{"id":23975,"date":"2019-09-23T01:16:47","date_gmt":"2019-09-23T04:16:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=23975"},"modified":"2019-09-29T21:47:53","modified_gmt":"2019-09-30T00:47:53","slug":"o-manifesto-comunista-e-a-mulher-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23975","title":{"rendered":"O Manifesto Comunista e a Mulher Trabalhadora"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/ozu_U-BtBaAJw3AxNQYA_z7UFa6AVd0PIgOUXsecX6wOUXNLJ9BRHPaqpJXokuIyRvhiBdUn-iyke7MOFgmMSC2EzJ_H1KQj1IAbYBkC5qcvA3mGg552ymK7KchS8gkSbbM-Mb9ow0zyTSIKs_UGN6cQgjczf6ehXrHDpCoaguPXTzTs0jmKTmrC6_eaFfxbBlFu9bTPQvN9-_uB-XMYOHZUVidSMqK3G9dQddJTVq0OJNMn9zV0H631ecT8TBz0uAGaGumOli_dSGrj-DyJ9kbhlGFqjrPQ5d2Oq9Va6592HeOgUgFMicMPoPoe-ZxT5kR5EuKQK7KKEywlskRtiPUPvowdbP3t_wE3no05kp6m3hqgKbT-By5RUd_qqVx9Q-c4soRk7GKnL3lVgOdAQuO34Dm-SunrKfzpEPM2cmohJ9GLBnscL-siZKsKWEXtqqO8q_34g67Kzcjeq_12boDS-JatJgsjC83I8E7U2AEYEdmfz_F6SkefCJq3hW2ubPqfd1f8-1Q7eUhyvbaG3C7IWVKegD6u59HEvLKATmhWaMRCwOKTEomfHK69VjRdbF7I0GLJ8DbQaK41Ek6NhxW_VYcIgWZZIIbcA8duB2qnufbw-EofFDLVncq2j6U74AaYdcSYhHf1Pzxstl3hLhC4KO7NNtNkIQAppfvCzXcUoc9YBnNEFUU=w1000-h538-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Perspectivas para a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres<\/p>\n<p>Bruna Santana da Silva<br \/>\nColetivo Feminista Classista Ana Montenegro &#8211; Bahia<\/p>\n<p>\u201c Se a liberta\u00e7\u00e3o da mulher<br \/>\n\u00e9 impens\u00e1vel sem o comunismo,<br \/>\nent\u00e3o o comunismo \u00e9 impens\u00e1vel<br \/>\nsem a liberta\u00e7\u00e3o da mulher\u201d<br \/>\nInessa Armand<\/p>\n<p>Muito se questiona sobre as contribui\u00e7\u00f5es de Karl Marx quanto aos mais diversos dilemas da nossa sociedade atual. Indaga\u00e7\u00f5es acerca da validade dos seus escritos s\u00e3o dispostas cotidianamente, em especial no que tange aos instrumentos capitalistas de opress\u00e3o vigentes, como o racismo, o machismo, a lgbtfobia, a xenofobia, dentre outros. Marx, apesar de suas limita\u00e7\u00f5es, frutos de seu tempo e sua sociedade, deixou escritos que foram cruciais para a constru\u00e7\u00e3o de movimentos em prol da emancipa\u00e7\u00e3o das trabalhadoras e trabalhadores no mundo, levando em conta a quest\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a\/etnia.<\/p>\n<p>Nesse sentido, este pequeno artigo tem por objetivo refletir sobre a atualidade e a import\u00e2ncia do Manifesto do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, para o debate em torno das rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o de g\u00eanero, a fim de uma real contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 luta feminista classista.<\/p>\n<p>O papel do Manifesto Comunista<\/p>\n<p>Escrito por Marx e Engels, o Manifesto do Partido Comunista, surge um pouco antes da revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro de 1848, ano este marcado como crucial para compreender a hist\u00f3ria do mundo ocidental. Originalmente, o Manifesto Comunista fora publicado como um pequeno livreto com o objetivo de dialogar diretamente com os trabalhadores e trabalhadoras explorados pelo sistema capitalista, que vinha endurecendo as condi\u00e7\u00f5es objetivas de vida das fam\u00edlias oper\u00e1rias, que estavam quase que por completas inseridas no interior das f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>O Manifesto discorre em suas linhas a proposta de um enfrentamento constante dos trabalhadores contra a classe dominante, alertando que \u201cde tempos em tempos os trabalhadores vencem, mas apenas provisoriamente. O verdadeiro resultado de suas lutas n\u00e3o \u00e9 o \u00eaxito imediato, mas a uni\u00e3o cada vez mais ampla dos trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>O pequeno panfleto de pouco mais de vinte p\u00e1ginas apresenta em sua parte inicial uma s\u00edntese hist\u00f3rica quanto ao papel revolucion\u00e1rio da burguesia na constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo, e s\u00e3o assinaladas ainda pelos autores as contradi\u00e7\u00f5es da ordem social constitu\u00edda pelo protagonismo burgu\u00eas e a necessidade da sua supera\u00e7\u00e3o, a partir das novas lutas de classe que nela nascem.