{"id":24013,"date":"2019-09-27T01:52:22","date_gmt":"2019-09-27T04:52:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24013"},"modified":"2019-09-27T01:52:22","modified_gmt":"2019-09-27T04:52:22","slug":"capitalismo-financeirizado-nao-e-roubo-e-exploracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24013","title":{"rendered":"&#8220;Capitalismo financeirizado&#8221;? N\u00e3o \u00e9 roubo, \u00e9 explora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/stolen_capa.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Michael Roberts<\/p>\n<p>Toda a nossa riqueza foi roubada pela grande finan\u00e7a e, ao faz\u00ea-lo, a grande finan\u00e7a p\u00f4s a nossa economia de joelhos. Portanto, devemos nos livrar da grande finan\u00e7a. Esta \u00e9 a mensagem abreviada de um novo livro,\u00a0Stolen \u2013 how to save the world from financialisation\u00a0(Stolen \u2013 como salvar o mundo da financeiriza\u00e7\u00e3o),\u00a0de Grace Blakeley.<\/p>\n<p>Grace Blakeley \u00e9 uma estrela em ascens\u00e3o no firmamento da esquerda radical do movimento trabalhista brit\u00e2nico. Ela licenciou-se em pol\u00edtica, filosofia e economia (PPE) na Universidade de Oxford e fez um mestrado em estudos africanos. A seguir Blakeley foi investigadora do Institute of Public Policy Research (IIPPE), um &#8220;think tank&#8221; de esquerda, e agora tornou-se correspondente de economia da revista de esquerda\u00a0New Statesman.\u00a0Blakeley \u00e9 uma comentarista habitual e apoiante de ideias de esquerda em v\u00e1rios media da Gr\u00e3-Bretanha. Seu perfil e popularidade elevaram seu livro, publicado esta semana, ao top 50 de todos os livros da Amazon.<\/p>\n<p>Roubado: como salvar o mundo da financeiriza\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9 um relato ambicioso das contradi\u00e7\u00f5es e fracassos do capitalismo do p\u00f3s-guerra ou, mais exatamente, do capitalismo anglo-americano (porque o capitalismo europeu ou asi\u00e1tico \u00e9 pouco mencionado e a periferia da economia mundial \u00e9 coberta apenas de passagem). O livro pretende explicar como e por que o capitalismo se transformou na ladroagem do modelo da &#8220;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221;, beneficiando poucos, enquanto destroi (roubando?) o crescimento, o emprego e o rendimento de muitos.<\/p>\n<p>Stolen\u00a0conduz o leitor atrav\u00e9s dos v\u00e1rios per\u00edodos do desenvolvimento capitalista anglo-americano de 1945 at\u00e9 a Grande Recess\u00e3o de 2008-9 e al\u00e9m. E termina com algumas propostas de pol\u00edtica para acabar a roubalheira com um novo modelo econ\u00f4mico (p\u00f3s-financeiriza\u00e7\u00e3o) que beneficiar\u00e1 os trabalhadores. Isto \u00e9 algo atraente. Mas o relato de Blakeley acerca da natureza do capitalismo anglo-americano moderno e das causas das crises recorrentes na produ\u00e7\u00e3o capitalista estar\u00e1 correto?<\/p>\n<p>Comecemos pelo t\u00edtulo do livro de Blakeley: &#8220;Roubado&#8221;. \u00c9 um t\u00edtulo atraente para um livro. Mas ele implica que os propriet\u00e1rios do capital, especificamente o capital financeiro, s\u00e3o ladr\u00f5es. Eles t\u00eam &#8220;roubado&#8221; a riqueza produzida por outros; ou eles &#8220;extra\u00edram&#8221; a riqueza daqueles que a criaram. Isto \u00e9 lucro sem explora\u00e7\u00e3o. Na verdade, o lucro agora vem simplesmente do roubo dos outros.