{"id":24170,"date":"2019-10-22T01:34:17","date_gmt":"2019-10-22T04:34:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24170"},"modified":"2019-10-22T01:34:17","modified_gmt":"2019-10-22T04:34:17","slug":"a-america-latina-rebelada-para-onde-vamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24170","title":{"rendered":"A Am\u00e9rica Latina rebelada: para onde vamos?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/latinamericareports.com\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/carabineros-768x432.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Foto: Jorge Morales Piderit)<\/p>\n<p>A Proje\u00e7\u00e3o Continental do Povo e a geopol\u00edtica da for\u00e7a<\/p>\n<p>por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Algumas coisas t\u00eam em comum o Equador, o Chile, o Peru e a Col\u00f4mbia. A primeira, talvez a mais \u00f3bvia nesses dias que cheiram a gasolina e fogo, \u00e9 que uma onda de instabilidade os tem atingido, um atr\u00e1s do outro.<\/p>\n<p>A segunda, que nos diz algo, mas n\u00e3o muito, \u00e9 que s\u00e3o todos pa\u00edses governados por finos representantes do consenso liberal \u2013 do tipo que comem com garfos e facas, alguns mais do que outros, e n\u00e3o com as m\u00e3os. E, garfos e facas em m\u00e3os, fazem de tudo para comer da mesa do povo, dividindo-na e brindando requintados u\u00edsques com os s\u00f3cios estrangeiros, at\u00e9 que ao povo nem mais as migalhas sobrem.<\/p>\n<p>A terceira, fundamental, \u00e9 que esses ajeitados senhores, que alguns no Brasil diriam que \u201cn\u00e3o s\u00e3o como Bolsonaro\u201d, apesar de toda sua respeitabilidade liberal, t\u00eam recorrido \u00e0 for\u00e7a das armas e aos \u201cprofissionais da viol\u00eancia\u201d para fazer frente \u00e0 mar\u00e9 que se avoluma. No Equador, doze dias de duras manifesta\u00e7\u00f5es contra o pacote de maldades antipopulares de L\u00eanin Moreno e do FMI (Fundo Monet\u00e1rio Internacional) foram respondidas pelo estado de exce\u00e7\u00e3o, pelo toque de recolher e pelo Ex\u00e9rcito. Foram oito mortos, 1340 feridos e 1192 presos; tudo sob o sorriso carism\u00e1tico de um presidente em sua cadeira de rodas.<\/p>\n<p>No Chile, Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era tomou o exemplo de Moreno: o estado de emerg\u00eancia, o toque de recolher, tr\u00eas mil militares e cinco mil policiais carabineros nas ruas fazendo frente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es massivas de jovens que se levantaram contra o aumento das passagens do metr\u00f4, primeiro, e depois contra o \u201ccusto de vida\u201d imposto pelo neoliberalismo. Informa\u00e7\u00e3o que deve derreter o cora\u00e7\u00e3o sens\u00edvel dos que diziam h\u00e1 algumas semanas que \u201cBolsonaro quer ser Pi\u00f1era, mas \u00e9 Hugo Ch\u00e1vez\u201d \u00e9 que poucos dias de manifesta\u00e7\u00f5es bastaram para gerar oito mortos e 1472 detidos no Chile. Ser\u00e1 que na verdade Pi\u00f1era quer ser Bolsonaro?<\/p>\n<p>No Peru, o Presidente Vizcarra fechou o Congresso, que respondeu empossando sua vice e desautorizando o Presidente, que por fim contestou postando uma foto no Twitter, acompanhado dos comandantes das For\u00e7as Armadas. Isso parece ter bastado para o Congresso se curvar \u00e0 autoridade presidencial, e para a vice deixar de lado essa hist\u00f3ria de vestir a faixa. Por ora, ao menos.