{"id":23960,"date":"2019-09-18T00:27:35","date_gmt":"2019-09-18T03:27:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23960"},"modified":"2019-09-18T00:27:35","modified_gmt":"2019-09-18T03:27:35","slug":"quatro-principios-para-a-formacao-politica-revolucionaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23960","title":{"rendered":"Quatro princ\u00edpios para a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/09\/jones-formac3a7c3a3o-polc3adtica.jpg?w=620&amp;h=384\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Jones Manoel<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Sabemos bem que sem boa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 imposs\u00edvel uma pr\u00e1tica pol\u00edtica correta e eficiente. Mas o que afinal constitui uma boa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/p>\n<p>O objetivo da coluna deste m\u00eas \u00e9 expor de maneira mais ou menos sistem\u00e1tica o que considero ser os maiores erros no processo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da milit\u00e2ncia da esquerda revolucion\u00e1ria. Sabemos bem que sem boa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 imposs\u00edvel uma pr\u00e1tica pol\u00edtica correta e eficiente (ainda que a boa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por si s\u00f3 n\u00e3o garanta isso). Mas o que \u00e9 uma boa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? Buscando ser o mais did\u00e1tico poss\u00edvel, proponho destrinchar a quest\u00e3o sistematicamente em quatro princ\u00edpios, que passo a abordar detidamente a seguir.<\/p>\n<p>1. A pr\u00e1tica imp\u00f5e a necessidade<br \/>\n\u00c9 comum em militantes ao come\u00e7arem seus estudos no marxismo se pautarem por debates em meios virtuais de esquerda, guetos ideol\u00f3gicos muito presentes no movimento estudantil ou o debate da moda no mundo acad\u00eamico. Querelas como modernidade versus p\u00f3s-modernidade, Tr\u00f3tski versus St\u00e1lin, Althusser versus Luk\u00e1cs etc recebem uma aten\u00e7\u00e3o espantosa de jovens militantes que come\u00e7am a conhecer o marxismo. Esse tipo de postura, infelizmente, cria uma situa\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula: o militante que passa horas debatendo sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e n\u00e3o sabe os problemas e as potencialidade de atua\u00e7\u00e3o do seu bairro, cidade e estado. O estudo se desloca da pr\u00e1tica, tomando a forma de \u201cforma\u00e7\u00e3o livresca\u201d, e a pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 refletida de acordo com a teoria.<\/p>\n<p>Normalmente, pessoas presas a esse tipo de debate n\u00e3o mant\u00eam uma pr\u00e1tica pol\u00edtica efetiva. S\u00e3o pessoas que apenas estudam o \u201cmarxismo\u201d ou que est\u00e3o come\u00e7ando a se inserir numa cultura de esquerda; contudo, isso tamb\u00e9m acontece com militantes organizados, ou formalmente organizados, e \u201catuantes\u201d. O que fazer para superar esse problema?<\/p>\n<p>A primeira coisa a ser dita, antes que surja algum entendimento errado, \u00e9 que debates sobre ontologia do ser social, estruturalismo marxista, p\u00f3s-modernidade, hist\u00f3ria do socialismo etc s\u00e3o muito importantes. Por\u00e9m, esses debates n\u00e3o devem ser apreendidos enquanto erudi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, mas como formas de compreender e atuar na realidade mais imediata e ir expandindo o horizonte de compreens\u00e3o. Ou seja, o jovem, ao come\u00e7ar a atuar na associa\u00e7\u00e3o dos moradores, \u00e1rea de cultura ou movimento estudantil, inicialmente se depara com os problemas concretos que a classe trabalhadora e a juventude enfrentam (como a precariedade do transporte, no caso da atua\u00e7\u00e3o em bairro, ou a falta de assist\u00eancia estudantil no M.E.) e , atuando sobre esses problemas, se pergunta: como eu posso entender melhor esse processo social e atuar no sentido de organizar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em fun\u00e7\u00e3o dessa demanda? A partir dessa quest\u00e3o, define suas prioridades de estudo.