{"id":23835,"date":"2019-08-27T06:22:32","date_gmt":"2019-08-27T09:22:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23835"},"modified":"2019-08-27T06:22:32","modified_gmt":"2019-08-27T09:22:32","slug":"protestos-de-hong-kong-sao-um-ataque-ao-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23835","title":{"rendered":"Protestos de Hong Kong s\u00e3o um ataque ao socialismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/opera-16.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: Studio Incendo)<\/p>\n<p>por Fight Back News | Tradu\u00e7\u00e3o de Matheus Ferreira Silva para a Revista Opera<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia entre os progressistas dos Estados Unidos de apoiar grandes multid\u00f5es de pessoas que protestam em outros pa\u00edses. Sem d\u00favida, a m\u00eddia corporativa ajuda nesse processo rotulando certos movimentos como \u201cpr\u00f3-democracia\u201d ou \u201ccombatentes da liberdade\u201d.<\/p>\n<p>Mas nem todos os protestos ou marchas s\u00e3o progressistas, ainda que atraiam grandes multid\u00f5es. O movimento Tea Party nos EUA, por exemplo, atraiu centenas de milhares de donos de pequenos neg\u00f3cios furiosos e profissionais estridentes da classe m\u00e9dia. No entanto, essas manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram nada espont\u00e2neas; grandes empresas orquestraram esse espet\u00e1culo gigante para promover seus pr\u00f3prios interesses de classe. Armado com demagogia racista e pela economia de livre mercado, o Tea Party ajudou a eleger um grupo de governadores republicanos que travaram guerra contra o trabalho organizado, reduziram o financiamento para escolas p\u00fablicas e reduziram os benef\u00edcios de assist\u00eancia m\u00e9dica para os trabalhadores.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, os jornalistas estrangeiros poderiam \u2013 e alguns fizeram \u2013 cobrir o Tea Party como um movimento \u201cpr\u00f3-democracia\u201d baseado em seus slogans e ret\u00f3rica, mas apenas sem levar em considera\u00e7\u00e3o: \u201cDemocracia para quem? Liberdade para quem?\u201d Estas palavras s\u00e3o sem sentido se tiradas do contexto, uma vez que significam coisas diferentes para diferentes classes. Sempre que vemos protestos como os de Hong Kong, temos que perguntar: qual \u00e9 o car\u00e1ter de classe deles? A quais interesses isso serve?<\/p>\n<p>Quando a m\u00eddia corporativa elogia os manifestantes em pa\u00edses como a Venezuela ou a China, ao mesmo tempo em que demoniza os movimentos de massa nos EUA, algo est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Como fugir do assassinato<br \/>\nVamos esclarecer isso logo de in\u00edcio: a onda de protestos que tomou conta de Hong Kong nos \u00faltimos meses n\u00e3o tem nada a ver com a democracia, ou o Estado de Direito.<\/p>\n<p>Os recentes protestos de Hong Kong vieram em resposta a um tratado de extradi\u00e7\u00e3o proposto entre Hong Kong, China continental, Taiwan e Macau. Em 2018, Chan Tong-kai, um estudante universit\u00e1rio de Hong Kong, assassinou brutalmente sua namorada gr\u00e1vida de 20 anos, Poon Hiu-wing, enquanto passava as f\u00e9rias em Taiwan. A m\u00e3e de Poon levou o caso para os investigadores, que acabaram por prender Chan depois de descobrir provas do assassinato.<\/p>\n<p>Os estatutos jur\u00eddicos de Hong Kong impedem que assassinos como Chan sejam julgados por crimes cometidos fora da cidade \u2013 mesmo que tenham ocorrido na China. Como Hong Kong n\u00e3o tem tratado de extradi\u00e7\u00e3o com a China continental ou com Taiwan, eles n\u00e3o poderiam entreg\u00e1-lo aos promotores em Taiwan para enfrentar a justi\u00e7a. Desolada, a fam\u00edlia da jovem continuou a pressionar os legisladores de Hong Kong por justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o est\u00e3o sozinhos. Embora a m\u00eddia corporativa ocidental n\u00e3o possa deixar de elogiar seu \u201cestado de direito\u201d e o \u201cjudici\u00e1rio independente\u201d, o sistema legal de Hong Kong \u00e9 t\u00e3o ilegal quanto o Velho Oeste. Gangues de tr\u00edades de estilo mafioso como 14K e Sun Yee On[1] dominam as ruas. Cart\u00e9is internacionais de drogas lavam seus lucros atrav\u00e9s de Hong Kong \u2013 um segredo aberto confirmado pela divulga\u00e7\u00e3o dos Panama Papers em 2016. A Vida Laboratories, uma importante empresa farmac\u00eautica sediada em Hong Kong, recentemente sofreu press\u00e3o por fornecer ao Cartel de Sinaloa do M\u00e9xico[2] materiais precursores para fabrica\u00e7\u00e3o de metanfetamina[3].