{"id":24184,"date":"2019-10-23T20:20:21","date_gmt":"2019-10-23T23:20:21","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24184"},"modified":"2019-10-23T20:20:21","modified_gmt":"2019-10-23T23:20:21","slug":"o-tsunami-chileno-pinera-e-a-repressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24184","title":{"rendered":"O tsunami chileno &#8211; Pi\u00f1era e a repress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/chile\/imagens\/renun_cia_22out19.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Atilio A. Boron<\/p>\n<p>O regime de Pi\u00f1era \u2013 e insisto nisso de &#8220;regime&#8221; porque um governo que reprime com a brutalidade que todo o mundo viu n\u00e3o se pode considerar democr\u00e1tico \u2013 defronta-se com a mais s\u00e9ria amea\u00e7a popular j\u00e1 enfrentada por qualquer governo desde o golpe contra a Unidade Popular em 11 de setembro de 1973.<\/p>\n<p>As rid\u00edculas explica\u00e7\u00f5es oficiais n\u00e3o convencem nem aqueles que as divulgam; ouvem-se den\u00fancias sobre o vandalismo dos manifestantes, ou seu desprezo criminoso pela propriedade privada, pela paz e tranquilidade, para n\u00e3o falar das obl\u00edquas alus\u00f5es \u00e0 influ\u00eancia letal do &#8220;castro-madurismo&#8221; no desencadeamento dos protestos que culminaram com a declara\u00e7\u00e3o do &#8220;estado de emerg\u00eancia&#8221; pelo [pal\u00e1cio] de La Moneda, argumento absurdo e falacioso esgrimido anteriormente pelo corrupto que hoje governa o Equador e esmagadoramente desmentido pelos fatos.<\/p>\n<p>O estupor oficial e dos setores da oposi\u00e7\u00e3o solid\u00e1rios com o modelo econ\u00f4mico-pol\u00edtico herdado da ditadura carece totalmente de fundamento, a n\u00e3o ser pelo anacronismo da opulenta partidocracia dominante (uma das melhor remuneradas do mundo), sua cegueira incur\u00e1vel ou seu completo isolamento das condi\u00e7\u00f5es em que vivem \u2013 ou sobrevivem \u2013 milh\u00f5es de chilenas e chilenos.<\/p>\n<p>Para um olho bem treinado, se h\u00e1 algo que surpreende \u00e9 a efic\u00e1cia da propaganda que durante d\u00e9cadas convenceu aos pr\u00f3prios e aos alheios das excelsas virtudes do modelo chileno. Isto foi exaltado at\u00e9 \u00e0 saciedade pelos principais publicistas do imp\u00e9rio nestas latitudes: polit\u00f3logos e acad\u00eamicos do bom pensar, operadores e lobistas disfar\u00e7ados de jornalistas, ou intelectuais coloniais como Mario Vargas Llosa, o qual num artigo recente fustigava sem piedade os &#8220;populismos&#8221; existentes ou embrion\u00e1rios que atribulam a regi\u00e3o ao mesmo tempo que exaltava o progresso &#8220;a passos de gigante&#8221; do Chile. [1]<\/p>\n<p>Para os opini\u00f3logos bem pensantes, este pa\u00eds \u00e9 a feliz culmina\u00e7\u00e3o de uma dupla transi\u00e7\u00e3o: da ditadura \u00e0 democracia e da economia intervencionista a uma de mercado. A primeira coisa n\u00e3o \u00e9 certa, a segunda sim, com uma agravante: em pouqu\u00edssimos pa\u00edses o capitalismo arrasou tanto os direitos fundamentais da pessoa como no Chile, convertendo-os em custosas mercadorias s\u00f3 ao alcance de uma minoria. A \u00e1gua, a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, a seguran\u00e7a social, o transporte, a habita\u00e7\u00e3o, a riqueza mineira, os bosques e o litoral marinho foram vorazmente apropriados pelos amigos do regime, durante a ditadura de Pinochet e, com \u00edmpeto renovado, na suposta &#8220;democracia&#8221; que lhe sucedeu.