{"id":24143,"date":"2019-10-15T22:48:08","date_gmt":"2019-10-16T01:48:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24143"},"modified":"2019-10-15T22:48:08","modified_gmt":"2019-10-16T01:48:08","slug":"mineracao-e-morte-nos-rios-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24143","title":{"rendered":"Minera\u00e7\u00e3o e morte nos rios da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/\/images\/ihu\/2019\/10\/15_10-amazonia_arbol-helena_andrade.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Amaz\u00f4nia<\/p>\n<p>IHU-UNISINOS<\/p>\n<p>Por: Jo\u00e3o Vitor Santos | Edi\u00e7\u00e3o: Ricardo Machado<\/p>\n<p>A absoluta falta de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de investimento em pesquisas e tecnologia industrial \u00e9 a \u00e2ncora que mant\u00e9m o Brasil preso \u00e0 explora\u00e7\u00e3o ambiental, mineral e a uma balan\u00e7a comercial baseada em venda de bens prim\u00e1rios sem valor agregado, ou seja, commodities. Isso faz com que a regi\u00e3o mais rica do pa\u00eds em termos de biodiversidade seja, sistematicamente, atacada por projetos de desenvolvimento n\u00e3o somente insustent\u00e1veis do ponto de vista ambiental, mas tamb\u00e9m etnocidas. \u201cEm suma, os \u00edndios e suas terras na Amaz\u00f4nia est\u00e3o h\u00e1 anos sob o cerco inclemente de tr\u00eas processos invasivos: a expans\u00e3o do arco de desmatamento da floresta pela a\u00e7\u00e3o da agropecu\u00e1ria; a invas\u00e3o e intrus\u00e3o de levas de trabalhadores dos garimpos e dos enclaves de minera\u00e7\u00e3o; e a constru\u00e7\u00e3o de barragens e usinas hidrel\u00e9tricas\u201d, afirma Ger\u00f4ncio Rocha, em entrevista por e-mail \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>H\u00e1 um vetor conjuntural que agrava, ainda mais, a situa\u00e7\u00e3o, as pol\u00edticas e as declara\u00e7\u00f5es de Jair Bolsonaro. \u201cAs falas do presidente da Rep\u00fablica sobre a explora\u00e7\u00e3o mineral e a garimpagem e suas restri\u00e7\u00f5es \u00e0s terras ind\u00edgenas t\u00eam efeito imediato e empolgam seus seguidores e eleitores na regi\u00e3o. Ele produz e estimula dois efeitos delet\u00e9rios, simult\u00e2neos: no front interno, de governo, esvazia os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos ligados \u00e0s quest\u00f5es ind\u00edgenas e ambientais, desmoraliza e intimida os funcion\u00e1rios que exercem a fiscaliza\u00e7\u00e3o e, com isso, estimula os invasores; no meio pol\u00edtico, insinua uma pauta de legaliza\u00e7\u00e3o da atividade garimpeira, abrindo as portas a projetos casu\u00edstas das empresas e dos donos de garimpos no Congresso\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Atualmente, uma das quest\u00f5es mais sens\u00edveis \u00e9 o garimpo de ouro, cujo uso de merc\u00fario na coleta do min\u00e9rio produz efeitos devastadores nas comunidades locais e nos trabalhadores. Rocha classifica em tr\u00eas pontos os problemas relacionados \u00e0 minera\u00e7\u00e3o com merc\u00fario: \u201ca) contamina\u00e7\u00e3o com merc\u00fario vapor diretamente sobre os trabalhadores garimpeiros; b) polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e sedimentos, com a possibilidade de metila\u00e7\u00e3o do merc\u00fario e sua absor\u00e7\u00e3o pelos peixes, afetando a cadeia alimentar das popula\u00e7\u00f5es locais; c) contamina\u00e7\u00e3o com merc\u00fario vapor nos numerosos pontos de venda do merc\u00fario, onde ele \u00e9 mais uma vez queimado\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Ger\u00f4ncio Rocha \u00e9 ge\u00f3logo, funcion\u00e1rio aposentado do Departamento de \u00c1guas e Energia El\u00e9trica de S\u00e3o Paulo. Entre 1994 e 2003 foi assessor do Comit\u00ea da Bacia Hidro. \u00c9 autor de Um copo d\u2019\u00e1gua (Editora Unisinos, 2002).