<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia deste erro judici\u00e1rio, a diretora-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, prop\u00f4s a Lei de Extradi\u00e7\u00e3o. Se aprovada, seriam estabelecidos canais para a extradi\u00e7\u00e3o criminal entre Hong Kong, a China continental e Taiwan. Imediatamente, essa proposta provocou indigna\u00e7\u00e3o generalizada da elite de Hong Kong, dos financiadores internacionais e dos dissidentes chineses marginais que viviam na regi\u00e3o administrativa especial. Protestos menores no final da primavera resultaram em uma manifesta\u00e7\u00e3o no dia 9 de junho que atraiu cerca de um milh\u00e3o de participantes. Como a viol\u00eancia aumentou nos protestos menores que ocorreram nos dias seguintes, Lam suspendeu o projeto em 15 de junho.<\/p>\n<p>Mas a concess\u00e3o de Lam n\u00e3o enterrou os protestos. Em 1\u00ba de julho, uma parcela da oposi\u00e7\u00e3o invadiu o pr\u00e9dio do Conselho Legislativo de Hong Kong \u2013 essencialmente sua c\u00e2mara legislativa \u2013 e ergueu a antiga bandeira colonial brit\u00e2nica[4]. Organizadores da Frente Civil de Direitos Humanos (CHRF), o principal grupo de oposi\u00e7\u00e3o que lidera a maioria dos protestos, pediram uma \u201cgreve geral\u201d em 5 de agosto. A greve n\u00e3o se materializou, mas os tumultos causaram enormes danos \u00e0 infraestrutura p\u00fablica e \u00e0s empresas locais. Mais recentemente, nos dias 13 e 14 de agosto, manifestantes fecharam o Aeroporto Internacional de Hong Kong \u2013 o oitavo aeroporto mais movimentado do mundo \u2013 aterrando todos os voos de ida e volta da cidade[5].<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 informado a partir dos relat\u00f3rios de m\u00eddia dos EUA, mas tanto a pol\u00edcia de Hong Kong quanto o governo chin\u00eas mostraram uma tremenda modera\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia de Hong Kong permitiu que os protestos continuassem apesar dos manifestantes tomarem os pr\u00e9dios do governo e destru\u00edrem a infraestrutura. De acordo com o antigo acordo \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d, Pequim manifestou apoio ao governo eleito da cidade, mas pede que as autoridades locais lidem com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O longo caminho de Hong Kong de volta \u00e0 China<br \/>\nHong Kong ostenta a 35\u00aa maior economia do mundo, e \u00e9 considerada uma \u201cregi\u00e3o administrativa especial\u201d na China. Com seus baixos impostos, sistema jur\u00eddico flex\u00edvel e relativa aus\u00eancia de regulamenta\u00e7\u00f5es estatais, hoje serve como um importante centro para o capital financeiro internacional. Mas por centenas de anos, a posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de Hong Kong na fronteira sul da China fez com que a cidade se tornasse um dos portos mais importantes da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos tomaram nota disso no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, quando trouxeram \u00f3pio para a China com o objetivo de ampliar seu imp\u00e9rio. No final da Primeira Guerra do \u00d3pio, em 1842, a Gr\u00e3-Bretanha reivindicou Hong Kong como uma posse colonial e um terreno para a coloniza\u00e7\u00e3o da \u00c1sia. A Gr\u00e3-Bretanha manteve Hong Kong como col\u00f4nia por 156 anos \u2013 seu governo foi brevemente interrompido pelo Jap\u00e3o Imperial durante a Segunda Guerra Mundial. Quando o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Popular marchou sobre Pequim e proclamou a Rep\u00fablica Popular da China em 1949, ricos propriet\u00e1rios de terras e empres\u00e1rios fugiram do continente para dois destinos principais: Taiwan e Hong Kong.<\/p>\n<p>Quando manifestantes em Hong Kong ergueram a velha bandeira colonial brit\u00e2nica em protestos, a m\u00eddia ocidental os rotulou de \u201cpr\u00f3-democracia\u201d. Mas n\u00e3o havia nada de democr\u00e1tico em Hong Kong durante o colonialismo brit\u00e2nico. Sob o governo brit\u00e2nico, a cidade se transformou em um importante centro comercial para o benef\u00edcio do capital monopolista \u2013 \u00e0s custas da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o. Quando a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural despertou na China continental em 1967, a classe trabalhadora de Hong Kong se revoltou contra o sistema colonial. Enfrentando repress\u00e3o brutal e puni\u00e7\u00f5es legais como a\u00e7oites, a Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos de Hong Kong[6] liderou uma onda de greves exigindo prote\u00e7\u00f5es trabalhistas b\u00e1sicas e o fim de sua explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O projeto de Reforma e Abertura do l\u00edder chin\u00eas Deng Xiaoping marcou um novo cap\u00edtulo nas rela\u00e7\u00f5es entre a Rep\u00fablica Popular da China e Hong Kong. A cidade do sul tornou-se economicamente mais integrada com o pa\u00eds durante os anos 80, culminando em negocia\u00e7\u00f5es com a Gr\u00e3-Bretanha sobre o futuro da cidade. Seu outrora poderoso imp\u00e9rio se quebrou, e a Gr\u00e3-Bretanha concordou em transferir a soberania sobre Hong Kong para a China em 1997. Em troca, Deng apresentou sua agora famosa formula\u00e7\u00e3o de \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d[7], que