{"id":24017,"date":"2019-09-28T00:52:36","date_gmt":"2019-09-28T03:52:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24017"},"modified":"2019-09-28T00:52:36","modified_gmt":"2019-09-28T03:52:36","slug":"20-anos-da-guerra-contra-a-iugoslavia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24017","title":{"rendered":"20 anos da guerra contra a Iugosl\u00e1via"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/balkanspost.com\/media\/images\/2017-07\/990705-M-5696S-002.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A guerra genocida dos EUA e a destrui\u00e7\u00e3o do socialismo<\/p>\n<p>Revista Opera<\/p>\n<p>por Michel Chossudovsky e John McMurtry | Global Research &#8211; Tradu\u00e7\u00e3o de Gabriel Deslandes<\/p>\n<p>A guerra da OTAN contra a Iugosl\u00e1via, que culminou no bombardeio de 78 dias a cidades e infraestruturas hist\u00f3ricas \u2013 como de costume sob pretextos de atrocidades e muita propaganda \u2013, est\u00e1 completando seu 20\u00ba anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>O triste anivers\u00e1rio \u00e9 admiravelmente lembrado pelos membros da Science for Peace com o prop\u00f3sito de prevenir os pr\u00f3ximos crimes de guerra da OTAN apresentados como \u201cinterven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d, que ningu\u00e9m sabe qual ser\u00e1.<\/p>\n<p>Da Iugosl\u00e1via ao Iraque e \u00e0 L\u00edbia, onde isso vai parar? Observe que Trump agora busca uma alian\u00e7a da OTAN com o Brasil de Bolsonaro \u2013 talvez para apoiar um bombardeio da Venezuela ou de qualquer outra sociedade, incluindo o povo brasileiro, caso este n\u00e3o se renda \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o corporativa global liderada pelos EUA. O genoc\u00eddio \u00e9 a l\u00f3gica indescrit\u00edvel dos crimes de guerra em s\u00e9rie sob o Direito internacional.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 importante recordar a longa guerra de desestabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e financeira \u2013 ocorrida nos anos anteriores e posteriores ao bombardeio da OTAN em 1999 \u2013 que destruiu todas as estruturas de controle social e trabalhista desenvolvidas pelo socialismo de mercado da Iugosl\u00e1via federal, ap\u00f3s 1945, para solucionar as intermin\u00e1veis guerras \u00e9tnicas balc\u00e2nicas de sua hist\u00f3ria pregressa.<\/p>\n<p>Esse projeto \u00e9 um tabu \u2013 o genoc\u00eddio promovido pelos EUA contra qualquer sociedade socialista como uma pol\u00edtica estatal encoberta. A \u201cliberdade\u201d e os \u201cdireitos humanos\u201d s\u00e3o m\u00e1scaras invertidas, enfiadas incansavelmente na cabe\u00e7a das pessoas. Dessa forma, a sucess\u00e3o ininterrupta de crimes internacionais dos EUA \u00e9 encoberta at\u00e9 hoje pela lei. Assim tamb\u00e9m, a Iugosl\u00e1via federal, outrora a inveja do mundo em termos de progresso social democr\u00e1tico, foi destru\u00edda passo a passo. Suas infraestruturas sociais foram desmanteladas por uma guerra financeira promovida incessantemente pelos EUA em todas as frentes, em que o bombardeio da OTAN em 1999 foi apenas o acontecimento mais evidente do genoc\u00eddio socialista.