<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<br \/>\nIHU On-Line \u2013 Numa perspectiva hist\u00f3rica, de que forma as atividades de minera\u00e7\u00e3o v\u00e3o se configurando uma amea\u00e7a aos povos origin\u00e1rios?<\/p>\n<p>Ger\u00f4ncio Rocha \u2013 Para come\u00e7o de conversa, conv\u00e9m fazer um breve retrospecto da explora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia nos \u00faltimos 50 anos.<\/p>\n<p>A partir de 1970, o poder central no tempo da Ditadura (governo M\u00e9dici) definiu-se pela integra\u00e7\u00e3o ao mercado internacional e passou a oferecer vantagens e atrativos aos grandes grupos econ\u00f4micos, sob a forma de redu\u00e7\u00e3o de impostos, energia el\u00e9trica subsidiada, grandes obras de infraestrutura, m\u00e3o de obra barata e nenhum rigor contra a polui\u00e7\u00e3o. Consolidaram-se, assim, os segmentos das construtoras (rodovias, portos, barragens); da minera\u00e7\u00e3o e metalurgia; da agropecu\u00e1ria e da energia hidrel\u00e9trica. Na retaguarda, os grandes bancos nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>No chamado Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional, a explora\u00e7\u00e3o agroflorestal e pecu\u00e1ria passa a ser a frente mais ampla e extensiva na Amaz\u00f4nia, desestruturando o modo de produ\u00e7\u00e3o extrativista e introduzindo um vertiginoso processo de especula\u00e7\u00e3o da terra, de concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e de devasta\u00e7\u00e3o da floresta. Os vetores do processo foram a constru\u00e7\u00e3o da rodovia Transamaz\u00f4nica e a coloniza\u00e7\u00e3o induzida numa faixa de 100 quil\u00f4metros de cada lado da estrada. Simultaneamente, milhares de hectares, em v\u00e1rios pontos do territ\u00f3rio, foram destinados a projetos agropecu\u00e1rios a cargo dos grandes grupos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>A partir de 1975, o governo federal passou a reorientar sua pol\u00edtica para a cria\u00e7\u00e3o de \u201cpolos de desenvolvimento\u201d, \u00e1reas preferenciais para projetos minerais, agropecu\u00e1rios e agrominerais.<\/p>\n<p>A segunda frente de penetra\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o mineral. Desde 1967, abriu as concess\u00f5es de pesquisa e lavra a empresas nacionais e internacionais indistintamente. Assim, a produ\u00e7\u00e3o mineral segue um esquema tripartite \u2013 estatais, multinacionais e empresas nacionais \u2013 quase sempre em associa\u00e7\u00e3o de capitais.<\/p>\n<p>O lugar do Brasil no cen\u00e1rio internacional \u00e9 o de promover a exporta\u00e7\u00e3o de bens minerais semibeneficiados para os pa\u00edses desenvolvidos. A voracidade capitalista de explora\u00e7\u00e3o, ao lado da frente agropecu\u00e1ria, provocou fortes impactos sociais: a prolifera\u00e7\u00e3o de grandes contingentes de trabalhadores rurais volantes, desempregados, atuando nos garimpos, e a viola\u00e7\u00e3o da integridade cultural e territorial dos povos ind\u00edgenas. Nesta \u00faltima d\u00e9cada, Caraj\u00e1s tornou-se a maior prov\u00edncia mineral do mundo: ferro, mangan\u00eas, cobre, n\u00edquel, ouro, prata e molibd\u00eanio. Mas h\u00e1 o contradit\u00f3rio: o estado do Par\u00e1, que produz toda essa riqueza, apresenta baixos \u00edndices de desenvolvimento humano, de desenvolvimento juvenil e de saneamento. Segundo o jornalista L\u00facio Fl\u00e1vio Pinto, \u201co trem do progresso est\u00e1 passando pela esta\u00e7\u00e3o Par\u00e1 e os paraenses n\u00e3o est\u00e3o embarcando nele\u201d.