{"id":23893,"date":"2019-09-06T22:00:04","date_gmt":"2019-09-07T01:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23893"},"modified":"2019-09-08T11:55:26","modified_gmt":"2019-09-08T14:55:26","slug":"a-forca-do-desconforto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23893","title":{"rendered":"A for\u00e7a do desconforto"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ost-journal.de\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/Magdeburg-Flickr-railasia.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Centro da cidade de Magdeburg nos anos 60<\/p>\n<p>No domingo passado, dia 1\u00b0 de setembro, em elei\u00e7\u00e3o estadual, dois estados da antiga Alemanha oriental deram a vota\u00e7\u00e3o mais expressiva para um partido de extrema-direita desde o tempo do nazifascismo. Para entender os motivos desse fen\u00f4meno assustador, a jornalista e ensa\u00edsta alem\u00e3 Irmtraud Gutschke, tendo por base o lan\u00e7amento de um novo livro sobre o tema, faz uma imers\u00e3o no passado e nos conflitos de um povo, cujo estado e forma de vida desapareceram da noite para o dia. No artigo a seguir tomam a palavra as pessoas que vivenciaram todo o per\u00edodo de deteriora\u00e7\u00e3o da sociedade socialista alem\u00e3.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Luciano Oliveira, exclusiva para o Partido Comunista Brasileiro.<\/p>\n<p>Por Irmtraud Gutschke para o jornal Neues Deutschland (Nova Alemanha, antigo \u00f3rg\u00e3o oficial da Alemanha Oriental e atualmente um di\u00e1rio socialista)<\/p>\n<p>Vis\u00f5es de dentro e de fora: Steffen Mau analisa em seu novo livro a \u201cSociedade de transforma\u00e7\u00e3o do leste alem\u00e3o\u201d: da entrada no novo sistema at\u00e9 o avan\u00e7o da extrema-direita.<\/p>\n<p>\u201cO bra\u00e7o quebrou\u201d disse o m\u00e9dico e, para a minha pr\u00f3pria surpresa, eu fiquei aliviada. Eu n\u00e3o devia exagerar assim, tinha dito a vizinha de nariz empinado, depois que eu havia ca\u00eddo sobre o gelo. O gesso, agora, era a minha satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Steffen Mau, soci\u00f3logo especializado em Macrosociologia na Universidade Humbolt em Berlim, gosta de usar o termo \u201csociedade fraturada\u201d para descrever a situa\u00e7\u00e3o atual no leste da Alemanha.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201creclam\u00e3o\u201d, t\u00e3o usada no lado ocidental para se referir \u00e0s pessoas do lado oriental, \u00e9 recusada pelo autor como xingamento. H\u00e1 muitos motivos para reclamar, afirma Steffen, que \u00e9 descrito na aba do seu livro como um \u201cautor da cidade de L\u00fctten Klein\u201c porque ele nasceu e viveu na pequena cidade perto de Rostock (lado oriental). Ser\u00e1 que a editora escreveria que J\u00fcrgen Habermas \u00e9 um autor de D\u00fcsseldorf?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a realidade de quem teve que entrar em um sistema existente: nada, nem ningu\u00e9m consegue apagar que \u201cn\u00f3s fomos &#8211; e continuamos a ser &#8211; aqueles que chegaram depois, depois que um estado se desmoronou\u201d. Al\u00e9m disso, as pessoas do lado oriental tamb\u00e9m s\u00e3o claramente uma minoria do ponto de vista demogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s tamb\u00e9m viemos de baixo\u201d, diz uma tia \u201csimp\u00e1tica\u201d de Berlim ocidental quando meu marido tinha perdido o emprego por causa da uni\u00e3o monet\u00e1ria. Como ela, envolta em jornais sensacionalistas como o \u201cBild\u201d poderia chegar a uma imagem justa de nossas reivindica\u00e7\u00f5es depois de 40 anos de Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA)? Certamente fazia bem a ela lan\u00e7ar olhares de superioridade sobre os &#8220;pobres parentes do leste\u201c. Assim como soa acalmador que \u2013 mais um citado da aba do livro \u2013 \u201cperceber que muito das tens\u00f5es (&#8230;) que se observam hoje no lado oriental &#8230; tem suas ra\u00edzes no tempo da RDA\u201d.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida existem liga\u00e7\u00f5es entre o \u201cantes de\u201d e o \u201cdepois de\u201d e, para tratar disso, o autor recorre, de um lado, \u00e0s suas pr\u00f3prias experi\u00eancias e, de outro, a in\u00fameras pesquisas &#8211; 34 p\u00e1ginas s\u00f3 de indica\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica \u2013 para fundamentar suas an\u00e1lises. Por isso, me parece bem apurada sua postula\u00e7\u00e3o de que a sociedade oriental era estruturada em torno do trabalho, mais fechada e etnicamente mais homog\u00eanea, enquanto a sociedade ocidental se deixava caracterizar mais por seu foco de classe m\u00e9dia, pedante, com maior presen\u00e7a de imigrantes e mais individualista.