<\/p>\n<p>Marx chamou isto de &#8220;lucro de aliena\u00e7\u00e3o&#8221;. Para Marx, ele \u00e9 alcan\u00e7ado pela transfer\u00eancia da riqueza\u00a0existente\u00a0(valor) criada no processo de acumula\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o capitalista. Mas o valor n\u00e3o \u00e9 criado por este roubo financeiro. Para Marx, os lucros, ou valor excedente\u00a0(surplus value),\u00a0como os chamava Marx, s\u00e3o criados apenas atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o do trabalho na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias (coisas e servi\u00e7os). A riqueza dos trabalhadores n\u00e3o \u00e9 &#8220;roubada&#8221;, nem a riqueza que eles criam. Sob o capitalismo, os trabalhadores recebem um sal\u00e1rio dos empregadores pelas horas em que trabalham, conforme negociado. Mas eles produzem mais valor no tempo trabalhado do que o valor (medido em tempo de trabalho) que recebem em sal\u00e1rios. Assim, os capitalistas obt\u00eam uma mais-valia com a venda das mercadorias produzidas pelos trabalhadores de que eles se apropriam como donos do capital. Isto n\u00e3o \u00e9 roubo, mas explora\u00e7\u00e3o. (Ver meu livro,\u00a0Marx 200\u00a0, para uma explica\u00e7\u00e3o mais completa).<\/p>\n<p>Importa se \u00e9 roubo ou explora\u00e7\u00e3o? Bem, Marx pensava que sim. Ele argumentou ferozmente contra a ideia de Pierre-Joseph Proudhon, o socialista mais popular daquele tempo de que &#8220;a propriedade \u00e9 um roubo&#8221;. Dizer isso, argumentou Marx, era deixar de ver a maneira real pela qual a riqueza criada por muitos e como ela acaba nas m\u00e3os de poucos. Portanto, n\u00e3o estava em causa acabar com o roubo, mas sim com o capitalismo.<\/p>\n<p>Em\u00a0Stolen,\u00a0Blakeley ignora a mais importante descoberta cient\u00edfica (como Engels afirmou), ou seja, a mais-valia. Ao inv\u00e9s disso, Blakeley engole completamente os pontos de vista dos modernos proudhonianos como Costas Lapavitsas, David Harvey e outros como Bryan e Rafferty, os quais rejeitam a vis\u00e3o de Marx de que o lucro vem da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Para eles, isso \u00e9 velho. Agora, o capitalismo moderno \u00e9 o &#8220;capitalismo financeirizado&#8221;, que obt\u00e9m a sua riqueza roubando ou extraindo &#8220;rendas&#8221; de todos, n\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Isto leva Blakeley ao ponto de aceitar a falsa an\u00e1lise de Thomas Piketty de que os retornos ao capital aumentar\u00e3o inexoravelmente atrav\u00e9s deste processo \u2013 quando a evid\u00eancia \u00e9 de que os retornos ao capital t\u00eam ca\u00eddo inexoravelmente \u2013\u00a0ver aqui minha cr\u00edtica a Piketty\u00a0.<\/p>\n<p>Mas estes argumentos &#8220;modernos&#8221; s\u00e3o t\u00e3o falsos quanto os de Proudhon.\u00a0Lapavitsas foi bem criticado pelo marxista brit\u00e2nico Tony Norfield;\u00a0eu envolvi David Harvey no debate\u00a0sobre a teoria do valor de Marx, e\u00a0Bryan e Rafferty foram considerados falhos pelo marxista grego Stavros Mavroudeas. Depois de ler estas cr\u00edticas, pode-se perguntar se a lei do valor de Marx pode ser ignorada ao explicar as contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo moderno.<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 o subt\u00edtulo do livro de Blakeley: &#8220;Como salvar o mundo da financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221;. &#8220;Financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221; como categoria ou termo tornou-se extremamente popular na teoria econ\u00f4mica heterodoxa. A categoria veio originalmente da economia convencional, foi adotada por alguns marxistas e promovida por economistas p\u00f3s-keynesianos. Seu objetivo era explicar as contradi\u00e7\u00f5es dentro do capitalismo e suas crises recorrentes com uma teoria que n\u00e3o envolvesse a lei do valor de Marx e a lei da lucratividade \u2013 ambas as quais os p\u00f3s-keynesianos rejeitam ou ignoram (\u00a0ver minha carta \u00e0\u00a0Monthly Review\u00a0).<\/p>\n<p>Blakeley toma a defini\u00e7\u00e3o do termo de Epstein, Krippner e Stockhammer e faz dela a pe\u00e7a central da narrativa do livro (p.11).\u00a0Como esbocei num post anterior, se o termo significa simplesmente um aumento do papel do setor financeiro e um aumento da sua participa\u00e7\u00e3o nos lucros nos \u00faltimos 40 anos, isso \u00e9 obviamente verdade \u2013 pelo menos nos EUA e no Reino Unido. Mas se significa &#8220;a emerg\u00eancia\u00a0de um novo modelo econ\u00f4mico &#8230; e uma profunda mudan\u00e7a estrutural no modo como a economia (capitalista) funciona&#8221;\u00a0(Krippner), ent\u00e3o trata-se de um jogo totalmente novo.