<\/p>\n<p>O terceiro vetor de penetra\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos para a produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica. Em 1987, O cons\u00f3rcio Eletrobras\/Eletronorte fez um plano descomunal \u2013 chamado Plano 2010 \u2013 de constru\u00e7\u00e3o de 79 barragens na regi\u00e3o, algumas delas com lagos artificiais cujas dimens\u00f5es variam 1 mil a 6 mil quil\u00f4metros quadrados. A energia seria destinada aos projetos minero-metal\u00fargicos e tamb\u00e9m para atender a futuros desequil\u00edbrios na regi\u00e3o Sudeste. Tr\u00eas barragens constru\u00eddas s\u00e3o paradigm\u00e1ticas deste megaprojeto.<\/p>\n<p>A hidrel\u00e9trica de Balbina, situada no vale do rio Uatum\u00e3, no Amazonas, n\u00e3o atende a qualquer necessidade regional, sendo extremamente predat\u00f3ria e alagando um territ\u00f3rio desproporcional de 2,4 mil quil\u00f4metros quadrados, com capacidade irris\u00f3ria de 250 MW (CIMI, 1986).<\/p>\n<p>Outra, a hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed, no Par\u00e1, com lago de 2,4 mil quil\u00f4metros quadrados e capacidade nominal de 3,6 mil MW, tem energia destinada \u00e0 ind\u00fastria minero-metal\u00fargica do alum\u00ednio, com tarifas reduzidas. Com o enchimento do lago em 1984, foram submergidos 14 povoados, duas reservas ind\u00edgenas e deslocadas 5 mil fam\u00edlias de agricultores.<\/p>\n<p>A terceira, chamada eufemisticamente \u201cComplexo de Altamira\u201d (para evitar associa\u00e7\u00f5es com os \u00edndios do Xingu), previa a constru\u00e7\u00e3o de dois grandes lagos; depois de questionamentos ao longo de mais de dez anos, o projeto foi reduzido a um lago menor e menor capacidade, devendo ser inaugurada no final deste ano, agora com o nome de Belo Monte. H\u00e1 inconformidade geral: a obra isolou a Volta Grande do Xingu \u2013 uma not\u00e1vel fei\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica \u2013 e afetou duas aldeias ind\u00edgenas, al\u00e9m de moradores ribeirinhos, que ficaram sem \u00e1gua suficiente para suas necessidades; ao lado da barragem. O caso segue as vias judiciais.<\/p>\n<p>Em suma, os \u00edndios e suas terras na Amaz\u00f4nia est\u00e3o h\u00e1 anos sob o cerco inclemente de tr\u00eas processos invasivos: a expans\u00e3o do arco de desmatamento da floresta pela a\u00e7\u00e3o da agropecu\u00e1ria; a invas\u00e3o e intrus\u00e3o de levas de trabalhadores dos garimpos e dos enclaves de minera\u00e7\u00e3o; e a constru\u00e7\u00e3o de barragens e usinas hidrel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 De que forma a atual conjuntura e os discursos vindos do governo de Jair Bolsonaro a respeito do meio ambiente influenciam o avan\u00e7o de mineradoras e empres\u00e1rios do ramo sobre \u00e1reas destinadas a povos ind\u00edgenas?<\/p>\n<p>Ger\u00f4ncio Rocha \u2013 As falas do presidente da Rep\u00fablica sobre a explora\u00e7\u00e3o mineral e a garimpagem e suas restri\u00e7\u00f5es \u00e0s terras ind\u00edgenas t\u00eam efeito imediato e empolgam seus seguidores e eleitores na regi\u00e3o. Ele produz e estimula dois efeitos delet\u00e9rios, simult\u00e2neos: no front interno, de governo, esvazia os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos ligados \u00e0s quest\u00f5es ind\u00edgenas e ambientais (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio &#8211; Funai, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis &#8211; Ibama e outros), desmoraliza e intimida os funcion\u00e1rios que exercem a fiscaliza\u00e7\u00e3o e, com isso, estimula os invasores; no meio pol\u00edtico, insinua uma pauta de legaliza\u00e7\u00e3o da atividade garimpeira, abrindo as portas a projetos casu\u00edstas das empresas e dos donos de garimpos no Congresso. O que se observa nas \u00faltimas semanas \u00e9 o aumento do n\u00famero de invas\u00f5es de madeireiros e garimpeiros, inclusive com atitudes agressivas frente aos fiscais.