{"id":24215,"date":"2019-10-30T22:50:39","date_gmt":"2019-10-31T01:50:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24215"},"modified":"2019-10-30T22:55:06","modified_gmt":"2019-10-31T01:55:06","slug":"agonia-do-neoliberalismo-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24215","title":{"rendered":"Agonia do neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"300\" width=\"300\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/kaosenlared.net\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/unnamed-6-300x300.jpg?resize=300%2C300&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Atilio A. Boron<br \/>\nResumen Latinoamericano<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, o neoliberalismo sofreu uma s\u00e9rie de derrotas que aceleraram sua agonia e, entre convuls\u00f5es terr\u00edveis e violentas, decretaram sua morte. Depois de quase meio s\u00e9culo de saques, trope\u00e7os e crimes de todos os tipos contra a sociedade e o meio ambiente, a f\u00f3rmula de governan\u00e7a t\u00e3o entusiasticamente promovida pelos governos dos pa\u00edses do capitalismo avan\u00e7ado, institui\u00e7\u00f5es como o FMI e o Banco Mundial, estimada pelos Intelectuais bem pensantes e pol\u00edticos do establishment est\u00e1 em ru\u00ednas.<\/p>\n<p>A nave de comando daquela flotilha de saqueadores em s\u00e9rie, o Chile de Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, afundou sob o formid\u00e1vel impulso de um protesto popular sem precedentes, indignado e enfurecido por d\u00e9cadas de enganos, truques e manipula\u00e7\u00f5es da m\u00eddia. \u00c0s massas chilenas foi prometido o para\u00edso do consumismo capitalista e, durante muito tempo, elas acreditaram nessas mentiras. Quando acordaram do sonambulismo pol\u00edtico, perceberam que a gangue que os governava sob um manto fingidamente democr\u00e1tico os havia despojado de tudo: lhes tiraram a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, foram enganadas sem escr\u00fapulos pelos gestores dos fundos de pens\u00e3o, ficaram endividadas ao extremo e incapacitadas de pagar suas d\u00edvidas enquanto contemplavam espantadas que o 1% mais opulento do pa\u00eds se apropriou de 26,5% da renda nacional e os 50% mais pobres capturaram apenas 2,1%.<\/p>\n<p>Toda essa desapropria\u00e7\u00e3o ocorreu em meio a um concerto ensurdecedor da m\u00eddia, que embotou as consci\u00eancias, alimentou cr\u00e9ditos indiscriminados com essa bonan\u00e7a artificial e fez acreditar que o capitalismo cumprisse suas promessas e que todos poderiam fazer o que quisessem com suas vidas, sem interfer\u00eancia do Estado e aproveitando as imensas oportunidades oferecidas pelo livre com\u00e9rcio. Mas nenhuma utopia, mesmo a do mercado total, est\u00e1 a salvo da a\u00e7\u00e3o de seus opositores. E estes apareceram repentinamente personificados nas figuras de alguns adolescentes do ensino m\u00e9dio que, com aud\u00e1cia exemplar e solidariedade filial, se rebelaram contra o aumento das tarifas do metr\u00f4 que prejudicaram n\u00e3o a eles, mas a seus pais. Sua ousadia quebrou o feiti\u00e7o e aqueles que ca\u00edram na armadilha de renunciar \u00e0 cidadania pol\u00edtica em troca do consumismo perceberam que haviam sido ridicularizados e trapaceados, e foram \u00e0s ruas para expressar seu descontentamento e raiva.<\/p>\n<p>Eles se tornaram, da noite para o dia, &#8220;v\u00e2ndalos&#8221;, &#8220;terroristas&#8221; ou um bando tumultuado de &#8220;alien\u00edgenas&#8221; &#8211; para usar a descri\u00e7\u00e3o eloquente da esposa do presidente Pi\u00f1era -, que visaram os limites intransit\u00e1veis do consumismo e do endividamento infinito, assim como o car\u00e1ter farsesco do minueto democr\u00e1tico que ocultava, sob roupas limpas e formalidades vazias, a tirania implac\u00e1vel do capital. Eles viram nesse despertar violento que uma das sociedades mais igualit\u00e1rias da Am\u00e9rica Latina agora