<\/p>\n<p>Como Stavros Mavroudeas coloca em seu excelente e novo artigo (393982858-QMUL-2018-Financialisation-London), a &#8220;hip\u00f3tese da financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221; considera que\u00a0&#8220;o capital monet\u00e1rio se torna totalmente independente do capital produtivo (pois pode explorar diretamente o trabalho atrav\u00e9s da usura) e remodela as outras fra\u00e7\u00f5es do capital de acordo com suas prerrogativas&#8221;.\u00a0E se\u00a0os &#8220;lucros financeiros n\u00e3o s\u00e3o uma subdivis\u00e3o da mais-valia, ent\u00e3o &#8230; a teoria da mais-valia \u00e9, pelo menos, marginalizada. Consequentemente, a lucratividade (as principais diferen\u00e7as espec\u00edficas da an\u00e1lise econ\u00f4mica marxista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia neocl\u00e1ssica e keynesiana) perde sua centralidade, e o juro \u00e9 autonomizado a partir dele\u00a0(ou seja, do lucro \u2013 MR)&#8221;.<\/p>\n<p>E \u00e9 claramente assim que Blakeley o encara. Aceitar este novo modelo implica que o capital financeiro \u00e9 o inimigo e n\u00e3o o capitalismo como um todo, ou seja, excluindo os setores produtivos (criadores de valor). Blakeley nega esta interpreta\u00e7\u00e3o no livro. As finan\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o uma camada separada de capital sentada no topo do setor produtivo. Isso porque\u00a0todo o\u00a0capitalismo est\u00e1 agora &#8216;financeirizado!&#8217;:\u00a0&#8220;qualquer an\u00e1lise que veja a financeiriza\u00e7\u00e3o como uma &#8220;pervers\u00e3o&#8221; de uma forma mais pura e produtiva de capitalismo falha na apreens\u00e3o do contexto real. O que emergiu na economia global nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 um novo modelo de capitalismo, que \u00e9 muito mais integrado do que sugerem as dicotomias simples&#8221;.\u00a0Segundo Blakeley,\u00a0&#8220;as corpora\u00e7\u00f5es de hoje tornaram-se completamente financeirizadas com algumas a parecerem-se mais como bancos do que como empresas produtivas&#8221;.\u00a0Blakeley argumenta que\u00a0&#8220;n\u00e3o estamos testemunhando a &#8220;ascens\u00e3o dos rentistas&#8221; nesta era; ao inv\u00e9s disso estamos testemunhando a ascens\u00e3o de todos os capitalistas \u2013 industriais e n\u00e3o industriais \u2013 a se tornarem rentistas &#8230; De fato, as corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o financeiras est\u00e3o cada vez mais empenhadas em atividades financeiras a fim de assegurar os mais altos retornos poss\u00edveis&#8221;.<\/p>\n<p>Se isso fosse verdade, e todo o valor proviesse de juros e renda &#8216;extra\u00eddos&#8217; de todo mundo e n\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o isto seria realmente ganhar dinheiro a partir do nada e Marx esteve a dizer asneiras. Contudo, a evid\u00eancia emp\u00edrica n\u00e3o confirma a tese da &#8220;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221;. Sim, desde a d\u00e9cada de 1980, os lucros do setor financeiro aumentaram como uma parcela dos lucros totais em muitas economias, embora principalmente nos EUA. Mas mesmo no auge (2006), a participa\u00e7\u00e3o dos lucros do setor financeiro nos lucros totais atingiu apenas 40% nos EUA. Ap\u00f3s a Grande Recess\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o recuou drasticamente e agora est\u00e1 em m\u00e9dia em cerca de 25%. E grande parte destes lucros acabaram por ser &#8220;fict\u00edcios&#8221;, como Marx os chamou, baseados em ganhos da compra e venda de a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos (n\u00e3o nos lucros da produ\u00e7\u00e3o), os quais desapareceram na baixa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a narrativa de que os setores produtivos da economia capitalista se transformaram em rentistas ou banqueiros simplesmente n\u00e3o \u00e9 confirmada pelos fatos.