{"id":24022,"date":"2019-09-28T00:58:48","date_gmt":"2019-09-28T03:58:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24022"},"modified":"2019-09-28T00:58:48","modified_gmt":"2019-09-28T03:58:48","slug":"o-racismo-estrutural-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24022","title":{"rendered":"O racismo estrutural brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/uploads.metropoles.com\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/29131632\/Debret-5.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Gravura de Jean-Baptiste Debret<\/p>\n<p>Entrevista de Douglas Rodrigues Barros para a Revista Opera: \u201cN\u00e3o tivemos democracia racial, tivemos democracia racista\u201d<\/p>\n<p>por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Formalmente, Douglas Rodrigues Barros nasceu em Nova Olinda, no Cear\u00e1, em 1988. No entanto, foi criado e cresceu realmente em Itaquaquecetuba, munic\u00edpio do Estado de S\u00e3o Paulo a 40 km da capital. Durante a juventude, militou no movimento negro, especificamente ao ligado aos cursinhos populares, e cursou filosofia na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP). Ex-oper\u00e1rio, fez-se mestre em est\u00e9tica e filosofia da arte, e atualmente \u00e9 doutorando em \u00e9tica e filosofia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Autor de dois romances, \u201cOs terroristas?\u201d (Urutau) e \u201cCartas Estudantis\u201d (Multifoco), considera que a literatura possibilita a abertura para o novo, \u201csempre mediando a fissura, olhando de maneira muito sens\u00edvel e prof\u00e9tica as rupturas\u201d.<\/p>\n<p>Sem deixar de olhar \u00e0s fissuras, talvez de maneira prof\u00e9tica, publicou neste ano o mais filos\u00f3fico \u201cLugar de Negro, Lugar de Branco? \u2013 esbo\u00e7o para uma cr\u00edtica \u00e0 metaf\u00edsica racial\u201d (Hedra), que \u00e9 tema da seguinte entrevista concedida pelo autor \u00e0 Revista Opera, antes de partir para Belo Horizonte, onde lan\u00e7a o livro no dia 3 de outubro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Eu acho que vou come\u00e7ar pelo come\u00e7o. O que \u00e9 ra\u00e7a? E o que \u00e9 o negro, afinal de contas?<\/p>\n<p>A ra\u00e7a \u00e9 um significante constru\u00eddo a partir da coloniza\u00e7\u00e3o, a partir da descoberta dos novos mundos e a partir da tentativa de colonizar esses novos mundos. Quer dizer, a ra\u00e7a acompanha a fase embrion\u00e1ria do desenvolvimento do capitalismo. \u00c9 a partir da necessidade de m\u00e3o de obra. Pensamos a\u00ed em um mundo em que a popula\u00e7\u00e3o era muito reduzida e h\u00e1 a necessidade constante de explorar um vasto territ\u00f3rio desconhecido, ent\u00e3o iniciam-se a\u00ed as grandes navega\u00e7\u00f5es e a coloniza\u00e7\u00e3o vem na sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Com a coloniza\u00e7\u00e3o vem a necessidade de m\u00e3o de obra, j\u00e1 que, com o capitalismo ainda n\u00e3o desenvolvido, era necess\u00e1rio recorrer \u00e0 m\u00e3o de obra escrava. E essa m\u00e3o de obra era obtida por dois m\u00e9todos: ou voc\u00ea arrancava do continente africano essa m\u00e3o de obra escrava ou voc\u00ea escravizava os pr\u00f3prios moradores do territ\u00f3rio ocupado, como foram por exemplo aqui no Brasil as experi\u00eancias espanholas durante algum tempo, na qual houve explora\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o ind\u00edgena. De modo que os ind\u00edgenas s\u00e3o companheiros de infort\u00fanio dos negros. Bom, os negros vem pra c\u00e1, n\u00f3s conhecemos bem essa hist\u00f3ria, e a partir disso \u00e9 necess\u00e1rio justificar essa escraviza\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 um processo radicalmente violento, e estamos vivendo um momento em que muito se fala das Luzes e da necessidade de cria\u00e7\u00e3o de um direito universal. A contradi\u00e7\u00e3o disso \u00e9 justamente a explora\u00e7\u00e3o radical que atende pelo nome de escravismo, ent\u00e3o era preciso justificar isso.<\/p>\n<p>Eu identifico tr\u00eas pontos fundamentais para essa justifica\u00e7\u00e3o: o primeiro \u00e9 o religioso, a tentativa de justificativa da escravid\u00e3o e da servid\u00e3o atrav\u00e9s da religi\u00e3o; o filos\u00f3fico, e falo filos\u00f3fico num sentido geral, inclusive a filosofia muito atrelada ao que depois n\u00f3s vamos pensar como filosofia natural e ci\u00eancia; e o \u00faltimo ponto \u00e9 a arte mesmo, n\u00e9? A arte, principalmente a literatura, ser\u00e1 respons\u00e1vel por criar o mito do que \u00e9 o continente africano, o continente sombrio, soturno, e o que \u00e9 o negro, essa criatura que vai come\u00e7ar a ganhar esse nome de \u201cnegro\u201d [risos]. Ent\u00e3o veja: o significante ra\u00e7a acompanha tamb\u00e9m o pr\u00f3prio adjetivo, que depois se torna substantivo, do \u201cnegro\u201d.