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o de que na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 quase um quarto da popula\u00e7\u00e3o vivia em pr\u00e9dios simples pr\u00e9-fabricados (Plattenbau) foi uma descoberta para mim. A solu\u00e7\u00e3o da \u201cquest\u00e3o da moradia\u201d era parte permanente da agenda social e pol\u00edtica da RDA. Aluguel com subven\u00e7\u00e3o estatal com pre\u00e7o variando entre 80 centavos e um marco e vinte centavos por metro quadrado. Infraestrutura planejada com \u201camplo atendimento de necessidades b\u00e1sicas e uma v\u00edvida vizinhan\u00e7a\u201d: Para Steffen isso significa uma sociedade \u201cnivelada para a base\u201d que dava \u2013 principalmente em seus anos finais \u2013 pouco espa\u00e7o para desejos de ascens\u00e3o ou distin\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Uma outra coisa que eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia: Erich Honecker (por 18 anos presidente da RDA) tinha modificado a pol\u00edtica educacional de Walter Ulbricht (antecessor de Honecker e por 13 anos presidente da RDA) diminuindo a expans\u00e3o do colegial e ensino superior. Por isso havia na RDA em 1989 apenas a metade de estudantes universit\u00e1rios em compara\u00e7\u00e3o com o lado ocidental.<\/p>\n<p>Plaus\u00edvel. Justamente porque muitos membros da dire\u00e7\u00e3o e governo provinham de fam\u00edlias simples, eles tentavam com isso evitar a apar\u00eancia de um desn\u00edvel social. Al\u00e9m disso, essa pol\u00edtica tinha provavelmente por base o fato de que as posi\u00e7\u00f5es de \u201ccima\u201d haviam sido preenchidas com a \u201celite\u201d do per\u00edodo Walter Ulbricht, enquanto que, para as posi\u00e7\u00f5es de \u201cbaixo\u201d, cada bra\u00e7o era bom o suficiente.<\/p>\n<p>Um precariado acad\u00eamico como o da Rep\u00fablica Federal da Alemanha (RFA) a RDA n\u00e3o produziu. Esse plano, no entanto, entrou em algum momento em conflito com a meta socialista do \u201ccada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades\u201d. Steffen Mau re\u00fane em seu livro muitos motivos do por que &#8211; mesmo no decorrer de gera\u00e7\u00f5es \u2013 a frustra\u00e7\u00e3o p\u00f4de crescer. O fato de que no estado dos \u201ctrabalhadores e dos camponeses\u201d havia caracter\u00edsticas de uma sociedade normalizadora se justifica por sua estrutura fundamental. O termo \u201cEstado totalit\u00e1rio\u201d \u00e9 no entanto refutado por Steffen e, ao inv\u00e9s disso, ele prefere falar em \u201cSociedade de Organiza\u00e7\u00e3o\u201d, na qual havia muitos diferentes n\u00edveis de contato e alian\u00e7a entre dirigentes e o \u201cpovo estatal\u201d (Staatsvolk).<\/p>\n<p>Olhando apenas para seu interior n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender como a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 conseguiu apagar-se a si mesma da hist\u00f3ria em outubro de 1989. Contextos geopol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o no entanto aqui \u2013 como em muitas vezes \u2013 analisados.<\/p>\n<p>Com tudo isso no fundo, como seria poss\u00edvel que as duas Alemanhas negociassem \u201cuma trilha comum ao desenvolvimento\u201d ? \u00c0 sociedade que entrava foi imposta um completo espartilho institucional e pol\u00edtico. Al\u00e9m da \u201cliquida\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es socioculturais\u201d e aceita\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Alemanha ocidental que, com isso, p\u00f4de desmontar a economia da RDA. Steffen Mau n\u00e3o economiza nesse ponto em duras cr\u00edticas e n\u00fameros convincentes. Dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa da RDA em 1989 tinham quatro anos mais tarde mudado de profiss\u00e3o original e, entre as pessoas que tinham fun\u00e7\u00e3o diretora, esse percentual sobe para 90%. O autor p\u00f4de acompanhar esse processo com seus pr\u00f3prios olhos em sua pequena cidade onde pessoas em poucos meses foram arremessadas do n\u00facleo para a margem social.