{"id":24202,"date":"2019-10-26T23:36:15","date_gmt":"2019-10-27T02:36:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24202"},"modified":"2019-10-26T23:36:15","modified_gmt":"2019-10-27T02:36:15","slug":"nao-e-so-por-5-ml","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24202","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por 5 ml"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/10\/10201921105537883938116.jpg?w=174&amp;h=131&amp;crop=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>Os mortos caminhavam, como sempre, de cabe\u00e7a baixa. Sa\u00edam de suas casas ainda de madrugada pelas ruas frias e desertas at\u00e9 os pontos de \u00f4nibus, ou as esta\u00e7\u00f5es de trem. Por serem cinzas como as manh\u00e3s, ningu\u00e9m os via. Transl\u00facidos, espectrais, invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Quando o sol nascia e a luz banhava as formas sujas e coloridas das cidades, eles j\u00e1 haviam tomado seus postos servindo o caf\u00e9, dirigindo os \u00f4nibus e caminh\u00f5es, fazendo ou consertando coisas, como seus uniformes\u2026 assumiam formas vis\u00edveis\/invis\u00edveis, de maneira que se podia v\u00ea-los, ainda que, se desejasse, ignor\u00e1-los.<\/p>\n<p>Aprenderam a ser educados, seguir os protocolos. N\u00e3o olhavam direto nos olhos, se desculpavam mesmo sem ter feito nada, abriam espa\u00e7o nas cal\u00e7adas, cumpriam seus deveres e afazeres disciplinadamente.<\/p>\n<p>Como pelas ruas encontravam-se muitos daqueles que continuavam cinzas, estendendo suas m\u00e3os imundas, olhando para que os olhassem, carregando suas crian\u00e7as cadav\u00e9ricas com narizes escorrendo e p\u00e9s descal\u00e7os, vestidas com farrapos, a pol\u00edcia exercia seu of\u00edcio de retir\u00e1-las para os dep\u00f3sitos. Estes, eternamente lotados como fossas entupidas, nunca eram suficientes. Por isso as pessoas andavam pouco pelas ruas, preferindo os locais fechados onde os andrajosos n\u00e3o eram permitidos e o povo cinza s\u00f3 entrava de uniforme para servi-las, treinado para n\u00e3o ser visto ou notado.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com os loucos. Andando nus, subindo em mesas, gargalhando alto ou cantando, raivosos ou catat\u00f4nicos, explodiam em sua insanidade querendo mostrar o sangue que corria em suas veias. O odor putrefato de sua carne, o brilho incendi\u00e1rio de seus olhos opacos \u2013 um verdadeiro perigo para si mesmo e os outros \u2013, eram tamb\u00e9m escondidos em suas fossas especiais que igualmente estavam cada vez mais lotadas.<\/p>\n<p>Depois foram as crian\u00e7as. N\u00e3o que fizessem algo amea\u00e7ador; era a forma pela qual elas nos olhavam. N\u00e3o seria poss\u00edvel descrever de forma precisa, mas era como se soubessem. Conversavam entre si, riam, paravam quando algu\u00e9m se aproximava, depois seguiam tramando algo inexplic\u00e1vel, colorido, incab\u00edvel, m\u00e1gico. Foi quando se tornou obrigat\u00f3rio dobrar suas nucas atrav\u00e9s de aparatos com telas incandescentes, individuais, o que as acalmou um pouco.<\/p>\n<p>Pouco antes da explos\u00e3o tudo seguia normal. Os bancos de sangue estavam com um estoque mais baixo do que o costumeiro, mas como sempre, uma coleta estava prevista. Uma vez por m\u00eas, todos deviam doar 450 ml de sangue. Como o sol j\u00e1 n\u00e3o brilhava como antes, os alimentos haviam sido substitu\u00eddos por imita\u00e7\u00e3o de comida fazia d\u00e9cadas e tornou-se necess\u00e1rio um suplemento \u00e0 base de sangue humano para manter saud\u00e1vel uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o, aquela que interessa e que seria digna de vida. O suplemento vinha em formas elegantes e saborosas, requintados quitutes, gourmetizados, como docinhos, sorvetes, eram sorvidos em narguil\u00e9s coloridos e com aromas ex\u00f3ticos, como vinhos finos ou simplesmente como gotinhas de cristal mescladas com alucin\u00f3genos car\u00edssimos.