{"id":2426,"date":"2012-02-16T01:37:45","date_gmt":"2012-02-16T01:37:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2426"},"modified":"2012-02-16T01:37:45","modified_gmt":"2012-02-16T01:37:45","slug":"entrevista-com-miguel-urbano-de-portugal-analise-a-crise-do-capitalismo-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2426","title":{"rendered":"Entrevista com Miguel Urbano de Portugal analise a crise do capitalismo mundial"},"content":{"rendered":"\n<p>Miguel Urbano Rodrigues acredita que um socialismo humanizado abrir\u00e1 ao homem a possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar integralmente, liberto das for\u00e7as que o oprimem h\u00e1 mil\u00eanios<\/p>\n<p><em>Nilton Viana <\/em><em>da Reda\u00e7\u00e3o &#8211; jornal Brasil de Fato<\/em><\/p>\n<p>\u201cO mundo est\u00e1 num caos em conseq\u00fc\u00eancia da crise global do capitalismo\u201d. Assim, o jornalista e escritor portugu\u00eas Miguel Urbano Rodrigues* define o atual cen\u00e1rio mundial. Para ele, a crise atual do capitalismo \u00e9 estrutural. Segundo o escritor, a crise, iniciada nos EUA, alastrou \u00e0 Europa e as medidas tomadas por Bush, primeiro, e Obama depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. \u201cOs EUA, polo do sistema que oprime grande parte da humanidade, mostram-se incapazes de controlar os colossais d\u00e9fices do or\u00e7amento e da balan\u00e7a comercial\u201d.<\/p>\n<p>Em entrevista exclusiva ao\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, Urbano diz que o grande capital pouco alterou as pr\u00e1ticas criminosas e fraudulentas que originaram a crise. Para ele, a fatura \u00e9 paga pelos trabalhadores que tiveram os seus sal\u00e1rios brutalmente diminu\u00eddos e suprimidas conquistas hist\u00f3ricas. Taxativo, afirma que as guerras fazem parte das alternativas imperialistas e que as agress\u00f5es militares s\u00e3o sempre precedidas de uma campanha midi\u00e1tica de \u00e2mbito mundial. Embora avesso a profecias, Urbano acredita que o socialismo do futuro ter\u00e1 as cores das sociedades que por ele optarem de acordo com as suas tradi\u00e7\u00f5es, cultura e peculiaridades de cada uma.<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato \u2013 O mundo vive hoje uma de suas maiores crises financeiras. Que avalia\u00e7\u00e3o o senhor faz dessa crise que tem se agudizado principalmente nos Estados Unidos e na Europa?<\/strong><\/p>\n<p>Miguel Urbano Rodrigues \u2013 O mundo est\u00e1 num caos em conseq\u00fc\u00eancia da crise global do capitalismo. \u00c9 uma crise estrutural. Nos pa\u00edses centrais a teoria da acumula\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona mais de acordo com a l\u00f3gica do capitalismo e, na busca de uma solu\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos, polo hegem\u00f4nico do sistema, multiplicam as guerras contra pa\u00edses do Terceiro Mundo para saquear os seus recursos naturais.<\/p>\n<p><strong>As medidas tomadas pelos governos, a seu ver, resolvem os graves problemas dessa crise? E o agravamento dessa crise, que \u00e9 estrutural do capitalismo, a seu ver, ir\u00e1 enfraquecer ainda mais o imperialismo?<\/strong><\/p>\n<p>A crise, iniciada nos EUA, alastrou \u00e0 Europa. As medidas tomadas por Bush, primeiro, e Obama depois, em vez de atenuarem a crise, agravaram-na. O objetivo foi salvar a banca, as seguradoras e grandes empresas \u00e0 beira da fal\u00eancia como as da ind\u00fastria do autom\u00f3vel. Mais de mil bilh\u00f5es foram investidos pelo Estado Federal nessa estrat\u00e9gia com resultados med\u00edocres. Um volume gigantesco de dinheiro (os d\u00f3lares emitidos) foi encaminhado para os respons\u00e1veis pela crise, enquanto a principal v\u00edtima, os trabalhadores estadunidenses, foi esquecida. Centenas de milhares de fam\u00edlias perderam as suas casas, e o desemprego aumentou muito em consequ\u00eancia de despedimentos maci\u00e7os. O grande capital pouco alterou as pr\u00e1ticas criminosas e fraudulentas que originaram a crise. \u00c9 significativo\u00a0que o atual secret\u00e1rio do Tesouro, Thimothy Geithner, que goza da total confian\u00e7a de Obama, seja um homem de Walt Street comprometido com as pol\u00edticas de desregulamenta\u00e7\u00e3o que tiveram efeitos funestos.