\u00a0Joel Rabinovich, da Universidade de Paris, efetuou uma an\u00e1lise meticulosa\u00a0do argumento de que agora as empresas n\u00e3o financeiras obt\u00eam a maior parte de seus lucros com a &#8220;extra\u00e7\u00e3o&#8221; de juros, rendas ou ganhos de capital e n\u00e3o com a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho que empregam. Ele descobriu que:\u00a0&#8220;contrariamente \u00e0 hip\u00f3tese da rentiza\u00e7\u00e3o financeira, o rendimento financeiro calcula a m\u00e9dia (justa) de 2,5% do rendimento total desde os anos 80, enquanto o lucro financeiro l\u00edquido fica mais negativo como percentagem do lucro total para corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o financeiras. Em termos de ativos, alguns dos alegados ativos financeiros realmente refletem outras atividades nas quais as corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o financeiras se t\u00eam empenhado cada vez mais: internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, reorienta\u00e7\u00e3o das atividades e fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es&#8221;.\u00a0Aqui est\u00e1 o seu gr\u00e1fico:<\/p>\n<p>Por outras palavras, corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o financeiras como a General Motors, Caterpillar, Amazon, Google, Microsoft, grande ind\u00fastria tabaco, grande farmac\u00eautica e assim por diante ainda lucram com a venda de mercadorias da maneira habitual. Os lucros da &#8216;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8217; s\u00e3o pequenos como uma parcela do rendimento total. Estas companhias n\u00e3o s\u00e3o &#8216;financeirizadas&#8217;.<\/p>\n<p>Blakely diz que\u00a0&#8220;a financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo que come\u00e7ou nos anos 80 com a remo\u00e7\u00e3o de barreiras \u00e0 mobilidade do capital&#8221;.\u00a0Pode ser assim, mas por que come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1980 e n\u00e3o antes ou depois? Por que ent\u00e3o come\u00e7ou a desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor financeiro? Por que o &#8216;neoliberalismo&#8217; surgiu ent\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 resposta de Blakeley, ou dos p\u00f3s-keynesianos. Blakeley destaca que o &#8220;modelo socialdemocrata&#8221; do p\u00f3s-guerra fracassou, mas ela n\u00e3o fornece nenhuma explica\u00e7\u00e3o para isso \u2013 exceto sugerir que o capitalismo n\u00e3o podia mais\u00a0&#8220;permitir-se continuar a tolerar a exig\u00eancia sindical por aumentos salariais no contexto da competi\u00e7\u00e3o internacional crescente e alta infla\u00e7\u00e3o&#8221;\u00a0(p.48). Blakeley sugere uma resposta:\u00a0&#8220;a competi\u00e7\u00e3o externa come\u00e7ou a corroer os lucros&#8221;\u00a0(p.51). Mas isso levanta a quest\u00e3o de por que a concorr\u00eancia internacional agora causou um problema quando ele n\u00e3o existia antes e por que havia infla\u00e7\u00e3o alta.<\/p>\n<p>Mas a teoria econ\u00f4mica marxista pode dar uma resposta. Foi o colapso da lucratividade do capital em todas as principais economias capitalistas. Isto est\u00e1 bem documentado pelos marxistas e por estudos convencionais. Este blog tem uma s\u00e9rie de posts sobre o assunto e eu forneci uma an\u00e1lise clara no meu livro,\u00a0The Long Depression\u00a0(n\u00e3o \u00e9 um best-seller). A queda na lucratividade for\u00e7ou o capitalismo a procurar for\u00e7as em sentido contr\u00e1rio: o enfraquecimento do movimento trabalhista por meio de baixas\u00a0(slumps)\u00a0e medidas antitrabalho; privatiza\u00e7\u00f5es, etc e tamb\u00e9m uma comuta\u00e7\u00e3o para o investimento em ativos financeiros (a que Marx chamou de &#8216;capital fict\u00edcio&#8217;) para promover os lucros financeiros. Tudo isto teve como objetivo reverter a queda na lucratividade geral do capital. Teve \u00eaxito at\u00e9 certo ponto.