compartilhava, segundo o Banco Mundial, a d\u00fabia honra de dividir com Ruanda a posi\u00e7\u00e3o de um dos oito pa\u00edses mais desiguais do planeta. Como num rel\u00e2mpago, eles perceberam que haviam sido condenados a sobreviver endividados por toda a vida, v\u00edtimas de uma plutocracia &#8211; insaci\u00e1vel, intolerante e violenta &#8211; e da corrup\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria que era c\u00famplice de tudo isso e gestora dos saques contra seu pr\u00f3prio povo e os recursos naturais do pa\u00eds. Por isso foram \u00e0s ruas e sa\u00edram em manifesta\u00e7\u00f5es imponentes para lutar contra seus opressores e exploradores, e o fizeram &#8211; e at\u00e9 hoje o fazem &#8211; com uma coragem e hero\u00edsmo raramente vistos. J\u00e1 h\u00e1 pelo menos vinte mortos pela repress\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a e os desaparecidos registrados somam mais de cem, al\u00e9m das centenas de feridos e torturados e os milhares de detidos que marcam, com l\u00fagubres tonalidades, os estertores finais de t\u00e3o admirado modelo.<\/p>\n<p>Depois dessa insurrei\u00e7\u00e3o popular espont\u00e2nea, nada ser\u00e1 como antes, nada reviver\u00e1 o neoliberalismo, ningu\u00e9m o indicar\u00e1 como o caminho real para a democracia, a liberdade e a justi\u00e7a social. Mesmo que Pi\u00f1era continue em La Moneda e prossiga sua repress\u00e3o brutal. Mesmo sabendo que a OEA, os governos &#8220;democr\u00e1ticos&#8221; do continente &#8211; presididos por personagens obscuros de frondosos prontu\u00e1rios &#8211; e os guardi\u00f5es hip\u00f3critas dos valores republicanos jamais ter\u00e3o um \u00e1tomo de dec\u00eancia para caracterizar seu governo como ditadura, uma qualifica\u00e7\u00e3o que somente Nicol\u00e1s Maduro merece, embora nunca tenha havido em seu governo uma repress\u00e3o t\u00e3o bestial e sedenta de sangue quanto a que foi documentada em in\u00fameros v\u00eddeos gravados no Chile e viralizados na internet. Para Donald Trump, Pi\u00f1era \u00e9 um amigo, assassino e pol\u00edtico vassalo da Casa Branca, essencial para atacar a Venezuela bolivariana e essas s\u00e3o raz\u00f5es mais que suficientes para o defender e proteger a qualquer pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Obedientes, as ONGs do imp\u00e9rio e suas filiais na Europa e na Am\u00e9rica Latina &#8211; improv\u00e1veis defensores dos direitos humanos, democracia, sociedade civil e meio ambiente &#8211; manter\u00e3o um sil\u00eancio c\u00famplice diante dos crimes cometidos pelo ocupante do La Moneda. Alguns expressar\u00e3o outras opini\u00f5es, mas n\u00e3o aquelas que s\u00e3o os tent\u00e1culos ocultos do imperialismo. Imp\u00e1vidos, os publicit\u00e1rios do sistema continuar\u00e3o apontando Nicol\u00e1s Maduro como arqu\u00e9tipo da ditadura e o chileno como personifica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria democracia. Mas tudo ser\u00e1 in\u00fatil, e o que morreu &#8211; a receita neoliberal &#8211; bem morta est\u00e1.<\/p>\n<p>Claro, a hist\u00f3ria n\u00e3o come\u00e7a nem termina no Chile. Pouco antes do in\u00edcio da explos\u00e3o social, o Equador do traidor e corrupto Presidente Moreno foi convulsionado por imensos protestos populares. O gatilho, a fa\u00edsca que queimou o prado, foi a remo\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios aos combust\u00edveis. Mas o fator determinante foi a implementa\u00e7\u00e3o do &#8220;pacote&#8221; encomendado pelo FMI ao agente servil instalado no Pal\u00e1cio Carondelet. A rea\u00e7\u00e3o popular, iniciada primeiro entre os transportadores e setores populares urbanos e depois intensificada pela irrup\u00e7\u00e3o maci\u00e7a das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas nas principais cidades do pa\u00eds, se estendeu pouco mais de uma semana e for\u00e7ou o covarde presidente a mudar a sede do Executivo para Guayaquil. Pouco