{"id":23859,"date":"2019-08-31T06:39:39","date_gmt":"2019-08-31T09:39:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23859"},"modified":"2019-08-31T06:39:39","modified_gmt":"2019-08-31T09:39:39","slug":"manifesto-das-farc-ep","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23859","title":{"rendered":"Manifesto das FARC-EP"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/colombia\/imagens\/retomada_29ago19.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Objetivos, unidade do povo, alian\u00e7a com o ELN, paz com justi\u00e7a social, Assembleia Constituinte \u2013 Enquanto houver vontade de luta haver\u00e1 esperan\u00e7a de vencer<\/p>\n<p>\u2013 Uma nova etapa de luta para o despertar das consci\u00eancias<\/p>\n<p>por FARC-EP<\/p>\n<p>Aqui no [rio] In\u00edrida que acaricia com a ternura das suas \u00e1guas frescas a selva amaz\u00f4nica e no [rio] Orinoco, sitiados pela fragr\u00e2ncia do Vaup\u00e9s, que \u00e9 anan\u00e1s maduro, anunciamos ao mundo que come\u00e7ou a Segunda Marquetalia (lugar de nascimento das FARC h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo) sob o amparo do direito universal que assiste a todos os povos do mundo de se levantar em armas contra a opress\u00e3o. \u00c9 a continua\u00e7\u00e3o da luta guerrilheira em resposta \u00e0 trai\u00e7\u00e3o do Estado ao Acordo de Paz de Havana. \u00c9 a marcha da Col\u00f4mbia humilde, ignorada e desprezada rumo \u00e0 justi\u00e7a que cintilam as colinas do futuro. Ser\u00e1 a da paz certa, n\u00e3o tra\u00edda, a desdobrar suas asas de anseios populares sobre a perf\u00eddia do estabelecimento.<\/p>\n<p>A rebeli\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma bandeira derrotada nem vencida; por isso continuamos com o legado de Manuel e de Bol\u00edvar, trabalhando a partir de baixo e com os de baixos pela mudan\u00e7a pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>Procuraremos coordenar esfor\u00e7os com a guerrilha do ELN e com aqueles companheiros e companheiras que n\u00e3o dobraram suas bandeiras que tremulam P\u00e1tria para Todos.<\/p>\n<p>Esta insurg\u00eancia n\u00e3o se levanta das cinzas como a ave f\u00eanix para continuar a operar nas profundidades da selva remota. N\u00e3o. Voar\u00e1 atrav\u00e9s do cristal dessas lonjuras brumosas para abra\u00e7ar com a for\u00e7a do amor os sonhos de vida digna e bom governo que suspiram as gentes do comum.<\/p>\n<p>O objetivo n\u00e3o \u00e9 o soldado nem o policial, o oficial nem o suboficial respeitosos dos interesses populares; ser\u00e1 a oligarquia, essa oligarquia excludente e corrupta, mafiosa e violenta que acredita que pode continuar a trancar a porta do futuro de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma Nova Modalidade Operativa experimentar\u00e1 o Estado. S\u00f3 responderemos \u00e0 ofensiva. N\u00e3o vamos continuar a matar-nos entre irm\u00e3os de classe para que uma oligarquia descarada continue a manipular nosso destino e a enriquecer-se, cada vez mais, \u00e0 custa da pobreza p\u00fablica e dos dividendos da guerra.