<\/p>\n<p>Testemunha reprimida da morte de um socialismo multicultural<br \/>\nAbaixo, um excerto da longa an\u00e1lise do professor de Economia da Universidade de Ottawa (em\u00e9rito), Michel Chossudovsky, que fornece uma linha direta minimalista da guerra efetivamente genocida contra todas as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o regidas pelo lucro de uma sociedade socialista, sendo a Iugosl\u00e1via um caso paradigm\u00e1tico. Os trechos selecionados s\u00e3o de um artigo de Michel Chossudovsky de 1996 (atualizado em 2002):<\/p>\n<p>\u201cEnquanto tropas fortemente armadas dos EUA e da OTAN refor\u00e7avam a paz na B\u00f3snia, a imprensa e os pol\u00edticos retratavam a interven\u00e7\u00e3o do Ocidente na antiga Iugosl\u00e1via como uma resposta nobre a um surto de massacres \u00e9tnicos e viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos. Na esteira dos Acordos de Paz de novembro de 1995 em Dayton, o Ocidente estava ansioso para retocar sua autoimagem como salvador dos eslavos do sul e continuar com \u2018o trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o\u2019 dos novos \u2018Estados soberanos\u2019.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, seguindo um padr\u00e3o estabelecido desde o in\u00edcio, a situa\u00e7\u00e3o dos B\u00e1lc\u00e3s foi propagandeada como o resultado de profundas tens\u00f5es \u00e9tnicas e religiosas enraizadas no decorrer da hist\u00f3ria. Da mesma forma, muito se falou sobre o \u2018jogo de poder dos B\u00e1lc\u00e3s\u2019 e o choque de personalidades pol\u00edticas: \u2018Tudjman e Milosevic est\u00e3o rasgando a B\u00f3snia-Herzegovina em peda\u00e7os\u2019.<\/p>\n<p>Perdidas na enxurrada de imagens e an\u00e1lises ego\u00edstas, est\u00e3o as causas econ\u00f4micas e sociais do conflito. A profunda crise econ\u00f4mica que precedeu a guerra civil foi esquecida h\u00e1 muito tempo. Os interesses estrat\u00e9gicos da Alemanha e dos EUA em lan\u00e7ar as bases para a desintegra\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via nunca s\u00e3o mencionados, assim como o papel dos credores externos e das institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais. Aos olhos da m\u00eddia global, as pot\u00eancias ocidentais n\u00e3o t\u00eam responsabilidade pelo empobrecimento e destrui\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o de 24 milh\u00f5es de pessoas. Assim, os Estados sucessores da Iugosl\u00e1via, devastados pela guerra, s\u00e3o deixados \u00e0 merc\u00ea da \u2018comunidade financeira\u2019 internacional.<\/p>\n<p>Enquanto o mundo se concentrava nos movimentos de tropas e cessar-fogo, as institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais estavam ocupadas cobrando a d\u00edvida externa da antiga Iugosl\u00e1via de seus Estados remanescentes, ao mesmo tempo em que transformavam os B\u00e1lc\u00e3s em um ref\u00fagio seguro para a livre iniciativa. Com um acordo de paz da B\u00f3snia assegurado sob a posse de armas da OTAN, o Ocidente revelou, no final de 1995, um programa de \u2018reconstru\u00e7\u00e3o\u2019 que despojou aquele pa\u00eds brutalizado de sua soberania em um grau n\u00e3o visto na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O genoc\u00eddio do socialismo de mercado<\/p>\n<p>A nova \u2018constitui\u00e7\u00e3o\u2019, inclu\u00edda como ap\u00eandice aos Acordos de Dayton, entregou as r\u00e9deas da pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods e ao Banco Europeu para a Reconstru\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento (BERD), sediado em Londres. O FMI foi autorizado a nomear o primeiro presidente do Banco Central da B\u00f3snia, que, tal como o alto representante, n\u00e3o pode ser cidad\u00e3o da B\u00f3snia-Herzegovina ou de um Estado vizinho e n\u00e3o pode conceder cr\u00e9dito via emiss\u00e3o de moeda, com um comit\u00ea monet\u00e1rio operando a estabiliza\u00e7\u00e3o cambial.