depois, ele teve que suspender a repress\u00e3o cruel com a qual havia respondido ao desafio e abrir uma negocia\u00e7\u00e3o fraudulenta com os autoproclamados l\u00edderes da revolta ind\u00edgena. Astuto, ele concordou em estabelecer uma tr\u00e9gua com a desprestigiada e ing\u00eanua lideran\u00e7a da CONAIE e revogou o decreto sobre o subs\u00eddio ao combust\u00edvel, prometendo rever as a\u00e7\u00f5es. Nada disso aconteceu, mas ele conseguiu desmantelar o protesto, por enquanto. Segundo um traidor em s\u00e9rie como Moreno, o chefe dos negociadores ind\u00edgenas, Jaime Vargas, est\u00e1 sendo processado pelo governo. O &#8220;pacota\u00e7o&#8221; ser\u00e1 posto em pr\u00e1tica porque a ordem do FMI \u00e9 inapel\u00e1vel e Moreno \u00e9 um pe\u00e3o mais do que obediente: ele \u00e9 subsequente.<\/p>\n<p>Sabe-se que esses programas do Fundo s\u00f3 s\u00e3o vi\u00e1veis se forem gerenciados com uma mistura &#8211; vari\u00e1vel conforme o caso &#8211; de engano e repress\u00e3o. Mas agora a passividade dos cidad\u00e3os tem um pavio curto e, em alguns meses, assim que sentirem os rigores do cen\u00e1rio selvagem, n\u00e3o seria estranho uma nova rebeli\u00e3o plebeia explodir, que esperamos n\u00e3o mais caia nas armadilhas de Moreno e seus companheiros e culmine com sucesso no impeachment do presidente e a refunda\u00e7\u00e3o da democracia no Equador. O presidente est\u00e1 encurralado: se ele aplicar o programa do FMI, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular provavelmente dar\u00e1 fim a seu governo; caso contr\u00e1rio, o Imp\u00e9rio pode decidir que chegou a hora de dispensar seus servi\u00e7os como in\u00fateis. E como a Casa Branca &#8220;sabe demais&#8221; sobre as tram\u00f3ias e neg\u00f3cios sujos de Moreno, ele n\u00e3o ter\u00e1 escolha a n\u00e3o ser aceitar o \u00fakase imperial e se beneficiar do &#8220;desemprego involunt\u00e1rio&#8221;, como Keynes dizia. Mas, apesar de sua futilidade e dos crimes perpetrados durante a repress\u00e3o aos protestos populares, Washington ir\u00e1 escond\u00ea-lo e proteg\u00ea-lo. Como fez com outro assassino, Gonzalo S\u00e1nchez de Lozada, e com tantos outros. Dentro de pouco tempo saberemos qual ser\u00e1 o desenlace.<\/p>\n<p>O neoliberalismo sofreu outra derrota na Bol\u00edvia, quando o presidente Evo Morales foi reeleito com 47,08% dos votos contra 36,51% obtidos por Carlos Mesa, candidato da Comunidade Cidad\u00e3. Embora o presidente tenha obtido uma vantagem de 10,57% dos votos em rela\u00e7\u00e3o ao seu oponente (segundo a legisla\u00e7\u00e3o boliviana, mais de 10% garantem que seja declarado vencedor no primeiro turno) e mesmo n\u00e3o tendo havido queixa espec\u00edfica de fraude, mas apenas gritos e uivos da oposi\u00e7\u00e3o, esta exige que a vota\u00e7\u00e3o seja convocada. Aqueles que, dos EUA, conduzem os inimigos de Evo na Bol\u00edvia contam com o conluio previs\u00edvel da OEA e de alguns governos desastrosos da regi\u00e3o, como os da Argentina, Brasil, Chile e Col\u00f4mbia. Afirmam que as irregularidades na transmiss\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do escrut\u00ednio (explicadas de forma convincente pelas autoridades bolivianas), juntamente com a insignific\u00e2ncia da diferen\u00e7a obtida por Evo (mas acima de 10%, \u00e9 claro) os obriga a proceder dessa maneira. Se assim fosse, esses virtuosos vestais da democracia deveriam ordenar sem demora a anula\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1960 nos Estados Unidos, quando John F. Kennedy liderou Richard Nixon em 0,17% (49,72 versus 49,55%) e foi investido como presidente sem enfrentar qualquer reclama\u00e7\u00e3o. Mesa, que perdeu com uma diferen\u00e7a de 10,57%, faria bem em pedir sil\u00eancio. Ele n\u00e3o o far\u00e1, porque em um prod\u00edgio de adivinha\u00e7\u00e3o (que, obviamente, deu errado), ele antecipou sua vit\u00f3ria e que n\u00e3o conheceria outro resultado