<\/p>\n<p>O papel revolucion\u00e1rio alcan\u00e7ado pela burguesia se destaca pela simplifica\u00e7\u00e3o dos antagonismos de classe, apresentando para a classe oprimida novas condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, transformando as rela\u00e7\u00f5es familiares em meras rela\u00e7\u00f5es de dinheiro. Essas rela\u00e7\u00f5es de dinheiro, segundo Marx em sua obra O Capital, com o desenvolvimento da maquinaria inglesa na grande ind\u00fastria, empurraram mulheres e crian\u00e7as para o ch\u00e3o da f\u00e1brica, como mecanismo de sobreviv\u00eancia de suas fam\u00edlias, dadas as condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>[&#8230;] num meio de aumentar o n\u00famero de assalariados, submetendo o comando imediato do capital todos os membros da fam\u00edlia dos trabalhadores, sem distin\u00e7\u00e3o de sexo nem idade. O trabalho for\u00e7ado para o capitalista usurpou n\u00e3o somente o lugar de recrea\u00e7\u00e3o infantil, mas tamb\u00e9m o do trabalho livre no \u00e2mbito dom\u00e9stico, dentro dos limites decentes e para a pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\n<p>No Manifesto, Marx e Engels respondem \u00e0s falaciosas e acusa\u00e7\u00f5es imputadas aos comunistas; quanto ao car\u00e1ter das fam\u00edlias, somente a fam\u00edlia burguesa existe de fato. Para Marx, o trabalhador se torna um mercador de escravos, no qual vende a esposa e os filhos pela tentativa de sua sobreviv\u00eancia. A fam\u00edlia se estabelece assim como fonte de opress\u00e3o das mulheres, imputando a elas o papel de reprodutoras da for\u00e7a de trabalho para o capitalismo.<\/p>\n<p>Considerando essa miss\u00e3o, a mulher, aos olhos do burgu\u00eas, segundo Marx e Engels, \u00e9 vista como mero instrumento de produ\u00e7\u00e3o, sendo respons\u00e1vel pela garantia da passagem da heran\u00e7a do burgu\u00eas para seus herdeiros, e a mulher da classe trabalhadora assume a fun\u00e7\u00e3o de fornecer ao sistema a for\u00e7a de trabalho necess\u00e1ria para a sua manuten\u00e7\u00e3o. Para nossos autores, com a supress\u00e3o das atuais rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, a posi\u00e7\u00e3o da mulher enquanto instrumento de produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisa ser eliminada.<\/p>\n<p>Para compreender melhor a opress\u00e3o feminina, \u00e9 preciso entender os mecanismos de opress\u00e3o que transformaram a mulher em prolet\u00e1ria do prolet\u00e1rio.<\/p>\n<p>Breve hist\u00f3rico sobre opress\u00e3o feminina<\/p>\n<p>Foi no interior da forma\u00e7\u00e3o das sociedades de classes em que se deu a opress\u00e3o da mulher pelo homem, dada a necessidade de domina\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Antes da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade com separa\u00e7\u00e3o em classes, as sociedades primitivas tinham sua organiza\u00e7\u00e3o com base em bandos e pequenas tribos, nas quais era necess\u00e1rio retirar da natureza os alimentos essenciais para a sobreviv\u00eancia, atrav\u00e9s de grupos coletores, respons\u00e1veis pela ca\u00e7a e coleta. No interior da vida desses grupos, se desenvolveu um novo modo de tirar da natureza o necess\u00e1rio \u00e0 vida: o trabalho.