{"id":2398,"date":"2012-02-12T15:34:24","date_gmt":"2012-02-12T15:34:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2398"},"modified":"2012-02-12T15:34:24","modified_gmt":"2012-02-12T15:34:24","slug":"o-dia-em-que-portinari-nao-pisou-em-nova-york","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2398","title":{"rendered":"O dia em que Portinari n\u00e3o pisou em Nova York"},"content":{"rendered":"\n<p><em>No cinquenten\u00e1rio de sua morte, vale (re)ler perfil de pintor que nunca renegou suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, e as atribu\u00eda a algo mais profundo que a raz\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Por\u00a0<strong>Mar\u00edlia Balbi | <\/strong>Imagem: estudos para\u00a0<em>Guerra <\/em>e\u00a0<em>Paz, <\/em>de\u00a0<strong>C\u00e2ndido Portinari<\/strong><\/p>\n<p><em>Uma agenda extensa de comemora\u00e7\u00f5es marcar\u00e1, em 2012, os 50 anos da morte de C\u00e2ndido Portinari, que se completaram em 6 de fevereiro. Em S\u00e3o Paulo, o Memorial da Am\u00e9rica Latina<a href=\"http:\/\/www.planetauniversitario.com\/index.php\/cultura-e-arte-mainmenu-62\/mostras-e-exposicos-mainmenu-64\/26013-guerra-e-paz-de-portinari-sao-exibidos-pela-primeira-vez-em-sao-paulo\" target=\"_blank\">exibe<\/a>, desde ontem, \u201cGuerra\u201d e \u201cPaz\u201d os murais mais famosos do pintor, cuja instala\u00e7\u00e3o permanente \u00e9 a sede das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Nova York. Eles foram <a href=\"http:\/\/www.guerraepaz.org.br\/#\/restauracao\" target=\"_blank\">restaurados<\/a> no ano passado, no Museu Gustavo Capanema, no Rio, em trabalhos abertos ao p\u00fablico. Outros eventos ocorrer\u00e3o em diversas cidades do pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma bibliografia razo\u00e1vel sobre o pintor. Entre os livros n\u00e3o-esgotados, uma excelente op\u00e7\u00e3o \u00e9 o breve \u2014 por\u00e9m denso \u2014 perfil produzido pela jornalista Mar\u00edlia Balbi. Intitula-se <a href=\"http:\/\/boitempoeditorial.wordpress.com\/2012\/02\/06\/50-de-desconto-nos-50-anos-de-morte-de-portinari\/\" target=\"_blank\">\u201cPortinari, o pintor do Brasil\u201d<\/a> e foi publicado em 2003 pela Editora Boitempo, uma parceira de \u201cOutras Palavras\u201d. Integra a cole\u00e7\u00e3o \u201cPauliceia\u201d, dirigida por Emir Sader. Na semana do cinquenten\u00e1rio (at\u00e9 12\/2), est\u00e1 sendo vendido com desconto de 50% (por R$ 17,50). O trecho \u2014 curioso e revelador \u2014 que publicamos a seguir \u00e9 seu cap\u00edtulo inicial.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013<\/em><\/p>\n<p><em>Portinari, o pintor do Brasil, <\/em>de Mar\u00edlia Balbi.<\/p>\n<p>Editora Boitempo, 2003. 176 p\u00e1ginas, R$ 17,50 at\u00e9 12\/2 (depois, pre\u00e7o normal: R$ 35).\u00a0<a href=\"http:\/\/boitempoeditorial.wordpress.com\/2012\/02\/06\/50-de-desconto-nos-50-anos-de-morte-de-portinari\/\" target=\"_blank\">Pode ser comprado aqui<\/a><\/p>\n<p>\u2013<\/p>\n<p>Aquela data era aguardada havia muitos anos por todo o mundo. Finalmente, no dia 6 de setembro de 1957, os gigantes pain\u00e9is\u00a0<em>Guerra e Paz<\/em> foram apresentados nas paredes do Hall dos Delegados da sede da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), em Nova York. A presen\u00e7a daquela obra monumental ali \u2013 na casa que deve zelar pelo bem-estar de todos os homens da Terra \u2013 era obviamente carregada de sentido. As express\u00f5es de dor e esperan\u00e7a pintadas nos dois pain\u00e9is de 140 metros quadrados simbolizam, de um lado, o flagelo das guerras irracionais e, de outro, o regozijo da harmonia entre as na\u00e7\u00f5es. Dois lembretes para a eternidade.<\/p>\n<p>Curiosamente, a cerim\u00f4nia de inaugura\u00e7\u00e3o do monumento \u00e0 humanidade foi discreta, e poucos foram os convidados. Em especial, um esteve ausente: o autor dos dois pain\u00e9is, C\u00e2ndido Portinari.<\/p>\n<p>Os tempos eram outros. Os Estados Unidos viviam o auge do macartismo, a doutrina de prote\u00e7\u00e3o americana contra a\u00e7\u00f5es supostamente subversivas, cujo expoente anti-comunista foi o senador Joseph McCarthy. Portinari, por sua vez, era um declarado comunista e fora candidato \u00e0 C\u00e2mara Federal, em 1945, e ao Senado, em 1947, pelo \u201cpartid\u00e3o\u201d. Duas posturas inconcili\u00e1veis nos idos da Guerra Fria. Por isso, desde os anos 1940, Portinari vinha tendo sua entrada nos EUA negada.