<\/p>\n<p>Por exemplo, recentemente, morei na cidade de Petrolina, no sert\u00e3o de Pernambuco. Para quem n\u00e3o conhece, Petrolina \u00e9 um grande polo agroexportador e uma cidade com gigantesco avan\u00e7o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Dominada h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas pela fam\u00edlia Coelho, uma esp\u00e9cie de oligarquia aburguesada que funde seu poder pol\u00edtico com o poder econ\u00f4mico dos capitais atuando na cidade e cria uma situa\u00e7\u00e3o na qual a disputa program\u00e1tica \u00e9 bastante dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Ao conversar com v\u00e1rios militantes de Petrolina, organizados e os \u201cindependentes\u201d, era percept\u00edvel como o problema da domina\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica burguesa, sua realidade imediata, chamava menos aten\u00e7\u00e3o do que os debates da moda na esquerda. Al\u00e9m disso, por exemplo, caso se resolva ler com sistematicidade a obra de L\u00eanin (algo mais que recomend\u00e1vel), a pergunta de fundo deveria ser: como a obra de L\u00eanin me ajuda a pensar a minha realidade? Devo deixar bem salientado que n\u00e3o estou defendendo uma esp\u00e9cie de \u201clocalismo\u201d no processo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Todo militante deve buscar, por meio de sua organiza\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7os pr\u00f3prios, uma forma\u00e7\u00e3o que possibilite compreender do particular at\u00e9 o universal, desde a realidade de sua cidade, estado, pa\u00eds, at\u00e9 o processo de acumula\u00e7\u00e3o mundial do capital. Contudo, essa compreens\u00e3o nasce de um longo percurso formativo com sistematicidade e etapas; a\u00ed sim, afirmo sem medo de errar, que \u00e9 necess\u00e1rio num primeiro ciclo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para apreender os elementos b\u00e1sicos do pensamento cr\u00edtico \u2013 como entender numa abordagem introdut\u00f3ria, o que \u00e9 processo hist\u00f3rico, materialismo, rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, poder pol\u00edtico etc. \u2013 aliado a um estudo de sua realidade mais imediata de viv\u00eancia e milit\u00e2ncia. Enfim, as necessidades de atua\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a moda acad\u00eamica ou o tema do momento nas redes sociais, \u00e9 que devem pautar as primeiras fases de um processo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>2. Cuidado com o colonialismo cultural<br \/>\nAs modas acad\u00eamicas e os debates do momento nas redes sociais, grosso modo, s\u00e3o pautados por problemas, intelectuais, conceitos e teorias oriundas dos centros do capitalismo: Europa Ocidental e EUA. O Brasil viveu mais de 300 anos de colonialismo, e esse processo marca profundamente nossa constitui\u00e7\u00e3o sociocultural. Superada a sociedade colonial, fizemos uma transi\u00e7\u00e3o burguesa n\u00e3o cl\u00e1ssica assumindo a posi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds capitalista dependente e subdesenvolvido, reproduzindo sob novas formas e determina\u00e7\u00f5es o colonialismo cultural intr\u00ednseco \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>Na m\u00fasica, cinema, teatro, literatura, artes pl\u00e1sticas, arquitetura e nas ci\u00eancias humanas, a predomin\u00e2ncia dos EUA, da Fran\u00e7a ou da Inglaterra como fonte inspiradora \u00e9 evidente. Mais que isso: \u00e9 chocante. Ao ponto de um aluno de ci\u00eancias sociais da universidade brasileira \u201cconhecer\u201d melhor a cultura francesa \u2013 ao menos em termos de literatura sociol\u00f3gica \u2013 do que a brasileira. Um militante comunista deve se preocupar em n\u00e3o reproduzir o colonialismo