permitiria a Hong Kong reter seu sistema constitucional liberal de base brit\u00e2nica \u2013 The Basic Law \u2013 e sua economia capitalista por 50 anos ap\u00f3s a transfer\u00eancia. Sob o comando do l\u00edder chin\u00eas Jiang Zemin, a China recuperou o controle de Hong Kong em 1\u00ba de janeiro de 1997 e manteve o acordo \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Compreender o acordo \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d como parte de uma estrat\u00e9gia<br \/>\nPara entender as quest\u00f5es que alimentam os protestos de hoje em Hong Kong, temos que entender o \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d. O Partido Comunista da China (PCCh) adotou essa formula\u00e7\u00e3o como parte da estrat\u00e9gia para desenvolver ainda mais o socialismo na China e suas motiva\u00e7\u00f5es nos permitem eliminar falsas afirma\u00e7\u00f5es da m\u00eddia ocidental.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o da China em 1949 colocou a classe trabalhadora, os camponeses e as pessoas comuns no poder pela primeira vez na hist\u00f3ria de sua na\u00e7\u00e3o. Oficiais nacionalistas depostos, propriet\u00e1rios de grandes empresas e propriet\u00e1rios de terras ricos fugiram da Rep\u00fablica Popular rec\u00e9m-nascida. Alguns acabaram em Hong Kong ou Macau, este \u00faltimo sob o controle colonial portugu\u00eas na \u00e9poca, mas os mais pesados reacion\u00e1rios do antigo regime se estabeleceram na ilha de Taiwan. Declarando-se o governo leg\u00edtimo da China, Taiwan ganhou o apoio militar das pot\u00eancias imperialistas mundiais, que se recusaram a reconhecer a Rep\u00fablica Popular da China at\u00e9 a d\u00e9cada de 1970. Enquanto Taiwan hoje se considera um pa\u00eds independente, o PCCh ainda o considera parte da China.<\/p>\n<p>A abordagem \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d para Hong Kong visava restaurar a integridade territorial da China ap\u00f3s s\u00e9culos de colonialismo e pilhagem estrangeira. Isso significava tirar os brit\u00e2nicos de Hong Kong, remover o controle de Macau por parte de Portugal e trazer Taiwan de volta. A defesa nacional tamb\u00e9m desempenhou um papel nesse c\u00e1lculo. Os pa\u00edses imperialistas ocidentais tinham acabado de travar uma guerra selvagem contra a Coreia \u2013 ocupando o Sul at\u00e9 hoje \u2013 juntamente com o Vietn\u00e3, o Laos e o Camboja. Trazer Hong Kong e Macau de volta \u00e0 jurisdi\u00e7\u00e3o chinesa eliminaria duas importantes bases para o imperialismo ocidental, bem ao sul da China.<\/p>\n<p>Enquanto \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d abria o caminho para recuperar Hong Kong e Macau, outro objetivo estava em jogo: demonstrar um caminho vi\u00e1vel para Taiwan se reunificar \u00e0 China. Como o ref\u00fagio dos contrarrevolucion\u00e1rios que fugiram do continente ap\u00f3s 1949, Taiwan sempre seria a regi\u00e3o mais complicada para a China. Seguindo com o acordo \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d em Hong Kong \u2013 ou seja, a relativa n\u00e3o interfer\u00eancia nos assuntos pol\u00edticos e econ\u00f4micos internos da cidade \u2013 a China esperava conquistar a confian\u00e7a de Taiwan.<\/p>\n<p>Depois que a China recuperou a soberania sobre Hong Kong em 1997, a cidade assumiu um significado adicional para o pa\u00eds. \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d permitiu que Hong Kong continuasse operando um mercado mais ou menos livre, enquanto pertencia \u00e0 Rep\u00fablica Popular da China socialista. Com algumas modifica\u00e7\u00f5es, Hong Kong tamb\u00e9m opera um governo constitucional liberal tradicional e um sistema legal baseado na lei comum brit\u00e2nica. Para investidores e financiadores ocidentais, essas institui\u00e7\u00f5es familiares e facilmente manipul\u00e1veis fizeram de Hong Kong uma base comercial atraente.<\/p>\n<p>A cidade tornou-se a principal porta de entrada para o investimento estrangeiro direto na China continental. Um aspecto importante das reformas de 1978 incluiu uma \u201cabertura\u201d para o resto do mundo, tanto diplom\u00e1tica quanto econ\u00f4mica. Ap\u00f3s o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da maioria dos pa\u00edses socialistas, o PCCh compreendeu os riscos de convidar o capital estrangeiro para seu pa\u00eds e desenvolveu m\u00e9todos para limitar seu poder e atua\u00e7\u00e3o. Para esse fim, Hong Kong serve como um \u201camortecedor\u201d entre o capital financeiro internacional e a China.<\/p>\n<p>Mas vai al\u00e9m da atra\u00e7\u00e3o de investimentos estrangeiros. A bolsa de valores de Hong Kong serviu de palco para a China internacionalizar ainda mais o uso de sua moeda, o Renminbi (RMB). Em anos mais recentes, esse canal ajudou a facilitar a iniciativa chinesa Belt &amp; Road, um projeto de infraestrutura global multitrilion\u00e1rio com o objetivo de desenvolver uma rede de com\u00e9rcio alternativa para canais dominados pelos EUA.