{"id":23953,"date":"2019-09-17T01:19:32","date_gmt":"2019-09-17T04:19:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23953"},"modified":"2019-09-17T01:19:32","modified_gmt":"2019-09-17T04:19:32","slug":"do-golpe-de-2016-a-greve-geral-de-14-de-junho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23953","title":{"rendered":"Do golpe de 2016 \u00e0 Greve Geral de 14 de junho"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/acasadevidro.files.wordpress.com\/2019\/06\/gyn-josc3a9-carlos-almeida-3.jpg?w=474&amp;h=315\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Avan\u00e7os e recuos no processo de rearticula\u00e7\u00e3o do movimento popular no Brasil<\/p>\n<p>Ariel Franco &#8211; militante do PCB de Goi\u00e1s<\/p>\n<p>Reportagem especial da Comunica\u00e7\u00e3o do Sintef-GO relembra o hist\u00f3rico de lutas que vem se desencadeando desde o golpe parlamentar de agosto de 2016 at\u00e9 o momento presente.<\/p>\n<p>O primeiro semestre de 2019 se encerrou e, com ele, os primeiros vislumbres de como a classe trabalhadora e a juventude est\u00e3o se organizando para defender seus interesses no governo Bolsonaro. As manifesta\u00e7\u00f5es estudantis 15 e 30 de maio, seguidas da Greve Geral da classe trabalhadora de 14 de Junho, arrastaram milh\u00f5es de pessoas \u00e0s ruas, paralisaram a produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de mercadorias por um dia e foram os primeiros movimentos de resist\u00eancia popular e de massa ao atual governo, formado numa ampla e heterog\u00eanea coaliz\u00e3o pol\u00edtica hegemonizada por setores militares, neopentecostais e do Poder Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Essa coaliz\u00e3o, atualmente dirigindo o governo federal e diversas assembleias legislativas estaduais e c\u00e2maras municipais, representa, no nosso cen\u00e1rio nacional, uma fra\u00e7\u00e3o de movimentos similares que est\u00e3o em alta no mundo todo. O exemplo mais manifesto da extrema-direita em ascens\u00e3o, talvez, seja o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No entanto, cabe destacar que as formas de express\u00e3o e comportamento pol\u00edtico das for\u00e7as reacion\u00e1rias pelo mundo n\u00e3o s\u00e3o as mesmas nos pa\u00edses de capitalismo central e nos de capitalismo perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Os EUA, por exemplo, promovem pol\u00edticas como a restri\u00e7\u00e3o de direitos humanos b\u00e1sicos para imigrantes e refugiados, flexibiliza os instrumentos jur\u00eddicos de prote\u00e7\u00e3o ambiental, promove uma guerra comercial com a China para minar sua maior na\u00e7\u00e3o advers\u00e1ria, no campo ideol\u00f3gico e pol\u00edtico etc; mas, simultaneamente, busca refor\u00e7ar a produ\u00e7\u00e3o industrial local, para gerar empregos, reduzir a capacidade ociosa da economia e aumentar a massa salarial em circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil e em pa\u00edses de capitalismo perif\u00e9rico, tal qual a Argentina, o avan\u00e7o de pol\u00edticas neoliberais significa, em geral, desinvestimento p\u00fablico, aumento da capacidade ociosa da economia, enfraquecimento da prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de trabalho, superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores com diminui\u00e7\u00e3o da m\u00e9dia salarial per capita e hipertrofiamento de instrumentos jur\u00eddicos e policiais estatais e paraestatais; no sentido de tutelar as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a na disputa pol\u00edtica na sociedade, em favor do neoliberalismo e de suas express\u00f5es pol\u00edticas. A organiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as populares e movimentos de luta em nosso pa\u00eds, portanto, segue uma l\u00f3gica pr\u00f3pria, condicionada por todos esses elementos mencionados.