cultural que sempre espera as luzes da Europa ou dos EUA atrav\u00e9s de algum marxista ou pensador ilustre e pautado pelas novidades conceituais europeias. Note, de novo, para que n\u00e3o caiamos em falsos problemas: n\u00e3o se trata de deixar de ler os estudiosos europeus e estadunidenses marxistas e de esquerda, a quest\u00e3o \u00e9 no processo formativo eles n\u00e3o serem prioridade! Um marxista brasileiro deve, antes de tudo, al\u00e9m dos cl\u00e1ssicos como Marx, Engels, L\u00eanin, Rosa Luxemburgo etc, conhecer e bem a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica marxista e, se poss\u00edvel, n\u00e3o marxista do seu pa\u00eds e continente.<\/p>\n<p>Ler Nelson Werneck Sodr\u00e9, Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini, V\u00e2nia Bambirra, Caio Prado Jr., Heleieth Saffioti, Theot\u00f4nio dos Santos, Jacob Gorender etc \u00e9 a nossa prioridade \u2013 ao menos deveria ser. Assim como deve haver uma preocupa\u00e7\u00e3o com os produtos culturais consumidos. O colonialismo cultural promove fen\u00f4menos como um brasileiro conhecer mais da cultura e hist\u00f3ria dos EUA e Fran\u00e7a do que da Bol\u00edvia ou Argentina. Estamos de costas viradas para Am\u00e9rica Latina e fora da P\u00e1tria Grande. N\u00e3o h\u00e1 vit\u00f3ria definitiva do socialismo no Brasil. Precisamos latinoamericanizar nossa cultura e nossa teoria social.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do combate ao colonialismo cultural na forma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria pode ser mostrada atrav\u00e9s de um exemplo simples: todas as organiza\u00e7\u00f5es e l\u00edderes de processos revolucion\u00e1rios no s\u00e9culo XX, sem deixar de ser internacionalistas, estavam profundamente mergulhados, conectados com a cultura nacional do seu povo. L\u00eanin era antes de tudo um profundo conhecedor da cultura russa; o mesmo pode ser dito de Fidel Castro, Mao Ts\u00e9-Tung, Kim Il-sung, Ho Chi Minh, Rosa Luxemburgo, Che Guevara, Am\u00edlcar Cabral, Agostinho Neto etc. N\u00e3o se faz a revolu\u00e7\u00e3o sendo pautado pelo tema do momento nos caf\u00e9s de Paris. Portanto, priorizar a apreens\u00e3o do marxismo brasileiro e latinoamericano no processo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 fundamental para um revolucion\u00e1rio nos seus estudos.<\/p>\n<p>3. A import\u00e2ncia dos cl\u00e1ssicos<br \/>\nNa cultura pol\u00edtica da esquerda atual, existe uma compreens\u00e3o m\u00e9dia que se consolidou com a derrubada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a crise do movimento comunista segundo a qual temos que esquecer a nossa hist\u00f3ria no s\u00e9culo XX e recome\u00e7ar tudo, criar o \u201cnovo\u201d; afinal, a hist\u00f3ria do movimento comunista seria uma hist\u00f3ria totalit\u00e1ria de crimes, autoritarismo e brutalidade. Essa ideologia se reflete no quase total apagamento da import\u00e2ncia dos cl\u00e1ssicos na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Primeiro, entendemos por \u201ccl\u00e1ssicos\u201d aqueles pensadores\/as que em sua produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mesmo estando localizada num determinado per\u00edodo hist\u00f3rico e realidade sociopol\u00edtica, conseguem fornecer ferramentas anal\u00edticas e conceituais para apreender a nossa realidade. Ou seja, figuras como L\u00eanin, Rosa Luxemburgo ou Caio Prado Jr. n\u00e3o vivem nossa \u00e9poca e conjuntura hist\u00f3ricas, mas, sem qualquer transposi\u00e7\u00e3o mecanicista, o estudo de suas obras nos ajuda a compreender e atuar na luta de classes contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Um comunista hoje em forma\u00e7\u00e3o ter\u00e1 bastante dificuldade de encontrar de forma acess\u00edvel os cl\u00e1ssicos do pensamento comunista brasileiro e do movimento comunista no mundo.