<\/p>\n<p>O discurso de Bolsonaro sobre os direitos ind\u00edgenas \u00e9 de uma brutalidade inomin\u00e1vel. Antes mesmo de assumir o cargo, ele chegou a dizer que n\u00e3o iria demarcar mais nem um cent\u00edmetro de \u00e1rea. E que os \u00edndios devem ter as mesmas oportunidades da sociedade envolvente; como se os \u00edndios quisessem ter o mesmo modo de vida dos brancos.<\/p>\n<p>O presidente parece fazer quest\u00e3o de demonstrar sua enorme ignor\u00e2ncia, repetindo coisas de \u201couvir dizer\u201d, sem nenhum compromisso com a verdade. N\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com o coronel Rondon que, h\u00e1 cem anos, desenvolveu um not\u00e1vel trabalho de aproxima\u00e7\u00e3o com \u00edndios de diversas etnias, desde o Centro Oeste at\u00e9 o extremo Norte, em Rond\u00f4nia, Acre, Roraima, na regi\u00e3o transfronteiri\u00e7a. Lan\u00e7ou as bases para um Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios (atual Funai). Algu\u00e9m poderia ler para ele a recente biografia de Rondon feita pelo jornalista Larry Rohter. Quem sabe ele poderia entender como se faz um humanista.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Quais os maiores avan\u00e7os e os limites da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 no que diz respeito \u00e0 regula\u00e7\u00e3o da atividade de minera\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de terras destinadas a povos ind\u00edgenas?<\/p>\n<p>Ger\u00f4ncio Rocha \u2013 Em 1998, participei da Sess\u00e3o Amaz\u00f4nia, do Tribunal Permanente dos Povos, em Paris. Ali, apresentei o relato Minera\u00e7\u00e3o, ouro e mis\u00e9ria na Amaz\u00f4nia. A certa altura, afirmei: \u201ctriste ironia da democracia brasileira: o destino dos povos ind\u00edgenas e de suas terras est\u00e1 mais amea\u00e7ado agora do que nos tempos da Ditadura\u201d. Outro dia, voltei a utilizar a frase. Desejo desconsider\u00e1-la porque \u00e9 err\u00f4nea: em qualquer situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 prefer\u00edvel a regra democr\u00e1tica \u00e0 decis\u00e3o monocr\u00e1tica. (Perd\u00e3o, leitores).<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 nossa democracia. Estamos num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, da Ditadura para a Nova Rep\u00fablica. Desde 1983, com o decreto do presidente Figueiredo abrindo as terras ind\u00edgenas \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, as press\u00f5es sobre os \u00edndios t\u00eam evolu\u00eddo de forma crescente, embora com varia\u00e7\u00f5es de t\u00e1tica. De um lado, as empresas de minera\u00e7\u00e3o tentam ganhar no papel a legaliza\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de pesquisa e lavra, como seguran\u00e7a para seus investimentos. De outro, os empres\u00e1rios de garimpo fomentam invas\u00f5es e intrus\u00f5es de garimpeiros em terras ind\u00edgenas, buscando antecipar-se \u00e0s empresas por meio do fato consumado.<\/p>\n<p>A partir de 1985, durante o governo Sarney, acentuou-se a investida do poder econ\u00f4mico em diversas frentes: campanhas de opini\u00e3o p\u00fablica, especialmente em Roraima e no Amazonas; press\u00e3o pol\u00edtica lobista no Congresso; mobiliza\u00e7\u00e3o do empresariado e a\u00e7\u00e3o de c\u00fapula junto ao governo federal. Tudo parecido com o que se faz hoje.<\/p>\n<p>Os defensores da minera\u00e7\u00e3o garimpeira ou empresarial em terras ind\u00edgenas t\u00eam um variado arsenal de argumentos, utilizados de acordo com a ocasi\u00e3o, que revelam um tra\u00e7o comum: a ideia economicista e salvacionista de expandir a fronteira mineral e levar o desenvolvimento para a Amaz\u00f4nia, em nome do interesse nacional. Um dos l\u00edderes dos empres\u00e1rios de garimpo \u2013 Jos\u00e9 Altino \u2013 dir\u00e1 que eles pedem \u201ct\u00e3o somente a oportunidade de explorar, como brasileiros que s\u00e3o, as riquezas do subsolo p\u00e1trio, independentemente de existirem ou n\u00e3o ind\u00edgenas em suas proximidades\u201d. Mistifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1987 foi perpetrada a grande invas\u00e3o da \u00e1rea dos Yanomami, Jos\u00e9 Altino \u00e0 frente, chegando a 40 mil o n\u00famero de garimpeiros. Recorde-se: 1987 foi o ano de intensos debates no Congresso para a elabora\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o, em 1988.