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o da Frente Ampla<\/p>\n<p>A Greve Geral de 14 de Junho, as manifesta\u00e7\u00f5es estudantis de maio e o 1\u00ba de Maio unificado foram constru\u00eddos e catalisados por uma crescente organiza\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria e ampla entre as for\u00e7as progressistas, democr\u00e1ticas, revolucion\u00e1rias e humanistas do pa\u00eds, que v\u00eam buscando, ainda que de forma incipiente, atuarem de forma articulada. Como exemplo disso tivemos a atua\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum das Centrais Sindicais, que organizaram o 1\u00ba de Maio unificado este ano, um fato in\u00e9dito na hist\u00f3ria das manifesta\u00e7\u00f5es da data e, posteriormente, a Greve Geral de 14 de Junho. Outro exemplo que refor\u00e7a essa perspectiva, foi a constru\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es em defesa da educa\u00e7\u00e3o e contra os cortes nas universidades, articulada entre movimento estudantil e sindicatos de trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas movimenta\u00e7\u00f5es dos setores populares, agregando n\u00e3o s\u00f3 centrais sindicais e entidades estudantis, mas tamb\u00e9m partidos pol\u00edticos, coletivos e movimentos sociais e religiosos, \u00e9 um passo importante na constitui\u00e7\u00e3o de uma Frente Ampla de massas, que atue em unidade de a\u00e7\u00e3o e program\u00e1tica contra as medidas radicais de austeridade neoliberal e endurecimento dos bra\u00e7os jur\u00eddico, policial e penal do Estado.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o dessa Frente vem ocorrendo, com avan\u00e7os e recuos, a partir das medidas implementadas pelo governo Temer logo ap\u00f3s o golpe parlamentar de 2016, quando, em poucos meses de governo, o ex-presidente anunciou que reformaria a CLT e a seguridade social, atacando s\u00f3lidos e hist\u00f3ricos direitos conquistados pela classe trabalhadora. Al\u00e9m disso, realizou a Reforma do Ensino M\u00e9dio, a PEC do Teto, prop\u00f4s instituir-se piso salarial de R$ 5 mil para todas as carreiras do servi\u00e7o p\u00fablico, autorizou o corte de ponto de servidores federais quando estiverem em greve, entre outra s\u00e9rie de ataques.<\/p>\n<p>A velocidade e a intensidade dos ataques do governo Temer, al\u00e9m da forma ileg\u00edtima como tinha ascendido ao poder, mobilizou um conjunto de for\u00e7as populares que, at\u00e9 ent\u00e3o, estavam h\u00e1 d\u00e9cadas atuando de forma fragment\u00e1ria e dividida, a se unirem em amplas organiza\u00e7\u00f5es e mobiliza\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter nacional. Os primeiros sinais de resist\u00eancia vieram do movimento estudantil, que protagonizaram, a partir dos col\u00e9gios p\u00fablicos do Paran\u00e1, a maior onda de ocupa\u00e7\u00f5es de escolas e universidades da hist\u00f3ria do pa\u00eds, atingindo mais de 1.200 institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>A luta estudantil, que se iniciou contra a Reforma do Ensino M\u00e9dio, rapidamente ganhou alian\u00e7as e contornos pol\u00edticos mais amplos, com a entrada na agenda do Congresso da draconiana PEC do Teto de Gastos, incorporando \u00e0 luta os sindicatos e movimentos sociais. Como \u00e1pice desse momento hist\u00f3rico, tivemos as duas Marchas \u00e0 Bras\u00edlia, que mobilizaram milhares de pessoas de todas as partes do pa\u00eds na capital federal, nos dois dias de vota\u00e7\u00e3o da PEC no Senado (29 de novembro e 13 de dezembro de 2016). Ambas ficaram marcadas pela extrema trucul\u00eancia policial, com dezenas de detidos e uso abusivo dos chamados instrumentos para controle de dist\u00farbios civis (bombas de g\u00e1s, bala de borracha, spray de pimenta, tasers) etc.<\/p>\n<p>O in\u00edcio de 2017 trouxe a entrada oficial na agenda do Legislativo das Reformas da Previd\u00eancia e Trabalhista, consolidando a unidade de a\u00e7\u00e3o entre as centrais sindicais, mesmo de matizes ideol\u00f3gicos opostos. Em 15 de mar\u00e7o, no esteio das manifesta\u00e7\u00f5es do Dia Internacional da Mulher, houve o Dia Nacional de Luta contra as Reformas, que arrastou mais de 1 milh\u00e3o de pessoas \u00e0s ruas do pa\u00eds; o protesto de Goi\u00e2nia reuniu cerca de 15 mil manifestantes.