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do desenvolvimento do trabalho, a sobreviv\u00eancia das primeiras comunidades foi garantida, com o desenvolvimento de conhecimentos da natureza que as cercavam e assim, um melhoramento das condi\u00e7\u00f5es das futuras gera\u00e7\u00f5es. S\u00e9rgio Lessa, no livro Abaixo a fam\u00edlia monog\u00e2mica!, dialogando com a obra de Marx e Engels, destaca esse processo chamado de afastamento das barreiras naturais, no qual:<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o vai se tornando cada vez mais eficiente, aumenta a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o bando pode se tornar um pouco maior e uma primitiva distribui\u00e7\u00e3o de tarefas vai surgindo \u2013 os humanos est\u00e3o conhecendo um desenvolvimento social, isto \u00e9, uma evolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 fundada pelo desenvolvimento biol\u00f3gico. Os eventos da natureza jogar\u00e3o um papel cada vez menor na nossa hist\u00f3ria: a humanidade est\u00e1 em marcha, mesmo que se trate, ainda, de seus primeiros passos.<\/p>\n<p>As tribos primitivas se organizavam coletivamente para o bem comum. Em tais tribos, havia divis\u00e3o das tarefas, que de forma alguma significava uma hierarquia entre indiv\u00edduos daquele grupo. Divis\u00e3o do trabalho levava em conta as quest\u00f5es biol\u00f3gicas, naturais e sociais, como idade, for\u00e7a, sexo.<\/p>\n<p>A vida das mulheres era protegida no que tange \u00e0 divis\u00e3o das tarefas, levando em conta que eram as mulheres as respons\u00e1veis pela continuidade do bando. Cuidar dos filhos n\u00e3o era uma fun\u00e7\u00e3o exclusivamente feminina, muito menos somente da m\u00e3e. Todos os membros da tribo eram respons\u00e1veis pela educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. As rela\u00e7\u00f5es sexuais e afetivas se estabeleciam de maneira consensuais e livres, ou seja, havia um casal, por\u00e9m tanto homens quanto mulheres podiam ter rela\u00e7\u00f5es com os outros membros da tribo.<\/p>\n<p>Com o crescimento das tribos, ocorreram dois fatos que contribu\u00edram para que a mulher se tornasse submissa. O primeiro deles \u00e9 que, com tal crescimento, os genes se entrela\u00e7avam, tornando dificultosa a rela\u00e7\u00e3o entre os membros de uma mesma tribo. Por esse motivo, implantaram-se as fam\u00edlias sindi\u00e1smicas, que consiste em uma rela\u00e7\u00e3o unilateral onde a fidelidade da mulher era necess\u00e1ria, enquanto a infidelidade do homem era permitida.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia nos tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos, portanto, consiste numa redu\u00e7\u00e3o constante do c\u00edrculo em cujo seio prevalece a comunidade conjugal entre os sexos, c\u00edrculo que originariamente abarcava a tribo inteira. A exclus\u00e3o progressiva, primeiro dos parentes pr\u00f3ximos, depois dos parentes distantes e, por fim at\u00e9 das pessoas vinculadas apenas por alian\u00e7a, torna imposs\u00edvel na pr\u00e1tica qualquer matrim\u00f4nio por grupos; como \u00faltimo cap\u00edtulo, n\u00e3o fica sen\u00e3o o casal, unido por v\u00ednculos ainda fr\u00e1geis &#8211; essa mol\u00e9cula com cuja dissocia\u00e7\u00e3o acaba o matrim\u00f4nio em geral.<\/p>\n<p>Outro fator que contribuiu para a submiss\u00e3o da mulher foi a divis\u00e3o do trabalho, em manual e intelectual, no interior das tribos. A funda\u00e7\u00e3o da sociedade de classes se d\u00e1 a partir do surgimento da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Os indiv\u00edduos respons\u00e1veis pelo trabalho intelectual foram dominando os respons\u00e1veis pelo trabalho manual, escravizando-os. Na sociedade primitiva, a transforma\u00e7\u00e3o da natureza foi transformando a pr\u00f3pria natureza social dos homens.