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, com a descoberta de Serra Pelada, houve um vertiginoso crescimento da atividade garimpeira, com mais de vinte campos de garimpo de ouro, cassiterita (estanho) e pedras preciosas em explora\u00e7\u00e3o. Em tempo de aguda crise econ\u00f4mica e social, a ideologia oficial cultivava e difundia o fetichismo do ouro, ressaltando-lhe a opul\u00eancia e ignorando a mis\u00e9ria dos que produzem a riqueza. \u00c9 um ex\u00e9rcito de 600 mil homens desfigurados, tangidos pela fome e o desemprego, expulsos da terra, induzidos a buscar a \u00fanica alternativa de trabalho e de vida que lhes resta: a ilus\u00e3o, a sorte e o logro, num empreendimento profundamente excludente, em que apenas algumas centenas de pessoas s\u00e3o beneficiadas. Agora, mais de 30 anos depois, acham que podem repetir a hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Al\u00e9m da minera\u00e7\u00e3o, que outros empreendimentos amea\u00e7am as terras ind\u00edgenas? O que prev\u00ea o Estatuto dos Povos Ind\u00edgenas no que diz respeito \u00e0 atividade de minera\u00e7\u00e3o e outras formas de explora\u00e7\u00e3o de terras destinadas a povos ind\u00edgenas?<\/p>\n<p>Ger\u00f4ncio Rocha \u2013 Melissa Curi [1], ge\u00f3loga e antrop\u00f3loga, fez em 2007 um competente estudo dos aspectos legais da quest\u00e3o, iniciando com a seguinte abertura: \u201cA regulamenta\u00e7\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o e do potencial energ\u00e9tico em terras ind\u00edgenas, o processo demarcat\u00f3rio bem como as in\u00fameras ocupa\u00e7\u00f5es ilegais de madeireiros, garimpeiros, agricultores etc., comp\u00f5em os cap\u00edtulos atuais e cont\u00ednuos da hist\u00f3ria do contato desrespeitoso entre sociedade envolvente e os povos ind\u00edgenas\u201d. A partir da\u00ed, lista e descreve os principais requisitos necess\u00e1rios \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Congresso: a) consulta \u00e0s comunidades ind\u00edgenas afetadas; b) participa\u00e7\u00e3o da comunidade nos resultados da lavra; c) obrigatoriedade de estudo de impacto ambiental; d) necessidade de laudo antropol\u00f3gico; e) necessidade de licita\u00e7\u00e3o para explora\u00e7\u00e3o mineral; f) garantia de recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1rea degradada.<\/p>\n<p>Existem na C\u00e2mara Federal v\u00e1rios projetos de lei espec\u00edfica versando sobre a minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas, todos eles discutidos em diferentes legislaturas, sem lograr aprova\u00e7\u00e3o. Ao lado deles, existe uma proposta mais ampla &#8211; o Estatuto dos Povos Ind\u00edgenas, de 2009, da Comiss\u00e3o Nacional de Pol\u00edtica Indigenista [2], que abriga no seu t\u00edtulo VI- Do aproveitamento dos recursos minerais e h\u00eddricos &#8211; os citados requisitos. No conjunto, o novo Estatuto normatiza direitos e obriga\u00e7\u00f5es em \u00e1reas ind\u00edgenas, como demarca\u00e7\u00e3o de terras, uso de recursos florestais, prote\u00e7\u00e3o ambiental, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e atividades produtivas, al\u00e9m de normas penais e puni\u00e7\u00f5es de crimes contra os \u00edndios.