<\/p>\n<p>Durante o trecho final do processo de paz desenvolvido em Havana, e no breve espa\u00e7o de um ano ap\u00f3s o acordo, pudemos constatar que h\u00e1 militares e policiais que anseiam a paz para a Col\u00f4mbia, tanto como a gente do comum. Eles \u2013 que s\u00e3o povo em uniforme \u2013 foram tocados pelos benef\u00edcios do Acordo e quiseram agora dedicar mais tempo a suas fam\u00edlias, a estudar uma carreira, a preparar-se para a defesa da soberania e consagrar suas armas a servi\u00e7o do povo. Sabemos que quiseram ter o poder suficiente para arrancar os gal\u00f5es aos altos comandos corruptos da institui\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o querem continuar a ser utilizados por pol\u00edticos dementes como gatilho dos falsos positivos, do assassinato de l\u00edderes sociais e de ex-combatentes. N\u00e3o querem continuar a ser c\u00famplices do paramilitarismo, do deslocamento for\u00e7ado, do desumano despojo de terras e das pol\u00edticas econ\u00f4micas que vitimizaram milh\u00f5es de colombianos. Indigna-os que s\u00f3 eles tenham que se sentar agora no banco dos r\u00e9us enquanto a c\u00fapula pol\u00edtica que emitiu as ordens contempla indiferente o espet\u00e1culo atr\u00e1s do resguardo da impunidade. Ap\u00f3s o Acordo de Paz de Havana, a grande maioria distancia-se da ideia absurda de serem cipaios de Washington numa guerra injusta contra a Venezuela.<\/p>\n<p>Compatriotas e cidad\u00e3os do mundo, nossos lemas s\u00e3o: paz aos colombianos, paz aos pa\u00edses vizinhos, paz aos quart\u00e9is que n\u00e3o apontem suas miras e seus canh\u00f5es contra as comunidades. Unidade, unidade, unidade&#8230; Mobiliza\u00e7\u00e3o da inconformidade contra os maus governantes e pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem social justa.<\/p>\n<p>Anunciamos nosso afastamento total das reten\u00e7\u00f5es com fins econ\u00f4micos. Priorizaremos o di\u00e1logo com empres\u00e1rios, fazendeiros, comerciantes e a gente abastada do pa\u00eds, para buscar por essa via sua contribui\u00e7\u00e3o ao progresso das comunidades rurais e urbanas. A \u00fanica tributa\u00e7\u00e3o v\u00e1lida ser\u00e1 \u2013 sempre em fun\u00e7\u00e3o do financiamento da rebeli\u00e3o \u2013 a que se aplique \u00e0s economias ilegais e \u00e0s multinacionais que saqueiam nossas riquezas.<\/p>\n<p>Entraremos duramente, com os senhores, na luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, a impunidade, contra os ladr\u00f5es do Estado que como sanguessugas est\u00e3o a chupar o sangue e at\u00e9 a alma do povo.<\/p>\n<p>Continuaremos a ser a mesma guerrilha protetora do meio ambiente, da selva, dos rios, da fauna, que os colombianos conhecem, e n\u00e3o deixaremos de alentar o esfor\u00e7o mundial da raz\u00e3o para deter a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Contem com nossa oposi\u00e7\u00e3o f\u00e9rrea ao fracking (fraturamento hidr\u00e1ulico) que contamina nossas \u00e1guas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>Queremos trabalhar com todos os estratos do pensamento humanista a constru\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria do futuro.<\/p>\n<p>N\u00f3s os colombianos temos a carta de navega\u00e7\u00e3o do Libertador para marchar rumo a &#8220;&#8230;um governo eminentemente popular, eminentemente justo, eminentemente moral, que encadeie a opress\u00e3o, a anarquia e a culpa. Um governo que fa\u00e7a reinar a inoc\u00eancia, a humanidade e a paz&#8221;. Com isso estaremos comprometidos de cora\u00e7\u00e3o e sem descanso \u2013 como disse Marulanda \u2013 numa luta constante pelas mudan\u00e7as, motivados na grande causa da paz com justi\u00e7a social e soberania, por um Novo Governo Alternativo que salve o pa\u00eds da crise geral.