{"id":2392,"date":"2012-02-10T18:28:31","date_gmt":"2012-02-10T18:28:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2392"},"modified":"2012-02-10T18:28:31","modified_gmt":"2012-02-10T18:28:31","slug":"ogx-e-a-questao-do-talento-conhecimento-e-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2392","title":{"rendered":"OGX e a quest\u00e3o do talento, conhecimento e \u00e9tica"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Nota dos Editores: S\u00f3 o PT, a Petrobr\u00e1s, o PcdoB e a\u00a0 ANP n\u00e3o viram as safadezas que ocorriam nas suas barbas. Mas tem sentido: \u00e9 o nacional desenvolvimentismo (do capitalismo brasileiro)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Durante toda a semana, os jornais, revistas e televis\u00f5es apresentaram an\u00fancio da OGX informando o \u201cin\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no Brasil por uma empresa privada brasileira\u201d.<\/p>\n<p>A OGX faz parte do grupo EBX, de Eike Batista, o empres\u00e1rio mais rico do Brasil e um dos maiores do mundo. Para o leitor desavisado, parece tratar-se de uma hist\u00f3ria de dedica\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7o pr\u00f3prio e alto risco, como dos pioneiros da ind\u00fastria de petr\u00f3leo em todo mundo. Infelizmente, a hist\u00f3ria \u00e9 bem mais obscura.<\/p>\n<p><strong>A Origem<\/strong><\/p>\n<p>A OGX foi criada ap\u00f3s Eike contratar Rodolfo Landim, ex-diretor de Explora\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s, em 2006, e adquirir blocos para explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no Nono Leil\u00e3o, promovido pela Ag\u00eancia Nacional de Petr\u00f3leo, G\u00e1s Natural e Biocombust\u00edveis (ANP), em pleno governo Lula.<\/p>\n<p>Para escolher as \u00e1reas, contratou o ge\u00f3logo Paulo Mendon\u00e7a, at\u00e9 ent\u00e3o Gerente Executivo de E&amp;P da Petrobr\u00e1s, respons\u00e1vel pelas loca\u00e7\u00f5es e detentor de informa\u00e7\u00f5es acumuladas pelo corpo t\u00e9cnico da empresa, muitas delas reservadas e valiosas, de conhecimento de poucas pessoas na companhia.<\/p>\n<p>No Nono Leil\u00e3o, em novembro de 2007, a empresa de Eike arrematou diversos blocos, a partir destas informa\u00e7\u00f5es privilegiadas. Foi exatamente neste leil\u00e3o que 41 \u00e1reas em torno de Tupi foram retiradas por fazer parte do pr\u00e9-sal, descoberto pela Petrobr\u00e1s, ap\u00f3s d\u00e9cadas de estudo, pesquisas e investimentos. A estatal, de posse das informa\u00e7\u00f5es rec\u00e9m obtidas nos po\u00e7os pioneiros, alertou o governo federal que n\u00e3o fazia sentido mant\u00ea-las, pois seria uma doa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o um leil\u00e3o. A partir deste epis\u00f3dio, o governo Lula iniciou a discuss\u00e3o que resultou na mudan\u00e7a do regime do pr\u00e9-sal de concess\u00e3o para partilha.<\/p>\n<p><strong>Arco de Cabo Frio e Informa\u00e7\u00f5es Reservadas<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Ildo Sauer, professor titular da USP e diretor da Petrobr\u00e1s entre 2003-2007, em artigo na revista Retrato do Brasil, de novembro de 2009, \u201cV\u00e1rios setores do pr\u00f3prio governo lutavam pela manuten\u00e7\u00e3o das regras liberais, mesmo diante de v\u00e1rias descobertas feitas na camada pr\u00e9-sal. A primeira se deu no bloco de Parati, em 2005. E o primeiro po\u00e7o com resultados espetaculares foi o 1-RJS-628, de Tupi. Estranhamente, por\u00e9m, foram mantidos os 11 blocos do chamado \u2018arco de Cabo Frio\u2019, arrematados pela OGX, que recrutara a equipe de explora\u00e7\u00e3o da Petrobras, sem rea\u00e7\u00e3o por parte do governo.\u201d<\/p>\n<p>A equipe de t\u00e9cnicos, treinados e detentores de informa\u00e7\u00f5es da Petrobr\u00e1s foram pagos a pre\u00e7o de ouro, \u00e9 claro. Somente Landim \u2013 que acabou saindo, em 2009, ap\u00f3s desentendimento com Eike \u2013 recebeu 165 milh\u00f5es de reais nos quatro anos em que trabalhou no grupo. Em poucos meses ganhou mais que em toda sua vida na Petrobr\u00e1s. O sal\u00e1rio m\u00e9dio dos diretores da OGX em 2010 foi de 5,96 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, com um m\u00e1ximo de 11,9 milh\u00f5es de d\u00f3lares. O sal\u00e1rio m\u00e9dio de um diretor da Petrobr\u00e1s no mesmo per\u00edodo foi de 691 mil d\u00f3lares \u2013 um d\u00e9cimo da OGX \u2013 com um m\u00e1ximo de 728 mil d\u00f3lares, conforme Retrato do Brasil de outubro de 2011.