<\/p>\n<p>Mas Blakeley descarta esta explica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era por causa da lucratividade do capital que crises ocorriam regularmente sob o capitalismo e a lucratividade nada teve a ver com a Grande Recess\u00e3o [considera ela]. Ao inv\u00e9s disso, Blakeley segue servilmente a explica\u00e7\u00e3o de analistas p\u00f3s-keynesianos como\u00a0Hyman Minsky\u00a0e Michel Kalecki.\u00a0Agora, eu e outros temos gasto muita tinta para argumentar que a sua an\u00e1lise est\u00e1 incorreta, pois deixa de fora o principal fator da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, o lucro e a lucratividade. Em consequ\u00eancia, eles n\u00e3o podem realmente explicar crises.<\/p>\n<p>Kalecki diz que as crises s\u00e3o causadas pela falta de &#8220;procura efetiva&#8221;, no estilo keynesiano e, embora os governos possam superar essa falta de procura atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es or\u00e7amentais e outras, elas s\u00e3o bloqueadas pela resist\u00eancia pol\u00edtica dos capitalistas. Como se v\u00ea, como diz Blakeley,\u00a0&#8220;o argumento de Kalecki n\u00e3o \u00e9 que a socialdemocracia seja economicamente inst\u00e1vel, mas sim que \u00e9 politicamente inst\u00e1vel&#8221;.\u00a0Para Kalecki, as crises s\u00e3o causadas pelos capitalistas que politicamente n\u00e3o est\u00e3o dispostos a concordar com reformas. Ent\u00e3o, aparentemente, a socialdemocracia funcionaria sob o capitalismo se n\u00e3o fosse a estupidez dos capitalistas!<\/p>\n<p>Minsky estava certo de que o setor financeiro \u00e9 inerentemente inst\u00e1vel e o crescimento maci\u00e7o da d\u00edvida nos \u00faltimos 40 anos aumenta esta vulnerabilidade \u2013 Marx afirmou isso h\u00e1 150 anos em\u00a0O Capital.\u00a0E no meu blog, j\u00e1 afirmei em muitos posts que &#8220;a d\u00edvida tem import\u00e2ncia&#8221;. Mas crashes financeiros por si s\u00f3s nem sempre levam a quedas na produ\u00e7\u00e3o e no investimento. Na verdade, n\u00e3o t\u00eam sido as crises financeiras (bancarrotas banc\u00e1rias, colapsos do mercado de a\u00e7\u00f5es, colapso dos pre\u00e7os das habita\u00e7\u00f5es, etc.) que t\u00eam levado a uma queda na produ\u00e7\u00e3o e no investimento capitalista, a\u00a0menos que haja tamb\u00e9m\u00a0uma crise na lucratividade do setor produtivo da economia capitalista. Esta \u00faltima ainda \u00e9 decisiva.<\/p>\n<p>Num cap\u00edtulo do livro,\u00a0World in Crisis\u00a0, editado por G. Carchedi e eu (infelizmente novamente n\u00e3o \u00e9 um best-seller), Carchedi proporciona um apoio emp\u00edrico convincente para o v\u00ednculo entre os setores financeiro e produtivo nas crises capitalistas. Carchedi:\u00a0&#8220;Confrontado com a queda da lucratividade na esfera produtiva, o capital passa da baixa rentabilidade nos setores produtivos para a alta rentabilidade nos setores financeiros (ou seja, improdutivos). Mas os lucros nestes setores s\u00e3o fict\u00edcios; eles existem apenas nos livros da contabilidade. Eles se tornam lucros reais apenas quando recebidos. Quando isto acontece, os lucros dispon\u00edveis para os setores produtivos contraem-se. Quanto mais capitais tentam obter taxas de lucro mais altas movendo-se para os setores improdutivos, maiores ser\u00e3o as dificuldades nos setores produtivos. Esta contratend\u00eancia \u2013 movimento de capital para os setores financeiro e especulativo e, portanto, taxas de lucro mais altas nestes setores \u2013 n\u00e3o pode conter a tend\u00eancia, isto \u00e9, a queda da taxa de lucro nos setores produtivos&#8221;.<\/p>\n<p>Carchedi descobre que:\u00a0&#8220;Crises financeiras devem-se \u00e0 impossibilidade de reembolsar d\u00edvidas e surgem quando o crescimento percentual est\u00e1 em queda\u00a0tanto\u00a0para lucros financeiros quanto para lucros reais&#8221;.