<\/p>\n<p>Enquanto o Banco Central estava sob cust\u00f3dia do FMI, o BERD, sediado em Londres, dirige a Comiss\u00e3o de Empresas P\u00fablicas, que desde 1996 supervisiona as opera\u00e7\u00f5es de todas as empresas do setor p\u00fablico na B\u00f3snia, incluindo energia, \u00e1gua, servi\u00e7os postais, telecomunica\u00e7\u00f5es e transporte. O presidente do BERD nomeia o presidente da comiss\u00e3o e \u00e9 respons\u00e1vel pela reestrutura\u00e7\u00e3o do setor p\u00fablico, ou seja, a venda de ativos estatais e sociais e a aquisi\u00e7\u00e3o de fundos de investimento de longo prazo. Os credores ocidentais criaram explicitamente o BERD \u2018para dar uma dimens\u00e3o distintamente pol\u00edtica aos empr\u00e9stimos\u2019.<\/p>\n<p>Enquanto o Ocidente proclama seu apoio \u00e0 democracia, o poder pol\u00edtico real est\u00e1 nas m\u00e3os de um \u2018Estado\u2019 b\u00f3snio paralelo, cujos cargos executivos s\u00e3o ocupados por n\u00e3o cidad\u00e3os. Os credores ocidentais incorporaram seus interesses a uma constitui\u00e7\u00e3o escrita apressadamente sob seus ausp\u00edcios. A neocoloniza\u00e7\u00e3o da B\u00f3snia foi um passo l\u00f3gico dos esfor\u00e7os ocidentais para desfazer a experi\u00eancia iugoslava de \u2018socialismo de mercado\u2019 e a autogest\u00e3o dos trabalhadores e para impor o postulado do \u2018livre mercado\u2019.<\/p>\n<p>O sucesso da Iugosl\u00e1via antes da desestabiliza\u00e7\u00e3o do sistema pela guerra financeira americana<\/p>\n<p>A Iugosl\u00e1via socialista e multi\u00e9tnica j\u00e1 foi uma pot\u00eancia industrial regional e um sucesso econ\u00f4mico. Nas duas d\u00e9cadas anteriores a 1980, o crescimento anual do PIB foi em m\u00e9dia de 6,1%, o atendimento m\u00e9dico era gratuito, a taxa de alfabetiza\u00e7\u00e3o era de 91%, e a expectativa de vida era de 72 anos. Contudo, depois de uma d\u00e9cada de assist\u00eancias econ\u00f4micas ocidentais e uma d\u00e9cada de desintegra\u00e7\u00e3o, guerra, boicote e embargo, as economias da ex-Iugosl\u00e1via se encontraram prostradas, e seus setores industriais foram desmantelados.<\/p>\n<p>Apesar do n\u00e3o alinhamento de Belgrado e de suas rela\u00e7\u00f5es comerciais extensas com a Comunidade Europeia e os EUA, o governo Reagan teve como alvo a economia iugoslava em uma Diretriz de Seguran\u00e7a Nacional de 1984 (NSDD 133) intitulada \u2018Pol\u00edtica dos EUA para a Iugosl\u00e1via\u2019. Uma diretriz censurada semelhante \u2013 a NSDD 64, voltada para Europa Oriental \u2013 foi publicada em 1982 e desclassificada em 1990. Ela defendia \u2018esfor\u00e7os expandidos para promover uma \u2018revolu\u00e7\u00e3o silenciosa\u2019 para derrubar governos e partidos comunistas\u2019, enquanto reintegrava os pa\u00edses da Europa Oriental em uma economia de mercado.<\/p>\n<p>Os EUA j\u00e1 haviam se juntado aos outros credores internacionais de Belgrado ao impor uma primeira rodada de reformas macroecon\u00f4micas em 1980, pouco antes da morte do marechal Tito. Essa rodada inicial de reestrutura\u00e7\u00e3o definiu todo o padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Tend\u00eancias secessionistas, alimentando-se de divis\u00f5es sociais e \u00e9tnicas, ganharam \u00edmpeto precisamente durante um per\u00edodo de empobrecimento brutal da popula\u00e7\u00e3o iugoslava. As reformas econ\u00f4micas \u2018causaram estragos econ\u00f4micos e pol\u00edticos. O crescimento mais lento, o ac\u00famulo da d\u00edvida externa e, especialmente, o custo do servi\u00e7o dessa d\u00edvida e a desvaloriza\u00e7\u00e3o levaram a uma queda no padr\u00e3o de vida m\u00e9dio dos iugoslavos. A crise econ\u00f4mica amea\u00e7ou a estabilidade pol\u00edtica. Tamb\u00e9m amea\u00e7ava agravar as tens\u00f5es \u00e9tnicas latentes\u2019.