{"id":24084,"date":"2019-10-08T00:18:52","date_gmt":"2019-10-08T03:18:52","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24084"},"modified":"2019-10-08T00:18:52","modified_gmt":"2019-10-08T03:18:52","slug":"o-fascismo-nao-morreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24084","title":{"rendered":"O fascismo n\u00e3o morreu"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/10667.jpg?itok=anc_vuUA\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Benito Mussolini e Adolf Hitler Cr\u00e9ditos \/ iela.ufsc.br\/<\/p>\n<p>AbrilAbril<\/p>\n<p>Fascismo, populismo e capitalismo, tr\u00eas dos \u00abismos\u00bb sobre os quais se debru\u00e7a o historiador portugu\u00eas Manuel Loff, numa entrevista ao AbrilAbril, para analisar o momento pol\u00edtico em que vivemos.<\/p>\n<p>Trabalhas sobre o fascismo, ideologia que marcou o s\u00e9culo XX. Mas os artigos que publicas e muito do conte\u00fado de algumas entrevistas que te s\u00e3o feitas falam sobre a atualidade. H\u00e1 um di\u00e1logo entre o teu trabalho e a realidade pol\u00edtica que vivemos hoje?<\/p>\n<p>H\u00e1 di\u00e1logo porque o fascismo n\u00e3o morreu. \u00c9 muito importante percebermos que na hist\u00f3ria das ideias pol\u00edticas e dos movimentos sociais cada conjuntura hist\u00f3rica produz novas ideias pol\u00edticas e atualiza outras. E \u00e9 evidente que as ideologias de uma forma ou de outra n\u00e3o morrem nunca.<\/p>\n<p>A convic\u00e7\u00e3o sobre a qual se refundaram as democracias liberais a ocidente, a partir de 1945, e se criaram os novos regimes que se definiram a si pr\u00f3prios como socialistas na Europa Centro-Oriental, era de que o fascismo tinha morrido, uma vez confirmada a sua derrota militar. Mas foi uma convic\u00e7\u00e3o com validade provis\u00f3ria.<\/p>\n<p>A extrema-direita que hoje nos aparece, n\u00e3o vou dizer que n\u00e3o seja uma novidade, porque corresponde a uma conjuntura hist\u00f3rica diferente da do passado. Mas \u00e9 herdeira do fascismo dessa \u00e9poca e esteve sempre presente no espectro pol\u00edtico europeu e \u00e0 escala mundial desde 1945.<\/p>\n<p>Esta \u00abnova\u00bb extrema-direita s\u00f3 poderia ter o m\u00ednimo de sucesso popular, eleitoral e midi\u00e1tico uma vez reunidas de novo algumas das condi\u00e7\u00f5es que habitualmente est\u00e3o presentes no momento em que o fascismo ou os \u00abneofascismos\u00bb t\u00eam aparecido e t\u00eam tido sucesso.<\/p>\n<p>Ora, depois dos anos 80 d\u00e1-se uma mudan\u00e7a profunda no sistema econ\u00f4mico internacional com a viragem econ\u00f4mica a que se tem chamado de globaliza\u00e7\u00e3o e que \u00e9 uma ulterior expans\u00e3o do sistema capitalista a regi\u00f5es do globo de onde tinha desaparecido, aliada a uma nova ordem internacional com a constru\u00e7\u00e3o de um mundo unipolar resultante da implos\u00e3o do sistema sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>Este novo contexto hist\u00f3rico caracteriza-se pelo esgotamento da capacidade de representa\u00e7\u00e3o das democracias chamadas liberais e tamb\u00e9m o esgotamento, a partir da perestroika, dos modelos de socialismo que estavam vigentes em grande parte da Europa e abre espa\u00e7o para que uma reinterpreta\u00e7\u00e3o de uma velha ideologia aparecesse como nova.<\/p>\n<p>Chamar-lhe nos nossos dias de \u00abpopulismo\u00bb, ou simplesmente \u00abextrema-direita\u00bb, \u00e9 uma forma sint\u00e9tica e at\u00e9 simplista de definir o que \u00e9 a readapta\u00e7\u00e3o ao contexto atual do fascismo na sua vers\u00e3o neofascista.