<\/p>\n<p>Os economistas do governo calculavam que seria necess\u00e1rio apenas mais 5 ml de cada um para equilibrar a oferta e a demanda, um impacto m\u00ednimo que nem seria notado. As pessoas cinzas j\u00e1 traziam um cateter fixo no bra\u00e7o, instalado desde o nascimento. O procedimento portanto era totalmente indolor. Al\u00e9m do fato de receberem ao final um copo de \u00e1gua, um biscoito e uma min\u00fascula pedra feita dos res\u00edduos do cristal alucin\u00f3geno.<\/p>\n<p>No dia da coleta, o povo cinza saiu de seus buracos como de costume, mas n\u00e3o se dirigiu aos pontos de \u00f4nibus e trens: seguiu andando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade, queimando tudo que encontrava pela frente. A guarda antimotim se posicionou e fechou os acessos aos bairros ricos, onde se deram os primeiros confrontos e as primeiras mortes.<\/p>\n<p>Rios de sangue corriam para os bueiros. As televis\u00f5es ressaltavam o paradoxo, para n\u00e3o doar 5 ml a mais, litros eram derramados pelas ruas, desperdi\u00e7ados, perdidos para sempre. Especialistas calculavam as perdas e o impacto sobre o desempenho da economia e as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, enquanto as universidades buscavam desenvolver m\u00e9todos de recupera\u00e7\u00e3o de parte do sangue escoado para os esgotos, mas alertavam dos riscos de perda da qualidade dos suplementos reaproveitados.<\/p>\n<p>Apesar da violenta repress\u00e3o, as massas seguiam sua marcha. A noite encontrou a cidade em chamas, e os bombeiros simplesmente deixaram o fogo em paz em seu trabalho de arder. Um enorme cartaz que anunciava um novo flan com um suplemento enriquecido havia sido arrancado e servia de barricada aos revoltosos.<\/p>\n<p>A tropa de choque recuava, e os militares se recusavam a sair dos quarteis. O governo voltou atr\u00e1s nos 5 ml extras e prometia agora dois biscoitos e uma pedra e meia de cristal pobre. Mas isso n\u00e3o parecia ter efeito nenhum na rebeli\u00e3o que se prolongou noite adentro e por todo o dia seguinte.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que apareceram as picha\u00e7\u00f5es: \u201cabaixo os vampiros\u201d, \u201co sangue \u00e9 nosso\u201d, \u201cvou tomar seu sangue e te dar um biscoito\u201d, entre outras palavras de ordem.<\/p>\n<p>Os historiadores ainda divergem sobre como tudo acabou (ou quando, ou por qu\u00ea), mas o que se sabe \u00e9 que os poderosos entraram em uma grave crise de abstin\u00eancia e acabaram morrendo em suas casas luxuosas, que se transformaram em seus t\u00famulos. At\u00e9 hoje as crian\u00e7as evitam a \u00e1rea. Chegam at\u00e9 a cerca, olham, riem e saem correndo para fazer coisas m\u00e1gicas.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mauro Iasi na TV Boitempo<br \/>\nNo Caf\u00e9 Bolchevique da TV Boitempo, Mauro Iasi apresenta conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre acontecimentos da conjuntura pol\u00edtica e social recente no Brasil e no mundo. Se inscreva no canal aqui e venha tomar este caf\u00e9 conosco!<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24202\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[221],"class_list":["post-24202","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6im","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}