<\/p>\n<p>Essas reformas, acompanhadas pela assinatura de acordos de reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida com os credores oficiais e comerciais, tamb\u00e9m serviram para enfraquecer as institui\u00e7\u00f5es do Estado federal, criando divis\u00f5es pol\u00edticas entre Belgrado e os governos das Rep\u00fablicas e prov\u00edncias aut\u00f4nomas. Um arsenal de Reaganomics governou a Iugosl\u00e1via. E, durante toda a d\u00e9cada de 1980, o FMI e o Banco Mundial periodicamente prescreviam doses adicionais na medida em que a economia iugoslava lentamente entrava em coma.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, sucessivos programas patrocinados pelo FMI aceleraram a desintegra\u00e7\u00e3o do setor industrial iugoslavo, avan\u00e7ando para zero em 1987-1988 e para uma taxa de crescimento negativa de 10% em 1990. Esse processo foi acompanhado pelo desmantelamento gradual do Estado de bem-estar iugoslavo, com todas as consequ\u00eancias sociais previs\u00edveis. Enquanto isso, os acordos de reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida aumentaram a d\u00edvida externa, e uma desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda tamb\u00e9m atingiu duramente o padr\u00e3o de vida dos iugoslavos.<\/p>\n<p>A \u2018terapia do choque\u2019 come\u00e7ou em janeiro de 1990. Embora a infla\u00e7\u00e3o tenha impactado os lucros, o FMI determinou que os sal\u00e1rios fossem congelados nos seus n\u00edveis de meados de novembro de 1989. Os pre\u00e7os continuaram a subir sem parar, e os sal\u00e1rios reais entraram em colapso em 41% nos primeiros seis meses de 1990.<\/p>\n<p>O FMI tamb\u00e9m controlou efetivamente o Banco Central iugoslavo. Sua r\u00edgida pol\u00edtica monet\u00e1ria prejudicou ainda mais a capacidade do pa\u00eds de financiar seus programas econ\u00f4micos e sociais. As receitas do Estado, que deveriam ter sido transferidas para as rep\u00fablicas, serviram para pagar a d\u00edvida de Belgrado com os clubes de Paris e Londres. As rep\u00fablicas foram largamente abandonadas \u00e0 pr\u00f3pria sorte. O pacote econ\u00f4mico foi lan\u00e7ado em janeiro de 1990 sob um acordo de stand-by do FMI (SBA) e um empr\u00e9stimo de ajuste estrutural do Banco Mundial (SAL II). Cortes or\u00e7ament\u00e1rios exigindo o redirecionamento das receitas federais para o servi\u00e7o da d\u00edvida levaram \u00e0 suspens\u00e3o do pagamento das transfer\u00eancias de Belgrado para os governos das Rep\u00fablicas e Prov\u00edncias Aut\u00f4nomas.<\/p>\n<p>De uma s\u00f3 vez, os reformadores haviam arquitetado o colapso final da estrutura fiscal federal da Iugosl\u00e1via e ferido de morte suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas federais. Ao cortar as art\u00e9rias financeiras entre Belgrado e as rep\u00fablicas, as reformas alimentaram tend\u00eancias secessionistas que se alimentaram de fatores econ\u00f4micos e tamb\u00e9m de divis\u00f5es \u00e9tnicas, garantindo virtualmente a secess\u00e3o de fato das rep\u00fablicas. A crise or\u00e7ament\u00e1ria induzida pelo FMI criou um fait accompli econ\u00f4mico que preparou o caminho para a secess\u00e3o formal da Cro\u00e1cia e da Eslov\u00eania em junho de 1991.