<\/p>\n<p>\u00abO fascismo surge ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, em grande medida como mobiliza\u00e7\u00e3o de uma parte da direita contra a amea\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o socialista.\u00bb<\/p>\n<p>Essa extrema-direita \u00e9 inevitavelmente herdeira dos valores de uma ideologia que no contexto do final da Primeira Guerra Mundial estava a nascer e que procurava uma solu\u00e7\u00e3o radical de direita, assumidamente violenta, para resolver o problema da legitimidade popular e pol\u00edtica dos regimes liberais, que tinham perdido a sua capacidade de ades\u00e3o e reuni\u00e3o de consenso.<\/p>\n<p>Hoje come\u00e7am a surgir estes novos movimentos que, em grande medida, s\u00e3o herdeiros do fascismo de h\u00e1 100 anos e que pretendem disputar \u00e0 esquerda a sua capacidade de contesta\u00e7\u00e3o, procurando roubar-lhes a bandeira da ruptura.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do fascismo dos anos 20, hoje t\u00eam o cuidado de nunca p\u00f4r formalmente em causa a natureza liberal democr\u00e1tica dos regimes, embora assumindo um discurso que extrapola a preocupa\u00e7\u00e3o com seguran\u00e7a do ponto de vista da cria\u00e7\u00e3o de inimigos externos, que t\u00eam manifesta\u00e7\u00e3o interna a partir da imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se explica que em Portugal n\u00e3o se assista at\u00e9 agora a um crescimento eleitoral destas for\u00e7as? Poder\u00e1 tratar-se de uma inibi\u00e7\u00e3o que resulta do patrim\u00f4nio que ainda existe fruto do processo revolucion\u00e1rio do 25 de Abril de 1974 e da derrubada do fascismo em Portugal?<\/p>\n<p>Bem, Portugal \u00e9 s\u00f3 uma relativa exce\u00e7\u00e3o. Porque, como acontece geralmente com este tipo de correntes de opini\u00e3o, a extrema-direita pragmaticamente insere-se mais ou menos dissimuladamente nos partidos da direita cl\u00e1ssica. Como sempre acontece com as ideias pol\u00edticas, um dos aspectos centrais \u00e9 saber o que \u00e9 mais \u00fatil: se a autonomia org\u00e2nica e cria\u00e7\u00e3o de partidos pr\u00f3prios ou se, pelo contr\u00e1rio, entrar em partidos j\u00e1 organizados e mais pr\u00f3ximos do poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo que a extrema-direita at\u00e9 agora tenha praticado uma esp\u00e9cie de entrismo, ou seja, n\u00e3o eram submarinos dissimulados dentro da direita. A direita cl\u00e1ssica portuguesa sempre incorporou homens e mulheres que assumiam, em determinado tipo de debates, valores abertamente pr\u00f3ximos da extrema-direita, designadamente no que diz respeito \u00e0 mem\u00f3ria da ditadura salazarista. Mas optaram por estar politicamente organizados dentro desses partidos.<\/p>\n<p>Mas perguntas: \u00e9 ou n\u00e3o relevante que n\u00e3o haja extrema-direita organicamente aut\u00f4noma com sucesso eleitoral em Portugal? Bem, houve uma progress\u00e3o da extrema-direita nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento Europeu que n\u00e3o foi pouca coisa. N\u00e3o sei qual vai ser o resultado final das elei\u00e7\u00f5es legislativas&#8230;<\/p>\n<p>Mas reconhe\u00e7o que \u00e9 relevante que, em Portugal, a extrema-direita tenha muito pouca dimens\u00e3o. Isso decorre da forma como se respondeu \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o social criada pela crise financeira e recess\u00e3o deliberada que o capitalismo assumiu em 2007\/2008 \u2013 que no caso portugu\u00eas tem o seu auge no governo da troika.<\/p>\n<p>Se o descontentamento social n\u00e3o se transformou em centenas de milhares de votos para aquilo que \u00e0 escala internacional se tem chamado de populismo, o motivo \u00e9 que, at\u00e9 \u00e0 atualidade, nas situa\u00e7\u00f5es de forte descontentamento social, se mant\u00eam \u00e0 esquerda for\u00e7as pol\u00edticas e sociais que t\u00eam conseguido travar eleitoralmente esse crescimento.