{"id":241,"date":"2009-03-09T10:12:38","date_gmt":"2009-03-09T10:12:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=241"},"modified":"2017-08-25T00:54:03","modified_gmt":"2017-08-25T03:54:03","slug":"o-caso-batistti-consideracoes-desde-el-sur","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/241","title":{"rendered":"O Caso Batistti: Considera\u00e7\u00f5es Desde El Sur"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o houve demonstra\u00e7\u00f5es de provas concretas, e todo o processo baseou-se apenas nos relatos de Mutti. Mas o que agrava o indiciamento e a condena\u00e7\u00e3o de Battisti \u00e9 que existem ind\u00edcios substanciais, e que ainda n\u00e3o foram aclarados devidamente, que essas \u201cconfiss\u00f5es\u201d feitas pelos ex-guerrilheiros que colaboraram com o governo, conhecidos como pentiti (arrependidos), foram arrancadas sob torturas, conforme denunciou \u00e0 \u00e9poca a Amnesty International e a escritora Laura Grimaldi. Cabe dizer, ainda, que naquele per\u00edodo prevalecia uma lei de exce\u00e7\u00e3o que concedia \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es das organiza\u00e7\u00f5es consideradas terroristas deten\u00e7\u00f5es de pessoas sem autoriza\u00e7\u00e3o judicial e que at\u00e9 hoje, dificultam qualquer tentativa de reabertura dos processos que envolveram as organiza\u00e7\u00f5es subversivas dos \u201canos de chumbo\u201d.<\/p>\n<p>Mas para que possamos responder adequadamente essa quest\u00e3o, devemos buscar as \u201craz\u00f5es de toda essa \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d por parte do governo e de uma certa \u201cesquerda\u201d italiana. Sabemos que nos \u201canos de chumbo\u201d, na It\u00e1lia, entre 1969 e 1980, v\u00e1rios grupos dissidentes do PCI, ent\u00e3o a maior for\u00e7a pol\u00edtica da esquerda italiana, formaram organiza\u00e7\u00f5es que propunham a luta direta pelo socialismo, questionando as posi\u00e7\u00f5es do PCI, naquele momento, empenhado em construir o \u201cCompromisso Hist\u00f3rico\u201d, baseado numa alian\u00e7a com a Democracia Crist\u00e3, numa clara posi\u00e7\u00e3o de concilia\u00e7\u00e3o de classes, dentro de uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucionalista que apontava para uma posi\u00e7\u00e3o de radical reformismo, mais tarde evidenciado e aprofundado com a destrui\u00e7\u00e3o do PCI e a forma\u00e7\u00e3o do PDS.<\/p>\n<p>Muitas dessas organiza\u00e7\u00f5es, fundamentadas em vis\u00f5es pol\u00edticas distanciadas da realidade concreta italiana, optaram equivocadamente pela luta armada, dentre eles o mais conhecido grupo, As Brigadas Vermelhas, que em curto espa\u00e7o de tempo, foi alvo de a\u00e7\u00f5es de infiltra\u00e7\u00e3o policial e de outros \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o internacionais, como a CIA. O rapto e assassinato do Presidente do Conselho de Ministros e expoente da DC, Aldo Moro, por parte das Brigadas Vermelhas, desencadeou uma grande instabilidade pol\u00edtica no pa\u00eds, fazendo inclusive, retroceder algumas conquistas de esquerda. O PCI, que se preparava para entrar no governo, dentro da concep\u00e7\u00e3o do \u201cCompromisso Hist\u00f3rico\u201d acaba, objetivamente, fazendo coro com a extrema direita, quando ap\u00f3ia medidas de exce\u00e7\u00e3o para o combate aos grupos de ultra-esquerda, todos considerados, a partir de ent\u00e3o, como \u201cterroristas\u201d. \u00c9 nesse contexto que cai sobre a esquerda que se encontra fora do PCI uma furiosa repress\u00e3o, e \u00e9 esse o escopo das leis especiais que permitem julgamentos sum\u00e1rios e informa\u00e7\u00f5es de prisioneiros arrependidos que se lumpenizam e, para obterem regalias do governo, acusam-se mutuamente.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o das leis especiais contra o \u201cterrorismo\u201d, de certo modo, ajudou a progressiva criminaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente da esquerda que se opunha \u00e0 pol\u00edtica do velho e decadente PCI, que se desintegra em 1991, mas refor\u00e7ou as posi\u00e7\u00f5es de ultra direita. Por outro lado, os ex-comunistas fundam o PDS e passam a propor a \u201crefunda\u00e7\u00e3o do capitalismo\u201d, sob o nome de democracia radical. Ambos os grupos, continuaram a sustentar as leis de exce\u00e7\u00e3o e a legitimar os julgamentos pol\u00edticos feitos entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1980.