que n\u00e3o fosse esse, pois corresponde a um democrata &#8220;feito nos EUA&#8221;. Se eu ganhar, a escolha foi limpa. Se eu perder, houve fraude. Nada de novo: a direita nunca acreditou na democracia, muito menos nessas latitudes, e est\u00e1 irresponsavelmente pedindo desobedi\u00eancia civil e promovendo desordens para &#8220;corrigir&#8221; o resultado negado pelas pesquisas. Evo, em um gesto que o exalta, desafiou a OEA a realizar uma avalia\u00e7\u00e3o completa do processo e que, se encontrasse evid\u00eancias de fraude, chamaria imediatamente a uma nova vota\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 in\u00fatil, mas o capataz Almagro enviar\u00e1 uma miss\u00e3o \u00e0 Bol\u00edvia para agitar o vespeiro e impedir o trabalho do governo. Infelizmente, haver\u00e1 pessoas que morrer\u00e3o ou sofrer\u00e3o ferimentos graves por causa dos dist\u00farbios que essa miss\u00e3o causar\u00e1. Obviamente, os movimentos sociais da Bol\u00edvia n\u00e3o permitir\u00e3o que uma derrota de mais de dez pontos obrigue a uma nova vota\u00e7\u00e3o ou coloque o perdedor como vencedor. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 um fato menor que os governos do M\u00e9xico e o novo da Argentina tenham reconhecido o triunfo de Evo, assim como os de Cuba e da Rep\u00fablica Bolivariana da Venezuela. Em suma: a restaura\u00e7\u00e3o do neoliberalismo na Bol\u00edvia parece ter ficado frustrada novamente, por mais esfor\u00e7os feitos pelo Imp\u00e9rio e seus asseclas locais.<\/p>\n<p>De acordo com esse quadro regional marcado por um clima ideol\u00f3gico generalizado de repulsa ao neoliberalismo dominante, na Argentina, a experi\u00eancia neoliberal de Mauricio Macri foi repudiada nas urnas. Amplamente porque o que aconteceu em 27 de outubro n\u00e3o foi o primeiro turno de uma elei\u00e7\u00e3o presidencial. Isso aconteceu, de fato, no dia 11 de agosto, nas PASO (elei\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias, abertas, simult\u00e2neas e obrigat\u00f3rias) e ali as diferentes alian\u00e7as pol\u00edticas mediram suas for\u00e7as. Como naquela ocasi\u00e3o foi demonstrado que apenas Mauricio Macri tinha votos para contestar o poder eleitoral da Frente de Todos, o presidente atraiu as prefer\u00eancias dos eleitores de direita que haviam optado por outras candidaturas (Juan Jos\u00e9 G\u00f3mez Centuri\u00f3n ou Jos\u00e9 Luis Espert e alguns por Roberto Lavagna) e provavelmente com um segmento majorit\u00e1rio do maior afluxo de cidad\u00e3os que compareceu \u00e0s elei\u00e7\u00f5es neste domingo. De qualquer forma, existem algumas inc\u00f3gnitas que s\u00e3o dif\u00edceis de resolver e que levantam cada vez mais fundadas suspeitas sobre o veredito genu\u00edno das elei\u00e7\u00f5es. Por exemplo, \u00e9 dif\u00edcil entender o fato de a f\u00f3rmula de Fern\u00e1ndez-Fern\u00e1ndez ter aumentado seu fluxo eleitoral em apenas cerca de 250.000 votos, diminuindo sua porcentagem de gravita\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao PASO em quase um por cento e meio. Sim, seu rival cresceu, mas tenha feito isso isso com 2.350.000 votos e quase 7,5% causa pelo menos alguma curiosidade. \u00c9 \u00f3bvio que o macrismo beneficiou da fuga de votos para sua candidatura, mas seu crescimento parece t\u00e3o excessivo quanto o pouco que a Frente de Todos experimentou em um contexto de aprofundamento da crise econ\u00f4mica como a vivida pela Argentina nos \u00faltimos dois meses. Outro mist\u00e9rio da aritm\u00e9tica eleitoral \u00e9 o paradeiro dos 900.000 votos obtidos na PASO pelas duas candidaturas presidenciais do trotskismo e que foram reduzidos a pouco mais de 550.000 no \u00faltimo domingo. O que aconteceu com esses 350.000 votos desaparecidos: eles evaporaram, votaram em Macri?