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, tenho insistido que h\u00e1 uma cultura pol\u00edtica de massas em Portugal, disseminada \u00e0 escala da sociedade portuguesa, que incorporou a rejei\u00e7\u00e3o da ditadura salazarista.<\/p>\n<p>Sim, alguns dizem que havia mais seguran\u00e7a, mais respeito, menos corrup\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o narrativas normalmente moralistas e todas elas de pura reconstru\u00e7\u00e3o do passado. No caso portugu\u00eas, essa nostalgia concentra-se sobretudo na figura de Salazar.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao resto da mem\u00f3ria da ditadura, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o consistente de que em Portugal se tenha relegitimado a falta de liberdade, a proibi\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos e sindicatos, a interdi\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 greve, a censura, a tortura, a guerra colonial \u2013 e isso dificulta a progress\u00e3o da extrema-direita.<\/p>\n<p>Em suma, n\u00e3o h\u00e1 saudades da ditadura, nunca se recuperou o salazarismo. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja tentativas, mas a direita portuguesa ainda est\u00e1 na fase de relativizar os males do salazarismo. Tenta regressar a uma narrativa da casa portuguesa, que era pobre mas honesta, e \u00e9 o mais que consegue fazer.<\/p>\n<p>Mas assistimos a uma certa \u00abdesinibi\u00e7\u00e3o\u00bb no discurso da direita em algumas mat\u00e9rias: sobre a entrada de imigrantes e refugiados na Uni\u00e3o Europeia (UE), ou quando passa a utilizar a express\u00e3o \u00abideologia de g\u00eanero\u00bb para atacar o que consideram ser medidas \u00abantifam\u00edlia\u00bb.<\/p>\n<p>Sim, mas alimentar o discurso moralmente reacion\u00e1rio e de pura rea\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o dos tempos nunca foi um exclusivo da extrema-direita. O horror \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o e \u00e0 mudan\u00e7a est\u00e1 patente todas as vezes que se avan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o da igualdade, do reconhecimento efetivo de direitos e da diversidade nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o desta express\u00e3o, \u00abideologia de g\u00eanero\u00bb, que n\u00e3o \u00e9 nova, \u00e9 mais uma rea\u00e7\u00e3o que vem ao encontro do discurso legitimador da desigualdade, que tende a querer recordar os velh\u00edssimos argumentos da naturaliza\u00e7\u00e3o. Que conceitos como a fam\u00edlia, a autoridade, a na\u00e7\u00e3o, a religi\u00e3o seriam fen\u00f4menos da natureza. Dizer que \u00abisto sempre foi assim\u00bb \u00e9 uma pura inven\u00e7\u00e3o, nada na Hist\u00f3ria \u00absempre foi assim\u00bb.<\/p>\n<p>Sobre a imigra\u00e7\u00e3o vale a pena dizer que um dos modismos que a extrema-direita portuguesa descobriu, e que podia ter sa\u00edda em Portugal, \u00e9 a discuss\u00e3o em torno do outro. No caso portugu\u00eas \u00e9 simultaneamente a imigra\u00e7\u00e3o e os ciganos. Mas no caso da imigra\u00e7\u00e3o existe um problema de fundo: o lusotropicalismo mitifica a ideia de que os portugueses seriam uma exce\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria colonial \u00e0 escala mundial e que teriam demonstrado uma capacidade de relacionamento pac\u00edfico com os povos coloniais.