<\/p>\n<p>A ra\u00e7a \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o para justificar uma diferencia\u00e7\u00e3o produzida pela explora\u00e7\u00e3o radical que atende pelo nome de escravid\u00e3o. Por isso era necess\u00e1rio justificativas, e h\u00e1 ent\u00e3o o significante de ra\u00e7a, que na ci\u00eancia da Filosofia vai ter duas linhas principais: a monogenista e a poligenista.<\/p>\n<p>A monogenista, e mais tarde vai se comprovar que era correta, acreditava que a humanidade tinha partido de um \u00fanico tronco, e a partir da geografia, do habitat desse humano no espa\u00e7o geogr\u00e1fico, v\u00e3o se configurar suas caracter\u00edsticas. E portanto a humanidade tem um \u00fanico tronco, o que n\u00e3o justificaria a ideia de ra\u00e7a, por exemplo.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s temos outro polo, que \u00e9 o que advoga Voltaire, que \u00e9 a poligenista. Ela advogava que a humanidade tinha v\u00e1rios polos gen\u00e9ticos e que, portanto, haviam gen\u00e9ticas diferentes que davam atribui\u00e7\u00f5es superiores e inferiores para esses grupos humanos. A ideia de poligenia ent\u00e3o \u00e9 a de que h\u00e1 uma ra\u00e7a de homens superiores e uma ra\u00e7a inferior, ideia que acompanha depois Herbert Spencer, na sua tentativa de estabelecer o darwinismo social. \u00c9 isso que depois vai ser identificado com a eugenia e vai descambar, no s\u00e9culo 20, no arianismo e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o veja: a ra\u00e7a \u00e9 a tentativa de justificar a constru\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as entre os homens por meio da explora\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria do capitalismo. E \u00e9 por isso que eu concluo nos meus textos que a ra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um componente aqu\u00e9m, nem al\u00e9m do capital. Ela \u00e9 estrutura no seu pr\u00f3prio embri\u00e3o, que faz com que a pr\u00f3pria divis\u00e3o social do trabalho seja influenciada por esse dispositivo. Ent\u00e3o a ra\u00e7a \u00e9 um dispositivo central da forma de domina\u00e7\u00e3o do capitalismo; n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa isso. Da\u00ed por isso, tamb\u00e9m, que toda vez que uma crise surge h\u00e1 a ascens\u00e3o desse dispositivo para justificar as contradi\u00e7\u00f5es do capital.<\/p>\n<p>Bom, isso \u00e9 a ra\u00e7a. O \u201cnegro\u201d acompanha essa cria\u00e7\u00e3o, da ra\u00e7a, e acompanha de maneira muito dram\u00e1tica, porque seria uma das determina\u00e7\u00f5es da ideia de ra\u00e7a, talvez a principal determina\u00e7\u00e3o dessa ideia, tendo em vista que a ideia de ra\u00e7a nasce concomitantemente com a escravid\u00e3o dos negros que est\u00e3o na di\u00e1spora, que foram expulsos de seus territ\u00f3rios, presos, para serem escravizados. Ent\u00e3o o \u201cnegro\u201d tamb\u00e9m faz parte dessa redu\u00e7\u00e3o da singularidade a um dispositivo de controle, uma zona de exclus\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 explora\u00e7\u00e3o radical do escravismo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea citou o Voltaire. E no seu texto eu acho que um dos pontos principais \u00e9 procurar uma via que n\u00e3o tente ser um retorno ao mundo pr\u00e9-colonial \u2013 que j\u00e1 n\u00e3o existe \u2013 ao mesmo tempo que n\u00e3o apegue \u00e0quilo que foi determinado pelo pr\u00f3prio processo colonial. Quer dizer, \u00e9 procurar um futuro que n\u00e3o parte de uma realidade estanque, de hoje, e tamb\u00e9m n\u00e3o procurar o passado. E nesse sentido voc\u00ea faz uma cr\u00edtica tanto contra o misticismo quanto uma cr\u00edtica muito forte contra o iluminismo e as pr\u00f3prias no\u00e7\u00f5es de ci\u00eancia que v\u00e3o sair desse processo. Para qu\u00ea, ou para quem, serviu a Era das Luzes?<\/p>\n<p>Ah, sim. Veja: h\u00e1 uma dial\u00e9tica do iluminismo muito interessante. Porque h\u00e1 por um lado uma tentativa in\u00e9dita na hist\u00f3ria humana de uma constru\u00e7\u00e3o de um \u201cuniversal\u201d em que todas as diferen\u00e7as se tornem indiferentes \u2013 quer dizer, sejam pactuadas, mas sejam indiferentes ao processo de reconhecimento do outro. Ent\u00e3o h\u00e1 uma emerg\u00eancia desse sentido do \u201cuniversal\u201d no per\u00edodo revolucion\u00e1rio ou, para ser mais marxista, no per\u00edodo em que a burguesia era revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, este universal est\u00e1 lotado de contradi\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo de uma esp\u00e9cie de cegueira, tendo em vista que se construiu um novo mundo, com um grande desenvolvimento econ\u00f4mico, que foi atrelado tamb\u00e9m ao desenvolvimento de um pensamento radical na hist\u00f3ria da Filosofia, que \u00e9 a emerg\u00eancia, a constru\u00e7\u00e3o, da Filosofia francesa como uma Filosofia do pol\u00edtico, que est\u00e1 surgindo. Ao mesmo tempo, h\u00e1 um desenvolvimento fundamental na economia da Inglaterra, ent\u00e3o voc\u00ea tem a constru\u00e7\u00e3o mesmo de uma ideia de universal.