<\/p>\n<p>O grande dia, contudo, foi a Greve Geral de 28 de abril, que mobilizou 35 milh\u00f5es de pessoas em 254 cidades, incluindo todas as capitais. A greve conseguiu paralisar eficientemente todos os modais de transporte, de motoristas de \u00f4nibus e metrovi\u00e1rios de diversas capitais, a estivadores portu\u00e1rios, aeronautas e aerovi\u00e1rios, gerando um efetivo travamento da economia. O significado pol\u00edtico principal dessa Greve, contudo, foi a reinaugura\u00e7\u00e3o dos movimentos paredistas nacionais de massa, que estavam adormecidos, especificamente, desde 12 de dezembro 1986, quando houve uma grande greve geral contra o Plano Cruzado 2, do governo de Jos\u00e9 Sarney.<\/p>\n<p>A Greve serviu de estopim para o Ocupa Bras\u00edlia, uma caravana nacional de 100 mil pessoas que tomou a capital federal no dia 24 de maio daquele ano, numa grande marcha que se iniciou no Est\u00e1dio Man\u00e9 Garrincha e foi at\u00e9 o Congresso Nacional. Esse dia marcou o \u00e1pice dos tensionamentos entre a classe trabalhadora e os aparelhos repressivos do Estado. Os confrontos, que j\u00e1 tinham ocorrido nas manifesta\u00e7\u00f5es contra a PEC do Teto e na Greve Geral, elevaram substancialmente de n\u00edvel e fizeram v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o policial se iniciou t\u00e3o logo a marcha se aproximou de um cord\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o montado no gramado do Congresso, a cerca de 500 do pr\u00e9dio. A Cavalaria, Tropa de Choque e helic\u00f3pteros da PM-DF, atuando em conjunto com o Ex\u00e9rcito e a For\u00e7a Nacional &#8211; que agiram respaldos pelo decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que autoriza as For\u00e7as Armadas a serem empregadas em atividades-fim de seguran\u00e7a p\u00fablica &#8211; utilizaram-se fartamente de bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, balas de borracha, spray de pimenta e at\u00e9 de muni\u00e7\u00e3o letal para reprimir a manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O saldo ao final do dia, ap\u00f3s confrontos que se estenderam por mais de seis horas, foi o estudante Vitor Rodrigues Fregulia com tr\u00eas dedos da m\u00e3o decepados por uma bomba, o pedreiro Clementino Nascimento Neto cegado no olho esquerdo por uma bala de borracha, e o seguran\u00e7a e auxiliar de servi\u00e7os gerais aposentado, Carlos Geovani Cirilo, com o maxilar destru\u00eddo por um proj\u00e9til letal. Al\u00e9m disso, os Minist\u00e9rios da Agricultura e da Fazenda foram incendiados, e os da Educa\u00e7\u00e3o; Cultura; Ci\u00eancia e Tecnologia; Minas e Energia; Integra\u00e7\u00e3o Nacional; Turismo e o do Planejamento foram apedrejados e tiveram pap\u00e9is e computadores destru\u00eddos.<\/p>\n<p>O rumo mais geral do processo social, pol\u00edtico e hist\u00f3rico, no entanto, foi positivo, pois o Ocupa Bras\u00edlia de 24 de maio de 2017 significou uma grande e massiva a\u00e7\u00e3o conjunta e classista de uma gama de setores dos movimentos populares, estudantis e, sobretudo, de trabalhadores, unificada nas pautas da defesa dos direitos trabalhistas e previdenci\u00e1rios. Categorias como policiais (civis, militares, federais, bombeiros e agentes penitenci\u00e1rios), por exemplo, compuseram um bloco de centenas de pessoas que marcharam lado a lado com os demais trabalhadores.