<\/p>\n<p>O modelo da Rep\u00fablica Federal da Alemanha \u2013 j\u00e1 naquele tempo em vias de se despedir do per\u00edodo onde o capitalismo permitiu-se domar para a constru\u00e7\u00e3o de um estado de bem estar social \u2013 atra\u00eda com sua promessa de consumo. Com desemprego e queda no n\u00edvel social ningu\u00e9m contava. Envoltos na n\u00e9voa nacionalista da unifica\u00e7\u00e3o, muita gente alimentava ilus\u00f5es sobre a for\u00e7a do capitalismo.<\/p>\n<p>\u201cEm 2017 a m\u00e9dia do valor do patrim\u00f4nio l\u00edquido nas regi\u00f5es da antiga RDA eram apenas 34,5% do n\u00edvel dos estados do lado ocidental\u201d. De acordo com um estudo de 2016, apenas 1,7% das posi\u00e7\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o de destaque nacional eram ocupadas por pessoas oriundas das regi\u00f5es do leste alem\u00e3o. \u201cN\u00e3o se deve esperar que a mentalidade das pessoas do leste se modifique no sil\u00eancio ou com o tempo, pois a experi\u00eancia da vida na RDA e a frustra\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d seguem vivas na narrativa das pessoas e na desigualdade que se estabeleceu na regi\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO quanto fundo d\u00f3i a espora\u201d pessoas socializadas no lado ocidental precisam de muita empatia para entender. E os pol\u00edticos certamente jamais se interessariam por esse tema se n\u00e3o fosse o avan\u00e7o de movimentos como a AfD (sigla para Alternative f\u00fcr Deutschland \u2013 Alternativa para Alemanha &#8211; Partido neofascista oriundo da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Crist\u00e3) e Pegida (sigla para Patriotische Europ\u00e4er gegen die Islamisierung des Abendlandes &#8211; Europeus Patriotas contra a Islamiza\u00e7\u00e3o do Ocidente &#8211; \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o de extrema-direita que se op\u00f5e \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o de mu\u00e7ulmanos na Alemanha).<\/p>\n<p>A correta interpreta\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno e seus fundamentos \u00e9 condi\u00e7\u00e3o central para \u2013 a partir de um ponto de vista do leste \u2013 entender o que ocorre na Alemanha. Uma senten\u00e7a f\u00e1cil aqui n\u00e3o substitui o entender que, por sua vez, n\u00e3o pode servir como desculpa para tudo. Steffen Mau oferece nesse ponto reflex\u00f5es bem diferenciadas. Para ele o motivo do sucesso da extrema-direita nos estados do leste alem\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o problema com os imigrantes em si, que geralmente s\u00e3o percebidos como \u201crepresentantes de um mundo que saiu do eixo\u201d, nem tanto o medo \u2013 depois de um doloroso processo de integra\u00e7\u00e3o &#8211; de uma segunda onda de desapropria\u00e7\u00e3o cultural, mas apenas de uma recusa geral em ser de novo, de cima para baixo, levado a ter que aceitar \u201cmudan\u00e7as\u201d e \u201cadapta\u00e7\u00f5es\u201d. Steffen fala em um \u201cdesconforto emocional sobre o andamento das coisas\u201d, onde se apegam os populistas.<\/p>\n<p>Esse desconforto pode ser mais profundo nas regi\u00f5es da antiga RDA, mas isso n\u00e3o significa que sua for\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o tenha efeito no lado ocidental. Pois embora l\u00e1 nunca tenha havido uma promessa de igualdade, houve uma promessa de prosperidade social com a qual muita gente tamb\u00e9m se sente decepcionada.<\/p>\n<p>\u201cEm todas as sociedades que foram revolvidas pelo neoliberalismo h\u00e1 uma raiva nas massas\u201d. Essa frase de Wolfgang Engler (soci\u00f3logo cultural formado na RDA) n\u00e3o sai de minha cabe\u00e7a. O tratamento desigual faz crescer a radicaliza\u00e7\u00e3o como express\u00e3o distorcida de um conflito de classes, cuja solu\u00e7\u00e3o conforme o ide\u00e1rio de esquerda pode ser \u2013 como outras vezes \u2013 atrapalhada pelo populismo de direita. No fim das contas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 entre a diferen\u00e7a ocidente e oriente, mas sim entre os de cima e os de baixo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23893\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[226],"class_list":["post-23893","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6dn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23893","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23893"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23893\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}