<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas perguntas que n\u00e3o podemos resolver aqui, mas que alimentam a suspeita de que pode ter havido uma fraude inform\u00e1tica muito sofisticada que certamente ser\u00e1 descoberta assim que o exame final da elei\u00e7\u00e3o terminar. De qualquer forma, al\u00e9m dessas descri\u00e7\u00f5es, os quase oito pontos percentuais que separam Fern\u00e1ndez de Macri (que podem ser aumentados quando os dados finais forem conhecidos) s\u00e3o, para uma vota\u00e7\u00e3o, uma diferen\u00e7a muito significativa. Lembre-se que, no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de Macri em 2015, Daniel Scioli foi imposto por dois pontos e meio, 2,68% de acordo com o resultado final. A verdade \u00e9 que a \u00e1rdua tarefa de reconstruir a economia e curar as profundas feridas que o macrismo deixou no tecido social s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel abandonando as receitas do neoliberalismo. Isso na Argentina causou a crise mais s\u00e9ria de sua hist\u00f3ria, pior que a traum\u00e1tica queda da conversibilidade em 2001. Ser\u00e1 como subir uma ladeira \u00edngreme, porque Macri deixa o pa\u00eds em profunda recess\u00e3o, acossado pela infla\u00e7\u00e3o e um desemprego de dois d\u00edgitos, com quase quarenta por cento das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e uma d\u00edvida enorme a curto prazo, nada menos do que com o FMI. Mas as insurrei\u00e7\u00f5es sociais do Chile e do Equador s\u00e3o um impedimento eloquente para desencorajar qualquer um que queira aconselhar o novo presidente que o que precisa ser feito \u00e9 imitar as realiza\u00e7\u00f5es do neoliberalismo, como eram conhecidas no Chile.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso concluir essa vis\u00e3o panor\u00e2mica da agonia do neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina sem mencionar o grave rev\u00e9s sofrido no domingo passado por essa corrente ideol\u00f3gica nas elei\u00e7\u00f5es regionais da Col\u00f4mbia. Nesse pa\u00eds, o autoproclamado Centro Democr\u00e1tico (que n\u00e3o \u00e9 nem um nem o outro, mas uma direita radical e visceralmente antidemocr\u00e1tica), partido ao qual pertencem \u00c1lvaro Uribe e o atual presidente Iv\u00e1n Duque, sofreu uma forte derrota na disputa travada nas duas principais cidades do pa\u00eds, Bogot\u00e1 e Medell\u00edn. Em ambas a oposi\u00e7\u00e3o de centro-esquerda se imp\u00f4s contra o uribismo, que s\u00f3 prevaleceu em duas das 32 prov\u00edncias da Col\u00f4mbia. Embora seja prematuro antecipar qualquer previs\u00e3o sobre o que poder\u00e1 acontecer nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022, a verdade \u00e9 que, se algo n\u00e3o era esperado na Col\u00f4mbia, era um trope\u00e7o t\u00e3o contundente da direita ultraneoliberal nessas cidades. Um sinal muito positivo, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Tampouco poderia p\u00f4r um fim a essas linhas sem compartilhar neste caso a preocupa\u00e7\u00e3o gerada pelo processo eleitoral no Uruguai, em cuja primeira rodada o candidato da Frente Ampla e ex-prefeito de Montevid\u00e9u, Daniel Mart\u00ednez, obteve 39,2% dos votos contra 28,6% de Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional Conservador. Isso prev\u00ea uma briga apertada na vota\u00e7\u00e3o que ocorrer\u00e1 em 24 de novembro, porque as for\u00e7as pol\u00edticas restantes da direita prometeram seu apoio a Lacalle Pou, incluindo a infeliz novidade da pol\u00edtica uruguaia: o &#8220;bolsonarismo&#8221; incorporado no partido Open Cabildo liderado pelo ex-comandante do Ex\u00e9rcito Nacional Guido Manini R\u00edos, fervoroso oponente de qualquer reivindica\u00e7\u00e3o de revis\u00e3o de casos de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos perpetrados pela ditadura no Uruguai e um cr\u00edtico severo de toda a legisla\u00e7\u00e3o progressista aprovada pela Frente Ampla em mais de quinze anos de governo. Nem tudo est\u00e1 perdido, mas faltam apenas quatro semanas para convencer o eleitorado uruguaio de que eleger um