{"id":23861,"date":"2019-08-31T06:43:20","date_gmt":"2019-08-31T09:43:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23861"},"modified":"2019-08-31T06:43:20","modified_gmt":"2019-08-31T09:43:20","slug":"lagrimas-de-crocodilo-nao-apagam-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23861","title":{"rendered":"L\u00e1grimas de crocodilo n\u00e3o apagam fogo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/opera-17.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Pedro Marin<br \/>\nRevista Opera<br \/>\n(Foto: Sentinel Hub)<\/p>\n<p>Em 1977, em um encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), Darcy Ribeiro postulou: \u201cNunca se viu, em outra parte, ricos t\u00e3o capacitados para gerar e desfrutar riquezas, e para subjugar o povo faminto no trabalho, como os nossos senhores empres\u00e1rios, doutores e comandantes. [\u2026] Eles tramam e retramam, h\u00e1 s\u00e9culos, a malha estreita dentro da qual cresce, deformado, o povo brasileiro.\u201d<\/p>\n<p>Ele continua: \u201cA renda per capita dos escravos de Pernambuco, da Bahia e de Minas Gerais \u2013 eles duravam em m\u00e9dia cinco anos no trabalho \u2013 mas a renda per capita dos nossos escravos era, ent\u00e3o, a mais alta do mundo. [\u2026] O valor da exporta\u00e7\u00e3o brasileira no s\u00e9culo XVII foi maior que o da exporta\u00e7\u00e3o inglesa no mesmo per\u00edodo. O produto mais nobre da \u00e9poca era o a\u00e7\u00facar. Depois, o produto mais rendoso do mundo foi o ouro de Minas Gerais, que multiplicou v\u00e1rias vezes a quantidade de ouro existente no mundo. [\u2026] O caf\u00e9, por sua vez, foi o produto mais importante do mercado mundial at\u00e9 1913, e n\u00f3s desfrutamos, por longo tempo, o monop\u00f3lio dele. [\u2026] Depois, por algumas d\u00e9cadas, a borracha e o cacau deram tamb\u00e9m surtos invej\u00e1veis de prosperidade que enriqueceram e dignificaram as camadas propriet\u00e1rias e dirigentes de diversas regi\u00f5es. [\u2026] aqui no Brasil se tinha inventado ou ressuscitado uma economia especial\u00edssima, fundada num sistema de trabalho que, compelindo o povo a produzir o que ele n\u00e3o consumia \u2013 produzir para exportar -, permitia gerar uma prosperidade n\u00e3o generosa, ainda que propensa, desde ent\u00e3o, a uma redistribui\u00e7\u00e3o preterida.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como entender a cortina de fuma\u00e7a que, vinda da Amaz\u00f4nia, toma o c\u00e9u paulistano, sem entender que S\u00e3o Paulo, a genial e rica metr\u00f3pole, \u00e9 s\u00f3 um ponto de parada da grande malha comercial que come\u00e7a no Norte, Nordeste ou no Centro-Oeste, para terminar numa f\u00e1brica norte-americana, chinesa ou holandesa. Malha sustentada, como foi desde sempre, por produtos prim\u00e1rios; extra\u00eddos da terra ou nela plantados por m\u00e1quinas infernais, que n\u00e3o s\u00e3o consumidos por nosso povo, mas que, por ele produzido, \u00e9 negociado em importantes bolsas paulistanas, para gerar um lucro in\u00fatil, que se conforta nos bolsos de uns poucos no Brasil, assentando o progresso de outras na\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo, refor\u00e7ando nossa depend\u00eancia. Em verdade, a fuma\u00e7a que escureceu o c\u00e9u na semana passada est\u00e1 l\u00e1 todo o dia, apesar de t\u00e3o meticulosamente escondida.<\/p>\n<p>20% de nossas exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o minerais e petr\u00f3leo. 17%, produtos vegetais \u2013 com destaque para a soja, que representa 12% dessa fra\u00e7\u00e3o. Mais 12% s\u00e3o alimentos, 7,4% s\u00e3o metais e 7,1% produtos animais. De forma que temos j\u00e1 63,5% de todas as nossas exporta\u00e7\u00f5es baseadas em fazer de nosso pa\u00eds um fazend\u00e3o. E ainda assim, os cr\u00edticos por\u00e9m moderados jornalistas no r\u00e1dio, criticando o presidente pela Amaz\u00f4nia, nos reiteram da import\u00e2ncia do agrobusiness, que gera, dizem eles, muita riqueza para o pa\u00eds. \u00c9 aquela riqueza da qual falou Darcy \u2013 prosperidade n\u00e3o generosa, prosperidade pura, livre de quaisquer comprometimentos sentimentais. \u00c9 a riqueza pela qual choram os primeiros crocodilos, que entre uma bocada e outra nos dizem cuidadosamente: \u201cn\u00e3o podemos criminalizar o agroneg\u00f3cio.