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o, que mobilizou caravanas de diversos estados de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, foi fruto de uma constru\u00e7\u00e3o coletiva que foi sendo costurada na pr\u00f3pria din\u00e2mica da luta, agregando uma mir\u00edade de setores que, como j\u00e1 foi falado, h\u00e1 d\u00e9cadas atuavam politicamente em oposi\u00e7\u00e3o ou isoladamente uns dos outros. Al\u00e9m disso, na mesma semana da manifesta\u00e7\u00e3o, tinham sido divulgados os \u00e1udios em que um dos executivos da JBS, Joesley Batista, conversava com Michel Temer o pagamento de propina a Eduardo Cunha, j\u00e1 preso na \u00e9poca, para que ele n\u00e3o denunciasse esquemas de corrup\u00e7\u00e3o do governo nas dela\u00e7\u00f5es premiadas, em que Temer respondia &#8220;tem que manter isso&#8221;. As condi\u00e7\u00f5es, pois, eram as mais promissoras para o fortalecimento da unidade de a\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>E foi com essa mar\u00e9 favor\u00e1vel que as centrais decidiram por convocar uma nova greve geral, dessa vez para o dia 30 de junho, com a pauta principal de barrar a Reforma Trabalhista, que tramitava a toque de caixa no Congresso. O texto, que trazia mudan\u00e7as profundas nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho &#8211; autoriza\u00e7\u00e3o para gr\u00e1vidas e lactantes trabalharem em locais insalubres, negocia\u00e7\u00e3o entre patr\u00e3o e empregado ter valor jur\u00eddico superior ao da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, custo com honor\u00e1rios para o trabalhador que perder suas a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a do Trabalho, etc &#8211; tinha tamb\u00e9m um ponto que serviu de canto da sereia para as grandes centrais: o fim do imposto sindical.<\/p>\n<p>Atra\u00eddas por uma sinaliza\u00e7\u00e3o do governo de que haveria a retirada de tal ponto do texto final da Reforma, as grandes centrais recuaram para o dia 30, mudando inclusive seu nome, de &#8220;greve geral&#8221; para &#8220;dia nacional de mobiliza\u00e7\u00e3o&#8221;. O resultado foram manifesta\u00e7\u00f5es muito esvaziadas em rela\u00e7\u00e3o as que vinham ocorrendo, e setores estrat\u00e9gicos \u00e0 efici\u00eancia de qualquer greve, como os transportes p\u00fablicos, funcionaram normalmente. Como resultado, 11 dias depois, em 11 de julho, o texto da Reforma Trabalhista foi sancionado integralmente pelo ex-presidente Michel Temer.<\/p>\n<p>A greve tra\u00edda &#8211; em nossa leitura &#8211; n\u00e3o teve como resultado apenas a facilita\u00e7\u00e3o da aprova\u00e7\u00e3o de uma medida que foi o mais profundo e radical golpe nos instrumentos jur\u00eddicos e estatais de prote\u00e7\u00e3o ao trabalhador, mas tamb\u00e9m gerou um refluxo no processo de organiza\u00e7\u00e3o popular que vinha numa ascendente desde as ocupa\u00e7\u00f5es estudantis de outubro de 2016. O segundo semestre de 2017 viu um arrefecimento nas grandes manifesta\u00e7\u00f5es de rua, e o movimento sindical e popular atuando de forma mais ou menos isolada, de acordo com suas reivindica\u00e7\u00f5es imediatas (embora todas estivessem vinculadas, em maior ou menor medida, aos ataques perpetrados pelo governo).<\/p>\n<p>Esta toada branda da luta, que se iniciou ap\u00f3s a desmobiliza\u00e7\u00e3o da greve geral de 30 de junho, adentrou 2018 e foi potencializada pelo enfraquecimento pol\u00edtico de Temer, j\u00e1 envolto em den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, marcado pela pecha de golpista e ileg\u00edtimo, e precisando comprar votos no Congresso para escapar de um processo de impeachment. Como resultado final de sua derrota, decretou interven\u00e7\u00e3o federal no Rio de Janeiro, travando a agenda legislativa e matando de vez a PEC 287, jogando a responsabilidade pela Reforma da Previd\u00eancia para o pr\u00f3ximo presidente.<\/p>\n<p>Desta forma, as lutas sociais, que at\u00e9 ent\u00e3o vinham se organizando em torno de programas e pautas m\u00ednimos, foi engolida pela disputa pol\u00edtico-eleitoral que envolveu, polarizou, dividiu, exp\u00f4s e aprofundou fraturas em toda a sociedade brasileira a partir do segundo semestre. A Reforma da Previd\u00eancia, que, junto da Reforma Trabalhista e da Emenda Constitucional 95, completaria o \u00faltimo pilar do trip\u00e9 do maior projeto de austeridade que um governo brasileiro j\u00e1 ousou implementar, estava temporariamente suspensa.