<\/p>\n<p>E o que acontece, ao fim e ao cabo, n\u00e9? A partir de 1810, j\u00e1, esse ideal de universalidade vai se perdendo. Vai se perdendo por qu\u00ea? Porque h\u00e1 uma energia revolucion\u00e1ria que se institui, se instaura, reconfigura a ordem geral da sociedade e entra em rotina. A\u00ed a gente n\u00e3o pode esquecer, por exemplo, da Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana, que j\u00e1 demonstra ali, na emerg\u00eancia do processo revolucion\u00e1rio, a total fal\u00eancia daquele processo quando, por exemplo, a Fran\u00e7a iluminista tenta massacrar os revolucion\u00e1rios, os jacobinos negros. Ent\u00e3o h\u00e1 um processo contradit\u00f3rio em que esse universal se torna cada vez mais particular, na pr\u00e1tica, na concretude, se torna um universal formal, abstrato, vazio e carente de conte\u00fado. Se torna, na verdade, a emerg\u00eancia de um novo sujeito: e esse novo sujeito n\u00e3o \u00e9 o homem, n\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo [risos], esse novo sujeito \u00e9 a forma capital, o capital se torna o novo sujeito, e o Direito se torna sua maior ferramenta, se torna uma ferramenta de estrutura\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o da mercadoria. Por isso que ir\u00e1 emergir, com for\u00e7a total, o direito \u00e0 propriedade privada, enfim. Essas s\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es que impulsionam o iluminismo, a Era das Luzes. Ele lan\u00e7ou um monte de promessas n\u00e3o cumpridas, que deu foi em um processo de moderniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que instituiu a vida do capitalismo como a vida totalizadora global.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado \u2013 e eu chamo \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para isso \u2013 h\u00e1 uma aposta n\u00e3o concretizada. Os jacobinos negros no Haiti eles n\u00e3o eram ing\u00eanuos, como [Robert] Kurz os chamou em um texto de seu livro \u201cA Raz\u00e3o Sangrenta\u201d. Kurz os considera como ing\u00eanuos; na verdade eles n\u00e3o eram nem um pouco ing\u00eanuos: eles apenas apostaram radicalmente na ideia do universal quando n\u00e3o era poss\u00edvel entender que essa ideia de universal na verdade era um dispositivo de estrutura\u00e7\u00e3o do modo metab\u00f3lico do capital. Eu chamo \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para isso por qu\u00ea? Porque de fato o horizonte emancipat\u00f3rio que est\u00e1 exposto no meu livro \u00e9 um horizonte universal. Mas n\u00e3o universal formal, abstrato e vazio \u2013 n\u00e3o o universal do Direito. Mas o universal concreto, da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o social, voltado ao socialismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas refer\u00eancias, mas nesse sentido acho que a principal refer\u00eancia do seu livro \u00e9 o [Frantz] Fanon. Quero saber o porqu\u00ea\u2026 n\u00e3o sei bem se \u00e9 uma escolha. Mas por que voc\u00ea recorre tanto Fanon? Qual \u00e9 a sua import\u00e2ncia? E qual \u00e9 a import\u00e2ncia, tomando um trecho do seu livro, de tratar de Fanon especificamente hoje?<\/p>\n<p>O Fanon, em primeiro lugar, \u00e9 um dos grandes pensadores que conseguem pensar as contradi\u00e7\u00f5es racializadas, mas n\u00e3o de uma maneira simplesmente defensiva, de autoconhecimento de si a partir da pr\u00f3pria experi\u00eancia. A consci\u00eancia fanoniana, me parece, se lan\u00e7a no mundo e tenta entender a dimens\u00e3o contradit\u00f3ria que forja ela mesma, mais ou menos como se houvesse uma esp\u00e9cie bipolaridade dial\u00e9tica no pensamento de Fanon, na qual a contradi\u00e7\u00e3o, embora d\u00e9bil no sentido de que \u00e9 socialmente criada e uma ilus\u00e3o socialmente necess\u00e1ria para o modo espec\u00edfico de explora\u00e7\u00e3o que tem o nome de capitalismo, Fanon consegue, a despeito de enxergar isso, a meu ver, dar um passo em dire\u00e7\u00e3o a isso que convers\u00e1vamos agora, que \u00e9 o universal concreto. Por isso eu acho que Fanon est\u00e1 muito atual.