<\/p>\n<p>Esmagada pela m\u00e3o invis\u00edvel<\/p>\n<p>As reformas exigidas pelos credores de Belgrado tamb\u00e9m atingiram o cora\u00e7\u00e3o do sistema de empresas socialmente gerenciadas e administradas por trabalhadores iugoslavos. Em 1990, a taxa anual de crescimento do PIB havia despencado para -7,5%. Em 1991, o PIB caiu mais 15%, e a produ\u00e7\u00e3o industrial caiu 21%.<\/p>\n<p>O programa de reestrutura\u00e7\u00e3o exigido pelos credores de Belgrado tinha a inten\u00e7\u00e3o de revogar o sistema de empresas de propriedade social. A Lei das Empresas de 1989 exigia a aboli\u00e7\u00e3o das \u2018Organiza\u00e7\u00f5es B\u00e1sicas do Trabalho Associado\u2019 (BAOL). Estas \u00faltimas eram unidades produtivas de propriedade social de gest\u00e3o pr\u00f3pria, com o Conselho dos Trabalhadores constituindo o principal \u00f3rg\u00e3o decis\u00f3rio. A Lei das Empresas de 1989 exigiu a transforma\u00e7\u00e3o das BOALs em empresas capitalistas privadas, com o Conselho dos Trabalhadores substitu\u00eddo pelo chamado \u2018Conselho Social\u2019, sob o controle dos propriet\u00e1rios da empresa, incluindo seus credores.<\/p>\n<p>O ataque \u00e0 economia socialista tamb\u00e9m incluiu uma nova lei banc\u00e1ria destinada a desencadear a liquida\u00e7\u00e3o dos Bancos Associados de propriedade social. Em dois anos, mais da metade dos bancos do pa\u00eds haviam desaparecido, substitu\u00eddos por \u2018institui\u00e7\u00f5es independentes orientadas para o lucro\u2019. Em 1990, todo o \u2018sistema banc\u00e1rio de tr\u00eas n\u00edveis\u2019, constitu\u00eddo pelo Banco Nacional da Iugosl\u00e1via, os bancos nacionais das oito rep\u00fablicas e prov\u00edncias aut\u00f4nomas e os bancos comerciais haviam sido desmantelados por orienta\u00e7\u00e3o do Banco Mundial. Uma Ag\u00eancia Federal de Seguros e Reabilita\u00e7\u00e3o Banc\u00e1ria foi estabelecida em junho de 1990 com um mandato para reestruturar e \u2018reprivatizar\u2019 os bancos reestruturados sob supervis\u00e3o do Banco Mundial.<\/p>\n<p>Terapia de choque para tomar os recursos naturais<\/p>\n<p>Na esteira dos Acordos de Dayton de novembro de 1995, os credores ocidentais voltaram sua aten\u00e7\u00e3o para os \u2018Estados sucessores\u2019 da Iugosl\u00e1via. A d\u00edvida externa iugoslava havia sido cuidadosamente dividida e alocada \u00e0s rep\u00fablicas sucessoras, que foram estranguladas em reescalonamentos de d\u00edvidas e em acordos de ajuste estrutural.<\/p>\n<p>O consenso entre os doadores e ag\u00eancias internacionais foi que as reformas macroecon\u00f4micas do FMI, impostas \u00e0 Iugosl\u00e1via federal, n\u00e3o haviam atingido seu objetivo, e uma nova terapia de choque era necess\u00e1ria para restaurar a \u2018sa\u00fade econ\u00f4mica\u2019 dos Estados sucessores da Iugosl\u00e1via. A administra\u00e7\u00e3o neocolonial, imposta pelos Acordos de Dayton e apoiada pelo poder de fogo da OTAN, havia assegurado que o futuro da B\u00f3snia seria determinado em Washington, Bonn e Bruxelas e n\u00e3o em Sarajevo.<\/p>\n<p>Os governos e corpora\u00e7\u00f5es ocidentais estavam mais interessados em obter acesso a recursos naturais estrat\u00e9gicos. Com a descoberta de reservas energ\u00e9ticas na regi\u00e3o, a divis\u00e3o da B\u00f3snia entre a Federa\u00e7\u00e3o da B\u00f3snia-Herzegovina e a B\u00f3snia-Rep\u00fablica Srpska pelos Acordos de Dayton passou a ter uma import\u00e2ncia estrat\u00e9gica nova. Documentos nas m\u00e3os da Cro\u00e1cia e dos servo-b\u00f3snios indicam que dep\u00f3sitos de carv\u00e3o e petr\u00f3leo foram identificados na encosta oriental dos Alpes Din\u00e1ricos, retomada dos s\u00e9rvios de Krajina pelo ex\u00e9rcito croata apoiado pelos EUA durante ofensivas finais antes dos acordos de Dayton. Autoridades b\u00f3snias informaram que a Amoco, sediada em Chicago, estava entre diversas empresas estrangeiras, que posteriormente iniciaram pesquisas explorat\u00f3rias na B\u00f3snia.