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas comerciais da China causaram controv\u00e9rsias entre os socialistas em todo o mundo por d\u00e9cadas, mas n\u00e3o h\u00e1 como negar o crescimento econ\u00f4mico e o desenvolvimento social impressionantes obtidos desde 1949. Hong Kong desempenhou um papel importante nesse processo no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter de classe dos protestos de Hong Kong<br \/>\nOs protestos de Hong Kong n\u00e3o s\u00e3o liderados pela classe trabalhadora ou a favor de seus interesses, seja em Hong Kong ou na China continental. A Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos de Hong Kong (HKFTU) se manifestou fortemente contra esses protestos[8]. Como uma das maiores organiza\u00e7\u00f5es trabalhistas da regi\u00e3o, a Federa\u00e7\u00e3o representa 410.000 trabalhadores das \u00e1reas de transporte, log\u00edstica, manufatura, infraestrutura, constru\u00e7\u00e3o e outras grandes ind\u00fastrias. Muitos de seus 251 sindicatos afiliados fizeram campanhas ativas contra os pedidos dos manifestantes por uma \u201cgreve geral\u201d.<\/p>\n<p>Os bairros da classe trabalhadora de Hong Kong tamb\u00e9m n\u00e3o aderiram aos tumultos e dist\u00farbios. Uma reportagem da NPR publicada em 14 de agosto analisou o distrito de North Point, um dos maiores bairros da classe trabalhadora da cidade, e entrevistou o trabalhador da constru\u00e7\u00e3o Xiao Yongli. Junto com seus vizinhos, muitos dos quais s\u00e3o trabalhadores migrantes, Xiao alertou aos manifestantes que n\u00e3o entrem em sua comunidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas o trabalho mais longo e arriscado causado pela agita\u00e7\u00e3o cada vez mais violenta. A classe trabalhadora de Hong Kong n\u00e3o tem nada a ganhar com as piores rela\u00e7\u00f5es com a China continental, muito menos com a \u201cindepend\u00eancia\u201d. Elas sofreram muito sob o dom\u00ednio colonial brit\u00e2nico \u2013 sem leis de sal\u00e1rio m\u00ednimo; sem prote\u00e7\u00e3o trabalhista; puni\u00e7\u00f5es legais b\u00e1rbaras como a\u00e7oites e muito mais. Por mais ruins que sejam as condi\u00e7\u00f5es hoje em dia em Hong Kong capitalista, os trabalhadores sabem que mesmo a rede de seguran\u00e7a desossada, aumentos salariais anuais e a aboli\u00e7\u00e3o da tortura hedionda n\u00e3o existiriam sob o dom\u00ednio colonial.<\/p>\n<p>Na verdade, os protestos em Hong Kong atendem aos interesses do capital financeiro, tanto interno quanto internacional. Hong Kong tem um dos maiores n\u00fameros de bilion\u00e1rios per capita de qualquer cidade do mundo[10]. A Frente Civil dos Direitos Humanos, que lidera os protestos, est\u00e1 cheia de organiza\u00e7\u00f5es financiadas e apoiadas pelo Departamento de Estado dos EUA e pelo National Endowment of Democracy (NED), juntamente com bilion\u00e1rios e banqueiros locais. At\u00e9 as chamadas \u201cfor\u00e7as dissidentes de esquerda\u201d na organiza\u00e7\u00e3o reconheceram isso em uma entrevista de 18 de junho \u00e0 revista Jacobin [11].<\/p>\n<p>Mas enquanto o capital financeiro fornece a lideran\u00e7a real, a maior parte dos manifestantes s\u00e3o estudantes de classe m\u00e9dia, acad\u00eamicos e profissionais de colarinho branco. Em 12 de agosto, a Escola de Jornalismo e Comunica\u00e7\u00f5es da Universidade Chinesa divulgou os resultados de uma pesquisa de v\u00e1rios meses com 6600 participantes em 12 manifesta\u00e7\u00f5es [12]. Mais da metade foi identificada como \u201cclasse m\u00e9dia\u201d e quase 75% tinham alguma educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Al\u00e9m disso, os manifestantes tendem a ser do sexo masculino (54%) e jovens, com quase 60% dos manifestantes com menos de 30 anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma ideia perniciosa espalhada pela esquerda norte-americana de que tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas aproximadamente iguais est\u00e3o disputando a lideran\u00e7a dos protestos de Hong Kong: a ala \u2018esquerda\u2019, democratas liberais e a extrema-direita local. Isso \u00e9 uma grande distor\u00e7\u00e3o, na qual at\u00e9 mesmo os dissidentes \u201cde esquerda\u201d n\u00e3o acreditam. O ativista Lam Chi Leung, por exemplo, reconhece abertamente na entrevista \u00e0 revista Jacobin que os grupos locais de extrema direita t\u00eam a maior influ\u00eancia sobre o movimento. Ele acrescenta tamb\u00e9m que os democratas liberais se alinharam com eles.<\/p>\n<p>Isso acompanha as a\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es de Demosisto, a organiza\u00e7\u00e3o liberal mais ativa na Frente Civil de Direitos Humanos. O grupo pediu explicitamente a interven\u00e7\u00e3o externa dos EUA, Europa Ocidental e do Jap\u00e3o para \u201clibertar\u201d Hong Kong \u2013 presumivelmente na linha da \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d do Iraque em 2003. O l\u00edder do Demosisto, Joshua Wong, se reuniu com o Secret\u00e1rio de Estado de Trump, Mike Pompeo, juntamente com outros funcion\u00e1rios diplom\u00e1ticos dos EUA, e elogia abertamente os esfor\u00e7os da Presidente da C\u00e2mara americana, Nancy Pelosi, para minar a soberania chinesa.