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, a transforma\u00e7\u00e3o da natureza foi transformando a pr\u00f3pria natureza social dos homens (Marx, 1983:149), at\u00e9 que, h\u00e1 aproximadamente 10 mil anos, o trabalho passou por uma transforma\u00e7\u00e3o qualitativa (no dizer de Luk\u00e1cs, conheceu um salto ontol\u00f3gico). Descobriu-se a semente e, com ela, a agricultura e a pecu\u00e1ria. Pela primeira vez os indiv\u00edduos que trabalham produzem mais do que necessitam para sobreviver. A capacidade de trabalho das pessoas se desenvolveu a tal ponto que elas n\u00e3o mais precisam trabalhar todo o tempo. Est\u00e1, agora, &#8220;sobrando&#8221; capacidade de trabalho: isto \u00e9 o trabalho excedente.<\/p>\n<p>Com o desenvolvimento do trabalho excedente, o modo de produ\u00e7\u00e3o primitivo \u00e9 transformado. Se, nas sociedades primitivas, o tempo gasto com a vigil\u00e2ncia e o controle dos trabalhadores resultava em menos do que o indiv\u00edduo produziria diretamente, agora a atividade de controle e vigil\u00e2ncia necess\u00e1rias para realizar a explora\u00e7\u00e3o das pessoas resulta em uma riqueza maior do que aquela que seria obtida diretamente pelo trabalho do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem possibilitou o desenvolvimento mais acelerado das for\u00e7as produtivas. Por causa disso, uma sociedade de classes, ao entrar em contato com uma sociedade primitiva, igualit\u00e1ria, a tend\u00eancia \u00e9 a primeira conquistar e destruir a segunda, fazendo das ru\u00ednas da sociedade igualit\u00e1ria fonte de lucro para a classe dominante (pensemos na conquista dos &#8220;b\u00e1rbaros&#8221; pelos romanos).<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o entre trabalho excedente e a car\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o, segundo Lessa, tornou poss\u00edvel e necess\u00e1ria historicamente a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem; nesse momento a sociedade com classes desenvolve suas for\u00e7as produtivas de maneira mais r\u00e1pida.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia monog\u00e2mica ser\u00e1 uma necessidade dentro das sociedades com classes. Segundo Mirla Cisne,<\/p>\n<p>A fam\u00edlia, portanto, \u00e9 uma importante chave para o entendimento hist\u00f3rico da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o sobre as mulheres. Por isso, comecemos por entender o significado hist\u00f3rico e etimol\u00f3gico da fam\u00edlia. De acordo com Danda Prado (1985, p. 51), o termo fam\u00edlia, encontra sua origem no latim: Famulus, que significa: \u201cconjunto de servos e dependentes de um chefe ou senhor\u201d. Dentre tais dependentes que compunham a fam\u00edlia livres e escravos.<\/p>\n<p>Com isso, torna-se fundamental a fidelidade da mulher, que era tida como objeto reprodutor, pois era necess\u00e1rio que o gene do pai, e n\u00e3o mais o da m\u00e3e, se sobressa\u00edsse para que as riquezas produzidas se mantivessem no interior das fam\u00edlias. Se, antes, todos trabalhavam para que as riquezas produzidas fossem da tribo para a tribo, agora os esfor\u00e7os eram que as riquezas fossem do interior da fam\u00edlia para o interior da fam\u00edlia. D\u00e1-se ent\u00e3o a origem da fam\u00edlia, nos moldes que atualmente vivenciamos, base do Estado.