<\/p>\n<p>Austeridade sob a Farda<\/p>\n<p>Al\u00e7ada \u00e0 chefia do Poder Executivo numa elei\u00e7\u00e3o que se caracterizou por se transformar num &#8220;plebiscito sobre o PT&#8221;, a chapa encabe\u00e7ada por um capit\u00e3o reformado do Ex\u00e9rcito e um general da reserva foi eleita num pleito que op\u00f4s fra\u00e7\u00f5es cr\u00edticas radicais e de direita ao projeto petista, por um lado, e uma frente heterog\u00eanea de esquerda que n\u00e3o conseguiu se contrapor ideol\u00f3gica e hegemonicamente \u00e0s fra\u00e7\u00f5es de direita no 1\u00ba turno, fechando-se em torno da candidatura petista de Haddad no 2\u00ba num processo de Frente Ampla.<\/p>\n<p>Por detr\u00e1s disso, dando suporte ao retorno oficial das For\u00e7as Armadas como parte integrante da dire\u00e7\u00e3o do Executivo, houve uma coaliz\u00e3o pragm\u00e1tica, unificada em torno da agenda neoliberal, por\u00e9m dividida em termos ideol\u00f3gicos, entre os l\u00edderes das grandes lojas do varejo, do agroneg\u00f3cio, dos bancos, dos grandes grupos neopentecostais e, por fim, da concord\u00e2ncia t\u00e1cita dos oligop\u00f3lios de m\u00eddia, que optaram por n\u00e3o atacar direta e frontalmente o ent\u00e3o candidato Bolsonaro mesmo diante de evid\u00eancias que maculariam sua imagem de pol\u00edtico honesto e &#8220;antissist\u00eamico&#8221;, como o aumento de patrim\u00f4nio imobili\u00e1rio incompat\u00edvel com seus vencimentos e den\u00fancias de Caixa 2 no financiamento de disparos em massa de propaganda pol\u00edtica por redes sociais.<\/p>\n<p>A primeira manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica de que um setor importante da burguesia, o agroneg\u00f3cio, representado pela Sociedade Rural Brasileira (SRB), n\u00e3o optaria por um pol\u00edtico tradicional, identificado com o &#8220;sistema&#8221;, tal qual fora Temer, tal qual postulava a ser Alckmin, Meirelles ou \u00c1lvaro Dias, foi quando o presidente da SRB, Frederico D&#8217;\u00c1vila, ex-assessor de Geraldo Alckmin, declarou que o Brasil precisava de um piloto de ca\u00e7a, como Bolsonaro, e n\u00e3o de um de Boeing, como Alckmin.<\/p>\n<p>Tal entrevista, concedida \u00e0 Folha de S\u00e3o Paulo e publicada em 29 de abril do ano passado, foi o primeiro sinal claro de um setor importante da economia de que seu candidato estava escolhido, quatro meses antes da corrida eleitoral se iniciar oficialmente. D&#8217;\u00c1vila veio a ser formulador do programa de governo de Bolsonaro para o campo, e um dos porta-vozes mais influentes na defesa do armamento de produtores &#8220;contra roubos e invas\u00f5es&#8221;. Nas elei\u00e7\u00f5es, se candidatou a deputado estadual em S\u00e3o Paulo pelo PSL e veio a ser eleito.<\/p>\n<p>Os demais setores da burguesia, quando o processo eleitoral se iniciou, foram pouco a pouco fechando quest\u00e3o em torno do nome de Bolsonaro, e sua imagem inicial de um candidato invi\u00e1vel e pitoresco, rapidamente cresceu a partir das derrapagens e indefini\u00e7\u00f5es de seus advers\u00e1rios. Catapultado finalmente por sua defesa efusiva da seguran\u00e7a p\u00fablica, sua capilaridade nas igrejas evang\u00e9licas e o sistema industrial de disparos de mensagens em redes sociais, concretizou-se como contraponto ideol\u00f3gico mais eficiente ao PT; arrebanhando votos dos setores cr\u00edticos e desiludidos com o projeto democr\u00e1tico popular. As For\u00e7as Armadas voltavam a compartilhar a dire\u00e7\u00e3o do Poder Executivo pela primeira vez desde o fim da ditadura civil-militar, em 1985.<\/p>\n<p>O povo se insurge e as m\u00e1quinas param<\/p>\n<p>15 e 30 de Maio &#8211; milh\u00f5es em defesa da Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Os protestos de 15 de maio foram as primeiras grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massa enfrentadas pelo novo governo. Foram convocadas ap\u00f3s o MEC anunciar, em per\u00edodo inferior a duas semanas, cortes na pesquisa para as Ci\u00eancias Humanas, confiscar mais de 2 mil bolsas de pesquisa em todas as \u00e1reas do conhecimento e, por fim, bloquear 30% das verbas do MEC destinadas \u00e0s universidades e institutos federais.