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 depois o crocodilo franc\u00eas que ocupa a cadeira presidencial, Emmanuel Macron, que tomou suas pr\u00f3prias l\u00e1grimas para convocar o tema da Amaz\u00f4nia numa reuni\u00e3o do G7 \u2013 o clube dos sete pa\u00edses mais ricos do mundo. Macron, o \u201cmoderado\u201d que \u00e9 abra\u00e7ado por nossos progressistas liberais est\u00fapidos e infantis, deixou claro que compartilha, no \u00e2mago, um pouco do esp\u00edrito do professor de Harvard Stephen Walt, que na Foreign Policy, sob o t\u00edtulo \u201cQuem invadir\u00e1 o Brasil para salvar a Amaz\u00f4nia?\u201c, faz uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es \u201chipot\u00e9ticas\u201d e \u201cespeculativas\u201d para fixar que \u201c\u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que os grandes poderes tentem impedir a mudan\u00e7a clim\u00e1tica por quaisquer meios necess\u00e1rios.\u201d Ao mesmo tempo em que adota o termo \u201csoberania nacional\u201d para tratar da quest\u00e3o amaz\u00f4nica, Macron questiona se seria poss\u00edvel \u201cdefinir um status internacional da Amaz\u00f4nia\u201c, dizendo que \u201ca import\u00e2ncia [da Amaz\u00f4nia] \u00e9 t\u00e3o grande no plano clim\u00e1tico que n\u00e3o se pode dizer que \u2018\u00e9 apenas meu problema&#8217;\u201d. Pois digo, Monsieur Macron: \u00e9 s\u00f3 nosso problema. Se a Fran\u00e7a tanto se preocupa, que trate de compensar os 1,5 bilh\u00f5es que importa do fazend\u00e3o do Brasil em transfer\u00eancia tecnol\u00f3gica e desenvolvimento para nosso pa\u00eds. Ou, melhor: que trate de pagar mais, em termos absolutos e relativos, pelo que se produz aqui.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m os crocodilos fardados. O general Villas B\u00f4as chegou a citar Ho Chi Minh para se opor ao colonialismo franc\u00eas: \u201cA quest\u00e3o que se coloca \u00e9 de onde viria autoridade moral daquele pa\u00eds [Fran\u00e7a] que, como disse Ho Chi Minh, \u00e9 a p\u00e1tria do Iluminismo, mas quando viaja se esquece de lev\u00e1-lo consigo\u201d. O Lar dos Livres, Terra dos Bravos, os EUA, tamb\u00e9m se esquecem de levar a liberdade ou a bravura para suas novas col\u00f4nias. Ao inv\u00e9s disso, alugam os generais locais, como foi feito em 1964, para torturar e imp\u00f4r. O general Eduardo Villas B\u00f4as, agora t\u00e3o preocupado com a soberania, se cala frente a entrega da Base de Alc\u00e2ntara e a venda da Embraer aos norte-americanos. Na nova Doutrina Monroe, enche o peito frente aos franceses, mas se ajoelha aos norte-americanos; fala contra Macron mas aceita de bom grado a anunciada ajuda norte-americana e israelense. Teria ele autoridade moral para falar em soberania? O jornal Valor Econ\u00f4mico noticia o que j\u00e1 era esperado: o n\u00facleo militar do governo se fortaleceu na briga de galo entre Bolsonaro e Macron, isolando Salles. Diz o jornal: \u201cO socorro dos militares na crise da Amaz\u00f4nia, entretanto, imp\u00f4s condi\u00e7\u00f5es que o presidente dever\u00e1 seguir. Com a crise internacional, Bolsonaro precisou dos militares, dois deles ex-comandantes na Amaz\u00f4nia com autoridade para falar sobre a floresta: o ex-comandante do Ex\u00e9rcito Eduardo Villas-B\u00f4as e Heleno [\u2026] Foi de Heleno a ideia de convencer Bolsonaro a editar decreto que autoriza o emprego das For\u00e7as Armadas para Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Amaz\u00f4nia.