<\/p>\n<p><strong>\u00c9tica<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta \u00f3bvia \u00e9: \u00e9 legal e moral um empregado ou diretor levar informa\u00e7\u00f5es de uma empresa para uma concorrente? A quest\u00e3o fica ainda mais grave se esta empresa \u00e9 controlada pela Uni\u00e3o Federal.<\/p>\n<p>Em algumas \u00e1reas do governo, h\u00e1 per\u00edodos de car\u00eancia que \u2013 dizem -, muitas vezes, acabam sendo burlados por contratos de gaveta. O que importa, na verdade, \u00e9 o posicionamento \u00e9tico, como o relatado por Celso Furtado, em entrevista no livro \u201cSeca e Poder\u201d: &#8220;Eu me recordo de uma hist\u00f3ria curiosa com Raul Prebisch, o criador do Banco Central da Argentina, de tremenda influ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina. Ele me contou que quando saiu do Banco Central passou por grandes dificuldades financeiras, teve at\u00e9 de vender o piano da mulher. Eu arregalei os olhos: quem passara tantos anos chefiando o BC da Argentina teria o emprego que quisesse! E ele disse: &#8220;Mas Celso, eu conhecia a carteira de todos os bancos, administrava o redesconto por telefone, era o homem mais bem informado! Todos queriam me contratar, mas eu n\u00e3o podia trabalhar para nenhum.&#8221;<\/p>\n<p>Muito diferente da hist\u00f3ria de sucesso de Eike, que termina uma de suas propagandas afirmando: \u201cUm marco importante para uma empresa que tem como ess\u00eancia realizar e transformar. Afinal, recursos naturais s\u00f3 se transformam em riqueza para o pa\u00eds quando se tem talento para descobrir onde est\u00e3o e o conhecimento para se chegar at\u00e9 eles.\u201d<\/p>\n<p>Deixou de informar que o talento \u2013 se \u00e9 que se pode chamar de talento -, ao contr\u00e1rio do que sugere o texto, n\u00e3o foi descobrir o petr\u00f3leo, mas, onde estavam os detentores de informa\u00e7\u00f5es reservadas e \u201co conhecimento para se chegar a eles\u201d.<\/p>\n<p><strong>Tecnologia e Patente Brasileira<\/strong><\/p>\n<p>Por fim, a quest\u00e3o tecnol\u00f3gica. Apesar de elogiar a Petrobr\u00e1s pela inova\u00e7\u00e3o e patente, segue caminho diverso. Em entrevista \u00e0 revista Carta Capital de novembro de 2011, informava \u201cEu n\u00e3o ia conseguir montar o FPSO (navio-plataforma) sem a ajuda da Hyundai. Mas vou trazer isso, com estrutura e tecnologia. Ser\u00e1 que s\u00f3 eu consigo? Nossos estaleiros v\u00e3o virar a Embraer dos mares. Um estaleiro com todo o know-how coreano transferido para o Brasil. O bacana \u00e9 que eu fiz o inverso. N\u00e3o precisei de 20, 30 anos de pesquisa e desenvolvimento para criar know-how. Comprei tudo, e em quatro ou cinco anos vai estar tudo absorvido e a gente vai virar patente brasileira.\u201d<\/p>\n<p>Como ir\u00e1 descobrir \u2013 se permanecer no neg\u00f3cio e n\u00e3o repass\u00e1-lo aos chineses ou \u00e0s \u201cbig oils\u201d \u2013 a tarefa \u00e9 bem mais complicada do que aparenta.<\/p>\n<p><strong>Diomedes Ces\u00e1rio da Silva<\/strong><\/p>\n<p>Ex-presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Engenheiros da Petrobr\u00e1s (AEPET)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: AEPET\n\n\n\n\n\n\n\n\nColunista: Diomenes Ces\u00e1rio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2392\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[105],"tags":[],"class_list":["post-2392","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c118-privatizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-CA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2392"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2392\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}