<\/p>\n<p>Porque, de fato, pensemos no modelo do Brasil, como o Brasil foi desenvolvido, como foram desenvolvidas as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capital aqui. Em primeiro lugar, h\u00e1 um processo de depend\u00eancia que imp\u00f5e aquilo que Ruy Mauro Marini chamava de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho. No interior dessa superexplora\u00e7\u00e3o, o negro foi alijado, de sa\u00edda, dos processos da cria\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica brasileira. O negro foi alijado desse processo, e s\u00f3 tardiamente entrou nesse processo porque havia se estabelecido um processo desigualdade radical. Ent\u00e3o veja: me parece que essa especifica\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o do Fanon nos joga a uma outra contradi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a fundamental. Quer dizer, h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o que forja a classe, dispositivos no interior da classe que s\u00e3o forjados a partir dos lugares em que esses dispositivos fazem que os indiv\u00edduos sejam colocados \u2013 ent\u00e3o pensamos, para al\u00e9m da quest\u00e3o racial, a quest\u00e3o de g\u00eanero; \u00e9 estruturado \u201cgeograficamente\u201d, por assim dizer, os lugares em que os corpos femininos e os corpos racializados ir\u00e3o ocupar. E esses lugares atuam no interior dessa classe, fazendo com que a gente, ao pensar sobre isso, chegue no que me interessa no Fanon: que \u00e9 a especifica\u00e7\u00e3o da contradi\u00e7\u00e3o fundamental entre a classe prolet\u00e1ria e a classe burguesa.<\/p>\n<p>Veja s\u00f3: o Fanon em nenhum momento coloca a dicotomia entre ra\u00e7a e classe, por exemplo \u2013 porque n\u00e3o interessa essa dicotomia. Ela est\u00e1 simplesmente no aspecto formal, j\u00e1 que o pr\u00f3prio aspecto racial ou mesmo o aspecto de g\u00eanero determina a forma como a classe \u00e9 determinada e como vai agir, determinar essa determina\u00e7\u00e3o. Isso joga n\u00f3s para outro ponto: a nossa luta n\u00e3o \u00e9 para que haja um mundo da classe trabalhadora. A nossa luta \u00e9 a luta para que as classes deixam de existir. A pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o de classe j\u00e1 \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o expropriat\u00f3ria da subjetividade e redu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio indiv\u00edduo. Seja ele branco, negro ou oriental \u2013 o pr\u00f3prio fato de estar condicionado por uma classe, ter um espa\u00e7o geom\u00e9trico, alg\u00e9brico, determinado por uma classe, j\u00e1 reduz a sua humanidade. E \u00e9 justamente contra isso que o Marx se colocou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Fanon entra nesse sentido, para mim. Sua qualidade est\u00e1 para al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o de identidade, est\u00e1 muito al\u00e9m. O que Fanon est\u00e1 pensando, na verdade, s\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade para que a gente crie o sujeito pol\u00edtico, e isso para mim \u00e9 o que talvez fa\u00e7a com que ele se torne atual e que precisemos muito ler ele [risos]. A\u00ed est\u00e1 posto que a sociedade capitalista \u00e9 onde o conflito de classe se torna central. Esse conflito de classe, inclusive, \u00e9 organizador da vida pol\u00edtica, que op\u00f5e a burguesia e o proletariado; quer dizer, essa contradi\u00e7\u00e3o de classes \u00e9 o motor da hist\u00f3ria social dos homens. E o resto \u00e9 ideologia \u2013 meu trabalho est\u00e1 justamente nisso: demonstrar como a ra\u00e7a \u00e9 uma ideologia burguesa de organiza\u00e7\u00e3o e cis\u00e3o da classe trabalhadora. Assim, Fanon \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Quer dizer, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobrepor uma identidade, uma classe, uma chamada ra\u00e7a sobre a outra, mas justamente criar uma situa\u00e7\u00e3o em que tudo isso simplesmente n\u00e3o fa\u00e7a sentido. Porque s\u00f3 tem sentido como justifica\u00e7\u00e3o de uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u00c9 isso. A ra\u00e7a \u00e9 isso. O dispositivo racial s\u00f3 tem justificativa no capitalismo.<\/p>\n<p>Tem um trecho interessante no livro em que voc\u00ea cita o Fanon falando sobre a \u00c1frica do Sul, em que ele trata de um \u201cdesvio da agressividade do proletariado branco contra o proletariado negro\u201d, rejeitando uma tese mais essencialista. E o Fanon defende que a raz\u00e3o dessa agressividade est\u00e1 j\u00e1 na estrutura econ\u00f4mica sul-africana. Ent\u00e3o queria que voc\u00ea comentasse dois casos: primeiro, a elei\u00e7\u00e3o do Trump, nos EUA, porque houve muito um discurso sobre uma agressividade do proletariado branco contra o proletariado negro, tanto porque naquelas zonas que antes era industriais e que foram abaladas pela globaliza\u00e7\u00e3o votaram no Trump, e tamb\u00e9m porque ela se deu, paradoxalmente, na esteira de uma s\u00e9rie de revoltas negras importantes nos EUA, como foi o caso de Ferguson. E naturalmente eu queria que voc\u00ea falasse tamb\u00e9m sobre o papel que o conceito da ra\u00e7a jogou e joga no Brasil desde as elei\u00e7\u00f5es de 2018. E antes; tem algum jogo diferente a\u00ed, a partir de 2018, ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Eu tenho uma hip\u00f3tese, que \u00e9 a seguinte: em todo momento na hist\u00f3ria recente do capitalismo em que uma crise profunda se arrasta pelo tecido social, h\u00e1 a reativa\u00e7\u00e3o do dispositivo racial como aquilo que surge como um bode expiat\u00f3rio. N\u00f3s podemos usar v\u00e1rios exemplos sobre como isso se deu ao longo do s\u00e9culo 20, de como as lutas \u00e9tnicas tentavam responder por uma crise que \u00e9 uma crise do capital. Sempre que ascende um processo de crise, h\u00e1 duas coisas: primeiro, o discurso de identidade nacional, que se fortalece. Depois, o discurso da pr\u00f3pria identidade, do pr\u00f3prio identitarismo.