\u00a0Na verdade, em 2000 e 2008, os lucros financeiros ca\u00edram mais do que os lucros reais pela primeira vez. Carchedi conclui que:\u00a0&#8220;A deteriora\u00e7\u00e3o do setor produtivo nos anos anteriores \u00e0 crise \u00e9, portanto, a causa comum das crises financeiras e n\u00e3o financeiras. Se eles t\u00eam uma causa comum, \u00e9 irrelevante se um precede o outro ou vice-versa. O ponto \u00e9 que o (a deteriora\u00e7\u00e3o do) setor produtivo\u00a0determina\u00a0as (crises no) setor financeiro &#8220;.<\/p>\n<p>Pode-se perguntar: importa se as desigualdades e crises que experimentamos no capitalismo s\u00e3o causadas pela financeiriza\u00e7\u00e3o ou pelas leis de valor e lucratividade de Marx? Afinal de contas, todos podemos concordar que a resposta \u00e9 acabar com o sistema capitalista, n\u00e3o? Bem, penso que isso importa, porque a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica decorre de qualquer teoria das causas. Se aceitarmos a financeiriza\u00e7\u00e3o como a causa de todos os nossos males, isso significa que apenas as finan\u00e7as s\u00e3o inimigas do trabalho e dos trabalhadores e n\u00e3o os bons capitalistas produtivos como a Amazon que apenas nos exploram no trabalho? N\u00e3o deveria, mas acontece.\u00a0Tome-se o pr\u00f3prio Minsky como exemplo. Minsky come\u00e7ou como um socialista, mas a sua pr\u00f3pria teoria da financeiriza\u00e7\u00e3o nos anos 80 levou-o n\u00e3o a expor as falhas do capitalismo, mas sim a explicar como um capitalismo inst\u00e1vel poderia ser &#8220;estabilizado&#8221;.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida Blakeley \u00e9 feita de material mais duro. Blakeley diz que devemos enfrentar os banqueiros com o mesmo grau de implacabilidade que Thatcher e Reagan enfrentaram o movimento trabalhista no per\u00edodo neoliberal principiado na d\u00e9cada de 1980. Blakeley diz que &#8220;o manifesto do Partido Trabalhista l\u00ea-se como um retorno ao consenso do p\u00f3s-guerra &#8230; n\u00e3o podemos nos permitir sermos t\u00e3o defensivos hoje. Devemos combater por algo mais radical\u2026 porque o modelo capitalista est\u00e1 a aproximar-se do fim da estrada. Se n\u00e3o conseguirmos substitu\u00ed-lo, n\u00e3o h\u00e1 como descrever a destrui\u00e7\u00e3o que o seu colapso pode trazer&#8221;\u00a0(p.229). Isso soa como o rugido de uma leoa socialista. Mas quando se trata das pol\u00edticas reais a tratar com a finan\u00e7a, Blakeley torna-se uma rata da socialdemocracia.<\/p>\n<p>Primeiro, Blakeley diz que &#8221;\u00a0devemos adotar uma agenda pol\u00edtica que desafie a hegemonia do capital financeiro, revogando seus privil\u00e9gios e colocando os poderes do investimento novamente sob controle democr\u00e1tico&#8221;.\u00a0Agora, tenho argumentado em muitos postos e em reuni\u00f5es do movimento trabalhista\u00a0na Gr\u00e3-Bretanha que a \u00fanica maneira de assumir o controle democr\u00e1tico \u00e9 trazer \u00e0 propriedade p\u00fablica os cinco grandes bancos que controlam 90% dos empr\u00e9stimos e dep\u00f3sitos na Gr\u00e3-Bretanha.\u00a0A regulamenta\u00e7\u00e3o desses bancos n\u00e3o funcionou e n\u00e3o funcionar\u00e1\u00a0.<\/p>\n<p>No entanto, Blakeley ignora esta op\u00e7\u00e3o e, ao inv\u00e9s, pede medidas de &#8220;constrangimento&#8221; aos bancos existentes, ao mesmo tempo que estabelece um banco p\u00fablico de retalho ou bancos postais em competi\u00e7\u00e3o juntamente com um Banco Nacional de Investimento.\u00a0&#8220;O financiamento privado deve ser adequadamente constrangido&#8221;\u00a0(mas o seu comando n\u00e3o deve ser tomado),\u00a0&#8220;usando ferramentas reguladoras adotadas internacionalmente&#8221;. p.285.\u00a0Em v\u00e1rios lugares, Blakeley refere-se a Lenin. Talvez Blakeley devesse recordar-se do que Lenin disse sobre lidar com os bancos.