<\/p>\n<p>Quais as consequ\u00eancias principais dessa aus\u00eancia dos cl\u00e1ssicos na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? Primeiro, os marxistas cl\u00e1ssicos, em sua maioria, n\u00e3o eram professores universit\u00e1rios, mas sim homens e mulheres de a\u00e7\u00e3o, organizados em partidos pol\u00edticos com milit\u00e2ncia em tempo integral e\/ou dirigentes pol\u00edticos nos processos revolucion\u00e1rios. Nos textos cl\u00e1ssicos, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e preponderante em organizar a classe a fim de tomar e conservar o poder num processo de transi\u00e7\u00e3o socialista; o marxismo, na atualidade, em sua imensa maioria, tem como refer\u00eancia professores universit\u00e1rios que nunca escreveram um \u00fanico livro sobre organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e mant\u00eam ideias extremamente abstratas e gen\u00e9ricas nos momentos de pensar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A aus\u00eancia de uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos cria, normalmente, o militante que at\u00e9 consegue fazer boas an\u00e1lises de conjuntura, mas que \u00e9 incapaz de pensar uma organiza\u00e7\u00e3o com as media\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas (palavras de ordem, pol\u00edtica de alian\u00e7a, defini\u00e7\u00e3o dos objetivos priorit\u00e1rios etc.) adequadas para atuar concretamente na cena pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ver tamb\u00e9m nos cl\u00e1ssicos \u2013 e aqui refiro-me em especial aos brasileiros e latinoamericanos \u2013 uma preocupa\u00e7\u00e3o em formular uma teoria do desenvolvimento capitalista no Brasil e na Am\u00e9rica Latina de modo geral. Durante boa parte do s\u00e9culo XX (diria que at\u00e9 os anos 1970), todo grande intelectual, conservador ou de esquerda, procurou apresentar sua tese sobre o que \u00e9 o Brasil. Caio Prado, Gilberto Freire, Oliveira Viana, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Nelson Werneck Sodr\u00e9 e muitos outros tinham a sua grande obra sobre o desenvolvimento do capitalismo e suas particularidades nacionais. A tend\u00eancia das \u00faltimas d\u00e9cadas na teoria social (como o predom\u00ednio da p\u00f3s-modernidade) e a pr\u00f3pria din\u00e2mica institucional da universidade dificulta de sobremaneira a realiza\u00e7\u00e3o dessas obras, e o acad\u00eamico hoje \u00e9, em grande medida, um especialista em temas t\u00f3picos (ainda que muito importantes) e sem condi\u00e7\u00f5es de fornecer uma explica\u00e7\u00e3o global, sistem\u00e1tica e de f\u00f4lego hist\u00f3rico sobre as tend\u00eancias de acumula\u00e7\u00e3o capitalista no pa\u00eds.<\/p>\n<p>An\u00e1lises t\u00f3picas, presas quase sempre \u00e0 dimens\u00e3o conjuntural, estimulam uma pr\u00e1tica pol\u00edtica taticista e reformista. Por exemplo, quem estudar de maneira sistem\u00e1tica as obras de Florestan Fernandes e Ruy Mauro Marini e compreender como a superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho constitui uma determinante do capitalismo dependente brasileiro saber\u00e1 que nunca teremos nada parecido com um Estado de bem-estar social de tipo europeu e uma \u201cera dos direitos\u201d. Evidentemente, para as organiza\u00e7\u00f5es reformistas ou socialistas com foco eleitoral, esse tipo de conclus\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 demasiado inc\u00f4moda.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia dos cl\u00e1ssicos na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, al\u00e9m de tendencialmente afastar o militante das reflex\u00f5es sobre a quest\u00e3o organizativa e a tomada do poder, obstando an\u00e1lises de maior f\u00f4lego sobre o desenvolvimento capitalista, tamb\u00e9m induz um tipo de forma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pensa com sistematicidade sobre agita\u00e7\u00e3o e propaganda, pol\u00edtica de finan\u00e7as, comunica\u00e7\u00e3o e por a\u00ed vai. Se o militante n\u00e3o vive e reflete sobre a totalidade de sua organiza\u00e7\u00e3o \u2013 o que n\u00e3o significa, em absoluto, ele \u201csaber de tudo\u201d e \u201catuar em tudo\u201d \u2013, a tend\u00eancia ser\u00e1 a burocratiza\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de centralidade da independ\u00eancia de classe, fazendo com que, por exemplo, seja considerado normal uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ter no fundo partid\u00e1rio controlado pelo Estado burgu\u00eas sua principal fonte de financiamento.