{"id":23883,"date":"2019-09-05T16:14:49","date_gmt":"2019-09-05T19:14:49","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23883"},"modified":"2019-09-10T00:32:04","modified_gmt":"2019-09-10T03:32:04","slug":"e-socrates-foi-novamente-morto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23883","title":{"rendered":"E S\u00f3crates foi novamente morto&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/images2.minutemediacdn.com\/image\/upload\/c_fill,g_auto,h_1248,w_2220\/f_auto,q_auto,w_1100\/v1554998567\/shape\/mentalfloss\/501955-wikimedia.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Lenina Vernucci da Silva[1]<\/p>\n<p>Quando conheci o mito da musa Clio fiquei encantada com a est\u00f3ria. A filha da mem\u00f3ria e de Zeus tem o poder de conceder imortalidade aos mortais. Narrar as a\u00e7\u00f5es humanas e suas obras, seus feitos e desfeitos. Para o bem e para o mal, a escrita deixa as marcas do tempo, mesmo no n\u00e3o tempo que \u00e9 o tempo dos mitos. Registrar \u00e9 conceder o dom dos deuses aos meros mortais. A morte, algo desconhecido pelos mitos e muito conhecido por n\u00f3s, seres de vida curta, \u00e9 menos assustadora quando se sabe que h\u00e1 algo al\u00e9m dela. A Hist\u00f3ria \u00e9 a vida eterna e por isso \u00e9 a ci\u00eancia por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia. Essa cria\u00e7\u00e3o t\u00e3o humana e t\u00e3o fundamental, nem sempre aceita por sua capacidade desmistificadora do real. Aprender \u00e9 um ato dif\u00edcil. S\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es entre nossas cren\u00e7as e supostas verdades ditas, ouvidas e vivenciadas em anos de vida, mas que n\u00e3o foram sistematizadas por nenhum conhecimento cient\u00edfico. E quando o senso comum e a ci\u00eancia se encontram, o choque \u00e9 inevit\u00e1vel. Aprender n\u00e3o \u00e9 divers\u00e3o, \u00e9 suor, \u00e9 sofrimento, \u00e9 sair do conforto. \u00c9, tamb\u00e9m, um universo novo de possibilidades, de saberes, sabores e formula\u00e7\u00f5es. Um mundo se descobre, se recobre, se encontra e desencontra, assustador e inovador. Diferente da finitude da vida e a certeza da morte, o conhecimento \u00e9 eterno.<\/p>\n<p>Quem passa por isso? Todos aqueles dispostos a duvidar, perguntar, se aventurar. \u00c9 para todos, ao mesmo tempo que \u00e9 para poucos. Oportunidade e vontade s\u00e3o necess\u00e1rios. Conhecer e aprender \u00e9 exerc\u00edcio de alteridade e empatia. Estranhamento, desnaturaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 aprendizado na certeza. O aprendiz n\u00e3o \u00e9 livre, n\u00e3o tem escolhas, como poderia? S\u00f3 se escolhe o que se conhece. Se n\u00e3o h\u00e1 conhecimento, n\u00e3o h\u00e1 liberdade poss\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 como escolher sem saber o que se tem para ser escolhido, sem informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para entender o que se quer. \u201cQuem n\u00e3o sabe o que procura, n\u00e3o reconhece o que acha\u201d, j\u00e1 dizia algu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>O papel da escola \u00e9 esse: a transmiss\u00e3o do saber acumulado ao longo da exist\u00eancia da humanidade. Esse exerc\u00edcio \u00e9 sofrido. Questionar nossas certezas, nos colocar em uma situa\u00e7\u00e3o de distanciamento da realidade que se mostra para a gente como algo \u00f3bvio, ou ainda, tirar os \u00f3culos do dia a dia para, em troca, colocar as lentes do saber, da ci\u00eancia, \u00e9 uma tarefa ingrata. A realidade parecia t\u00e3o simples. Agora \u00e9 complexa.<\/p>\n<p>\u201cSe a realidade das coisas correspondesse a sua ess\u00eancia qualquer ci\u00eancia seria sup\u00e9rflua\u201d. J\u00e1 dizia Marx, cujo conhecimento de uma vida intelectual \u00e9 jogada ao vento como ideol\u00f3gico \u2013 conceito, ali\u00e1s, estudado pelo fil\u00f3sofo \u2013 por pessoas que sequer leram seus textos. \u00c9 a viol\u00eancia da ignor\u00e2ncia posta como reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx n\u00e3o foi o \u00fanico, nem ser\u00e1 o \u00faltimo fil\u00f3sofo e pensador cr\u00edtico a ser perseguido. Muito antes dele, um grande mestre foi morto por suas ideias. S\u00f3crates tinha um \u00fanico compromisso: dizer a verdade e somente a verdade. Ele n\u00e3o estava preocupado com a beleza das palavras usadas