<\/p>\n<p>Cinco milh\u00f5es de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas de mais de 200 cidades pelo pa\u00eds, num protesto originalmente chamado pelas entidades sindicais e estudantis da educa\u00e7\u00e3o: CNTE (trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica), UNE (estudantes universit\u00e1rios), UBES (estudantes secundaristas), ANPG (p\u00f3s-graduandos), Fasubra (servidores t\u00e9cnico-administrativos das universidades e institutos federais), Andes e Proifes (professores universit\u00e1rios) e Sinasefe (servidores da Rede Federal). Ao longo do dia, a manifesta\u00e7\u00e3o cresceu tamb\u00e9m nas redes sociais: a tag #TsunamiDaEduca\u00e7\u00e3o ocupou o topo do Twitter Brasil desde o in\u00edcio da manh\u00e3 e a segunda posi\u00e7\u00e3o no ranking mundial.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o provou sua capacidade de sensibiliza\u00e7\u00e3o social. Embora a pauta de mobiliza\u00e7\u00e3o fosse eminentemente a educa\u00e7\u00e3o, os atos rapidamente ganharam uma conota\u00e7\u00e3o muito mais ampla, em defesa da ci\u00eancia, da tecnologia, do desenvolvimento nacional, das liberdades democr\u00e1ticas e dos direitos sociais. As centrais sindicais, por exemplo, endossaram o convite para a Greve Geral de 14 de junho apoiando as manifesta\u00e7\u00f5es nacionais de 15 de maio. A Associa\u00e7\u00e3o de Ju\u00edzes para a Democracia (AJD), divulgou nota salientando que os atos em defesa da educa\u00e7\u00e3o se somavam \u00e0s lutas em defesa da previd\u00eancia social, e afirmando que \u201cbalb\u00fardia\u201d \u00e9 o atual estado do MEC. \u201cSob o falacioso argumento do combate \u00e0 ideologia e da \u2018balb\u00fardia\u2019 nas Institui\u00e7\u00f5es Federais de ensino, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o \u2013 este sim vivendo seus dias de balburdia e confus\u00e3o \u2013 anuncia o contingenciamento de 30% das verbas destinadas \u00e0s universidades p\u00fablicas federais e, com isso, amea\u00e7a o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es, melhores centros de ensino, pesquisa e extens\u00e3o do pa\u00eds\u201d, dizia a nota.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos ju\u00edzes, a Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Trabalhadores do Judici\u00e1rio Federal e Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o (Fenajufe) tamb\u00e9m participaram ativamente das manifesta\u00e7\u00f5es pelo pa\u00eds, endossando as pautas e gritos de guerra dos estudantes e trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o. O F\u00f3rum Nacional Permanente de Carreiras T\u00edpicas de Estado (Fonacate), que agremia 32 sindicatos e associa\u00e7\u00f5es de servidores das \u00e1reas de controle e fiscaliza\u00e7\u00e3o, tributa\u00e7\u00e3o, judici\u00e1ria, policial, intelig\u00eancia de Estado e diplomacia, foi outra entidade que apoiou oficialmente os atos em defesa da educa\u00e7\u00e3o de 15 de maio. \u201cOs cortes anunciados pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) nas verbas de custeio das universidades e institutos federais ignoram o papel estrat\u00e9gico que a educa\u00e7\u00e3o superior e o ensino p\u00fablico representam para o desenvolvimento nacional, amea\u00e7am a continuidade do ano letivo nessas institui\u00e7\u00f5es e, ainda, p\u00f5em em risco o est\u00edmulo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es ao estudo e \u00e0 pesquisa, na medida em que afetar\u00e3o o pagamento de bolsas de mestrado e doutorado, al\u00e9m de outros efeitos nocivos. N\u00e3o obstante os discursos ineptos e desconexos do ministro da Educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 justificativas plaus\u00edveis para o governo federal preterir a educa\u00e7\u00e3o na aloca\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos.\u201d<\/p>\n<p>30 de Maio<\/p>\n<p>Convocada no pr\u00f3prio dia 15 pela Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), Uni\u00e3o Nacional de Estudantes Secundaristas (UBES) e Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-graduandos (ANPG), os atos do &#8220;30M&#8221; auxiliaram a manter em alta a mobiliza\u00e7\u00e3o popular gerada no 15 de maio, preparando-a para a Greve Geral de 14 de junho. Aconteceram atos em pelo menos 136 cidades de 25 estados, al\u00e9m do Distrito Federal. Em Goi\u00e1s, pelo menos 12 cidades participaram do Dia Nacional de Luta, sendo o maior dos atos em Goi\u00e2nia, onde 25 mil pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas. O p\u00fablico, em sua maioria, foi de professores, estudantes, pais e m\u00e3es de alunos, coletivos do movimento estudantil e sindicatos de trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>14 de Junho<\/p>\n<p>A Greve Geral em Goi\u00e2nia se iniciou antes das 4h da madrugada, quando cerca de 100 pessoas se juntaram em frente \u00e0 entrada da garagem da Metrobus para impedir a circula\u00e7\u00e3o da frota. A mobiliza\u00e7\u00e3o conseguiu atrasar a sa\u00edda dos \u00f4nibus em duas horas, contribuindo para precipitar o esp\u00edrito de greve geral. Pouco depois, \u00e0s 10 horas da manh\u00e3 no Coreto da Pra\u00e7a C\u00edvica, 20 mil professores, t\u00e9cnico-administrativos em educa\u00e7\u00e3o, funcion\u00e1rios p\u00fablicos federais, estaduais e municipais, banc\u00e1rios, metal\u00fargicos, vigilantes, servidores dos Correios, do Poder Judici\u00e1rio e da sa\u00fade p\u00fablica, movimentos populares de luta pela terra e por moradia urbana, urbanit\u00e1rios, eletricit\u00e1rios, t\u00e9cnicos previdenci\u00e1rios e estudantes universit\u00e1rios, secundaristas e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o se concentraram para o in\u00edcio da passeata.<\/p>\n<p>No interior de Goi\u00e1s, houve registros de manifesta\u00e7\u00f5es em An\u00e1polis, Formosa, Cidade de Goi\u00e1s, Catal\u00e3o, Jata\u00ed, Rio Verde, Itumbiara, Luzi\u00e2nia, Mineiros, Porangatu, Quirin\u00f3polis, Silv\u00e2nia, Itapuranga e Itapirapu\u00e3, com participa\u00e7\u00e3o de servidores da Rede nos munic\u00edpios onde t\u00eam campi. Segundo levantamento das centrais sindicais, 45 milh\u00f5es de trabalhadores de mais de 300 cidades se envolveram na Greve pelo pa\u00eds todo; seja comparecendo aos atos, seja n\u00e3o indo trabalhar. A mobiliza\u00e7\u00e3o foi maior que a greve geral de 28 de abril de 2017, quando 35 milh\u00f5es de trabalhadores cruzaram os bra\u00e7os em 254 munic\u00edpios.<\/p>\n<p>A Greve Geral significou, antes de tudo, um fortalecimento e fluxo ascendente da mobiliza\u00e7\u00e3o popular para o novo ciclo de lutas que est\u00e1 aberto. O governo Bolsonaro demonstra dia ap\u00f3s dia que seu projeto de ressubordina\u00e7\u00e3o nacional aos grandes centros imperiais est\u00e1 em marcha e avan\u00e7a, a despeito da disputa intestina pelo poder entre sua heterog\u00eanea coaliz\u00e3o de apoio e de suas dificuldades de condu\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Manter os sindicatos mobilizados, em vig\u00edlia e unificados na Frente Ampla, expressa, por exemplo, no F\u00f3rum das Centrais, em \u00e2mbito nacional, e no F\u00f3rum Goiano contra as Reformas da Previd\u00eancia e Trabalhista, em \u00e2mbito local, \u00e9 a prioridade pol\u00edtica para o momento, e ser\u00e1 a principal forma de resist\u00eancia ao projeto do golpe e de neoliberalismo extremado em marcha. As mobiliza\u00e7\u00f5es de rua, unificadas entre os amplos setores populares, sindicais, estudantis, humanistas, religiosos etc, estar\u00e3o na base de apoio para a\u00e7\u00f5es derivadas, como a luta parlamentar, por exemplo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23953\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[56],"tags":[221],"class_list":["post-23953","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c67-greve","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6el","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23953","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23953\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}