<\/p>\n<p>E esse discurso identit\u00e1rio \u00e9 uma via de m\u00e3o dupla, porque veja: o grande drama do indiv\u00edduo racializado \u00e9 que, enquanto tal, ele \u00e9 posto em um lugar de exclus\u00e3o. E \u00e9 s\u00f3 quando ele se entende como indiv\u00edduo racializado que ele consegue erguer armas contra esse lugar de exclus\u00e3o no qual ele foi posto. Isso \u00e9 muito interessante porque eu vejo alguns companheiros simplesmente querendo descartar a ideia de identidade. Veja, para o negro, ou talvez para o ind\u00edgena, ou para as comunidades LGBTs, o lugar de exclus\u00e3o colocado pela heteronormatividade \u00e9 um lugar em que ou voc\u00ea se enxerga posto nele para a partir da\u00ed conseguir atuar, ou voc\u00ea sempre vai bater cabe\u00e7a na parede. Ent\u00e3o \u00e9 um primeiro momento, a identidade vem como um primeiro momento de tentativa de se erguer contra os processos que nos determinam.<\/p>\n<p>No entanto, se voc\u00ea fica nesse movimento e para a\u00ed, quer dizer, se faz da identidade o p\u00f3rtico, a bandeira pol\u00edtica, ela \u00e9 muito perigosa. E explico o porqu\u00ea: nada impede que de repente voc\u00ea, reivindicando sua identidade, tornando ela pol\u00edtica\u2026 isso \u00e9 muito ruim, a meu ver, porque a identidade n\u00e3o \u00e9 pressuposto de pol\u00edtica, porque a pol\u00edtica \u00e9 a desencarna\u00e7\u00e3o da ideia de lugar, ent\u00e3o a pol\u00edtica, para ser pol\u00edtica, \u00e9 a tomada de parte dos que n\u00e3o t\u00eam parte para a destrui\u00e7\u00e3o dos lugares constitu\u00eddos. Mas quando voc\u00ea fala que a identidade \u00e9 a pol\u00edtica, voc\u00ea est\u00e1 realizando o movimento tribal, e nada impede de que, por exemplo, um germ\u00e2nico comece a querer escutar Wagner e reivindicar suas ra\u00edzes arianas. Ent\u00e3o por isso que eu insisto: a identidade n\u00e3o deve ser bandeira pol\u00edtica. O que deve ser a bandeira pol\u00edtica \u00e9 a pr\u00f3pria desestrutura\u00e7\u00e3o dos lugares onde essas identidades foram forjadas, quer dizer; a explos\u00e3o do pr\u00f3prio espa\u00e7o simb\u00f3lico dessas identidades. Ou seja, a constru\u00e7\u00e3o de uma base comum em que os corpos possam circular sem serem demarcados por nada: nem por ra\u00e7a, nem por g\u00eanero, nem por sexualidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para voltar \u00e0 sua pergunta, \u00e9 muito evidente que o Bolsonaro \u00e9 uma dessas respostas ao cataclismo que est\u00e1 se processando no mundo do capital, no mundo da mercadoria. H\u00e1 uma crise profunda, que provavelmente se aprofundar\u00e1 ainda mais, tendo em vista por exemplo a japoniza\u00e7\u00e3o das principais economias mundiais, que n\u00e3o est\u00e3o conseguindo mais pagar seus pr\u00f3prios pap\u00e9is de Tesouro. Ent\u00e3o voc\u00ea tem uma crise aguda e n\u00e3o h\u00e1 um horizonte de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pela esquerda. O que voc\u00ea tem agora s\u00e3o discursos identit\u00e1rios em que os predicados da identidade tentam formular uma pol\u00edtica de universal.<\/p>\n<p>Veja, quando digo que os predicados de identidade tentam formular uma pol\u00edtica de universal, o que estou dizendo \u00e9 que isso \u00e9 o puro liberalismo em \u00e9poca sadia. Quando a economia vai bem, o que o liberalismo faz? Cataloga para a identidade, e consegue fornecer requisitos m\u00ednimos para que essa identidade atue na produ\u00e7\u00e3o de valor e circula\u00e7\u00e3o da mercadoria. Quando a economia vai mal, esses predicados se autodestroem, porque eles n\u00e3o t\u00eam mais como atuar no interior dessa l\u00f3gica, tendo em vista que a economia vai mal [risos]. Ent\u00e3o o Trump, e essa raiva do proletariado branco, da classe trabalhadora branca, adv\u00e9m justamente porque \u00e9 mais uma vez o aspecto racial que \u00e9 tomado como possibilidade de resposta equivocada, terr\u00edvel e desgra\u00e7ada, ao processo de crise do capital.<\/p>\n<p>Veja um dado sintom\u00e1tico: quem mais falou sobre aspectos raciais e identit\u00e1rios foi a esquerda, n\u00e3o a direita. Ent\u00e3o de certo modo foi como se a esquerda abrisse os caminhos para que a direita sa\u00edsse galopando.