<\/p>\n<p>Mas como manter aquela proibi\u00e7\u00e3o no momento em que o artista brasileiro, reconhecido em todo o mundo, tinha sua gigantesca obra em defesa da paz afixada em car\u00e1ter permanente na \u201ccasa de todas as na\u00e7\u00f5es\u201d?<\/p>\n<p>O mal-estar crescia. Esperava-se uma posi\u00e7\u00e3o conciliat\u00f3ria do governo americano. Ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o da diplomacia brasileira, encontrou-se uma solu\u00e7\u00e3o: bastava que Portinari solicitasse o visto americano no Brasil e este lhe seria concedido. Isso n\u00e3o ocorreria. Homem de personalidade forte, Portinari queria um convite oficial de Washington para pisar em solo americano. Assim era o homem.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio envolvendo\u00a0<em>Guerra e Paz<\/em> foi apenas mais um constrangimento a que C\u00e2ndido Portinari foi submetido durante a vida. Como diversos artistas, ele foi perseguido, cerceado, estigmatizado pelas posi\u00e7\u00f5es de esquerda. A pol\u00edcia pol\u00edtica brasileira, por exemplo, acompanhou seus passos durante d\u00e9cadas. O Departamento Estadual de Ordem Pol\u00edtica e Social \u2013 o famigerado Deops \u2013 acumulou not\u00edcias a seu respeito at\u00e9 mesmo depois de sua morte, em 1962.<\/p>\n<p>Ele explicava a quem perguntasse por que se aproximara da pol\u00edtica. A Vin\u00edcius de Moraes, confidenciou, em texto publicado postumamente, em mar\u00e7o de 1962: \u201cN\u00e3o pretendo entender de pol\u00edtica. Minhas convic\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o fundas, cheguei a elas por for\u00e7a da minha inf\u00e2ncia pobre, de minha vida de trabalho e luta, e porque sou um artista. Tenho pena dos que sofrem, e gostaria de ajudar a remediar a injusti\u00e7a social existente. Qualquer artista consciente sente o mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Portinari pintou o povo sofrido, a mis\u00e9ria, o homem de enxada na m\u00e3o, p\u00e9s na terra \u2013 o trabalhador brasileiro. Pela primeira vez, um artista expressou a trag\u00e9dia do Nordeste do Brasil assolado pela seca. Ou como sintetiza de maneira brilhante seu \u00fanico filho, Jo\u00e3o C\u00e2ndido, Portinari \u201cfez do pincel sua arma para denunciar as injusti\u00e7as e os valores sociais e humanos\u201d.<\/p>\n<p>O artista come\u00e7ou retratando sua aldeia. Depois, partiu para o universal. Das crian\u00e7as brincando na terra roxa em sua natal Brod\u00f3squi \u00e0s crian\u00e7as dos pain\u00e9is da ONU. Temas universais tamb\u00e9m est\u00e3o presentes na mulher com o filho morto nos bra\u00e7os \u2013 a Piet\u00e0 nordestina \u2013 e nos horrores da guerra. Vision\u00e1rio e esperan\u00e7oso, pintou um judeu e um \u00e1rabe de bra\u00e7os dados.<\/p>\n<p>As imagens que ele criou s\u00e3o facilmente reconhecidas por todos. Muitas delas nem sequer saem de nossa mem\u00f3ria. Assim que tentamos conceber a cena de um trabalhador, imediatamente nos v\u00eam \u00e0 mente seu estivador, seu lavrador de caf\u00e9, seu sorveteiro, seu oper\u00e1rio, seu lenhador ou ainda o sapateiro de Brod\u00f3squi. O mesmo ocorre com os pobres e miser\u00e1veis: de pronto, suas favelas, seus morros e as figuras esqu\u00e1lidas da s\u00e9rie\u00a0<em>Retirantes<\/em> nos preenchem a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Reconhecemos nessas obras nossa gente, nossas dores e nossa esperan\u00e7a \u2013 al\u00e9m das marcas inconfund\u00edveis de um grande artista.<\/p>\n<p>http:\/\/www.outraspalavras.net\/2012\/02\/08\/o-dia-em-que-portinari-nao-pisou-em-nova-york\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Outraspalavras.net\n\n\n\n\n\n\n\n\nOutras palavras &#8211; 09\/02\/2012\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2398\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-2398","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-CG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2398"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2398\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}