<\/p>\n<p>Outra fun\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia seria perpetuar essa divis\u00e3o desigual de uma gera\u00e7\u00e3o a outra, por meio da heran\u00e7a. Da\u00ed, tamb\u00e9m a necessidade da heteronormatividade, como j\u00e1 sublinhamos no item anterior. Outra vantagem que o sistema familiar oferecera para a classe dominante foi ter permitido \u201ca forma mais barata poss\u00edvel para a reprodu\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es de massas trabalhadoras\u201d (WATERS, 1979, p.86; tradu\u00e7\u00e3o nossa). Barateamento proporcionado, fundamentalmente, pela divis\u00e3o sexual do trabalho, na qual a mulher \u00e9 responsabilizada por meio de um trabalho n\u00e3o remunerado pela satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades dos membros da fam\u00edlia. Por isso, \u201ceste sistema serve perfeitamente para maximizar a acumula\u00e7\u00e3o privada de riqueza social, e para perpetuar a opress\u00e3o da mulher\u201d<\/p>\n<p>No antigo lar comunista primitivo, a mulher fazia parte da produ\u00e7\u00e3o social. Com a individualiza\u00e7\u00e3o monog\u00e2mica, a mulher perdeu tal participa\u00e7\u00e3o e s\u00f3 recupera quando proletarizada. A fam\u00edlia individual moderna baseia-se na escravid\u00e3o dom\u00e9stica. As mulheres, relegadas ao \u00e2mbito dom\u00e9stico, se tornam escravas como parte da propriedade dos homens.<\/p>\n<p>A paternidade ou maternidade, ser filho ou filha fazem parte, agora, de um limitado c\u00edrculo de rela\u00e7\u00f5es sociais, restrito ao v\u00ednculo familiar fundado pela propriedade privada do indiv\u00edduo masculino. Exclu\u00eddas da participa\u00e7\u00e3o na vida social, com sua exist\u00eancia reduzida ao estreito horizonte do lar patriarcal, as mulheres v\u00e3o se convertendo no feminino que predominou ao longo de mil\u00eanios: pessoas dependentes, d\u00e9beis, fr\u00e1geis, ignorantes, bonitas para os homens aos quais devem servir, d\u00f3ceis, compreensivas. Enfim, pessoas moldadas para a vida submissa e subalterna que lhes cabe na sociedade de classes.<\/p>\n<p>A fim de sustentar a fam\u00edlia, a ideologia da classe dominante obriga homens e mulheres a aderir a pap\u00e9is sexuais rigidamente demarcados \u2013 incluindo o ideal da dona de casa para as mulheres, subordinadas ao homem provedor da fam\u00edlia \u2013 independentemente de qu\u00e3o pouco esses ideais realmente refletem a vida real das pessoas da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A grande maioria das mulheres tem composto uma parte da for\u00e7a de trabalho, mas esses ideais da fam\u00edlia pressup\u00f5em que as mulheres s\u00e3o mais adequados \u00e0s responsabilidades dom\u00e9sticas dentro da fam\u00edlia. O papel de cuidadora das mulheres dentro da fam\u00edlia reduz o seu status para cidad\u00e3 de segunda classe na sociedade como um todo, porque se presume que a sua principal responsabilidade \u2013 e maior contribui\u00e7\u00e3o \u2013 seria a manuten\u00e7\u00e3o das necessidades de suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres como uma necessidade<\/p>\n<p>N\u00e3o de hoje, diversos escritos se preocupam com as condi\u00e7\u00f5es para o fim da opress\u00e3o contra as mulheres dentro da sociedade capitalista, entendendo a sua necessidade como passo para o fim da explora\u00e7\u00e3o de toda a classe trabalhadora, e dos seus grilh\u00f5es que oprimem e matam todos os dias.