<\/p>\n<p>No Brasil h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o de pensamento que valoriza o nosso pa\u00eds como um \u201ccaldeir\u00e3o cultural\u201d, um lugar onde, em que pese os processos genocidas da coloniza\u00e7\u00e3o, do passado e de hoje, o negro, ou a cultura negra, se emaranhou a tantas outras; \u00e0 ib\u00e9rica, \u00e0 ind\u00edgena, \u00e0 cultura de pa\u00edses europeus e at\u00e9 asi\u00e1ticos. A\u00ed talvez n\u00e3o seja uma busca por uma universalidade concreta, mas uma universalidade das diferen\u00e7as abstratas. Mas quando a gente come\u00e7a a pensar, para tomar as suas palavras, que toda essa percep\u00e7\u00e3o passa por uma \u201cestrutura patol\u00f3gica [que tinha ou tem o negro] como o dem\u00f4nio, o pecado, o mal e o sexo abundante\u201d, fica dif\u00edcil achar o Brasil dessa universalidade das diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Eu acho que tudo o que a gente ouviu falar do Brasil, claro, n\u00e3o estou falando dos grandes int\u00e9rpretes do Brasil, mas do que foi veiculado pela imprensa, pelas novelas, aquele Pa\u00eds paz-e-amor onde as diferen\u00e7as s\u00e3o bem-vindas: tudo isso n\u00e3o passava de ideologia, afinal. A mais pura e grotesca ideologia no sentido baixo, porque a ideologia acompanha nossa exist\u00eancia, mas h\u00e1 uma ideologia que faz com que vivamos e experienciamos a ideia que ela imp\u00f5e, e existe tamb\u00e9m a ideologia que \u00e9 simplesmente a mentira, mesmo.<\/p>\n<p>E foi o que a gente viu e est\u00e1 vendo cada vez mais de maneira brutal. E a\u00ed eu acho que o Bacurau tamb\u00e9m responde um pouco disso. Na verdade nunca existiu essa paz, nunca existiu esse amor, as diferen\u00e7as eram indiferentes quando n\u00e3o disputavam entre si; quer dizer, quando o negro, tomado como uma figura ex\u00f3tica, ou o ind\u00edgena, que hoje tem suas terras devastadas pela queimada\u2026 Quando eles n\u00e3o apareciam no espa\u00e7o de atualiza\u00e7\u00e3o do poder, a\u00ed todo mundo era muito bem quisto. Quer dizer, foi uma ideologia que depois se extrai at\u00e9 nas obras de Gilberto Freyre, atrav\u00e9s da democracia racial, e acaba fundamentando esse tipo de vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Como eu costumo falar, n\u00f3s n\u00e3o tivemos nenhuma democracia racial, mas n\u00f3s tivemos uma democracia racista, que se baseia nesse exclus\u00e3o racial. E em todos os n\u00edveis, estou falando da racial porque estou debatendo a quest\u00e3o do negro; mas a exclus\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 uma exclus\u00e3o da mulher, dos ciganos, do ind\u00edgena. Ent\u00e3o a maior fonte de ideologia da ideologia liberal \u00e9 a cren\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel instituir o universal a partir da constru\u00e7\u00e3o de predicados identit\u00e1rios. Quer dizer, da demarca\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a e do espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o dessas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que como voc\u00ea est\u00e1 numa ordem regulada pela competitividade e pelo lucro, essa ideologia n\u00e3o se sustenta. \u00c9 muito vis\u00edvel como nos grandes momentos de ascens\u00e3o do capital, quando a economia vai bem, essa ideologia caminha pacificamente entre n\u00f3s, inclusive entre n\u00f3s da esquerda. \u201cOlha, estamos conseguindo, um dia chegaremos l\u00e1\u201d; mas basta uma crise, como aconteceu no Brasil em 2012-2013, num processo de crise que advinha da crise de 2009, do subprime, para que as diferen\u00e7as se tornem radicais, violentas e excludentes. Essas diferen\u00e7as, inclusive superficialmente criadas de maneira ideol\u00f3gica para justificar o aparato repressor, para justificar as divis\u00f5es no interior da classe trabalhadora, todas essas diferen\u00e7as na verdade funcionam como regula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ordem. Que vai bem, quando a ordem est\u00e1 bem. Mas vai muito mal quando o capitalismo encontra seu negativo e n\u00e3o consegue ultrapass\u00e1-lo: e n\u00f3s estamos nisso j\u00e1 h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o no Brasil, que agora est\u00e1 com os dois p\u00e9s na lama da crise, e eu tenho a hip\u00f3tese de que a crise se tornou forma de governo e que, portanto, qualquer possibilidade de governan\u00e7a da crise ter\u00e1 de beijar a m\u00e3o da elite plutocrata \u2013 quer dizer, a pol\u00edtica nem existe mais, o que existe \u00e9 uma forma de gest\u00e3o da barb\u00e1rie \u2013 ent\u00e3o o que n\u00f3s vamos ver, cada vez mais, essas diferen\u00e7as se tornando gritantes e violentas. N\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o sejam: o negro \u00e9 fuzilado diariamente, foi fuzilado inclusive no governo do PT diariamente pela pol\u00edcia. O homossexual \u00e9 diariamente assassinado nas esquinas desse Brasil. Ent\u00e3o, para resumir, a gente vive no inferno.