<\/p>\n<p>Na Uni\u00e3o Europeia, que \u00e9 um gigante econ\u00f4mico mas um an\u00e3o pol\u00edtico, a estrat\u00e9gia adotada para enfrentar a crise foi diferente. A fragilidade do euro \u00e9 insepar\u00e1vel do fato de o d\u00f3lar ser, na pr\u00e1tica, a moeda universal cujas emiss\u00f5es s\u00e3o incontrol\u00e1veis. O Banco Central Europeu n\u00e3o pode imitar Washington.<\/p>\n<p>A crise atingiu primeiro pa\u00edses perif\u00e9ricos, como a Irlanda, a Gr\u00e9cia e Portugal. A Alemanha e a Fran\u00e7a, que p\u00f5em e disp\u00f5em em Bruxelas, sobrepondo-se \u00e0 Comiss\u00e3o Europeia e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias em geral, impuseram a esses tr\u00eas pa\u00edses \u201cpol\u00edticas de austeridade\u201d orientadas para a redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica dos d\u00e9fices or\u00e7amentais e a salva\u00e7\u00e3o da banca. A fatura foi paga pelos trabalhadores que tiveram os seus sal\u00e1rios brutalmente diminu\u00eddos, suprimidas conquistas hist\u00f3ricas como os subs\u00eddios de Natal e de f\u00e9rias, enquanto setores sociais como a Educa\u00e7\u00e3o e a Sa\u00fade eram duramente golpeados.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia e a Espanha encontram-se tamb\u00e9m \u00e0 beira de um colapso, na imin\u00eancia de pedirem \u00e0 Comiss\u00e3o Europeia e ao FMI uma \u201cajuda\u201d que agravaria extraordinariamente as condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora. Na Espanha o desemprego ultrapassa j\u00e1 os 21%.<\/p>\n<p>A chanceler Merckel e o presidente Sarkosy est\u00e3o, por\u00e9m, conscientes de que os efeitos da crise atingem tamb\u00e9m perigosamente os seus pa\u00edses. O Reino Unido, fora da zona euro, n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o; teme igualmente o agravamento da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste contexto o futuro do euro e da pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia apresentam-se sombrios. S\u00e3o a cada semana mais numerosos os pol\u00edticos e economistas que preconizam a sa\u00edda do euro de alguns pa\u00edses.<\/p>\n<p>Obviamente, as tens\u00f5es sociais na contesta\u00e7\u00e3o ao sistema assumem caracter\u00edsticas explosivas, sobretudo na Gr\u00e9cia, em Portugal, na Espanha e na It\u00e1lia.<\/p>\n<p><strong>Os EUA e as grandes pot\u00eancias da Uni\u00e3o Europeia puseram fim \u00e0s guerras interimperialistas, substituindo-as por um imperialismo coletivo. O senhor poderia explicar como t\u00eam se dado guerras?<\/strong><\/p>\n<p>O imperialismo evoluiu nas \u00faltimas d\u00e9cadas para responder \u00e0 crise do capitalismo. As guerras interimperialistas que na primeira metade do s\u00e9culo 20 devastaram a Europa e a \u00c1sia n\u00e3o v\u00e3o repetir-se; remot\u00edssima essa hip\u00f3tese. As contradi\u00e7\u00f5es entre as pot\u00eancias imperialistas mant\u00eam-se. Mas n\u00e3o s\u00e3o hoje antag\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Um imperialismo coletivo \u2013 a express\u00e3o \u00e9 do argentino Cl\u00e1udio Katz \u2013 substituiu o tradicional.<\/p>\n<p>Os seus contornos principiaram a definir-se na primeira guerra do Golfo e tornaram-se n\u00edtidos com as agress\u00f5es aos povos do Afeganist\u00e3o, do Iraque e da L\u00edbia.<\/p>\n<p>Hegemonizada pelos Estados Unidos, formou-se uma alian\u00e7a t\u00e1tica de que participam o Reino Unido, a Alemanha e a Fran\u00e7a, al\u00e9m de s\u00f3cios menores como a It\u00e1lia, a Espanha, o Canad\u00e1 e a Austr\u00e1lia, inclusive pa\u00edses da Europa do Leste, ex-socialistas.<\/p>\n<p><img border=\"0\" \/><\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o \u00e9 esse bloco imperialista que comanda o mundo hoje e fomenta as guerras?