<\/p>\n<p>De acordo com a feminista socialista Alexandra Kollontai, a classe oper\u00e1ria necessitava do novo tipo de mulher: n\u00e3o submissa \u00e0 escravid\u00e3o, mas sim em posi\u00e7\u00e3o de combate contra a servid\u00e3o. As mulheres devem ser companheiras nas causas coletivas, comuns a todo o proletariado. Kollontai aponta a import\u00e2ncia de se construir uma nova moral sexual totalmente distinta das anteriores, n\u00e3o servindo apenas ao interesse privado, \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o de riqueza pr\u00f3prias ao ide\u00e1rio burgu\u00eas, mas servindo aos interesses coletivistas dos trabalhadores, via formas mais saud\u00e1veis de rela\u00e7\u00f5es sexuais que dispensem o matrim\u00f4nio legal em sua premissa de posse absoluta sobre outrem, indissol\u00favel, e da no\u00e7\u00e3o absurda da desigualdade entre os sexos, sendo a mulher apenas um mero reflexo do interesse machista, da soberania masculina; formas novas que tamb\u00e9m excluem a prostitui\u00e7\u00e3o do rol das rela\u00e7\u00f5es sexuais, sob a bandeira de \u201cassegurar \u00e0 humanidade uma descend\u00eancia s\u00e3, normalmente desenvolvida: contribuir para a sele\u00e7\u00e3o natural no interesse da esp\u00e9cie\u201d e, ainda, \u201c[\u2026] contribuir para o desenvolvimento da psicologia humana, enriquec\u00ea-la com sentimentos de solidariedade, de companheirismo, de coletividade\u201d<\/p>\n<p>A mulher, na Sociedade Comunista, n\u00e3o depender\u00e1 de seu marido, seus robustos bra\u00e7os ser\u00e3o o que proporcionar\u00e1 a ela seu sustento. Se acabar\u00e1 com a incerteza sobre a sorte dos filhos. O Estado Comunista assumir\u00e1 todas essas responsabilidades. O matrim\u00f4nio ficar\u00e1 purificado de todos seus elementos materiais, de todos os c\u00e1lculos de dinheiros que constituem a repugnante mancha da vida familiar de nosso tempo. O matrim\u00f4nio se transformar\u00e1 de agora em diante na uni\u00e3o sublime de duas almas que se amam, que se professem f\u00e9 m\u00fatua. Uma uni\u00e3o desse tipo promete a todo oper\u00e1rio, a toda oper\u00e1ria, a mais completa felicidade, o m\u00e1ximo de satisfa\u00e7\u00e3o que pode caber a criaturas consciente de si mesmas e da vida que a rodeia.<\/p>\n<p>Em o Manifesto do Partido Comunista, ao tratar das comunidades de mulheres, Marx e Engels destacam, como especificado acima, a necessidade de elimina\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o da mulher enquanto instrumento de produ\u00e7\u00e3o, sendo essa uma das pautas na luta contra a sociedade burguesa, que aprisiona as mulheres, e de forma mais agressiva, as mulheres trabalhadoras, v\u00edtimas duas vezes das mazelas da sociedade capitalista.<\/p>\n<p>De acordo com Samora Machel, em seu discurso para as mulheres mo\u00e7ambicanas no dia internacional da mulher trabalhadora, emancipar as mulheres nunca ser\u00e1 uma caridade, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma estrat\u00e9gia para atingir as raz\u00f5es da explora\u00e7\u00e3o. A liberta\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 uma necessidade fundamental da Revolu\u00e7\u00e3o, uma garantia da sua continuidade, uma condi\u00e7\u00e3o de seu triunfo. A Revolu\u00e7\u00e3o tem por objetivo essencial a destrui\u00e7\u00e3o do sistema de explora\u00e7\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade libertadora das potencialidades do ser humano e que o reconcilia com o trabalho, com a natureza. \u00c9 dentro deste contexto que surge a quest\u00e3o da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>Se mais de metade do povo explorado e oprimido \u00e9 constitu\u00eddo por mulheres, como deix\u00e1-las \u00e0 margem da luta? A Revolu\u00e7\u00e3o para ser feita necessita de mobilizar todos os explorados e oprimidos, por consequ\u00eancia as mulheres tamb\u00e9m. A Revolu\u00e7\u00e3o para triunfar tem que liquidar a totalidade do sistema de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, libertar todos os explorados e oprimidos, por isso tem que liquidar a explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o da mulher, \u00e9 obrigada a libertar a mulher.