<\/p>\n<p>Nesse sentido, de nos aproximarmos da barb\u00e1rie, ou de n\u00e3o ser mais poss\u00edvel ter ilus\u00f5es, na sua introdu\u00e7\u00e3o voc\u00ea diz que \u201cas poucas ilus\u00f5es com a pol\u00edtica olig\u00e1rquica brasileira dever\u00e3o ser desfeitas pelos tiros dados em Marielle e em seu motorista.\u201d Quais s\u00e3o essas ilus\u00f5es? Como elas se manifestam? Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o sobre a quest\u00e3o das pol\u00edticas afirmativas?<\/p>\n<p>Primeiro vamos pensar esse pacto rompido. Veja, quando eu falo isso, h\u00e1 um pessoal na esquerda mais hegem\u00f4nica que me acusa de pessimista. Mas na verdade n\u00e3o sou eu quem est\u00e1 dizendo isso; quem p\u00f4s que os pactos foram rompidos com os tiros na Marielle foi a direita e a extrema direita, que sa\u00edram a campo, sa\u00edram \u00e0s ruas desse pa\u00eds. Ent\u00e3o assim, n\u00e3o sou eu quem est\u00e1 dizendo nada: o que est\u00e1 dizendo \u00e9 a pr\u00f3pria realidade da vida pol\u00edtica do Brasil. Acabaram os contratos, acabaram os acordos \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 um sintoma s\u00f3 no Brasil. H\u00e1 um m\u00eas atr\u00e1s n\u00f3s tivemos um congresso fechado numa das maiores economias do capitalismo, fechado com o aval da Rainha.<\/p>\n<p>De fato, o que h\u00e1 no mundo hoje \u00e9 um crescimento da oligarquia, e para mim o que aconteceu no Reino Unido \u00e9 muito importante porque demonstra claramente como a economia atual, guiada pela financeiriza\u00e7\u00e3o e monop\u00f3lio radical, que se tornou oligop\u00f3lio dos meios de produ\u00e7\u00e3o, tem a predisposi\u00e7\u00e3o de criar realmente novas aristocracias no sentido regressivo da hist\u00f3ria. Acho que estamos vivendo um per\u00edodo agora de uma forte regress\u00e3o que tende \u00e0 retomada de uma vis\u00e3o de mundo aristocr\u00e1tica, temos grupos econ\u00f4micos fortes, minorit\u00e1rios, pequenos, que t\u00eam o poder econ\u00f4mico nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Diante disso, falar de pol\u00edtica democr\u00e1tica liberal como n\u00f3s estamos falando \u00e9 uma ilus\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 algu\u00e9m sentado hoje em Bras\u00edlia sem estar preso por demandas do pr\u00f3prio mercado financeiro e da elite econ\u00f4mica mundial. A burguesia, em primeiro lugar, sempre teve inveja da aristocracia \u2013 e est\u00e1 se tornando cada vez mais aristocrata, portanto. E se internacionalizou; \u00e9 uma burguesia internacionalizada. Ent\u00e3o, fa\u00e7a o que queira, nesse registro da antipol\u00edtica liberal, da antipol\u00edtica democr\u00e1tico-parlamentar, n\u00e3o h\u00e1 mais possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o nos limites da democracia representativa.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, veja bem: em qualquer contexto onde uma organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, de classe, dos prolet\u00e1rios e condenados da terra tenha sucesso, \u00e9 claro que concep\u00e7\u00f5es ser\u00e3o abertas, e \u00e9 claro que se vai querer refor\u00e7ar este dispositivo de controle que se chama democracia liberal eleitoral ou eleitoreira. \u00c9 claro que eles v\u00e3o preferir fazer isso do que perder tudo. Mas a\u00ed \u00e9 que est\u00e1 nossa posi\u00e7\u00e3o: devemos entender o aparato democr\u00e1tico-liberal como um aparato de controle e de organiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria forma de como o capital circula pelo mundo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que hoje a burguesia n\u00e3o est\u00e1 mais interessada nesse processo, porque esse processo tamb\u00e9m tem atravancado o lucro, j\u00e1 n\u00e3o responde mais pelos 3% sadios do PIB em qualquer economia desenvolvida, a crise j\u00e1 se alastra h\u00e1 algum tempo\u2026 ent\u00e3o essa democracia, que a gente entendeu at\u00e9 2010, ela est\u00e1 com prazo de validade vencido. N\u00e3o sou eu que estou falando: isso \u00e9 demonstr\u00e1vel e demonstrado pela pr\u00f3pria forma como tem reflu\u00eddo a ideia de democracia pelo mundo. Esse \u00e9 o primeiro ponto. Quando mataram Marielle, pra mim, isso ficou evidente. A mataram, at\u00e9 hoje n\u00e3o acharam o assassino, e est\u00e1 l\u00e1 o Presidente que mora no mesmo condom\u00ednio de um dos acusados. Ent\u00e3o o que \u00e9 isso? S\u00f3 sendo muito iludido mesmo para achar que h\u00e1 ainda possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o pela via parlamentar.