<\/p>\n<p>Sim, nosso objetivo estrat\u00e9gico \u00e9 a paz da Col\u00f4mbia com justi\u00e7a social, democracia, soberania e decoro. Essa \u00e9 a nossa bandeira, a bandeira do direito \u00e0 paz que garante a vida. \u00c9 a vida o direito supremo. Nenhum dos direitos fundamentais \u00e9 aplic\u00e1vel se n\u00e3o h\u00e1 vida. Por isso queremos para todos paz com alimento, emprego, \u00e1gua, teto, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, caminhos, com\u00e9rcio, conectividade, recrea\u00e7\u00e3o e a mais ampla democracia. S\u00f3 assim daremos sentido \u00e0 vida. Unidos seremos a tocha da esperan\u00e7a, a pot\u00eancia social transformadora que pode tornar realidade o sentimento mais profundo que se aninha no cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n<p>A paz tra\u00edda<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Col\u00f4mbia est\u00e1 salpicada pelas trai\u00e7\u00f5es aos acordos e \u00e0s esperan\u00e7as de paz.<\/p>\n<p>Em 1782, depois de firmar um Acordo com a coroa espanhola que prometia o fim da opress\u00e3o, o guerrilheiro comuneiro, Jos\u00e9 Antonio Gal\u00e1n, acabou por ser tra\u00eddo, preso e esquartejado vivo. As partes do seu corpo desmembrado foram exibidas nas entradas de alguns povoados como puni\u00e7\u00e3o exemplar e recurso brutal para dissuadir a rebeldia.<\/p>\n<p>A seguir \u00e0 batalha de Boyac\u00e1 \u2013 aurora da independ\u00eancia da Nossa Am\u00e9rica \u2013 a trai\u00e7\u00e3o estendeu-se como n\u00e9voa revolta, agitada por uma ambi\u00e7\u00e3o desenfreada de riquezas e poder. E foi Santander o cabe\u00e7a da trai\u00e7\u00e3o. Ele tentou por todos os meios, em concerta\u00e7\u00e3o com o governo de Washington, assassinar o libertador Sim\u00f3n Bol\u00edvar e destruir seu legado; a condecora\u00e7\u00e3o com a Cruz de Boyac\u00e1 aos assassinos do marechal Ant\u00f3nio Jos\u00e9 de Sucre, o qual havia derrotado com seus soldados internacionalistas a opress\u00e3o colonial na pampa de Ayacucho. Santander \u00e9 o her\u00f3i da oligarquia colombiana e \u00e9 o seu paradigma; n\u00e3o \u00e9 o her\u00f3i do povo.<\/p>\n<p>Essa oligarquia santanderista truncou a vida de Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n, o caudilho armado pelo povo e que era para este sua esperan\u00e7a de reden\u00e7\u00e3o. Sua intransig\u00eancia n\u00e3o perdoou Guadalupe Salcedo, chefe das guerrilhas liberais da Plan\u00edcie (Llano), o qual terminou crivado de balas na pacifica\u00e7\u00e3o dos anos 50. O mesmo fez a Jacobo Pr\u00edas Alape, porta-voz da guerrilha comunista nas conversa\u00e7\u00f5es de paz com o Governo da Frente Nacional. Em 1960 foi assassinado pelas costas na povoa\u00e7\u00e3o de Gaitania.<\/p>\n<p>O Movimento pol\u00edtico Uni\u00f3n Patri\u00f3tica, surgido do primeiro di\u00e1logo de paz Governo-FARC, foi exterminado a tiros. Mais de 5 mil militantes e dirigentes da UP foram abatidos. Toda uma gera\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios e revolucion\u00e1rios foi massacrada.<\/p>\n<p>Depois de firmar o acordo de paz com a guerrilha do M-19 nos anos 80, o Estado foi matando, um a um, seus principais comandantes, os companheiros Iv\u00e1n Marino Ospina, \u00c1lvaro Fayad e Carlos Pizarro Leong\u00f3mez.<\/p>\n<p>E j\u00e1 no ano de 2011, um presidente da Rep\u00fablica ordenou com premedita\u00e7\u00e3o e aleivosia assassinar o comandante das FARC-EP Alfonso Cano com que desde h\u00e1 meses avan\u00e7ava contatos explorat\u00f3rios para abrir conversa\u00e7\u00f5es de paz. Esta trai\u00e7\u00e3o ocorreu, a segui a um bombardeamento da For\u00e7a A\u00e9rea, com a agravante de que o comandante insurgente se encontrava capturado e totalmente indefeso.