<\/strong><\/p>\n<p>A superioridade militar e tecnol\u00f3gica do bloco imperialista permite-lhe, com um custo de vidas reduzido, atacar e ocupar pa\u00edses do Terceiro Mundo para saquear os seus recursos naturais, nomeadamente os petrol\u00edferos.<\/p>\n<p>Isso ocorreu j\u00e1 no Afeganist\u00e3o, no Iraque e na L\u00edbia. Atinge agora a \u00c1frica com a interven\u00e7\u00e3o militar dos EUA em Uganda. O Africa Comand, por ora instalado na Alemanha, anuncia a cria\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito permanente para o continente africano, previsto para 100 mil homens.<\/p>\n<p>Obama j\u00e1 afirmou que a \u201cajuda militar\u201d (leia-se interven\u00e7\u00e3o) ao Sud\u00e3o do Sul, ao Congo e \u00e0 Rep\u00fablica Centro Africana depende de um simples pedido a Washington.<\/p>\n<p><strong>As guerras t\u00eam sido as sa\u00eddas para o capitalismo. Com essa crise, teremos novas guerras?<\/strong><\/p>\n<p>As agress\u00f5es militares s\u00e3o sempre precedidas de uma campanha midi\u00e1tica de \u00e2mbito mundial. A receita tem sido repetida com algum \u00eaxito. Para impedir a solidariedade internacional com os povos a serem alvo de agress\u00f5es previamente planejadas e semear a confus\u00e3o e a d\u00favida em milh\u00f5es de pessoas nos pa\u00edses desenvolvidos, os Estados Unidos e seus aliados promovem campanhas de sataniza\u00e7\u00e3o de l\u00edderes apresentados como ditadores implac\u00e1veis, ou terroristas que amea\u00e7am a humanidade. A invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o foi precedida da diaboliza\u00e7\u00e3o de Bin Laden \u2013 definido como inimigo n\u00famero 1 dos EUA \u2013 e a guerra do Iraque, da sataniza\u00e7\u00e3o de Sadam Hussein. No caso da L\u00edbia, Kadafi , que um ano antes era recebido com todas as honras em Paris, Londres, Roma e Madri, e tratado com defer\u00eancia por Obama, passou de repente a ser apresentado como um monstro sanguin\u00e1rio que submetia o seu povo a uma opress\u00e3o cruel. O desfecho \u00e9 conhecido: a aprova\u00e7\u00e3o pelo Conselho de Seguran\u00e7a da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) de uma \u201czona de exclus\u00e3o a\u00e9rea\u201d para \u201cproteger as popula\u00e7\u00f5es\u201d. Logo depois come\u00e7aram os bombardeios de uma guerra que durou sete meses, definida como \u201cinterven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u201d. Sabe-se hoje que a \u201cinsurrei\u00e7\u00e3o\u201d de Benghasi foi preparada com meses de anteced\u00eancia por comandos brit\u00e2nicos e agentes da CIA, dos servi\u00e7os secretos brit\u00e2nicos e franceses, e da Mossad israelense.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor avalia as consequ\u00eancias dessa crise para os pa\u00edses pobres, do chamado Terceiro Mundo?<\/strong><\/p>\n<p>O custo destas agress\u00f5es imperiais para os pa\u00edses por elas atingidos tem sido alt\u00edssimo. N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas cred\u00edveis sobre as destrui\u00e7\u00f5es de infraestruturas e o saque de bens culturais e sobre o n\u00famero de mortos civis resultante das guerras no Afeganist\u00e3o, no Iraque e na L\u00edbia. Mas o saldo dessa orgia de barb\u00e1rie ocidental ascende \u2013 segundo grandes jornais da Europa e dos EUA \u2013 a centenas de milhares.<\/p>\n<p>A sataniza\u00e7\u00e3o de Bachar Assad e do seu ex\u00e9rcito gera o temor de que a interven\u00e7\u00e3o imperial na S\u00edria esteja iminente. Mas o grande \u201cinimigo\u201d a abater \u00e9 o Ir\u00e3. Motivo: \u00e9 o \u00fanico entre os grandes pa\u00edses mu\u00e7ulmanos que n\u00e3o se submete \u00e0s exig\u00eancias do imperialismo.<\/p>\n<p>Israel amea\u00e7a atacar e incita os EUA a bombardear as instala\u00e7\u00f5es nucleares de Natanz. Obama conseguiu que o Conselho de Seguran\u00e7a aprovasse v\u00e1rios pacotes de san\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3, mas o Pent\u00e1gono hesita em envolver-se numa nova guerra contra um pa\u00eds que disp\u00f5e de uma capacidade de retaliar ponder\u00e1vel. A invas\u00e3o terrestre est\u00e1 exclu\u00edda e o bombardeio das instala\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas de Natanz com armas convencionais poderia, na opini\u00e3o dos especialistas, ser ineficaz.