<\/p>\n<p>Mutatis mutandis, essa situa\u00e7\u00e3o continua at\u00e9 os dias de hoje. A socialdemocracia italiana nunca p\u00f4s em discuss\u00e3o a legisla\u00e7\u00e3o excepcional anti-terror e nunca questionou a pol\u00edtica internacional da It\u00e1lia de alinhamento mec\u00e2nico com os EUA. A postura pr\u00f3-imperialista da socialdemocracia italiana, j\u00e1 havia provocado no primeiro governo Prodi rupturas com setores da esquerda antagonista, culminando com a sa\u00edda do Partido da Refunda\u00e7\u00e3o Comunista, PRC, do governo.<\/p>\n<p>O PDS, depois transformado em DS, governou a It\u00e1lia, atrav\u00e9s de alian\u00e7as ditas de \u201ccentro-esquerda\u201d, mas tendo o PRC fora do governo e na oposi\u00e7\u00e3o. Exatamente quando o ex-comunista Massimo D\u2019Alema \u00e9 eleito Presidente do Conselho, a It\u00e1lia participa como ator importante nos bombardeamentos \u00e0 ex-Iugosl\u00e1via, onde milhares de civis foram mortos pelas bombas e pelas tropas da OTAN. Por outro lado, qualquer tentativa de condenar o governo italiano pelo apoio \u00e0 invas\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via era prontamente acusada de terrorismo ou de apoiar o \u201cgenoc\u00eddio\u201d pretensamente cometido pelos s\u00e9rvios (como se somente os s\u00e9rvios atacassem popula\u00e7\u00f5es civis e como se a guerra n\u00e3o fosse o resultado de anos de atua\u00e7\u00e3o desintegradora, por parte de for\u00e7as \u201cneoliberais\u201d estadunidenses e europ\u00e9ias), mesmo que isso implicasse, da parte das for\u00e7as da OTAN, apoiar grupos pol\u00edticos sabidamente vinculados ao narcotr\u00e1fico e ao banditismo, como por exemplo o UCK croata.<\/p>\n<p>Esse o escopo para que \u201cdemocratas\u201d e neo-fascistas fa\u00e7am do \u201ccaso Battisti\u201d uma quest\u00e3o de honra, isto \u00e9, a recusa de abandonar a pol\u00edtica de exce\u00e7\u00e3o para julgar movimentos sociais e posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que confrontem de modo antagonista a pretensa democracia de uma certa \u201cesquerda\u201d \u2013 transformada em office boy do capitalismo e em tarefeira dos interesses dos EUA na Europa \u2013 e a trucul\u00eancia bo\u00e7al do atual governo neofascista italiano. Os \u201cdemocratas\u201d e os neofascistas se recusam a reabrir os processos judici\u00e1rios excepcionais dos \u201canos de chumbo\u201d, porque foram coniventes, inclusive com as injusti\u00e7as que as sumariedades, nesses casos, propiciam. A ferocidade dos ataques ao povo e ao Estado brasileiros, por parte do governo neofasciata italiano, com a coniv\u00eancia dos \u201cdemocratas\u201d, demonstram a justeza do governo brasileiro em conceder asilo pol\u00edtico a Battisti.<\/p>\n<p>Em especial, a direita, que grita contra o \u201cdesrespeito\u201d brasileiro \u00e0s leis italianas, mas n\u00e3o diz nada sobre a nega\u00e7\u00e3o de extradi\u00e7\u00e3o para o Brasil do banqueiro \u00edtalo-brasileiro Salvatore Cacciola, por parte das autoridades italianas, ladr\u00e3o contumaz das finan\u00e7as populares, condenado por peculato em nosso pa\u00eds; n\u00e3o se pronuncia sobre os terroristas italianos de extrema-direita que vivem no Brasil. Essa mesma direita faz \u201colhos de mercador\u201d para a (justa) concess\u00e3o de asilo pol\u00edtico e humanit\u00e1rio dado pelo governo franc\u00eas a Marina Petrella, em 2008, ex-militante das Brigadas Vermelhas, n\u00e3o somente porque Sarkozy \u00e9 um sempre poss\u00edvel aliado da direita italiana, no contexto da UE, mas porque, em sua f\u00faria racista, a direita italiana entende que Sarkozy (ironicamente, um filho da imigra\u00e7\u00e3o!) \u00e9 \u201cmenos desrespeitoso\u201d com a It\u00e1lia porque preside um grande pa\u00eds europeu. No caso dos \u201cdemocratas\u201d, esses chegaram at\u00e9 fazer um \u201cprotesto\u201d contra o governo franc\u00eas, mas t\u00eanue, com algumas vozes al\u00e7adas, em tom muito menor.