<\/p>\n<p>Este paradigma lusotropicalista, que continua predominante em Portugal, inibe a extrema-direita, na discuss\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, de verbalizar ataques contra a comunidade brasileira e africana. Mas manifestam-se de outras formas, por exemplo atrav\u00e9s da tese de que os pobres que n\u00e3o t\u00eam a mesma cor s\u00e3o parasitas do Estado e do resto da comunidade.<\/p>\n<p>Esta tese, que \u00e9 sociol\u00f3gica e economicamente falsa, tem popularidade em muitos setores e passa por uma das formas mais eficazes de demonizar o outro, que \u00e9 transform\u00e1-lo num criminoso ou num criminoso potencial.<\/p>\n<p>Como v\u00eas os argumentos que defendem a constru\u00e7\u00e3o de um Museu sobre o Salazar \u2013 o chamado \u00abCentro Interpretativo do Estado Novo\u00bb? Como \u00e9 que se pode justificar do ponto de vista cient\u00edfico a abertura de um museu com estas caracter\u00edsticas?<\/p>\n<p>Um conjunto de autoridades municipais, de uma zona tradicionalmente conservadora do Pa\u00eds, decidiu criar uma rede de centros interpretativos e o caso mais conhecido \u00e9 o chamado Centro Interpretativo do Estado Novo, cuja elabora\u00e7\u00e3o do projeto foi entregue pela C\u00e2mara de Santa Comba D\u00e3o ao CEIS20 (Centro de Estudos Interdisciplinares do S\u00e9culo XX da Universidade de Coimbra). Come\u00e7o por dizer que tenho um enorme respeito pelo trabalho do CEIS20 e n\u00e3o tenho d\u00favidas sobre as inten\u00e7\u00f5es dos investigadores a quem a C\u00e2mara Municipal de Santa Comba solicitou esta tarefa.<\/p>\n<p>Mas solicitou-a depois de um outro executivo municipal ter proposto a cria\u00e7\u00e3o de um Museu Salazar, afirmando que era preciso \u00abp\u00f4r Santa Comba no mapa\u00bb. Esse executivo propunha a cria\u00e7\u00e3o de um Museu Salazar acompanhado daquilo que no marketing se chama o branding, ou seja, acompanhado de enchidos de marca Salazar, vinho Salazar, etc.<\/p>\n<p>Ora, a quest\u00e3o \u00e9 que criar um Centro Interpretativo do Estado Novo n\u00e3o requer o territ\u00f3rio, o lugar da mem\u00f3ria, o territ\u00f3rio associado \u00e0 figura de Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar. Ele pode ser feito no Porto, em Guimar\u00e3es ou em Valen\u00e7a do Minho, em Olh\u00e3o ou no Crato. Eu reconhe\u00e7o a razoabilidade de passar de Museu Salazar a Centro Interpretativo porque um Museu Salazar n\u00e3o teria praticamente nada para mostrar, n\u00e3o h\u00e1 esp\u00f3lio que justifique fazer-se um museu do antigo ditador.<\/p>\n<p>E come\u00e7a aqui a minha obje\u00e7\u00e3o de natureza metodol\u00f3gica e cient\u00edfica. Eu n\u00e3o preciso de esp\u00f3lio nenhum materialmente associado \u00e0 figura do ditador para fazer um centro de interpreta\u00e7\u00e3o do regime que ele dirigiu. Eu n\u00e3o preciso de explicar o nazismo mostrando camisas de Adolf Hitler.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 aqui em quest\u00e3o \u00e9: por que ent\u00e3o ter escolhido um lugar da mem\u00f3ria? Um territ\u00f3rio, um conjunto de edif\u00edcios, um espa\u00e7o natural na paisagem, na geografia, que est\u00e1 diretamente associado e que \u00e9 relembrado e recordado pela comunidade como sendo o territ\u00f3rio de Oliveira Salazar.<\/p>\n<p>E quem \u00e9 que vai habitualmente ao lugar do Vimieiro para visitar a sepultura de Salazar e a casa onde nasceu, que tem placas comemorativas com frases que s\u00e3o puro ide\u00e1rio neo-salazarista de justifica\u00e7\u00e3o na democracia de uma alegada grandeza hist\u00f3rica de Oliveira Salazar?