<\/p>\n<p>4. Aprender com a nossa hist\u00f3ria<br \/>\nH\u00e1 na esquerda atual uma preocupa\u00e7\u00e3o com o \u201cnovo\u201d, a \u201cnovidade\u201d, a \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d. J\u00e1 escrevi amplamente sobre esse tema em outras oportunidades, por isso n\u00e3o quero me estender muito mais sobre ele. De forma sint\u00e9tica, diria apenas que a ideologia do novo prega que todos os problemas organizativos e pol\u00edticos da esquerda brasileira e mundial se devem \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de \u201cvelhas pr\u00e1ticas\u201d e \u00e0 falta de renova\u00e7\u00e3o. Como algo pr\u00f3prio da constitui\u00e7\u00e3o cultural da modernidade burguesa, a ideia do novo \u00e9 algo em si positivado. Na pol\u00edtica, basta qualquer organiza\u00e7\u00e3o se apresentar como \u201co novo\u201d (normalmente esse novo \u00e9 bem mais est\u00e9tico do que program\u00e1tico e pol\u00edtico) para cair nas gra\u00e7as de Deus e o mundo com olhares bem pouco cr\u00edticos \u2013 n\u00e3o custa lembrar a paix\u00e3o generalizada pelo Syriza anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Essa \u00e2nsia pela pseudonovidade faz com que o conjunto dos militantes deixe de conhecer sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, especialmente do ponto de vista organizativo. Como os comunistas no s\u00e9culo XX conseguiram organizar a classe trabalhadora e a juventude mesmo enfrentando ditaduras militares, regimes coloniais e o fascismo? Como \u00e9 poss\u00edvel burlar a press\u00e3o das empresas e criar c\u00e9lulas de trabalhadores em monop\u00f3lios transacionais como o Partido Comunista Italiano conseguia com \u00eaxito? E a experi\u00eancia de organizar pequenos comerciantes e setores da economia informal pelos comunistas na Gr\u00e9cia? E a expressiva for\u00e7a que o PCB teve no s\u00e9culo passado entre engenheiros e clubes de engenharia, como isso foi poss\u00edvel? E a capilaridade do Partid\u00e3o nas associa\u00e7\u00f5es de moradores na cidade pernambucana de Paulista, como se deu? Os exemplos s\u00e3o m\u00faltiplos.<\/p>\n<p>O desconhecimento sistem\u00e1tico de nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria e sua an\u00e1lise predominantemente por meio dos debates estrat\u00e9gicos via documentos congressuais dificulta que todo o legado pol\u00edtico e organizativo \u2013 um verdadeiro patrim\u00f4nio \u2013 seja repassado \u00e0s gera\u00e7\u00f5es mais jovens e que, a partir dessa experi\u00eancia transmitida, haja uma rica cultura pol\u00edtica que ajude a pensar criativamente a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas di\u00e1rios da luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Usemos um exemplo.<\/p>\n<p>Nos anos 1980 e 1990, explodiu um gigantesco debate sobre o fim da classe trabalhadora, o fim do trabalho, o advento da sociedade informal, da sociedade p\u00f3s-industrial etc. Dentre os v\u00e1rios e v\u00e1rios desdobramentos dessa discuss\u00e3o se encontra a ideia de que, embora a classe oper\u00e1ria continue tendo centralidade no processo de produ\u00e7\u00e3o do valor, \u00e9 na esfera da reprodu\u00e7\u00e3o social que as contradi\u00e7\u00f5es sociais se expressam de forma mais explosiva, e que portanto \u00e9 l\u00e1 que a esquerda deveria concentrar seu foco organizacional. Essa \u201cgrande novidade\u201d te\u00f3rica ganhou