<\/p>\n<p>A emancipa\u00e7\u00e3o da mulher envolve dimens\u00f5es profundas da condi\u00e7\u00e3o de se tornar humano, ou melhor, envolve a constru\u00e7\u00e3o do ser social. Abolir a propriedade privada e transformar a economia dom\u00e9stica socializada s\u00e3o premissas indispens\u00e1veis para a emancipa\u00e7\u00e3o, no entanto, ainda n\u00e3o s\u00e3o o suficiente. A total transforma\u00e7\u00e3o da cultura e dos valores s\u00e3o tamb\u00e9m indispens\u00e1veis. Transformar h\u00e1bitos fortemente enraizados n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e nem r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Como ressalta Saffioti, a socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e uma legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o discriminat\u00f3ria s\u00e3o fundamentais para a eleva\u00e7\u00e3o social da mulher, mas, s\u00e3o insuficientes para lev\u00e1-la \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o, pois, \u201c\u00e9 preciso que a sociedade se empenhe na elimina\u00e7\u00e3o de uma mentalidade habituada a promover a inferioriza\u00e7\u00e3o de fato da mulher. Esta complexa tarefa n\u00e3o \u00e9 trabalho de uma gera\u00e7\u00e3o, mas de v\u00e1rias e, em parte, resulta da homogeneiza\u00e7\u00e3o do grau de desenvolvimento econ\u00f4mico e s\u00f3cio-cultural [&#8230;] (1979, p. 83).<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio compreender que a luta das mulheres, a luta feminista pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 uma quest\u00e3o que deve ser interesse de toda a humanidade, de toda a classe trabalhadora que pretende ser emancipada. Marx, em Sobre o suic\u00eddio, se baseia em casos de suic\u00eddios na Fran\u00e7a ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa para apresentar, mais uma vez, uma cr\u00edtica real da sociedade burguesa, que aprisiona as mulheres em suas rela\u00e7\u00f5es de propriedade, e uma cr\u00edtica aos limites das revolu\u00e7\u00f5es burguesas.<\/p>\n<p>Descobri que, sem uma reforma total da ordem social de nosso tempo, todas as tentativas de mudan\u00e7a seriam in\u00fateis. [&#8230;] A revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o derrubou todas as tiranias; os males que se reprovavam nos poderes desp\u00f3ticos subsistem nas fam\u00edlias; nelas eles provocam crises anal\u00f3gicas \u00e0quelas das revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os escritos de Marx e Engels, em especial o objeto deste pequeno artigo, o Manifesto, a cada leitura se fazem atuais e necess\u00e1rios em tempos de acirramento das lutas e retirada de direitos, medidas que afetam com ainda mais austeridade mulheres, negros e lgbt\u2019s, ind\u00edgenas da nossa classe trabalhadora. A luta pela constru\u00e7\u00e3o de uma nova moral e uma nova sociedade s\u00e3o uma tarefa cont\u00ednua. Por isso cabe o trabalho constante da forma\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo, nos ambientes de trabalho, estudo e moradia, para a estrutura\u00e7\u00e3o da plena emancipa\u00e7\u00e3o da nossa classe trabalhadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23975\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,20],"tags":[224],"class_list":["post-23975","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-c1-popular","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6eH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23975","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23975"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23975\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23975"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23975"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23975"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}