\u201d Os fardados n\u00e3o defendem a soberania do Brasil \u2013 mas sua posi\u00e7\u00e3o como Soberano.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 o est\u00fapido presidente brasileiro. Primeiro, tentou colocar a culpa pelo fogo nas \u201cONGs\u201d. Depois de dizer em cadeia nacional que \u201cn\u00e3o gostamos do que estamos vendo\u201d \u2013 n\u00f3s n\u00e3o gostamos mesmo, presidente! \u2013 e de aparentemente ser enquadrado pelo Partido Fardado, voltou atr\u00e1s e anunciou que investigar\u00e1 a den\u00fancia de que um grupo de fazendeiros no Par\u00e1 combinou um \u201cDia do Fogo\u201d em apoio ao presidente. Como diz a mat\u00e9ria do jornal Valor Econ\u00f4mico, \u201cNa avalia\u00e7\u00e3o de uma fonte do governo que acompanha o gabinete de crise [\u2026] as queimadas na floresta amaz\u00f4nica poderiam ter sido acudidas com a a\u00e7\u00e3o rotineira do Ibama em articula\u00e7\u00e3o com governos estaduais e for\u00e7as policiais federais, como sempre acontece todos os anos.\u201d Mas Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atacaram o Ibama e o ICMBio constantemente (este \u00faltimo teve o comando trocado por militares), desautorizaram multas, aplaudiram madeireiros e contingenciaram gastos. Tamb\u00e9m fazem frente \u00fanica contra os chamados \u00edndios, aqueles povos que sabem ocupar a mata sem destru\u00ed-la.<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 uma Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado de Coopera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nica, que tem como membros Bol\u00edvia, Brasil, Col\u00f4mbia, Equador, Suriname, Guiana, Peru e Venezuela, e que pode muito bem tratar conjuntamente da quest\u00e3o das queimadas. Bol\u00edvia, Venezuela e Peru j\u00e1 pediram uma reuni\u00e3o, mas aparentemente seguem solenemente ignorados por um Brasil que busca ref\u00fagio em Trump. N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para a Amaz\u00f4nia que n\u00e3o passe por uma mudan\u00e7a na matriz econ\u00f4mica brasileira. Se o mundo espera de n\u00f3s um fazend\u00e3o, e se n\u00f3s nos ajoelhamos ao mundo, \u00e9 o fazend\u00e3o que avan\u00e7ar\u00e1 \u2013 inclusive sobre a floresta. Ou o Brasil se volta antes de tudo para si e seu povo, ou a fronteira agr\u00edcola seguir\u00e1 avan\u00e7ando. \u00c9 neste o ponto que Macron, generais, \u201cmoderados\u201d, Bolsonaro e Trump n\u00e3o querem tocar \u2013 porque s\u00e3o todos s\u00f3cios na depend\u00eancia brasileira. Se choram frente \u00e0s c\u00e2meras, por tr\u00e1s da cortina de fuma\u00e7a brindam e riem enquanto movem suas pe\u00e7as no xadrez pol\u00edtico e geopol\u00edtico. Os crocodilos n\u00e3o cabem na Amaz\u00f4nia; o rio Amazonas \u00e9 \u00e1gua de jacar\u00e9. Chorando, brigando, ou ocupando-a, representam ainda um grave desequil\u00edbrio ambiental: com cada um deles buscando um ganho, quem perde \u00e9 o Brasil.<\/p>\n<p>Pedro Marin<br \/>\n23 anos, \u00e9 editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publica\u00e7\u00e3o, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics. Tem artigos publicados em sites como Truthout, Russia Insider, New Cold War, OffGuardian, Latin America Bureau, Konkret Media e Periferia Prensa. \u00c9 autor de &#8220;Golpe \u00e9 Guerra &#8211; Teses para enterrar 2016&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23861\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[239,7],"tags":[226],"class_list":["post-23861","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","category-s8-brasil","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6cR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23861"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23861\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}