<\/p>\n<p>Campos de petr\u00f3leo \u2018substanciais\u2019 tamb\u00e9m se encontram na \u2018parte s\u00e9rvia da Cro\u00e1cia\u2019, do outro lado do rio Sava, em Tuzla, a sede da zona militar dos EUA. A explora\u00e7\u00e3o desses campos continuou durante a guerra, mas o Banco Mundial e as multinacionais conduziram opera\u00e7\u00f5es para manter os governos locais na escurid\u00e3o, presumivelmente para impedir que eles tomassem em \u00e1reas potencialmente valiosas.<\/p>\n<p>Com a aten\u00e7\u00e3o dedicada ao pagamento da d\u00edvida e \u00e0s potenciais bonan\u00e7as energ\u00e9ticas, tanto os EUA como a Alemanha se dedicaram aos seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os \u2013 com 70 mil tropas da OTAN \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para \u2018refor\u00e7ar a paz&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se repete em padr\u00f5es e n\u00e3o em eventos. O padr\u00e3o de desestabiliza\u00e7\u00e3o criminosa dos EUA e a destrui\u00e7\u00e3o de Estados sociais para roubar seus recursos soberanos \u00e9 a hist\u00f3ria invis\u00edvel do \u00faltimo s\u00e9culo no mundo. A Iugosl\u00e1via \u00e9 o exemplo que serve de pedra angular, como a tomada da Ucr\u00e2nia pelos nazistas na Europa ainda \u00e9 um tabu a ser analisado.<\/p>\n<p>A OTAN, liderada pelos EUA, \u00e9 a m\u00e1quina de guerra transnacional do mundo que devora toda a riqueza p\u00fablica, que, em conformidade com o regime metast\u00e1tico global, pode extorquir para aterrorizar a todos. A OTAN, que bombardeou a Iugosl\u00e1via h\u00e1 20 anos e o Iraque e a L\u00edbia, \u00e9 tamb\u00e9m a maior poluidora, devastadora e destruidora do meio ambiente de que se tem not\u00edcia no mundo.<\/p>\n<p>As for\u00e7as armadas sem fronteiras dos EUA-OTAN comandam invisivelmente o caos clim\u00e1tico sobre n\u00f3s atrav\u00e9s dos continentes. Tem-se o maior aumento do n\u00famero de emiss\u00f5es de carbono de todos os tempos, mas ele n\u00e3o \u00e9 mencionado sequer pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da ONU.<\/p>\n<p>O pesadelo p\u00f3s-nazista da OTAN, sob a lideran\u00e7a dos EUA, deve ser a mais devastadora espolia\u00e7\u00e3o burguesa da Terra, com o petr\u00f3leo como seu sangue e mortes em massa como seu m\u00e9todo. Todavia, o mundo oficial permanece cego perante tal pesadelo, sob a \u00e9gide santa do \u2018nenhum de n\u00f3s sab\u00edamos do problema\u2019.<\/p>\n<p>O 20\u00ba anivers\u00e1rio do bombardeio da OTAN \u00e0 Iugosl\u00e1via, apresentado como \u201cinterven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d, deveria ser um tr\u00e1gico autorreconhecimento para todas as eras.<\/p>\n<p>Foto: Official United States Marine Corps<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24017\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[226],"class_list":["post-24017","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6fn","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24017","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24017"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24017\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}