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, onde governa Iv\u00e1n Duque (dentre os gentlemans, o menos afeito aos talheres, \u00e9 verdade), as manifesta\u00e7\u00f5es contra as reformas trabalhista e previdenci\u00e1ria e as privatiza\u00e7\u00f5es, todas apoiadas pelo FMI, ainda n\u00e3o tiveram envergadura suficiente para gerar respostas como no Peru, Chile e Equador. Nem precisam: Juan Manuel Santos, outro refinado senhor de cabelos brancos, j\u00e1 havia assegurado a entrada do pa\u00eds na OTAN como \u201cparceiro global\u201d, e Duque n\u00e3o s\u00f3 prosseguiu a guerra contra o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN) como tamb\u00e9m, com seus assassinatos e boicotes ao processo de paz, reviveu a guerra contra as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia \u2013 Ex\u00e9rcito do Povo (FARC-EP).<\/p>\n<p>E por fim chegamos \u00e0 quarta, e talvez mais preocupante, similaridade. \u00c9 que todos esses pa\u00edses significam, juntos, a totalidade da costa do continente para o Oceano Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>O Marechal M\u00e1rio Travassos (1891-1973), idealizador e primeiro comandante da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), combatente da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra e articulista do Jornal do Brasil, Defesa Nacional e O Estado de S. Paulo, escreveu em 1931 sua grande obra, Aspectos Geogr\u00e1ficos Sul-Americanos, renomeada em 1935 para Proje\u00e7\u00e3o Continental do Brasil. Um dos livros brasileiros mais traduzidos da hist\u00f3ria, com incont\u00e1veis edi\u00e7\u00f5es em espanhol, a obra de Travassos \u00e9 um cl\u00e1ssico do pensamento geopol\u00edtico brasileiro, tendo influenciado enormemente n\u00e3o s\u00f3 a geografia pol\u00edtica no Brasil como tamb\u00e9m a de todo o continente.<\/p>\n<p>A obra de Travassos associa o desenvolvimento brasileiro ao do continente como um todo, e ficou especialmente conhecida por ensaiar uma transposi\u00e7\u00e3o do conceito de heartland (cora\u00e7\u00e3o da terra), desenvolvido por Halford Mackinder em 1904, para o contexto sul-americano. Nesta obra, Travassos faz uma observa\u00e7\u00e3o relevante para hoje: \u201ctudo faz crer que os maiores progressos da infiltra\u00e7\u00e3o dos interesses norte-americanos em nosso continente se far\u00e3o pelas vias andinas e ao longo da costa do Pac\u00edfico.\u201d<\/p>\n<p>A costa do Pac\u00edfico, assim, era a \u201cvia natural\u201d da press\u00e3o e influ\u00eancia norte-americana geopol\u00edtica sobre o continente. Hoje, todos os pa\u00edses que a comp\u00f5em, a despeito de seus governos-moinhos alinhad\u00edssimos com os ventos do Norte, vivem uma onda de instabilidade. N\u00e3o \u00e9 por acaso que ela seja respondida com pulso t\u00e3o forte \u2013 muito mais do que a estabilidade dos governos regionais e do endividamento dos pa\u00edses via FMI, pode estar em jogo a estabilidade da inger\u00eancia geopol\u00edtica norte-americana no continente.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma pergunta a ser feita: e se, frente \u00e0 onda popular, erguer-se, no lugar da repress\u00e3o reativa dos governos, um revide colossal e cont\u00ednuo, de coturnos e fuzis? E se, acuados pelo povo, estimulados pelo caos, os atores regionais procurarem uma ordem Leviat\u00e2nica? Ou, ainda, e se for nos Estados Unidos que os governos da regi\u00e3o procurarem sua salvaguarda? Ao inv\u00e9s de uma muralha contra a proje\u00e7\u00e3o norte-americana no Pac\u00edfico, ter\u00edamos dentro do continente nascentes imperiais de terror.<\/p>\n<p>Bol\u00edvia: Boleta o Balazo?