<\/p>\n<p>Um fato preocupante \u00e9 que a Frente Civil de Direitos Humanos tem adotado cada vez mais o slogan de extrema-direita: \u201cRetomar Hong Kong! Revolu\u00e7\u00e3o em nosso tempo!\u201d Isso vem diretamente de pol\u00edticos locais de direita, que popularizaram o slogan durante sua campanha eleitoral de 2016. Eles deixaram bem claro o que eles querem dizer com \u201cretomar Hong Kong\u201d ao usar insultos racistas contra chineses da etnia Han e abertamente ansiando por um retorno ao colonialismo brit\u00e2nico. Quando os manifestantes invadiram o Conselho Legislativo em 1\u00ba de julho e i\u00e7aram a velha bandeira colonial brit\u00e2nica sobre sua legislatura, eles removeram todas as d\u00favidas sobre quem realmente est\u00e1 dando as cartas.<\/p>\n<p>Quando os manifestantes alegam apoio dos \u201ctrabalhadores\u201d, eles est\u00e3o se referindo \u00e0 Confedera\u00e7\u00e3o de Sindicatos de Hong Kong (HKCTU). O HKCTU \u00e9 muito menor que a HKFTU, representando aproximadamente 160.000 trabalhadores e 61 afiliados. Ao contr\u00e1rio da Federa\u00e7\u00e3o, a HKCTU cobre principalmente funcion\u00e1rios p\u00fablicos, oficiais p\u00fablicos e trabalhadores de colarinho branco da \u00e1rea de finan\u00e7as. Eles se juntaram \u00e0 Frente Civil de Direitos Humanos e participaram de manifesta\u00e7\u00f5es, embora seu alcance pare\u00e7a fr\u00e1gil. Apesar das chamadas fren\u00e9ticas para apoiar a greve geral de 5 de agosto, a HKCTU informou ter mobilizado apenas 35.000 membros (25%). A pol\u00edcia informou n\u00fameros ainda menores.<\/p>\n<p>Um ataque ao socialismo<br \/>\nHong Kong tem tratados de extradi\u00e7\u00e3o com mais de 20 governos estrangeiros, incluindo a Gr\u00e3-Bretanha e os Estados Unidos. Mant\u00e9m esses tratados mesmo enquanto faz parte da China. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o convincente para que eles n\u00e3o devam ter uma estrutura para extradi\u00e7\u00e3o criminal com seu pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 muitos bilion\u00e1rios, executivos e financiadores que t\u00eam seu dinheiro escondido em Hong Kong e n\u00e3o veem dessa maneira. A campanha anticorrup\u00e7\u00e3o do presidente chin\u00eas Xi Jinping j\u00e1 tem muitos deles na mira. Com tantos bilion\u00e1rios executados ou morrendo de \u201ccausas n\u00e3o naturais\u201d todos os anos na Rep\u00fablica Popular da China[13], eles temem com raz\u00e3o por suas vidas e riquezas. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de \u2018soberania\u2019 ou \u2018devido processo\u2019, mas esses conceitos abstratos \u2013 el\u00e1sticos o suficiente para significar coisas diferentes para classes diferentes \u2013 permitem que eles re\u00fanam uma base de massa de apoiadores da classe m\u00e9dia, que em outro contexto talvez n\u00e3o se importassem em proteger os ganhos il\u00edcitos dos ultrarricos de Hong Kong.<\/p>\n<p>Indo direto ao ponto, esses protestos fazem parte de um ataque ao socialismo. Embora grande parte da esquerda dos EUA tenha carimbado a China como poder capitalista \u2013 at\u00e9 mesmo imperialista -, os capitalistas monopolistas n\u00e3o t\u00eam tais ilus\u00f5es. Eles podem discordar sobre o momento da guerra com a China, mas todos entendem o sistema socialista da China como uma amea\u00e7a existencial ao seu poder.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do plano de longo prazo de Obama de \u201cpiv\u00f4 para a \u00c1sia\u201d, Trump acelerou a agress\u00e3o anti-China. O secret\u00e1rio de Estado Mike Pompeo, o secret\u00e1rio de Com\u00e9rcio Wilbur Ross, o conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional John Bolton, o conselheiro econ\u00f4mico Peter Navarro e outros falc\u00f5es anti-China do governo Trump veem a guerra com a China como inevit\u00e1vel. Isso n\u00e3o significa que planejam declarar guerra amanh\u00e3 ou no pr\u00f3ximo ano, mas sinaliza uma estrat\u00e9gia de maior hostilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Rep\u00fablica Popular da China.<\/p>\n<p>Hong Kong n\u00e3o \u00e9 apenas um lar de investimentos financeiros. O Departamento de Estado dos EUA e seu ap\u00eandice sem fins lucrativos, o NED, fizeram investimentos pol\u00edticos substanciais na cidade por d\u00e9cadas. Sua capacidade de financiar os chamados \u201cgrupos da sociedade civil\u201d na China continental \u00e9 limitada. Mas o sistema jur\u00eddico e a autonomia de Hong Kong em rela\u00e7\u00e3o a Pequim tornaram um ref\u00fagio seguro para a opera\u00e7\u00e3o de dissidentes pr\u00f3-ocidentais chineses. Para o Departamento de Estado, \u00e9 um balc\u00e3o \u00fanico para identificar, coordenar e financiar dissidentes chineses.