<\/p>\n<p>Desde a assinatura do Acordo de Paz em Havana, e do desarmamento ing\u00eanuo da guerrilha em troca de nada, a matan\u00e7a n\u00e3o cessa. Em dois anos, mais de 500 l\u00edderes do movimento social foram assassinados e j\u00e1 somam 500 os guerrilheiros mortos em meio \u00e0 indiferen\u00e7a e \u00e0 indol\u00eancia de um Estado.<\/p>\n<p>Quando firmamos o Acordo de Havana fizemo-lo com a convic\u00e7\u00e3o de que era poss\u00edvel mudar a vida dos humildes e dos destitu\u00eddos. Mas o Estado n\u00e3o cumpriu nem com a mais importante das suas obriga\u00e7\u00f5es, que \u00e9 garantir a vida dos seus cidad\u00e3os e, particularmente, a de evitar o assassinato por raz\u00f5es pol\u00edticas. Tudo isto: a armadilha, a trai\u00e7\u00e3o e a perf\u00eddia, a modifica\u00e7\u00e3o unilateral do texto do Acordo, o incumprimento dos compromissos por parte do Estado, as montagens judiciais e a inseguran\u00e7a jur\u00eddica, obrigaram-nos a regressar \u00e0 montanha. Nunca fomos vencidos nem derrotados ideologicamente. Por isso a luta continua. A hist\u00f3ria registrar\u00e1 nas suas p\u00e1ginas que fomos obrigados a retomar as armas. Somos a continua\u00e7\u00e3o daquela gesta que se iniciou em Marquetalia em 1964.<\/p>\n<p>O ex-presidente Santos jurou, com voz empostada de Nobel da Paz, que n\u00e3o mudaria nem uma \u00fanica v\u00edrgula do pactuado, que cumpriria o firmado de boa f\u00e9 e que n\u00e3o ia deixar de cumprir (poner conejo). Mas nem sequer se atreveu a titular terras aos camponeses que nelas viveram durante d\u00e9cadas, sendo algo t\u00e3o simples como a \u00e1gua. Tanto o fundo de terras, como a substitui\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de cultivos de uso il\u00edcito acompanhada de projetos alternativos e a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida no campo ficaram, por agora, perdidas no labirinto do esquecimento. Santos nada fez para impedir o afundamento no Congresso da Reforma Pol\u00edtica, sabendo, como todos os colombianos, que nenhuma guerrilha se desarma se n\u00e3o existirem plenas garantias de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para todos. E para rematar sabotaram as Circunscri\u00e7\u00f5es Eleitorais Especiais de Paz concebidas para que as v\u00edtimas das regi\u00f5es mais afetadas pelo conflito tivessem voz no Congresso da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o assuntos centrais da paz. Agora seu sucessor na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Iv\u00e1n Duque, assegura sem pestanejar que aquilo que n\u00e3o assinou n\u00e3o o obriga, desconhecendo assim que o acordo foi firmado com o Estado, n\u00e3o com um governo.<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o Duque e o Centro Democr\u00e1tico para desconhecer uma obriga\u00e7\u00e3o de Estado elevada a norma constitucional, que hoje \u00e9 Documento Oficial do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas e Acordo Especial do Art. 3 dos Conv\u00eanios de Genebra? O Estado que n\u00e3o respeita seus compromissos n\u00e3o merece o respeito da Comunidade Internacional, nem do seu pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>Estivemos pr\u00f3ximos de p\u00f4r um fim atrav\u00e9s do di\u00e1logo ao mais longo conflito do hemisf\u00e9rio, mas fracassamos porque o poder n\u00e3o quis respeitar os princ\u00edpios que regem as negocia\u00e7\u00f5es, o pacta sunt servanda e a boa f\u00e9. Conseguido o que queriam, que era a entrega das armas, conscientemente fizeram em pedacinhos o Acordo de Paz, despeda\u00e7ando \u2013 como dizem os uribistas \u2013 &#8220;esse maldito papel&#8221;.