<\/p>\n<p>H\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre um grande n\u00famero de pessoas que ali v\u00e3o numa atitude de nostalgia e homenagem ao ditador. E ser\u00e1 muito dif\u00edcil criar uma interpreta\u00e7\u00e3o do que foi o Estado Novo dentro deste territ\u00f3rio, sendo de se esperar que a grande maioria dos seus visitantes ser\u00e3o nost\u00e1lgicos do salazarismo. Teriam que come\u00e7ar por interpretar aquelas placas.<\/p>\n<p>O que se vai criar \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica, uma vez que o visitante nost\u00e1lgico rejeita o que considera ser uma historiografia militante. E por sua vez, num texto que foi colocado no site da C\u00e2mara, dizia o presidente que n\u00e3o se tratava de elogiar o ditador nem de o demonizar. O que pretende dizer com isso? Quem \u00e9 que o tem demonizado? Por que raz\u00e3o recomenda o presidente da C\u00e2mara aos historiadores que convida para que n\u00e3o se demonize a figura? \u00c9 em rela\u00e7\u00e3o a essa atitude que eu, se entendo o que se pretende vir dizer, n\u00e3o posso sen\u00e3o manifestar a minha discord\u00e2ncia total.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de 40 anos de historiografia, de boa investiga\u00e7\u00e3o feita sobre o salazarismo, que tem contribu\u00eddo para uma interpreta\u00e7\u00e3o do Estado Novo sustentada na mem\u00f3ria coletiva, nos documentos escritos e fontes prim\u00e1rias da hist\u00f3ria e n\u00e3o uma historiografia militante. De resto, a rejei\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e pol\u00edtica do que foi a ditadura fascista est\u00e1 consagrada no pre\u00e2mbulo da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa.<\/p>\n<p>Enfim, n\u00e3o vejo que a cria\u00e7\u00e3o de um Centro Interpretativo do Estado Novo em Santa Comba D\u00e3o possa arrastar multid\u00f5es de curiosos sobre a ditadura que se sintam representados numa vis\u00e3o da hist\u00f3ria que tenha natureza cient\u00edfica.<\/p>\n<p>O fascismo e o comunismo como \u00abextremos que se tocam\u00bb \u00e9 uma ideia usada para aproximar as duas ideologias, nomeadamente dando-lhes o r\u00f3tulo de totalitarismo. Mas o fascismo cresce dentro do sistema capitalista, e \u00e9 recurso do capital para sobreviver enquanto modelo econ\u00f4mico, enquanto o comunismo pretende superar este modelo. Por que \u00e9 que se mant\u00e9m esta ideia?<\/p>\n<p>Uma das estrat\u00e9gias mais presentes, e at\u00e9 certo ponto mais eficazes, para tentar legitimar ou refor\u00e7ar politicamente o triunfo do neoliberalismo na fase final do s\u00e9culo XX e refor\u00e7ar a legitimidade da ordem capitalista, \u00e9 a tese que foi criada a partir da chamada teoria do totalitarismo, que procura do ponto de vista acad\u00eamico usar a seguinte argumenta\u00e7\u00e3o: come\u00e7a por definir como extremismo as opini\u00f5es que de facto ou aparentemente contrariam o pensamento dominante. E da\u00ed faz o racioc\u00ednio de que \u00abno meio est\u00e1 a virtude\u00bb e que os extremos se tocam. Essa tese, criada nos anos 30 mas refor\u00e7ada nos anos 50 durante a Guerra Fria, afirma que esses extremos s\u00e3o o nacional-socialismo, de um lado, e, do outro lado, o comunismo, ainda n\u00e3o derrotado militarmente nem politicamente nessa altura.<\/p>\n<p>A teoria totalit\u00e1ria reapareceu com grande impacto com o fim da URSS, confundindo-se de certa forma com a tese do \u00abfim da hist\u00f3ria\u00bb do Fukuyama e do triunfo de uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o liberal de democracia.