<\/p>\n<p>Como \u00edtalo-brasileiro, napolitano, por parte de pai e ciociaro, por parte de m\u00e3e \u2013 genitores que desde pequeno me ensinaram o amor pela It\u00e1lia \u2013, condeno veementemente a posi\u00e7\u00e3o do governo italiano. Reprovo e me envergonho da persegui\u00e7\u00e3o aos imigrantes, aos n\u00e3o-ocidentais, aos ciganos, aos mu\u00e7ulmanos, que em sua grande maioria, est\u00e3o na It\u00e1lia para trabalhar, progredir e viver em paz, como assim fizeram os italianos, quando \u201cexpulsos\u201d de sua terra natal pela mis\u00e9ria e pelos opressores, e constru\u00edram no Brasil um novo lar. Tamb\u00e9m eles foram estigmatizados, como \u201cladr\u00f5es\u201d, \u201cmalfeitores\u201d, \u201cdesordeiros\u201d e \u201cignorantes\u201d, por parte da elite e dos setores reacion\u00e1rios da sociedade brasileira. Muitos dos lideres oper\u00e1rios italianos foram deportados do Brasil como elementos \u201canti-sociais\u201d, e alguns como \u201cterroristas\u201d porque lutavam contra a explora\u00e7\u00e3o do trabalho, a mesma explora\u00e7\u00e3o que os impeliu a imigrar para uma nova terra.<\/p>\n<p>Nunca \u00e9 demais recordar que o atual ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da It\u00e1lia, senhor Franco Frattini, foi censurado no Euro-Parlamento, em novembro de 2007, por haver declarado ser favor\u00e1vel \u00e0 deporta\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia de estrangeiros desempregados ou em situa\u00e7\u00e3o irregular, atacando particularmente a popula\u00e7\u00e3o cigana-rom.<\/p>\n<p>Repugno a hostilidade contra o povo brasileiro, que n\u00e3o vacilou em mandar \u00e0 It\u00e1lia 25.000 de seus soldados para combater o nazi-fascismo, que bravamente tombaram em Monte Castello, Fornovo e Montese, mortos pela dignidade humana, como est\u00e1 escrito na Pedra Branca em homenagem aos ca\u00eddos, no outrora cemit\u00e9rio brasileiro de Pistoia, hoje Monumento aos soldados brasileiros.<\/p>\n<p>Para alem dessa quest\u00e3o pontual do \u201ccaso Battisti\u201d, a It\u00e1lia dever\u00e1 trilhar o caminho para reconciliar-se consigo mesma e com sua hist\u00f3ria, encontrando a verdade dos fatos ocorridos nos ainda obscuros \u201canos de chumbo\u201d. A ferida aberta deve purgar para cicatrizar. Essa \u00e9 a tarefa dos verdadeiros combatentes pela justi\u00e7a social e pela democracia, na It\u00e1lia e em todo mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Antonio Carlos Mazzeo\nA decis\u00e3o de conceder asilo pol\u00edtico ao cidad\u00e3o italiano Cesare Battisti, ex-militante do grupo de ultra-esquerda, Proletari Armati per Il Comunismo (PAC), vem suscitando um grande debate na It\u00e1lia, debate esse acompanhado de manifesta\u00e7\u00f5es e protestos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos contra a decis\u00e3o brasileira, algumas, com forte teor de passionalidade. Mas ao lado das manifesta\u00e7\u00f5es \u201cfolcl\u00f3ricas\u201d, outras, com teores pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos mais substanciais, acusaram o Brasil de \u201cromper as normas vigentes na rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica com o mundo civilizado\u201d. Esse foi o caso do ministro do interior, Roberto Maroni, que afirma que essa decis\u00e3o dificulta outras rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas entre os dois pa\u00edses ou do deputado Piero Fassino, do Partido Democr\u00e1tico &#8211; ex-PCI, ex-PDS, ex-DS &#8211; que diz ser essa decis\u00e3o pol\u00edtica do governo brasileiro um erro por desconhecimento da realidade italiana, culminando com a chamada do embaixador italiano no Brasil para \u201cconsultas\u201d e o rid\u00edculo: a proposta estapaf\u00fardia do sub-secret\u00e1rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da It\u00e1lia, Alfredo Mantica, de cancelar uma partida de futebol amistosa entre as sele\u00e7\u00f5es nacionais dos dois pa\u00edses!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/241\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-241","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3T","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=241"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/241\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}