<\/p>\n<p>Voltando o olhar para tr\u00e1s, o primeiro passo da trai\u00e7\u00e3o foi a convoca\u00e7\u00e3o de um plebiscito improcedente, porque sendo a paz um direito contramajorit\u00e1rio, n\u00e3o se consulta. Aparentemente, mais do que blindar a paz, o que Santos queria era derrotar Uribe, expondo assim o mais importante \u00eaxito da Col\u00f4mbia nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e0 merc\u00ea da mentira, da politicagem e da manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica do uribismo.<\/p>\n<p>O Ato Legislativo 002 de 2017, que obriga as institui\u00e7\u00f5es do Estado a cumprir o acordo de paz, foi debilitado de maneira incoerente at\u00e9 pela pr\u00f3pria Corte Constitucional que o aprovou. Se alguns conte\u00fados do Acordo n\u00e3o estavam em conson\u00e2ncia com a norma constitucional, o caminho era modific\u00e1-la para que n\u00e3o colidisse com o disposto no Acordo Final, respeitando sempre os conv\u00eanios internacionais sobre Direitos Humanos e o Direito Internacional Humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>As modifica\u00e7\u00f5es desta Corte prejudicaram o Acordo sobre v\u00edtimas e justi\u00e7a para a paz, acabaram a autonomia da JEP como jurisdi\u00e7\u00e3o de fato, modificaram o regime de condicionalidade s\u00f3 para armadilhar os guerrilheiros, exclu\u00edram terceiros envolvidos no conflito amparando-os com a impunidade e ampliaram o foro especial para presidentes da Rep\u00fablica a todos os aforados constitucionais. A Corte tamb\u00e9m modificou a Lei de Anistia passando por alto disposi\u00e7\u00f5es claras do Estatuto de Roma em rela\u00e7\u00e3o ao recrutamento de menores.<\/p>\n<p>Essa Corte, que havia sentenciado que o Acordo n\u00e3o podia ser modificado nos pr\u00f3ximos tr\u00eas governos, terminou soltando as r\u00e9deas a legisladores de direita que, em mordidas r\u00e1pidas do &#8220;fast track&#8221;, destro\u00e7aram-no com o pretexto da sua implementa\u00e7\u00e3o normativa.<\/p>\n<p>Perguntamos: em que lugar do planeta um acordo de paz firmado solenemente por uma guerrilha e um Estado, aplaudido pelo mundo, foi destru\u00eddo unilateralmente dessa maneira t\u00e3o infame por pessoas que nunca foram plenipotenci\u00e1rias das partes? O Procurador Geral, congressistas de direita da fac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Uribe e Duque, e a embaixada dos Estados Unidos comandaram a indesculp\u00e1vel derrota da paz.<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o de Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n, que recordamos na instala\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos de paz em Oslo, recobra hoje, perante esta realidade, a mais esmagadora vig\u00eancia. &#8220;Bem aventurados os que entendem que as palavras de conc\u00f3rdia e de paz n\u00e3o devem servir para ocultar sentimentos de rancor e exterm\u00ednio. Mal aventurados os que no governo ocultam por tr\u00e1s da bondade das palavras a impiedade para os homens do povo, porque eles ser\u00e3o assinalados com o dedo da ignom\u00ednia nas p\u00e1ginas da hist\u00f3ria!&#8221;.<\/p>\n<p>Para os filhos de Santander continua a ser &#8220;primeiro a lei \u2013 neste caso o direito penal do inimigo \u2013 assim que v\u00e1 para o diabo a Rep\u00fablica&#8221;. Essa vis\u00e3o fundamentalista foi o que matou a paz.