ\u00edpios revolucion\u00e1rios deve barrar o caminho para essa burguesia in\u00fatil e nociva\u201d (Os condenados da terra, p. 192 e p. 203).A quest\u00e3o para o revolucion\u00e1rio \u00e9 que o direcionamento estrat\u00e9gico, revolucion\u00e1rio, antiburgu\u00eas, n\u00e3o pode ser uma afirma\u00e7\u00e3o bizantina de princ\u00edpios, mas deve se materializar numa dimens\u00e3o pr\u00e1tico-efetiva em cada momento da luta revolucion\u00e1ria. \u00c9 necess\u00e1rio vencer militarmente o colonizador, construir um Estado nacional, organizar as massas \u2013 especialmente os camponeses, a classe revolucion\u00e1ria por excel\u00eancia, na vis\u00e3o de Fanon \u2013, construir uma infraestrutura nacional, desenvolver as for\u00e7as produtivas, mudar a divis\u00e3o social e internacional do trabalho, garantir \u00e0s massas uma real politiza\u00e7\u00e3o, conhecer e usar as riquezas do pa\u00eds etc.<\/p>\n<p>Fanon n\u00e3o est\u00e1 preocupado se construir um Estado nacional \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o com certa vis\u00e3o da teoria marxista que diz que os revolucion\u00e1rios s\u00e3o contra o Estado ou que o Estado \u00e9 um ser ontonegativo. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 preocupado se est\u00e1 sendo fiel ou n\u00e3o a Marx quando coloca a tarefa de construir uma verdadeira economia nacional, rompendo com a estrutura de rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o imposta pelo colonizador. Fanon \u00e9 um marxista que, com o m\u00e9todo de Marx, fazia an\u00e1lises concretas de situa\u00e7\u00f5es concretas, identificando em cada momento da luta qual a tarefa pol\u00edtica que se coloca, sem perder de vista a estrat\u00e9gia geral de constru\u00e7\u00e3o do socialismo.<\/p>\n<p>\u201cEssa pol\u00edtica \u00e9 nacional, revolucion\u00e1ria, social. Essa nova realidade que o colonizado vai agora conhecer s\u00f3 existe pela a\u00e7\u00e3o. \u00c9 a luta que, ao fazer explodir a antiga realidade colonial, revela facetas desconhecidas, faz surgirem significa\u00e7\u00f5es novas e p\u00f5e o dado nas contradi\u00e7\u00f5es camufladas por essa realidade. O povo que luta, o povo que, gra\u00e7as \u00e0 luta, disp\u00f5e dessa nova realidade e a conhece, avan\u00e7a, libertado do colonialismo, prevenindo antecipadamente contra todas as tentativas de mistifica\u00e7\u00e3o, contra todos os hinos \u00e0 na\u00e7\u00e3o [\u2026] Sem essa luta, sem esse conhecimento na pr\u00e1xis, s\u00f3 h\u00e1 carnaval e fanfarras\u201d (Os condenados da terra, p. 171 \u2013 grifos nossos).<\/p>\n<p>Essa defesa enf\u00e1tica da pr\u00e1xis explica porque, em Os condenados da terra, Fanon fala tanto de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, partidos, espontaneidade, l\u00edderes, forma\u00e7\u00e3o, politiza\u00e7\u00e3o, diferen\u00e7as de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no seio das mais diversas classes, e por a\u00ed vai. N\u00e3o era o interesse do nosso revolucion\u00e1rio apenas elaborar um tratado sobre o que \u00e9 a coloniza\u00e7\u00e3o. E repare: n\u00e3o h\u00e1 problema em si em um marxista realizar um estudo como esse. Contudo, como j\u00e1 disse, para um marxista, toda reflex\u00e3o te\u00f3rica deve conter um clamor pela a\u00e7\u00e3o. \u00c9 na a\u00e7\u00e3o que a teoria se faz pr\u00e1xis. \u00c9 na a\u00e7\u00e3o que a teoria pode encontrar as massas. \u00c9 s\u00f3 no encontro das massas que a teoria com potencialidade revolucion\u00e1ria se torna efetivamente revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>O marxismo puro, aquele que busca um desenvolvimento l\u00f3gico-imanente das categorias, que faz dos textos de Marx uma esp\u00e9cie de B\u00edblia sagrada portadora da verdade pronta do mundo, aquele que em toda e qualquer conjuntura tenta se explicar a partir de um desenvolvimento categorial em alt\u00edssimo n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o \u2013 esse \u201cmarxismo puro\u201d \u00e9 o exato contr\u00e1rio de Fanon \u2013 e de L\u00eanin, Mao, Fidel, Che, Rosa, Gramsci, Mari\u00e1tegui, Tr\u00f3tski, St\u00e1lin, Prestes, Ana Montenegro, Celia S\u00e1nchez, V\u00e2nia Bambirra\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma escolha muito clara. O \u201cmarxismo\u201d como uma seita intelectual, incapaz de uma pr\u00e1xis revolucionante, mediada com as necessidades imediatas da classe trabalhadora, capaz apenas de fraseologia contra o capital para os iniciados; ou o marxismo como um guia de a\u00e7\u00e3o para a transforma\u00e7\u00e3o da realidade, uma teoria que, apreendendo o est\u00e1gio concreto da luta de classes, deve se propagandear e, ao mesmo tempo, aprender com classe trabalhadora na sua luta pelo poder pol\u00edtico para iniciar a reorganiza\u00e7\u00e3o socialista da sociedade? Eu escolho a pr\u00e1xis, como Fanon o fazia.<\/p>\n<p>Ou, como diria outro grande revolucion\u00e1rio africano, o saudoso Samora Machel:<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] Compreenderam que n\u00e3o \u00e9 preciso ser doutor, que n\u00e3o \u00e9 preciso ter grandes conhecimentos te\u00f3ricos. [\u2026] Compreenderam que o membro do Partido \u00e9 o campon\u00eas, o carpinteiro, o mineiro, o motorista, o datil\u00f3grafo, o funcion\u00e1rio, o professor, o estudante, o enfermeiro, o trabalhador que ama e respeita a sua profiss\u00e3o, que se engaja na batalha da produ\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o explora nem participa do processo de explora\u00e7\u00e3o, que reconhece que o homem \u00e9 o agente transformador da natureza e da sociedade. [\u2026] O sucesso da Campanha Nacional de Estrutura\u00e7\u00e3o do Partido, a vit\u00f3ria alcan\u00e7ada pelo nosso Povo neste processo materializaram-se em todos os pontos do nosso Pa\u00eds. [\u2026] O nosso Partido cresceu impetuosamente, criou condi\u00e7\u00f5es para poder desempenhar mais completamente a sua fun\u00e7\u00e3o de for\u00e7a dirigente do Estado e da Sociedade.\u201d<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Frantz Fanon em Accra (Gana), em 1958 (Foto: African American Intellectual History Society).<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/08\/21\/o-dia-em-que-frantz-fanon-encontrou-um-marxista-puro-ensaio-contra-o-teoricismo\/\">O dia em que Frantz Fanon encontrou um \u201cmarxista puro\u201d \u2013 ensaio contra o&nbsp;teoricismo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23817\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[221],"class_list":["post-23817","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6c9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23817","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23817"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23817\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}