<\/p>\n<p>Isso inclui os tais \u201cdissidentes de esquerda\u201d. A China Labor Watch, por exemplo, \u00e9 uma empresa sediada em Hong Kong, popular nas publica\u00e7\u00f5es liberais ocidentais que pretende documentar greves e dist\u00farbios trabalhistas na China. Eles s\u00e3o financiados diretamente pelo NED e seus representantes, com o objetivo de derrubar o sistema socialista chin\u00eas. Quando n\u00e3o publicam artigos sobre os supostos maus-tratos socialistas aos trabalhadores da China, eles transmitem propaganda anticomunista de Hong Kong para a China, dia e noite. Ironicamente, a permiss\u00e3o da exist\u00eancia desses fantoches do Departamento de Estado americano demonstra o profundo respeito de Pequim pela abordagem de \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d.<\/p>\n<p>O Departamento de Estado dos EUA deseja que a agita\u00e7\u00e3o civil em Hong Kong se espalhe pela China continental. Na melhor das hip\u00f3teses, talvez a agita\u00e7\u00e3o derrube o Partido Comunista ou frature suficientemente o pa\u00eds para enfraquecer seu poder. Na pior das hip\u00f3teses, pelo menos isso coloca um espinho no lado de Pequim. Para esse fim, eles precisam mais do que apenas localistas de direita e liberais alinhados ao Ocidente. Os localistas tamb\u00e9m gostariam de ver o Partido Comunista expulso do poder na China, mas essa n\u00e3o \u00e9 sua preocupa\u00e7\u00e3o imediata. Esses reacion\u00e1rios querem um retorno de fato ao dom\u00ednio colonial brit\u00e2nico, que \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do apelo \u00e0 \u201cretomada de Hong Kong\u201d. Certamente, o populismo de direita e a xenofobia casam bem com se\u00e7\u00f5es das classes m\u00e9dias de Hong Kong, mas seu potencial de se espalhar para a China continental \u00e9 praticamente nulo.<\/p>\n<p>Mesmo em um movimento reacion\u00e1rio como esse, os liberais e a \u201cesquerda dissidente\u201d t\u00eam um prop\u00f3sito. Afinal, o Departamento de Estado n\u00e3o os financia sem motivo. O papel deles n\u00e3o \u00e9 liderar o terreno \u2013 como eles poderiam, dados os interesses de extrema direita por tr\u00e1s dos protestos? \u2013 mas popularizar a ideia e \u201cespalhar o movimento para o a China Continental\u201d. Alguns desses dissidentes de classe m\u00e9dia bem-educados se chamam socialistas e pregam solidariedade \u2013 alguns podem acreditar nisso. Eles servem como rostos mais amig\u00e1veis para a m\u00eddia corporativa ocidental mostrar, em oposi\u00e7\u00e3o aos palha\u00e7os localistas gritando insultos raciais.<\/p>\n<p>Est\u00e1 t\u00e1tica adv\u00e9m do manual do Departamento de Estado americano, que diz respeito \u00e0 derrubada da Pol\u00f4nia socialista nos anos 80.<\/p>\n<p>China socialista e Hong Kong capitalista: dois sistemas comparados<br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil ignorar o crescimento econ\u00f4mico explosivo da China, com m\u00e9dia de 9% ao ano desde 1989. Cr\u00edticos, tanto \u00e0 esquerda quanto \u00e0 direita, atribuem essa conquista da Rep\u00fablica Popular da China ao suposto descarte do socialismo em favor do capitalismo. Mas enquanto o setor privado e os mercados da China cresceram, o pa\u00eds n\u00e3o sofreu recess\u00f5es desde a funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular. Recess\u00f5es resultantes de superprodu\u00e7\u00e3o e especula\u00e7\u00e3o imprudente s\u00e3o end\u00eamicas do capitalismo. A maioria dos pa\u00edses capitalistas experimenta essas crises a cada dez anos ou menos, mas a China evitou esses cen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Enquanto o resto do mundo capitalista transforma sua classe trabalhadora em pobreza, os trabalhadores chineses t\u00eam visto seus sal\u00e1rios crescerem dramaticamente a cada ano, com m\u00e9dia de 8,2% de aumento anual entre 2008-2017. Nos \u00faltimos 30 anos, a China tirou 700 milh\u00f5es de pessoas da pobreza \u2013 a redu\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida e impactante do mundo moderno. No ano passado, o presidente Xi Jinping anunciou uma iniciativa para acabar com a pobreza na China at\u00e9 2020[14] e, com a taxa de pobreza a 1,7% em 2018, parece estar no caminho de alcan\u00e7ar esse objetivo.<\/p>\n<p>De certo modo, toda a conversa sobre \u201crestaura\u00e7\u00e3o capitalista\u201d na China est\u00e1 em desacordo com tudo o que sabemos sobre o capitalismo. Dizer que a China \u00e9 um pa\u00eds socialista n\u00e3o significa que seja perfeito ou sem contradi\u00e7\u00f5es. Isso significa que a classe trabalhadora det\u00e9m o poder estatal e econ\u00f4mico, que exerce atrav\u00e9s de seu partido pol\u00edtico. Construir o socialismo \u00e9 um processo, e o Partido Comunista da China enfatiza desde os anos 1970 que eles ainda est\u00e3o nos est\u00e1gios iniciais de constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade. Os setores estrat\u00e9gicos permanecem sob propriedade do Estado, juntamente com o sistema financeiro e todo o setor imobili\u00e1rio, o que permite ao Estado planejar centralmente o desenvolvimento e priorizar a necessidade humana em detrimento do lucro. O setor privado da China, embora muito maior que outros pa\u00edses socialistas como Cuba, n\u00e3o domina o estado, a economia ou a sociedade.