<\/p>\n<p>Como construir a paz sobre estas ru\u00ednas taciturnas? Por algo h\u00e1 que come\u00e7ar. E tem que ser com a instala\u00e7\u00e3o no Pal\u00e1cio de Nari\u00f1o de um Novo Governo colocado ali por uma grande coliga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as da vida, de justi\u00e7a social e democracia, que convoque a um novo di\u00e1logo de paz. Um novo di\u00e1logo que corrija e encadeie a perf\u00eddia e a m\u00e1 f\u00e9, que envolva as for\u00e7as guerrilheiras e todos os atores armados para que possamos fundar uma paz definitiva, est\u00e1vel e duradoura, selada com o compromisso coletivo do Nunca Mais. Um novo Acordo de Paz sem mais assassinatos de l\u00edderes sociais e de ex-combatentes guerrilheiros, no qual as armas sejam verdadeiramente retiradas da pol\u00edtica e colocadas longe do seu uso, n\u00e3o entregues.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais santanderismo<\/p>\n<p>Se n\u00e3o nos libertarmos da maldi\u00e7\u00e3o do santanderismo, n\u00f3s os colombianos nunca teremos paz, nem p\u00e1tria digna. Com esse lastro ser\u00e1 imposs\u00edvel levantar o voo. Foi Santander um falso her\u00f3i nacional e &#8220;o arqu\u00e9tipo da simula\u00e7\u00e3o: n\u00e3o tinha cara e sim m\u00e1scara&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o foi o paradigma da Col\u00f4mbia e sim da sua destrui\u00e7\u00e3o&#8221;. O santanderismo \u00e9 &#8220;o triunfo do p\u00edcaro sobre o homem honrado&#8221;. Um &#8220;s\u00f3rdido r\u00e1bula que afiava sua garras nos dorsos dos tratados de direito&#8221;, isso foi Francisco de Paula Santander. Roubou o empr\u00e9stimo de 1824. Era invenc\u00edvel no campo da pequenez, ou seja, em elei\u00e7\u00f5es, compadrios, clientelismos, libelos, suspei\u00e7\u00f5es, intrigas, em organizar maiorias no Congresso&#8230;, controlava o poder judicial e o legislativo; manipulava a imprensa de Bogot\u00e1. Planeou com os Estados Unidos dividir e desmoralizar o ex\u00e9rcito libertador, sabotar o Congresso Anfiti\u00f4nico do Panam\u00e1; desmembrar a Col\u00f4mbia; impor seu racismo, assassinar Bol\u00edvar e Sucre, e abolir a obra pol\u00edtica e legislativa bolivariana. E promoveu a invas\u00e3o do Peru para a Gr\u00e3 Col\u00f4mbia. Com raz\u00e3o dizia o Libertador: &#8220;Quanto a Santander, este homem perverso j\u00e1 nada lhe resta por fazer, toca todas as mola da intriga, da maldade, e a maldade \u00e9 para ferir-me e formar seu partido&#8230; A exist\u00eancia desse monstro de iniquidade e perf\u00eddia \u00e9 uma emboscada perp\u00e9tua ao governo, a mim mesmo e \u00e0 Col\u00f4mbia&#8221;.<\/p>\n<p>Uma nova forma de fazer pol\u00edtica<\/p>\n<p>Vista a partir do dever ser e da inoc\u00eancia, a pol\u00edtica \u00e9 uma elevada manifesta\u00e7\u00e3o de altru\u00edsmo, que impulsiona \u2013 longe de todo interesse material individualista \u2013 a servir os cidad\u00e3os e a p\u00e1tria, n\u00e3o pelo ouro nem pela fama nem pelo predom\u00ednio e sim por amor e sentimentos puros de humanidade, pela dignifica\u00e7\u00e3o da vida e pela grandeza da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Mas a pol\u00edtica na Col\u00f4mbia \u2013 salvo honrosas exce\u00e7\u00f5es \u2013 deixou de ser uma pr\u00e1tica louv\u00e1vel para converter-se na arte de roubar e de enganar acompanhada por uma eloqu\u00eancia sonora e demag\u00f3gica. A maioria dos pol\u00edticos e seus bispos incrustados nos poderes executivo, legislativo