<\/p>\n<p>Por exemplo, sempre que haja cr\u00edticos da UE e da sua pol\u00edtica econ\u00f4mica, estejam \u00e0 esquerda ou \u00e0 direita, banaliza-se a ideia de que os extremos se tocam. Em primeiro lugar, h\u00e1 aqui um simplismo de an\u00e1lise e um for\u00e7ar da realidade. \u00c9 uma esp\u00e9cie de triparti\u00e7\u00e3o do mundo e a op\u00e7\u00e3o correta est\u00e1 no meio. Em segundo lugar \u00e9 descontextualizar o aparecimento destas ideologias, a sua origem e a natureza social e de classe dos seus projetos.<\/p>\n<p>\u00abO fascismo nunca p\u00f4s em causa a ordem capitalista. E nesse sentido \u00e9 evidentemente um produto, uma op\u00e7\u00e3o, de uma parte majorit\u00e1ria da direita social e pol\u00edtica e dos interesses da classe dominante.\u00bb<\/p>\n<p>O fascismo surge ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, em grande medida como mobiliza\u00e7\u00e3o de uma parte da direita contra a amea\u00e7a da revolu\u00e7\u00e3o socialista. E refor\u00e7a-se com a grande depress\u00e3o, a grande crise do capitalismo internacional em 1929. Ou seja, \u00e9, numa primeira fase, a resposta \u00e0 necessidade de uma parte da direita de preservar a ordem capitalista contra a amea\u00e7a revolucion\u00e1ria e, numa segunda fase, a passagem para uma reorganiza\u00e7\u00e3o do mundo e uma disputa de mercados e hegemonias dentro da ordem capitalista.<\/p>\n<p>O fascismo nunca p\u00f4s em causa a ordem capitalista. E nesse sentido \u00e9 evidentemente um produto, uma op\u00e7\u00e3o, de uma parte maiorit\u00e1ria da direita social e pol\u00edtica e dos interesses da classe dominante. O fascismo em v\u00e1rios pa\u00edses europeus foi absorvendo e \u00abfascistizando\u00bb grupos inteiros das direitas que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o eram fascistas, mas que se foram adaptando, que foram percebendo para onde os ventos sopravam. Pelo contr\u00e1rio, o comunismo nasce numa procura da ruptura com a ordem capitalista e consegue faz\u00ea-lo em v\u00e1rios casos.<\/p>\n<p>Na Europa dos nossos dias, uma parte da extrema-direita manifesta reservas e contesta, dentro da tradi\u00e7\u00e3o nacionalista do fascismo, a forma como a UE retira soberania e capacidade de decis\u00e3o aos Estados e portanto, na perspectiva da extrema-direita, \u00e0s elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas conservadoras.<\/p>\n<p>Mas o fato de uma parte da extrema-direita contestar as pol\u00edticas da UE e, ao mesmo tempo, as for\u00e7as \u00e0 esquerda contestarem esse mesmo processo n\u00e3o significa que sejam semelhantes. Aqueles que, \u00e0 esquerda, s\u00e3o cr\u00edticos da forma como a integra\u00e7\u00e3o europeia se processou n\u00e3o se devem inibir de persistir nas suas opini\u00f5es, porque n\u00e3o partilham de forma alguma a mesma barricada que a extrema-direita.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que se podem defender os regimes democr\u00e1ticos ocidentais, por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ascens\u00e3o do fascismo, quando nos deparamos com medidas como a lei de emerg\u00eancia em Fran\u00e7a e a banaliza\u00e7\u00e3o dos sistemas de vigil\u00e2ncia e de outras medidas securit\u00e1rias que limitam as liberdades?<\/p>\n<p>O fascismo dos anos 20 e dos anos 30 propiciou o aparecimento do antifascismo. E o antifascismo foi uma das frentes de resist\u00eancia, em favor da constru\u00e7\u00e3o da democracia e do seu aprofundamento, mais importantes para a transforma\u00e7\u00e3o da vida da humanidade.