\u00a0&#8220;Os bancos, como sabemos, s\u00e3o centros da vida moderna econ\u00f4mica, os principais centros nervosos de todo o sistema econ\u00f4mico capitalista. Falar sobre &#8220;regular a vida econ\u00f4mica&#8221; e, no entanto, fugir da quest\u00e3o da nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos significa trair a mais profunda ignor\u00e2ncia ou enganar as &#8220;pessoas comuns&#8221; com palavras floridas e promessas grandiloquentes com a inten\u00e7\u00e3o deliberada de n\u00e3o cumprir tais promessas&#8221;.<\/p>\n<p>Quanto a um Banco Nacional de Investimento, uma promessa do Partido Trabalhista, ele deixa a maioria das decis\u00f5es e recursos de investimento nas m\u00e3os do setor financeiro capitalista.\u00a0Como mostrei antes, o BNI acrescentaria apenas 1-2% de PIB em investimento extra na economia brit\u00e2nica, a comparar com 15-20% no investimento controlado pelo setor capitalista\u00a0. Portanto, a &#8216;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8217; n\u00e3o seria contida.<\/p>\n<p>A outra proposta chave de Blakeley \u00e9 um Administrador de Ativos do Povo\u00a0(People&#8217;s Asset Manager, PAM),\u00a0que gradualmente compraria a\u00e7\u00f5es das grandes multinacionais,\u00a0&#8220;socializando assim a propriedade em toda a economia&#8221;\u00a0e\u00a0&#8220;pressionando as empresas&#8221;\u00a0a apoiar investimentos em projetos socialmente \u00fateis.\u00a0&#8220;\u00c0 medida que um sistema banc\u00e1rio p\u00fablico surja e cres\u00e7a ao lado de um administrador de ativos do povo, a propriedade ser\u00e1 constantemente transferida do setor privado para o setor p\u00fablico&#8221; (p.268) &#8220;numa tentativa de dissolver a distin\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho&#8221;\u00a0(p.267). Portanto, o objetivo de Blakeley n\u00e3o \u00e9 acabar com o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, pela tomada de comando dos principais setores de investimento e produ\u00e7\u00e3o capitalista, mas dissolver gradualmente a &#8220;distin\u00e7\u00e3o&#8221; entre capital e trabalho.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o m\u00e1ximo em gradualismo ut\u00f3pico. Os capitalistas permaneceriam imp\u00e1vidos enquanto os seus poderes de controle fossem gradualmente ou constantemente perdidos? Uma greve de investimentos se seguiria e qualquer governo socialista seria confrontado com a tarefa de assumir o controle completo. Ent\u00e3o, por que n\u00e3o formular completamente um programa para uma economia de propriedade p\u00fablica controlada democraticamente com um plano nacional de investimento, produ\u00e7\u00e3o e emprego?<\/p>\n<p>O objetivo de\u00a0Stolen\u00a0\u00e9 apresentar uma an\u00e1lise radical das crises e contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo moderno e das pol\u00edticas que poderiam acabar com a &#8220;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221; e dar aos muitos o controle sobre seu futuro econ\u00f4mico. Mas, como a an\u00e1lise \u00e9 defeituosa, as pol\u00edticas tamb\u00e9m s\u00e3o inadequadas.<\/p>\n<p>13\/Setembro\/2019<\/p>\n<p>[*]\u00a0Economista.<\/p>\n<p>O original encontra-se em\u00a0thenextrecession.wordpress.com\/&#8230;<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/www.resistir.info\/crise\/roberts_13set19.html<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24013\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[233],"class_list":["post-24013","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6fj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24013","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24013"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24013\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24013"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24013"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24013"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}