e judicial n\u00e3o pensam em servir e sim em enriquecer-se. Inventam todos os dias leis e mais leis para beneficiar \u00e0 grande empresa, ao capital e a eles pr\u00f3prios, enquanto mant\u00eam o povo longe, muito longe, do seu cora\u00e7\u00e3o. Magistrados venais interpretam a lei que \u00e9 a lei do funil: &#8220;o amplo para eles e o estreito para um&#8221;. A grande maioria dos nossos males vem de leis absurdas. O controle da Fazenda P\u00fablica, a assinatura de contratos, as multas sumarentas, \u00e9 a \u00fanica coisa a que chega a sua ambi\u00e7\u00e3o. E para consegui-lo compram tudo: cargos, municipalidades, governa\u00e7\u00f5es, presid\u00eancias da rep\u00fablica, e tamb\u00e9m consci\u00eancias fam\u00e9licas e sem luzes para que votem por eles. O Estado foi sequestrado pelos foragidos e pela m\u00e1fia da corrup\u00e7\u00e3o e da impunidade. Resgat\u00e1-lo e libert\u00e1-lo est\u00e1 nas m\u00e3os da mobiliza\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias, da na\u00e7\u00e3o em massa, do povo unido. Essa \u00e9 a for\u00e7a que pode.<\/p>\n<p>A palavra cabe ao soberano<\/p>\n<p>Sim. Devemos levantar esta rep\u00fablica das ru\u00ednas. E isso s\u00f3 o pode fazer o povo, que \u00e9 o verdadeiro soberano. Por cima dele, o c\u00e9u, apenas. O movimento social e pol\u00edtico colombiano tem a palavra. Na introdu\u00e7\u00e3o do Acordo Final de Havana h\u00e1 um compromisso que ficou suspenso no firmamento r\u00edgido dos incumprimentos e que \u00e9 necess\u00e1rio reviver; trata-se da convocat\u00f3ria a todos os partidos, movimentos pol\u00edticos e sociais, e a todas as for\u00e7as vivas do pa\u00eds para concertar um grande ACORDO POL\u00cdTICO NACIONAL destinado a definir as reformas e ajustes institucionais necess\u00e1rios para atender aos desafios que exigem a paz, pondo em marcha um novo marco de conviv\u00eancia pol\u00edtica e social. O regime imperante, de pol\u00edticas neoliberais, de corrup\u00e7\u00e3o e guerra do atual poder de classe, colocou-nos frente a dois caminhos: ou se abre uma recomposi\u00e7\u00e3o como resultado de um di\u00e1logo pol\u00edtico e da institucionaliza\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as resultantes de um Processo Constituinte Aberto, ou essas mudan\u00e7as, tarde ou cedo, ser\u00e3o conquistadas mediante a explos\u00e3o da inconformidade de todo um povo em rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>Continuemos a tentar a sa\u00edda mais concertada; abramos todos os caminhos de aproxima\u00e7\u00e3o; analisemos e recolhamos as m\u00faltiplas propostas e plataformas elaboradas a partir do campo popular e da intelectualidade cr\u00edtica do pa\u00eds e bordemos com elas uma s\u00f3 bandeira, para marchar como processo constituinte aberto rumo \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o, da mis\u00e9ria e das imensas desigualdades; rumo \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o em profundidade do Estado, da vida social, restabelecendo a soberania e buscando incidir nos processos de mudan\u00e7a na Nossa Am\u00e9rica e garantir o bem-estar e bom viver do nosso povo. Trata-se tamb\u00e9m de potenciar nossas aspira\u00e7\u00f5es lev\u00e1-las a um novo n\u00edvel no qual, ent\u00e3o sim, uma Assembleia Constituinte suficientemente representativa e com plenas garantias de atua\u00e7\u00e3o, d\u00ea um impulso definitivo \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es estruturais que requer a Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Os jovens, as mulheres, os camponeses, os negros e os \u00edndios, os transportadores, os gr\u00eamios, os partidos pol\u00edticos, as centrais oper\u00e1rias, os desempregados, os crist\u00e3os e integrantes de outros credos religiosos, os ambientalistas, os desportistas, o movimento comunal, o arco \u00edris LGTBI, os que sonham com a paz, todos e todas, devemos somar for\u00e7as para conquistar o objetivo de um novo pa\u00eds, de uma nova ordem social, com uma economia ao servi\u00e7o da na\u00e7\u00e3o, que regida por princ\u00edpios de humanidade estimule a produ\u00e7\u00e3o interna e o emprego. Que assuma a educa\u00e7\u00e3o gratuita e de qualidade em todos os n\u00edveis, como a primeira necessidade da Rep\u00fablica. Uma pol\u00edtica internacional que retome a ideia de Bol\u00edvar, de conformar neste hemisf\u00e9rio uma Grande Na\u00e7\u00e3o de Rep\u00fablicas irm\u00e3s que garanta nossa independ\u00eancia e liberdade. Uma nova ordem que ao proclamar a soberania p\u00e1tria proscreva a extradi\u00e7\u00e3o de nacionais, o livre arb\u00edtrio das multinacionais e a presen\u00e7a de bases militares estrangeiras no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A pot\u00eancia transformadora<\/p>\n<p>A unidade do movimento social e pol\u00edtico do pa\u00eds com suas bandeiras de vida digna arvoradas ao vento \u00e9 a pot\u00eancia transformadora, a pot\u00eancia da mudan\u00e7a social em cuja constru\u00e7\u00e3o devemos empenhar-nos.<\/p>\n<p>A for\u00e7a do povo est\u00e1 na UNIDADE, no mutir\u00e3o (minga) nacional pela dignidade da Col\u00f4mbia e da sua gente. A pot\u00eancia transformadora forma-se com a unidade e a for\u00e7a de todas as consci\u00eancias que confluem de todos os pontos cardeais onde palpita o anseio de p\u00e1tria nova. N\u00e3o devemos nos deixar encurralar pelos guerreiristas e tiranos.<\/p>\n<p>Sejamos um s\u00f3 punho ao alto, por um novo governo, um governo de transi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o mais do mesmo. Tomemos o tim\u00e3o da Col\u00f4mbia e dirijamo-la sem perda de tempo rumo \u00e0s costas da dignidade humana. Somos mais. Apliquemos a for\u00e7a da uni\u00e3o e da raz\u00e3o para levar ao Pal\u00e1cio de Nari\u00f1o um governo amoroso com seu concidad\u00e3os, respeitoso dos seus vizinhos, inimigo da guerra, soberano e solid\u00e1rio com os povos, com novas institui\u00e7\u00f5es integradas com gente virtuosa, honrada, de m\u00e9ritos e sentimentos humanos. Um governo que fa\u00e7a a felicidade do povo.<\/p>\n<p>A luta continua.<br \/>\nCom Bol\u00edvar, com Manuel, com o povo ao poder!<br \/>\nFARC, Ex\u00e9rcito do Povo<br \/>\n29\/Agosto\/2019<\/p>\n<p>Ver tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/youtu.be\/EeCs8cGtNUs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">V\u00eddeo da leitura do manifesto<\/a>\u00a0.<\/p>\n<p>http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2019\/08\/29\/colombia-farc-ep-manifiesto-objetivos-unidad-del-pueblo-alianza-con-el-eln-paz-con-justicia-social-asamblea-constituyente\/<\/p>\n<p>http:\/\/resistir.info\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23859\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[227],"class_list":["post-23859","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6cP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23859"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23859\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}