descompromissadamente por sofistas para manipular e usadas para dominar. Essa \u00e9 sua cr\u00edtica aos que diziam muito saber. Falar bonito, falar bem n\u00e3o implica em falar a verdade. Como fil\u00f3sofo, atuando em uma das mais antigas e fundamentais \u00e1reas de saber, seu compromisso absoluto com seu interlocutor \u00e9 ser entendido para provocar reflex\u00f5es e \u201csair da caverna\u201d. Ora, qual seria a fun\u00e7\u00e3o do professor se n\u00e3o justamente essa? O professor, diferentemente do sofista, n\u00e3o busca manipular o saber falando bonito, mas usa in\u00fameras did\u00e1ticas para levar a verdade, ou o mais pr\u00f3ximo dela. Ou, no m\u00ednimo, provocar por sua busca. A alegoria da caverna nos mostra o sofrimento causado pelo saber. A met\u00e1fora da luz \u00e9 clara. O impacto, o inc\u00f4modo, a dificuldade em abrir os olhos. Para depois ver um mundo livre, colorido, real.<\/p>\n<p>Os defensores do tragic\u00f4mico projeto \u201cEscola sem partido\u201d e movimentos conservadores supostamente defensores da \u201cfam\u00edlia, moral e bons costumes\u201d alegam que o problema \u00e9 n\u00e3o \u201ctrazer os dois lados\u201d dos problemas apresentados. A verdade \u00e9 que nem sempre h\u00e1 lados: a terra \u00e9 redonda. N\u00e3o h\u00e1 outro lado para mostrar! A teoria da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 consenso, e criacionismo n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia. Simples assim. A viol\u00eancia contra a mulher, a desigualdade racial, a desigualdade de classe, as injusti\u00e7as sociais, s\u00e3o fatos. Desigualdade de g\u00eanero \u00e9 fato. N\u00e3o h\u00e1 ideologia de g\u00eanero, h\u00e1 o estudo cient\u00edfico das rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres, cujos papeis sociais culminam na domina\u00e7\u00e3o do segundo pelo primeiro. Os estudos de g\u00eanero s\u00e3o reconhecidos por todo o meio acad\u00eamico e suas pesquisas t\u00eam auxiliado em pol\u00edticas p\u00fablicas de combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero, visando diminuir ou inibir os abismos sociais impostos pelo sexo. O governador retirar material das escolas alegando que eles est\u00e3o errados por fazer \u201capologia \u00e0 ideologia de g\u00eanero\u201d da qual ele diz n\u00e3o concordar. \u00c9 t\u00e3o absurdo que fica dif\u00edcil comentar seriamente!<\/p>\n<p>A ci\u00eancia trabalha com fatos, com crit\u00e9rios rigorosos de pesquisa, de anos observa\u00e7\u00e3o, levantamento, fontes, debates. O consenso cient\u00edfico \u00e9 o que deve ser transmitido. Se ele deve ser questionado? \u00d3BVIO. Afinal a ci\u00eancia \u00e9 a d\u00favida! Mas uma verdade que possa ser desvendada em outras possibilidades n\u00e3o \u00e9 menos verdade.<\/p>\n<p>Impedir o pensamento cr\u00edtico, transformar o contradit\u00f3rio em inimigo e os pensadores contra-hegem\u00f4nicos em ide\u00f3logos \u00e9 assassinar nossa consci\u00eancia. Retira-se a autoridade do pensador e do pensamento.<\/p>\n<p>A escola \u00e9 a caverna questionada. Assim como mataram o \u00fanico que saiu da caverna, agora querem matar o professor. Plat\u00e3o n\u00e3o fez a met\u00e1fora \u00e0 toa, ele denunciou o que virou a democracia ateniense, que, afogada na corrup\u00e7\u00e3o e nas vaidades dos \u201chomens bons\u201d, matou aquele que teve a aud\u00e1cia de questionar. Mil\u00eanios depois, nossa democracia, tamb\u00e9m corrupta, mata novamente S\u00f3crates. Dessa vez, n\u00e3o sei se ele retornar\u00e1 naqueles que buscam a verdade&#8230;<\/p>\n<p>[1] Mestra em Sociologia pela Unesp de Araraquara. Professora da Rede P\u00fablica Estadual. Militante da Unidade Classista, atuando como Conselheira na APEOESP<\/p>\n<p>Imagem: Morte de S\u00f3crates, pintura de Jacques-Louis David (1787)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23883\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[60,20],"tags":[222],"class_list":["post-23883","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c71-educacao","category-c1-popular","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6dd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23883"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23883\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23883"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}