<\/p>\n<p>Hong Kong fornece um ponto de compara\u00e7\u00e3o interessante, dado que a regi\u00e3o administrativa especial opera um sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico dramaticamente diferente da China. As condi\u00e7\u00f5es em Hong Kong s\u00e3o geralmente ruins para a classe trabalhadora. A Rep\u00fablica Popular da China manteve seu compromisso com o acordo \u201cUm Pa\u00eds, Dois Sistemas\u201d e permitiu a Hong Kong tomar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es. \u00c9 claro que o pa\u00eds oferece apoio ao governo da cidade, afinal \u00e9 a autoridade leg\u00edtima da regi\u00e3o, mas os l\u00edderes de Hong Kong n\u00e3o s\u00e3o \u201cfantoches de Pequim\u201d. Eles mant\u00eam uma ordem pol\u00edtica e econ\u00f4mica contr\u00e1rias ao sistema socialista da China, que ficou clara nesse conflito acerca da extradi\u00e7\u00e3o. Se a China \u00e9 um pa\u00eds capitalista, por que existem tantas diferen\u00e7as entre os \u2018dois sistemas\u2019 em \u2018um pa\u00eds\u2019?<\/p>\n<p>Enquanto a China entra na fase final de acabar com a pobreza no continente, Hong Kong est\u00e1 estabelecendo novos recordes para a maior desigualdade de renda do mundo. Mais de um em cada cinco residentes de Hong Kong \u2013 e cerca de 45% dos idosos \u2013 vive na pobreza, enquanto um em cada sete residentes s\u00e3o milion\u00e1rios. Hong Kong n\u00e3o possu\u00eda um sal\u00e1rio m\u00ednimo at\u00e9 os anos 2000, e hoje fica quase US$ 3,00 por hora atr\u00e1s de uma metr\u00f3pole como Xangai. 37% dos trabalhadores na China continental pertencem a um sindicato, contra apenas 23% em Hong Kong. A China tamb\u00e9m possui uma taxa de participa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho significativamente mais alta que Hong Kong \u2013 69% em compara\u00e7\u00e3o com 61% em 2019 \u2013 uma medida mais precisa do desemprego do que as as medidas oficiais.<\/p>\n<p>O mesmo padr\u00e3o surge em outras \u00e1reas econ\u00f4micas importantes para os trabalhadores, como os custos com assist\u00eancia m\u00e9dica (37% em Hong Kong versus 28% na Rep\u00fablica Popular). Os custos de moradia aumentaram em cidades continentais como Pequim, mas n\u00e3o chegam nem perto dos custos ultrajantes de aluguel em Hong Kong. 70% da renda mensal dos cidad\u00e3os de Hong Kong \u00e9 destinada ao aluguel, contra 22% em Pequim.<\/p>\n<p>As respostas dos dois governos ao aumento dos custos de moradia s\u00e3o igualmente reveladoras. Ap\u00f3s o congresso do partido em 2018, o governo chin\u00eas aumentou a constru\u00e7\u00e3o de unidades habitacionais acess\u00edveis, especialmente para fam\u00edlias que moram em cidades menores e \u00e1reas rurais. \u201cCasas s\u00e3o para morar, n\u00e3o para especula\u00e7\u00e3o\u201d, disse o presidente Xi em seu discurso ao congresso.<\/p>\n<p>Mas no sistema de livre mercado de Hong Kong, mais de 200.000 dos moradores mais pobres moram em \u2018casas de caix\u00e3o\u2019 \u2013 pequenos, estreitos, espa\u00e7os de armazenamento tipo gaiola, com espa\u00e7o suficiente para deitar e dormir. A cidade tamb\u00e9m viu a falta de moradia aumentar em quase 20% nos \u00faltimos quatro anos. O governo da cidade fez recentemente alguns movimentos para resolver o problema, mas os baixos impostos e gastos sociais de Hong Kong \u2013 ambos frutos de seu sistema capitalista \u2013 n\u00e3o permitem as a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Um recado aos socialistas nos Estados Unidos acerca de Hong Kong<br \/>\nO socialismo na China produziu melhores resultados para a grande maioria dos trabalhadores do que o capitalismo jamais poderia. O surgimento da Rep\u00fablica Popular como uma das duas maiores pot\u00eancias econ\u00f4micas do mundo representa um desafio existencial ao capitalismo monopolista. Assim como eles travaram uma guerra n\u00e3o t\u00e3o fria contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica por mais de 40 anos, os governantes dos EUA est\u00e3o se posicionando para um confronto com a China socialista. Para eles, os protestos de Hong Kong s\u00e3o uma maneira de maior controle sobre Pequim.