governo neoliberal em um momento em que essa corrente se desfaz em meio a tremendas revoltas sociais &#8211; no Chile, no Equador, no Haiti e antes no M\u00e9xico, com a vit\u00f3ria de L\u00f3pez Obrador &#8211; condenaria aquele pa\u00eds a seguir um caminho que terminar\u00e1 em um fracasso retumbante em todos os pa\u00edses da regi\u00e3o. Seria ing\u00eanuo pensar que o que produziu um holocausto social sem precedentes no M\u00e9xico, ap\u00f3s 36 anos (1982-2018) do cogoverno do FMI-PRI-PAN ou a grave crise que assola a Argentina e o desastre que devora o Chile e o Equador podem dar \u00e0 luz um resultado virtuoso de na\u00e7\u00e3o do Rio da Prata. Muito ter\u00e1 que trabalhar a Frente Ampla para que seus compatriotas observem atentamente o cen\u00e1rio regional e extraiam suas pr\u00f3prias consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Pomos um ponto final nesse panorama das vicissitudes da agonia e da morte do neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina. O morto est\u00e1 morto, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil discernir o que brotar\u00e1 de suas cinzas. Ser\u00e1 ditado, como em todos os processos sociais, pelas vicissitudes da luta de classes, pela clarivid\u00eancia das for\u00e7as dirigentes do processo de reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social; por sua aud\u00e1cia para fazer frente a todo tipo de conting\u00eancias e preservar a preciosa unidade das for\u00e7as pol\u00edticas e sociais democr\u00e1ticas e de esquerda; por sua coragem de interromper os planos e iniciativas dos l\u00edderes do passado, dos guardi\u00f5es da antiga ordem; pela efici\u00eancia com que o campo popular heterog\u00eaneo e tumultuado for organizado e conscientizado para combater seus inimigos de classe, o Imp\u00e9rio e seus aliados, o capitalismo como um sistema, que tem enormes recursos \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para preservar seus privil\u00e9gios e continuar suas imposi\u00e7\u00f5es. Ser\u00e1 uma tarefa herc\u00falea, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. &#8220;Tempos interessantes&#8221; e gr\u00e1vidos com grande potencial de mudan\u00e7a est\u00e3o chegando. A incerteza domina a cena, como sempre acontece em todos os momentos decisivos da hist\u00f3ria. Mas onde h\u00e1 certeza absoluta \u00e9 que ningu\u00e9m na Am\u00e9rica Latina pode enganar nosso povo, ou fingir ganhar elei\u00e7\u00f5es, dizendo que &#8220;devemos imitar o modelo chileno&#8221; ou seguir os passos do &#8220;melhor aluno&#8221; do Consenso de Washington. Foi isso que eles recomendaram por d\u00e9cadas &#8211; em v\u00e3o, visto o veredito final da hist\u00f3ria &#8211; o antes e loquaz e agora silencioso Mario Vargas Llosa, ao lado de uma infinidade de publicit\u00e1rios do neoliberalismo que impuseram suas fal\u00e1cias e sofismas com arrog\u00e2ncia, gra\u00e7as \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o privilegiada nos oligop\u00f3lios da m\u00eddia e dispositivos de propaganda da direita. Mas isso j\u00e1 \u00e9 passado. E n\u00e3o cometeremos a imbecilidade de fingir mostrar uma &#8220;neutralidade&#8221; implac\u00e1vel ou boas maneiras ao descartar essa corrente ideol\u00f3gica em seus funerais, desejando que ele &#8220;descanse em paz&#8221;, como \u00e9 feito com aqueles que deixaram uma marca virtuosa em sua passagem por este mundo. Em vez disso, o que diremos \u00e9: &#8220;V\u00e1 para o inferno, maldito, para purgar os crimes que voc\u00ea e seus mentores cometeram!&#8221;.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2019\/10\/30\/pensamiento-critico-agonia-y-muerte-del-neoliberalismo-en-america-latina\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24215\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[227],"class_list":["post-24215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6iz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}