{"id":24131,"date":"2019-10-14T07:06:32","date_gmt":"2019-10-14T10:06:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24131"},"modified":"2019-10-22T01:36:57","modified_gmt":"2019-10-22T04:36:57","slug":"nao-mais-criminalizacao-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24131","title":{"rendered":"N\u00e3o mais criminaliza\u00e7\u00e3o das mulheres!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/aborto124311.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u201cPobres e ricas todas abortam\u201d \u2013 mas as pobres morrem<\/p>\n<p>Luiza Tonon &#8211; militante do PCB e dirigente do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro<\/p>\n<p>Jandira, 27 anos, foi queimada e abandonada, ap\u00f3s ser v\u00edtima fatal de um aborto de uma cl\u00ednica clandestina no Rio de Janeiro. M\u00e3e de uma menina, foi sozinha \u00e0 cl\u00ednica por se sentir envergonhada, e suas \u00faltimas palavras ao marido foram: \u201cAmor, mandaram desligar o telefone, t\u00f4 em p\u00e2nico, ore por mim!&#8221;. Eliz\u00e2ngela, 32 anos, teve seu corpo encontrado em uma estrada de Niter\u00f3i\/RJ ap\u00f3s avisar a fam\u00edlia que iria a uma cl\u00ednica ao ter tomado a nada f\u00e1cil decis\u00e3o de interromper uma gesta\u00e7\u00e3o indesejada. No mesmo Estado, Ingriane, de 31 anos, faleceu no hospital, com uma infec\u00e7\u00e3o generalizada, ap\u00f3s procurar uma pessoa que realizaria um aborto nela com um talo de mamona, planta altamente t\u00f3xica. Em Itapema\/SC, Caroline, de 23 anos, foi encontrada morta em seu banheiro, ap\u00f3s ter uma hemorragia causada por rem\u00e9dios com o fim de aborto. J\u00e1 em Porto Velho\/RO, uma outra mulher de 23 anos tamb\u00e9m utilizou comprimidos para terminar uma gravidez que n\u00e3o poderia prosseguir e, por necessitar de ajuda m\u00e9dica para n\u00e3o morrer, acabou recebendo voz de pris\u00e3o no hospital. Em Birigui\/SP, a pris\u00e3o tamb\u00e9m foi o destino de uma mulher de 25 anos, denunciada pelo m\u00e9dico que deveria ajud\u00e1-la num momento em que precisou de socorros para n\u00e3o se tornar mais uma v\u00edtima fatal da criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto no Brasil.<\/p>\n<p>Eliz\u00e2ngela, Jandira, Caroline. An\u00f4nimas, milhares, mortas ou presas. Mulheres, mulheres como n\u00f3s, brasileiras. Acreanas, catarinenses, goianas, baianas, cariocas, mineiras ou pernambucanas. Dif\u00edcil quem n\u00e3o conhe\u00e7a nem tenha ouvido falar de uma amiga, vizinha, parente, amiga da amiga que tenha procurado um meio para n\u00e3o ser m\u00e3e quando n\u00e3o podia ou n\u00e3o queria. Em uma pesquisa feita pela importante cientista D\u00e9bora Diniz em 2010 &#8211; que veio a receber amea\u00e7as de morte por parte de uns que se dizem \u201cpr\u00f3-vida\u201d \u2013 descobriu-se que, em m\u00e9dia, entre cada 5 brasileiras at\u00e9 40 anos, pelo menos 1 j\u00e1 realizou um aborto.<\/p>\n<p>Cerca de 1300 mulheres abortam clandestinamente todos os dias em nosso pa\u00eds, e diferente do que se poderia imaginar por preconceitos sobre a mulher que aborta, essa pesquisa mostra que ela \u00e9 uma de n\u00f3s, uma brasileira como a maioria. 88% declaram ter religi\u00e3o \u2013 25% dessas mulheres s\u00e3o evang\u00e9licas e 56% cat\u00f3licas. Grupos de mulheres religiosas como o Cat\u00f3licas pelo Direito de Decidir e o mais recente Evang\u00e9licas pelo Direito de Decidir mostram que n\u00e3o s\u00f3 professar uma religi\u00e3o n\u00e3o impede \u2013 e nem deve impedir &#8211; alguma mulher de abortar, como mostram que h\u00e1 mulheres pertencentes a igrejas que usualmente se colocam contra os direitos reprodutivos das mulheres que n\u00e3o concordam com essa posi\u00e7\u00e3o, e lutam para mud\u00e1-la. H\u00e1 o entendimento de que manter o aborto ilegal s\u00f3 mata mulheres e n\u00e3o \u201cdefende vidas\u201d, como alguns se esfor\u00e7am por dizer, com argumentos espirituais e morais para serem contr\u00e1rios \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o do aborto.