<\/p>\n<p>Este cruel e desumano fundamentalismo de mercado teve como consequ\u00eancia que o Chile se convertesse no pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina com o maior endividamento das fam\u00edlias, produto da infinita privatiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 mencionada que obriga chilenas e chilenos a pagarem por tudo e a endividarem-se at\u00e9 ao infinito com o dinheiro que lhes expropriam dos seus sal\u00e1rios as piranhas financeiras que manejam os fundos de pens\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo um estudo da Fundaci\u00f3n Sol, &#8220;mais da metade dos trabalhadores assalariados n\u00e3o pode retirar uma fam\u00edlia m\u00e9dia da pobreza&#8221; e a distribui\u00e7\u00e3o do rendimento, diz um estudo recente do Banco Mundial, coloca o Chile junto a Rwanda como um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo. Finalmente, recordemos que a CEPAL comprovou no seu \u00faltimo estudo sobre a quest\u00e3o social na Am\u00e9rica Latina que os 1 por cento mais rico do Chile apropriam-se de 26,5 por cento do rendimento nacional, ao passo que os 50 por cento das fam\u00edlias mais pobres s\u00f3 tem acesso a 2,1 por cento do mesmo. [2] Ser\u00e1 este o modelo a imitar?<\/p>\n<p>Em suma: no Chile sintetiza-se uma explosiva combina\u00e7\u00e3o de livre mercado sem anestesia e uma democracia completamente deslegitimada, que dela s\u00f3 conserva o nome. Degenerou numa plutocracia que, at\u00e9 h\u00e1 poucos dias \u2013 mas agora n\u00e3o mais \u2013 medrava diante da resigna\u00e7\u00e3o, desmoraliza\u00e7\u00e3o e apatia da cidadania, enganada habilmente pela oligarquia midi\u00e1tica s\u00f3cia da classe dominante.<\/p>\n<p>Um sinal de alerta do descontentamento social foi que mais da metade da popula\u00e7\u00e3o (53,3 por cento) em idade de votar nem sequer se incomodou em comparecer \u00e0s urnas na primeira volta da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2017. Ainda que na vota\u00e7\u00e3o a absten\u00e7\u00e3o se reduzisse a 51 por cento, Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era foi eleito com apenas 26,4 por dos eleitores inscritos. Em poucas palavras, s\u00f3 um de cada quatro cidad\u00e3os se sentiu representado por ele. Hoje essa percentagem deve ser bastante menor e num clima onde por toda a parte o neoliberalismo se encontra acossado pelos protestos sociais.<\/p>\n<p>Mudou o clima da \u00e9poca e n\u00e3o s\u00f3 na Am\u00e9rica Latina. Suas falsas promessas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais cr\u00edveis e os povos rebelam-se: alguns, como na Argentina, desalojando seus porta-vozes do governo atrav\u00e9s do mecanismo eleitoral e outros tentando com suas enormes mobiliza\u00e7\u00f5es \u2013 Chile, Equador, Haiti, Honduras \u2013 p\u00f4r fim a um projeto insanavelmente injusto, desumano e predat\u00f3rio. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: h\u00e1 um &#8220;fim de ciclo&#8221; na regi\u00e3o. Mas n\u00e3o, como postulavam alguns, o do progressismo e sim o do neoliberalismo, que s\u00f3 poder\u00e1 ser sustentado, e n\u00e3o por muito tempo, a for\u00e7a de repress\u00f5es brutais.<\/p>\n<p>21\/Outubro\/2019<\/p>\n<p>1. Cf. &#8220;Retorno a la barbarie&#8221;, El Pa\u00eds, 31 de Agosto de 2019.<br \/>\n2. Os dados da Fundaci\u00f3n Sol s\u00e3o recolhidos na nota de Nicol\u00e1s Bravo Sep\u00falveda para o jornal digital El Mostrador www.elmostrador.cl\/destacado\/2019\/08\/21 . A fonte original est\u00e1 em www.fundacionsol.cl\/&#8230; Os dados relativos \u00e0 desigualdade encontram-se num relat\u00f3rio do Banco Mundial: &#8220;Taking on inequality&#8221; (Washington: 2016)<\/p>\n<p>O original encontra-se em\u00a0www.resumenlatinoamericano.org\/<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24184\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87],"tags":[227],"class_list":["post-24184","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6i4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24184","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24184"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24184\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24184"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24184"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24184"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}