<\/p>\n<p>O segundo ponto: as pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas. Veja, h\u00e1 um processo de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de verdade, n\u00e3o essa pol\u00edtica eleitoreira, que passa pelos processos subjetivos que s\u00e3o relativos \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o social, do pr\u00f3prio movimento social. As a\u00e7\u00f5es afirmativas foram um polo de aglutina\u00e7\u00e3o desse processo. Quando ela se torna pol\u00edtica p\u00fablica a gente fracassa. \u00c9 \u00f3bvio que a gente fracassa. E a gente sempre vai fracassar quando uma pauta nossa se tornar consenso federal.<\/p>\n<p>Mas veja, enquanto ela atua, ela \u00e9 essa concentra\u00e7\u00e3o qualitativa de for\u00e7a subjetiva que possibilita a emerg\u00eancia do sujeito pol\u00edtico. As a\u00e7\u00f5es afirmativas funcionaram no interior do movimento social do qual eu fiz parte como um substrato pr\u00e1tico de fen\u00f4menos reais, vividos na vida das pessoas, que precisavam ser respondidos, precisavam ser solucionados. Por exemplo a quest\u00e3o do acesso ao ensino superior, que \u00e9 uma delas, que mais chama aten\u00e7\u00e3o e que sempre est\u00e1 em debate com a quest\u00e3o das cotas. S\u00f3 que todo mundo j\u00e1 sabia, pelo menos no movimento em que eu atuava, que isso era pouco e que era muito relativo \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, de sa\u00fade econ\u00f4mica do capital. Sab\u00edamos que perder\u00edamos isso rapidamente, se qualquer merda acontecesse.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o para que serviu a pol\u00edtica de a\u00e7\u00f5es afirmativas at\u00e9 certo ponto? Serviu justamente para tomar partido desse problema na sua pr\u00f3pria emerg\u00eancia hist\u00f3rica. A gente ficou insatisfeito, porque quer\u00edamos muito mais [risos], mas sab\u00edamos das suas limita\u00e7\u00f5es, sab\u00edamos que, depois de se tornar pol\u00edtica p\u00fablica, n\u00f3s sair\u00edamos derrotados enquanto coletivo e ter\u00edamos que tender para outra coisa. Mas o que gostaria de chamar aten\u00e7\u00e3o \u00e9, em primeiro lugar, na defesa intransigente; eu vi de fato essas pol\u00edticas. Tendo em vista que \u00e9 uma for\u00e7a, na medida em que se concentra e se configura como cis\u00e3o racial, que demonstra a radical diferen\u00e7a de acesso do branco e do negro, \u00e9 um ponto de cis\u00e3o, e se essa cis\u00e3o \u00e9 afirmativa, ela demonstra \u00e0 pessoa que ficou exclu\u00edda desse processo simplesmente pela sua cor, o seu papel de subalterno no jogo social. Ent\u00e3o isso para mim \u00e9 muito importante. E al\u00e9m disso h\u00e1 tamb\u00e9m uma for\u00e7a subjetiva, que ajuda a construir o sujeito pol\u00edtico na medida em que ela \u00e9 posta, se identifica, com o lugar do qual ela parte para implodi-lo. Quer dizer; voc\u00ea \u00e9 negro, voc\u00ea vive numa sociedade racista, e portanto agora voc\u00ea tem de determinar a determina\u00e7\u00e3o que foi feita, que impuseram para voc\u00ea. E com isso, com essa for\u00e7a, isso se torna uma for\u00e7a objetiva de transforma\u00e7\u00e3o; que n\u00e3o pode, \u00e9 \u00f3bvio \u2013 como ficou muito evidente nas a\u00e7\u00f5es afirmativas \u2013 n\u00e3o se pode achar que esse \u00e9 o fim, mas o meio, o meio de transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o a finalidade da nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bom, acho que \u00e9 isso. Gostaria de dar algum recado? Talvez falar sobre o exterminador do passado, o governador Wilson Witzel, que agora quer adotar at\u00e9 protocolo de guerra nas opera\u00e7\u00f5es nas favelas no Rio\u2026<\/p>\n<p>Sobre isso, queria falar o seguinte: os caras est\u00e3o na rua, n\u00e9? A extrema-direita est\u00e1 no poder, e eles est\u00e3o no poder em primeiro lugar porque eles tomaram o poder e impuseram o fim do pacto social, do pacto de paz social. Eles est\u00e3o fazendo pol\u00edtica. Basta a n\u00f3s tomarmos a nossa parte e responder a isso sem as ilus\u00f5es que a gente gosta de manter. Agora acabou! Ou \u00e9 comunismo ou barb\u00e1rie! N\u00e3o vejo mais sa\u00edda para o capitalismo que n\u00e3o seja um jogar mais para frente a cat\u00e1strofe final. S\u00f3 que essa cat\u00e1strofe final, n\u00e3o sei\u2026 para mim a morte de Marielle foi o ato final da Rep\u00fablica que se instaurou em 1989. O que a gente tem que fazer agora \u00e9 ativar a nossa imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para criar um novo horizonte de possibilidade de sociedade. \u00c9 isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24022\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[124],"tags":[221],"class_list":["post-24022","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c137-coletivo-minervino-de-oliveira","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6fs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24022"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24022\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}