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o de todas as idades e faixas de renda, em todas as regi\u00f5es do Brasil e de todas as etnias. Por\u00e9m, essa mesma diversidade do perfil de mulheres que abortaram n\u00e3o se repete entre os n\u00fameros das que morreram por abortar. Os meios mais inseguros e, consequentemente, os \u00f3bitos pelo aborto clandestino s\u00e3o mais comuns entre mulheres negras, de escolaridade e renda mais baixa.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, a discuss\u00e3o sobre a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o \u00e9 sobre o aborto ser errado ou n\u00e3o. Ou sobre as implica\u00e7\u00f5es espirituais de interromper ou n\u00e3o uma gravidez, o que, por sua vez, n\u00e3o cabe ao Estado, que no Brasil \u00e9, ou ao menos deveria ser, laico. N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m sobre ser a favor ou n\u00e3o do aborto. N\u00f3s, feministas classistas, somos a favor de educa\u00e7\u00e3o sexual para todos, para que a popula\u00e7\u00e3o entenda de fato sobre sa\u00fade, sexualidade e contracep\u00e7\u00e3o. Somos a favor de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas que deem acesso a m\u00e9todos contraceptivos para homens e mulheres. E como o fato de o aborto ser ilegal n\u00e3o faz a pr\u00e1tica ser menos comum &#8211; mas pelo contr\u00e1rio, j\u00e1 que toda mulher j\u00e1 ouviu falar sobre m\u00e9todos para faz\u00ea-lo e conhece algu\u00e9m que j\u00e1 o fez -, defendemos o direito de nenhuma outra mulher ter de arriscar sua vida ao procurar abortar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m sobre ser \u201cpr\u00f3-escolha\u201d ou \u201cpr\u00f3-vida\u201d: trata-se de ser a favor da vida das mulheres, principalmente negras e pobres, que sangram todos os dias no Brasil por n\u00e3o terem acesso a um aborto seguro. Trata-se de perceber que n\u00e3o \u00e9 uma escolha f\u00e1cil para nenhuma mulher interromper uma gravidez. Mas sim que as mulheres n\u00e3o podem continuar morrendo por algo que j\u00e1 acontece no Brasil independente de ser legal ou n\u00e3o e que, em uma realidade de pobreza e desemprego feminino, de milh\u00f5es de filhos sem registro paterno, de aus\u00eancia de creches e assist\u00eancia p\u00fablica \u00e0s m\u00e3es, ter mais filhos por vezes n\u00e3o \u00e9 uma escolha poss\u00edvel para muitas mulheres.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o sobre a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o \u00e9 se &#8220;devemos ser a favor ou contra o aborto&#8221;, mas sim &#8220;abortos s\u00e3o realizados todos os dias no Brasil &#8211; essas mulheres deveriam sair de hospitais algemadas ou em um caix\u00e3o?&#8221;. \u00c9 sobre as mais de 3 milh\u00f5es de mulheres hoje no Brasil sobreviventes de aborto clandestino, e sobre as centenas que abortar\u00e3o amanh\u00e3 e depois de amanh\u00e3. Deveriam elas ser presas? Mulheres que s\u00e3o obrigadas a buscar atendimento m\u00e9dico para n\u00e3o morrer deveriam ser consideradas criminosas? Alguma mulher merece morrer por n\u00e3o desejar ser m\u00e3e em um momento que ela n\u00e3o pode?<\/p>\n<p>Sobretudo, a quest\u00e3o do direito ao aborto legal e seguro \u00e9 uma quest\u00e3o de classe. A vida das mulheres trabalhadoras &#8211; essas sim, que morrem ou s\u00e3o presas &#8211; \u00e9 diretamente afetada pela criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, pois as mulheres de camadas mais ricas t\u00eam acesso a m\u00e9dicos e cl\u00ednicas onde realizam seus abortos com acompanhamento e seguran\u00e7a, se n\u00e3o mesmo viajam ao exterior para abortarem seguramente. J\u00e1 os m\u00e9todos caseiros, muitas vezes de pouca efici\u00eancia e de higiene inadequada, em cl\u00ednicas literalmente de fundo de quintal, ou por comprimidos falsos e de qualidade duvidosa, utilizados pelas mulheres mais pobres, s\u00e3o as principais causas de mortes como as de Eliz\u00e2ngela, de Jandira, Ingriane ou Caroline.