<\/p>\n<p>Considerando que essa nova vers\u00e3o do Estatuto trata de uma ampla e atualizada base jur\u00eddica de conviv\u00eancia do Estado com as sociedades ind\u00edgenas; que o texto resultou de reuni\u00f5es regionais de consulta e consenso, parece-nos mais l\u00f3gico e producente pautar no Congresso a discuss\u00e3o deste documento. Naturalmente, teria de haver consulta pr\u00e9via \u00e0s entidades indigenistas. Se esse encaminhamento prevalecer, ser\u00e1 um passo hist\u00f3rico do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>O efeito mais imediato da explora\u00e7\u00e3o descontrolada do ouro ocorre sobre o sistema h\u00eddrico: a remo\u00e7\u00e3o do solo \u00e0 beira dos cursos d\u2019\u00e1gua modifica as v\u00e1rzeas e provoca o assoreamento e a turva\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, comprometendo, inclusive, o abastecimento p\u00fablico. Em certos rios, como o Madeira, as dragas operam diretamente sobre seu leito, retirando-lhe os sedimentos de fundo.<\/p>\n<p>Todavia, o perigo maior para as popula\u00e7\u00f5es e o ecossistema est\u00e1 no uso intensivo do merc\u00fario utilizado na extra\u00e7\u00e3o do ouro. O processo se inicia com a preconcentra\u00e7\u00e3o do ouro por meios gravim\u00e9tricos. O material preconcentrado \u00e9 misturado com o merc\u00fario, ocorrendo amalgama\u00e7\u00e3o com as part\u00edculas de ouro. Este am\u00e1lgama \u00e9 ent\u00e3o queimado com tochas de g\u00e1s propano, liberando vapor de merc\u00fario diretamente na atmosfera; o excesso, na forma de metilmetano, \u00e9 despejado na \u00e1gua, indo se depositar nos sedimentos de fundo.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de ouro com o uso de merc\u00fario engendra, dessa maneira, tr\u00eas vetores que podem afetar a sa\u00fade p\u00fablica: a) contamina\u00e7\u00e3o com merc\u00fario vapor diretamente sobre os trabalhadores garimpeiros; b) polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e sedimentos, com a possibilidade de metila\u00e7\u00e3o do merc\u00fario e sua absor\u00e7\u00e3o pelos peixes, afetando a cadeia alimentar das popula\u00e7\u00f5es locais; c) contamina\u00e7\u00e3o com merc\u00fario vapor nos numerosos pontos de venda do merc\u00fario, onde ele \u00e9 mais uma vez queimado. Esses efeitos mal\u00e9ficos ocorrem de modo generalizado em todos os cursos de \u00e1gua em que \u00e9 praticada a garimpagem de ouro.<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o! Os efeitos t\u00f3xicos do merc\u00fario incluem danos ao c\u00e9rebro, rins e pulm\u00e3o. Os sintomas das v\u00e1rias doen\u00e7as dependem do modo de exposi\u00e7\u00e3o e do tipo qu\u00edmico de sua ocorr\u00eancia.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 O senhor tem acompanhado as discuss\u00f5es em torno do S\u00ednodo Pan-Amaz\u00f4nico?<\/p>\n<p>Ger\u00f4ncio Rocha \u2013 O Papa Francisco \u00e9 um cara legal; est\u00e1 sempre do lado dos ofendidos e humilhados. \u00c9, tamb\u00e9m, de sabedoria discreta. A enc\u00edclica Laudato Si\u2019 \u00e9 uma esperan\u00e7a de vida ante o colapso da mentalidade capitalista. Creio que este S\u00ednodo ser\u00e1 um pontap\u00e9 inicial de rea\u00e7\u00e3o dos povos todos, do continente amaz\u00f4nico, por democracia de fato.<\/p>\n<p>Notas:<br \/>\n[1] Melissa Curi: aspectos legais da minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas. Revista de estudos e pesquisas, Funai, 2007. (Nota do entrevistado)<\/p>\n<p>[2] Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a \/ Comiss\u00e3o Nacional de Pol\u00edtica Indigenista: proposta de estatuto dos povos ind\u00edgenas, 2009. (Nota do entrevistado)<\/p>\n<p>Foto: Helena Andrade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24143\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[222],"class_list":["post-24143","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6hp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24143"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24143\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}