ainda mais visibilidade depois dos protestos de junho de 2013, em que a qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos urbanos foi a causa principal de uma das maiores manifesta\u00e7\u00f5es de massa na hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Bem, infelizmente, a maioria das pessoas n\u00e3o sabe que, para a hist\u00f3ria dos comunistas do Brasil, isso n\u00e3o \u00e9 a menor novidade. A compreens\u00e3o de que o trabalho comunit\u00e1rio na luta por moradia, \u00e1gua, creche, educa\u00e7\u00e3o, contra o aumento do custo de vida \u00e9 a primeira e mais eficiente via de estabelecer uma s\u00f3lida base popular e, a partir da\u00ed, potencializar o trabalho sindical \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda do pa\u00eds. A atua\u00e7\u00e3o nas \u201ccontradi\u00e7\u00f5es da reprodu\u00e7\u00e3o social\u201d como estrat\u00e9gia de enraizamento social e confronta\u00e7\u00e3o com o capital para al\u00e9m do ambiente da f\u00e1brica \u00e9 uma novidade que o PCB percebeu com maestria nos anos 1940, 1950, 1960\u2026 e o PT e PDT nos anos 1980.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que nossa hist\u00f3ria cont\u00e9m erros e acertos, n\u00e3o abarca f\u00f3rmulas mec\u00e2nicas, receitas de bolo, a serem aplicadas integralmente ao p\u00e9 da letra. A reflex\u00e3o sobre o papel do estudo da experi\u00eancia pol\u00edtica e organizativa dos comunistas na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica repete a \u201cl\u00f3gica\u201d sobre a import\u00e2ncia do estudo dos cl\u00e1ssicos: estudar de forma sistem\u00e1tica se perguntando como aquele conhecimento pode ajudar a compreender a realidade vivida e intervir politicamente sobre ele.<\/p>\n<p>Munidos desses quatro princ\u00edpios norteadores e amparados numa estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria, acredito que o processo de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 isto \u00e9, o estudo acompanhado e orientado pela pr\u00e1tica e a pr\u00e1tica refletida e orientada pelo estudo \u2013 ser\u00e1 um dos elementos indispens\u00e1veis para a cria\u00e7\u00e3o de quadros revolucion\u00e1rios fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o da imprescind\u00edvel e inadi\u00e1vel Revolu\u00e7\u00e3o Socialista no Brasil.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Jones Manoel \u00e9 pernambucano, filho da Dona Elza e comunista de carteirinha. Come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia na favela onde nasceu e cresceu, a comunidade da Borborema, construindo um cursinho popular, o Novo Caminho, junto com seu amigo Julio Santos (ele, Julio e outro amigo, Felipe Bezerra, foram os primeiros jovens da hist\u00f3ria de Borborema a entrar em uma universidade p\u00fablica). Depois de dois anos com o cursinho popular, passou a militar no movimento estudantil em paralelo ao seu curso de hist\u00f3ria na UFPE. Pouco tempo depois, ingressou nas fileiras da UJC (a juventude do PCB). Ativo no movimento estudantil at\u00e9 2016, hoje atua no movimento sindical e na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o popular. Mestre em servi\u00e7o social, atualmente \u00e9 professor de hist\u00f3ria, mant\u00e9m um canal no YouTube e participa do podcast Revolushow. Segue militante do PCB. Escreve para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2019\/09\/16\/quatro-principios-para-a-formacao-politica-revolucionaria\/\">Quatro princ\u00edpios para a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&nbsp;revolucion\u00e1ria<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23960\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[224],"class_list":["post-23960","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6es","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23960"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23960\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}