<br \/>\nNo meio de tudo isso, no meio do continente, h\u00e1 a Bol\u00edvia. O pa\u00eds faz fronteira com cinco pa\u00edses: Brasil, Paraguai, Chile, Peru e Argentina. No pa\u00eds, nos lembra Travassos, h\u00e1 a Cordilheira dos Andes, que divide o continente a leste e a oeste, e as bacias dos rios Amazonas e Prata, que desenham uma divis\u00e3o norte-sul; ali se concentram, ao mesmo tempo, as tens\u00f5es do Pac\u00edfico e do Atl\u00e2ntico, enquanto que as duas principais bacias hidrogr\u00e1ficas do continente se entrela\u00e7am e apertam as m\u00e3os. O pa\u00eds, sem acesso para o oceano e amurado pelos Andes e pelo Altiplano, com sa\u00eddas para todo o continente, nos diz o professor de Hist\u00f3ria do Brasil na Universidade de Creighton, Lewis Tambs, constitui um heartland: \u201cquem controla Santa Cruz comanda Charcas. Quem controla Charcas comanda o Heartland. Quem controla o Heartland comanda a Am\u00e9rica do Sul.\u201d N\u00e3o bastasse sua voca\u00e7\u00e3o natural a pesar muito no continente, a Bol\u00edvia \u00e9 ainda parceira estrat\u00e9gica da China, e recentemente anunciou uma alian\u00e7a com a R\u00fassia para a constru\u00e7\u00e3o de um complexo de tecnologia nuclear.<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds, por fim, passou por elei\u00e7\u00f5es no \u00faltimo domingo (20). O atual presidente, Evo Morales, de acordo com dados preliminares divulgados (com cerca de 80% dos votos contados) \u00e9 o primeiro colocado, com 45% dos votos. Atr\u00e1s dele, Carlos Mesa conquistou 38%. H\u00e1 ainda o pastor evang\u00e9lico conservador Chi Hyun Chung, com 8%, e \u00d3scar Ortiz, com 4%. Na Bol\u00edvia, a n\u00e3o ser que o primeiro colocado consiga 50% dos votos mais um, ou que a diferen\u00e7a entre o primeiro e o segundo seja maior de 10%, h\u00e1 segundo turno. De maneira que, caso Evo n\u00e3o recupere ao menos 3% de vantagem nos 20% dos votos que ainda n\u00e3o foram apurados, as chances de ser derrotado (com uma transfer\u00eancia do eleitorado de Hyun Chung e Ortiz a Mesa) s\u00e3o muito grandes. N\u00e3o bastasse, \u00e9 claro, a press\u00e3o que a OEA e o nosso Itamaraty j\u00e1 come\u00e7aram a fazer sobre as elei\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, e o suposto plano, denunciado por Evo e tra\u00e7ado por ex-militares, de p\u00f4r em marcha um golpe no pa\u00eds no caso de sua vit\u00f3ria. Al\u00e9m disso, os dados preliminares apontam que o MAS (Movimento Ao Socialismo) de Evo deve perder maioria de 2\/3 no Senado \u2013 o que j\u00e1 \u00e9, por si s\u00f3, motivo de muita preocupa\u00e7\u00e3o. A Bol\u00edvia j\u00e1 \u00e9 alvo; natural, geopol\u00edtico, econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>As vozes que ecoavam no Equador cantando que \u201cEl Pueblo Unido Jam\u00e1s Ser\u00e1 Vencido\u201c, agora espalhadas pelo continente, passam a formar uma sinfonia geopol\u00edtica. Mantendo-se o povo no palco, \u00e9 certo, Tio Sam deixa a plateia. Mas que can\u00e7\u00f5es se ouvir\u00e1 na Am\u00e9rica Latina se, ao inv\u00e9s disso, ele virar maestro na Bol\u00edvia, compositor no Pac\u00edfico ou, ainda, regente de orquestras de gorilas? O que se tem por certo \u00e9 que, com sua giganteza, o Brasil n\u00e3o passar\u00e1 indiferente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24170\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[223],"class_list":["post-24170","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6hQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24170"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24170\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}