<\/p>\n<p>O antifascismo n\u00e3o s\u00f3 garantiu depois do mais tr\u00e1gico e dram\u00e1tico acontecimento da humanidade que foi a Segunda Guerra Mundial \u2013 considerando do ponto de vista cronol\u00f3gico um acontecimento que dura seis anos e que teve as consequ\u00eancias que conhecemos \u2013 dizia, n\u00e3o s\u00f3 conseguiu assegurar as condi\u00e7\u00f5es da derrota de uma das maiores amea\u00e7as para os direitos individuais e coletivos que o fascismo representou at\u00e9 1945, como construiu as condi\u00e7\u00f5es para a emancipa\u00e7\u00e3o social, \u00e9tnica e de g\u00eanero, que ocorreu pelo menos nos 30 primeiros anos depois da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O fascismo teve esta capacidade, de mobilizar e de colocar numa luta comum correntes pol\u00edticas e grupos sociais com interesses muito diversificados entre si. E n\u00e3o temos que ter vergonha nenhuma de saber que, em muitos casos, as nossas pol\u00edticas de alian\u00e7a para construir resist\u00eancia se fa\u00e7am pela negativa, quando enfrentamos um perigo excepcional e incomum contra os nossos direitos, as nossas liberdades, at\u00e9 a nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Se o fascismo fez isto nos anos 20, e criou a tal frente de resist\u00eancia que produziu uma cultura pol\u00edtica que desde h\u00e1 70 anos tem servido de dique para proteger a democracia dos ataques autorit\u00e1rios \u00e0 direita, hoje, se vai reaparecendo, creio que possa ter a mesma utilidade. E j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es neste sentido. Acho que vivemos uma \u00e9poca excepcional a esse n\u00edvel e que este novo vigor da extrema-direita \u00e9 um fen\u00f4meno incomum das nossas vidas.<\/p>\n<p>Mas nesse sentido, e respondendo \u00e0 pergunta, para construir esta nova frente antifascista entre muitos sujeitos pol\u00edticos diferentes, h\u00e1 contudo uma regra de coer\u00eancia que temos que sublinhar. Que muitos dos Estados europeus ocidentais, alguns dos quais com governos que se manifestam contra a extrema-direita, que habitualmente chamam de \u00abpopulismo\u00bb, t\u00eam encenado a ideia do perigo do avan\u00e7o da extrema-direita, ao mesmo tempo t\u00eam transposto para a legisla\u00e7\u00e3o comum l\u00f3gicas de seguran\u00e7a verdadeiramente pr\u00f3prias de um estado de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Por um dever de coer\u00eancia temos for\u00e7osamente que denunciar esta deriva autorit\u00e1ria, este liberalismo do medo que tem sido imposto a muitos cidad\u00e3os, num momento em que, ao mesmo tempo, a extrema-direita avan\u00e7a alimentando-se desse mesmo medo.<\/p>\n<p>Chegando ao poder, pode dessa forma usar os recursos deixados por esses governos, que n\u00e3o sendo de extrema-direita se comportaram exatamente como qualquer governo da extrema-direita se comportaria. \u00c9 fundamental n\u00e3o ter medo das contradi\u00e7\u00f5es: para resistir ao avan\u00e7o do fascismo temos que simultaneamente denunciar a tend\u00eancia autorit\u00e1ria das chamadas democracias que escancaram as portas \u00e0 extrema-direita e \u00e0s suas l\u00f3gicas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alicer\u00e7adas na viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Manuel Loff \u00e9 historiador, professor associado do Departamento de Hist\u00f3ria e Estudos Pol\u00edticos e Internacionais da Universidade do Porto, investigador no Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da Universidade Nova de Lisboa e autor de v\u00e1rios livros, entre eles \u00abO Nosso S\u00e9culo \u00e9 Fascista!\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24084\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[225],"class_list":["post-24084","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6gs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24084\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}