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica p\u00fablica de Trump sobre Hong Kong pareceu moderada, especialmente em compara\u00e7\u00e3o com seus t\u00edpicos chiliques no Twitter. A Casa Branca est\u00e1 cheia de falc\u00f5es de guerra anti-China, incluindo o pr\u00f3prio Trump, mas a economia dos EUA est\u00e1 \u00e0 beira de uma recess\u00e3o. Qualquer que seja a inten\u00e7\u00e3o original de Trump com a guerra comercial, ela ultrapassou seus limites com a China. Trump precisa muito do mercado de a\u00e7\u00f5es para continuar relevante na disputa eleitoral at\u00e9 novembro de 2020, porque suas chances de reelei\u00e7\u00e3o caem significativamente se a economia entrar em recess\u00e3o. Sua agress\u00e3o o for\u00e7ou a seguir uma linha t\u00eanue por enquanto, mesmo enquanto o secret\u00e1rio de Estado Mike Pompeo se re\u00fane publicamente com os l\u00edderes dos protestos de Hong Kong. Um apoio publicamente aberto aos protestos praticamente aniquila qualquer chance de uma resolu\u00e7\u00e3o de curto prazo da guerra comercial.<\/p>\n<p>Enquanto muitos liberais e progressistas nos EUA que apoiam os protestos de Hong Kong o fazem por conta de um genu\u00edno mal-entendido, outros devem entender melhor a situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 vimos esse filme, seja na L\u00edbia, Ucr\u00e2nia, S\u00edria, Nicar\u00e1gua ou mais recentemente na Venezuela. Os EUA incitam e usam esses protestos em massa para desestabilizar as na\u00e7\u00f5es que desejam dominar. Segmentos da esquerda se complicam tentando explicar como os protestos dominados pela direita e pelo capital monopolista s\u00e3o realmente progressivos, geralmente destacando um ou dois participantes marginais da \u201cesquerda\u201d como evid\u00eancia. Apesar de todos os seus apelos a apoiar \u2018o povo\u2019 ou a \u2018revolu\u00e7\u00e3o\u2019 nessas situa\u00e7\u00f5es, isso de alguma forma termina sempre com a direita no poder ou com o caos total.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o crescente movimento socialista nos EUA enfrenta eventos como os protestos de Hong Kong, \u00e9 importante lembrar que fazemos parte de uma luta mundial. Muitas vezes, partes da esquerda dos Estados Unidos s\u00e3o obrigadas a apoiar a agenda da nossa pr\u00f3pria classe dominante em nome de ideais abstratos \u2013 democracia, estado de direito, independ\u00eancia, processo legal. Fa\u00e7a a sua escolha.<\/p>\n<p>V\u00e1 at\u00e9 a raiz material desses chav\u00f5es e veja que fica muito menos complicado entender de que lado da guerra de classes os manifestantes de Hong Kong est\u00e3o.<\/p>\n<p>Notas do tradutor:<\/p>\n<p>[1] \u2013 https:\/\/www.scmp.com\/magazines\/hk-magazine\/article\/2037761\/sex-violence-and-triads-dark-side-hong-kong<\/p>\n<p>[2] \u2013 O Cartel de Sinaloa \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa de tr\u00e1fico de drogas e lavagem de dinheiro<\/p>\n<p>[3] \u2013 https:\/\/www.businessinsider.com\/mexican-drug-cartels-expand-into-hong-kong-to-launder-money-2015-4<\/p>\n<p>[4] \u2013 https:\/\/globalnews.ca\/video\/5465241\/protesters-hang-union-jack-flag-inside-hong-kong-legislature<\/p>\n<p>[5] \u2013 https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2019\/08\/hong-kong-airport-reopens-china-fumes-protests-190812231453267.html<\/p>\n<p>[6] \u2013 A Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos de Hong Kong \u00e9 um grupo pol\u00edtico que foi estabelecido em 1948. \u00c9 o maior grupo de trabalhadores organizados de Hong Kong http:\/\/www.ftu.org.hk\/en\/about?id=12<\/p>\n<p>[7] \u2013 https:\/\/dengxiaopingworks.wordpress.com\/2013\/03\/08\/one-country-two-systems\/?fbclid=IwAR2nUySTvU0aIAuhQ0-oXUiuL4gUqT2AYhFha4yj6BhwiNU84t0pPq-nMhk<\/p>\n<p>[8] \u2013 https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/08\/04\/world\/asia\/hong-kong-workers-strike.html<\/p>\n<p>[9] \u2013 https:\/\/www.npr.org\/2019\/08\/14\/751235919\/a-look-at-some-of-the-pro-beijing-neighborhoods-in-hong-kong<\/p>\n<p>[10] \u2013 https:\/\/www.businessinsider.com\/where-do-billionaires-live-top-cities-worldwide-ranked-2019-5#2-hong-kong-saw-a-decrease-in-billionaires-last-year-after-suffering-a-rough-year-for-asian-equities-and-global-trade-flows-14<\/p>\n<p>[11] \u2013 https:\/\/www.jacobinmag.com\/2019\/06\/hong-kong-extradition-bill-protest-movement<\/p>\n<p>[12] \u2013 http:\/\/www.com.cuhk.edu.hk\/ccpos\/en\/pdf\/ENG_antielab%20survey%20public%20report%20vf.pdf<\/p>\n<p>[13] \u2013 http:\/\/www.china.org.cn\/business\/2011-07\/22\/content_23048823.htm<\/p>\n<p>[14] \u2013 http:\/\/www.chinadaily.com.cn\/a\/201903\/08\/WS5c81d657a3106c65c34ed84e.html<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/revistaopera.com.br\/2019\/08\/24\/os-protestos-de-hong-kong-sao-um-ataque-ao-socialismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23835\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[350],"tags":[227],"class_list":["post-23835","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-china","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6cr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23835"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23835\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}