<\/p>\n<p>D\u00e9bora Diniz, a partir de sua mencionada pesquisa, conclui que \u201dricas e pobres, todas abortam\u201d, e a realidade nos grita que sim, todas abortam, mas as pobres morrem. As mulheres da classe trabalhadora, sujeitas a in\u00fameras viol\u00eancias do patriarcado, do racismo e do capitalismo em suas vidas, todos os dias, s\u00e3o ainda v\u00edtimas de um modo de feminic\u00eddio originado nessa hip\u00f3crita criminaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por acharmos que nenhuma outra mulher deve ser presa ou morta por abortar, n\u00f3s do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro estamos em luta. Cotidianamente, em nossos atos e forma\u00e7\u00f5es, pela descriminaliza\u00e7\u00e3o e legaliza\u00e7\u00e3o do aborto seguro e gratuito no pa\u00eds, a exemplo de que foi feito na mobiliza\u00e7\u00e3o para os atos em fun\u00e7\u00e3o do dia 28 de setembro, dia de luta pela descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto na Am\u00e9rica Latina e no Caribe.<\/p>\n<p>Queremos que o aborto seja descriminalizado, mas n\u00e3o s\u00f3: queremos tamb\u00e9m o direito a um aborto feito por profissionais qualificados pelo SUS, com acompanhamento psicol\u00f3gico e m\u00e9dico adequado, que seja acess\u00edvel a todas as mulheres com at\u00e9 12 semanas de gesta\u00e7\u00e3o. Queremos que tamb\u00e9m nenhuma mulher j\u00e1 com o direito ao aborto previsto em lei \u2013 em caso de fetos anenc\u00e9falos, de mulheres sobreviventes de estupro e com risco de vida pela gravidez \u2013 tenha esse direito negado ou dificultado por m\u00e9dicos ou ju\u00edzes, como acontece na pr\u00e1tica em diversas cidades do Brasil.<\/p>\n<p>E queremos esse direito n\u00e3o s\u00f3 para as mulheres brasileiras, mas para todas as mulheres do mundo, lembrando ainda das milhares de latino-americanas e caribenhas tamb\u00e9m em risco de pris\u00e3o ou morte por precisarem interromper uma gravidez. Lembremos que Cuba, pouco ap\u00f3s sua vitoriosa revolu\u00e7\u00e3o socialista, foi pioneira na regi\u00e3o ao trazer o direito b\u00e1sico do aborto legal e seguro para suas mulheres em 1965, provid\u00eancia esta que trouxe, junto de diversas outras medidas, autonomia para as mulheres decidirem sobre seus corpos e suas vidas, uma significativa queda nas taxas de mortalidade materna. Em 1995 e 2012, respectivamente, apenas dois outros pa\u00edses legalizaram o aborto por decis\u00e3o da mulher: Guiana e Uruguai. A Am\u00e9rica Latina e o Caribe constituem a regi\u00e3o do mundo com leis mais punitivas e cerceadoras dos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres. Por isso, juntas lutamos, por nossas vidas, para que nossas vozes sejam ouvidas!<\/p>\n<p>VIVAS NOS QUEREMOS!<\/p>\n<p>NEM PRESA, NEM MORTA!<\/p>\n<p>PELO DIREITO AO ABORTO LEGAL, SEGURO E GRATUITO; PELA VIDA DAS MULHERES TRABALHADORAS!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24131\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,20],"tags":[219],"class_list":["post-24131","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-c1-popular","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6hd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24131","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24131"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24131\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24131"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24131"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24131"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}