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o das guerras do Afeganist\u00e3o e do Iraque n\u00e3o \u00e9 animador para a Casa Branca. O presidente Obama ao anunciar a retirada das \u00faltimas tropas estadunidenses do Iraque sabe que mentiu aos seus compatriotas. Num discurso eleitoreiro, triunfalista, que pode ser qualificado de modelo de hipocrisia, afirmou que os Estados Unidos alcan\u00e7aram ali os objetivos previamente fixados. Na realidade a resist\u00eancia prossegue e dezenas de milhares de mercen\u00e1rios substitu\u00edram as for\u00e7as do Exercito e da For\u00e7a A\u00e9rea. Mas qualquer previs\u00e3o sobre futuras agress\u00f5es \u00e9 desaconselh\u00e1vel. Tudo se pode esperar da engrenagem do sistema imperial, comandado por um presidente elogiado como humanista e defensor da Paz quando, na realidade, a sua estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria configura uma amea\u00e7a sem precedentes \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p><img border=\"0\" \/><\/p>\n<p><strong>Como o senhor avalia o papel de organismos como a ONU, o FMI, o Banco Mundial e a OMC?<\/strong><\/p>\n<p>O Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) s\u00e3o instrumentos do sistema imperial, criados para o servir. Quanto \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), h\u00e1 que estabelecer a distin\u00e7\u00e3o entre a Assembleia-Geral e o seu \u00f3rg\u00e3o executivo, o Conselho de Seguran\u00e7a. A primeira, representativa de quase 200 Estados, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, mas as suas resolu\u00e7\u00f5es somente produzem efeito se referendadas pelo Conselho de Seguran\u00e7a. Ora este, manipulado pelos EUA, com o apoio do Reino Unido e da Fran\u00e7a, funciona h\u00e1 muito como instrumento da vontade dos tr\u00eas, at\u00e9 porque a R\u00fassia e a China, os outros membros permanentes, n\u00e3o t\u00eam exercido o direito de veto, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor v\u00ea os protestos e as mobiliza\u00e7\u00f5es que t\u00eam ocorrido em v\u00e1rios pa\u00edses, na chamada Primavera \u00c1rabe, na Gr\u00e9cia e nos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar \u00e9 \u00fatil esclarecer que a express\u00e3o \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d, muito divulgada pelos governos ocidentais e pela m\u00eddia \u00e9, por generalizante, fonte de confus\u00e3o. Os levantamentos populares no Egito e na Tun\u00edsia foram espont\u00e2neos e inesperados para o imperialismo. Triunfaram ambos, provocando a queda de Hosni Mubarak e de Ben Ali.<\/p>\n<p>No caso da Tunisia, a vit\u00f3ria de um partido islamista moderado nas recentes elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o representa um problema para o imperialismo. Tudo indica que as rela\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos e os grandes da Uni\u00e3o Europeia com Tunis ser\u00e3o cordiais como eram com o governo da ditadura.<\/p>\n<p>No Egito tudo permanece em aberto, porque o povo n\u00e3o aceitou o governo dos militares comprometidos com o imperialismo e continua a exigir a sua ren\u00fancia.<\/p>\n<p>No Bahrein e no I\u00e9men n\u00e3o houve qualquer \u201cprimavera\u201d. Washington e os seus aliados abstiveram-se de criticar os regimes que eram alvo dos protestos populares. No tocante ao Bahrein, base da V Frota da US Navy, os EUA manobraram de modo a que tropas sauditas e dos Emirados do Golfo invadissem o pequeno pa\u00eds e reprimissem com viol\u00eancia as manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os protestos populares na Europa e nos Estados Unidos contra regimes de fachada democr\u00e1tica, que na pr\u00e1tica s\u00e3o ditaduras da burguesia e do grande capital apresentam tamb\u00e9m caracter\u00edsticas muito diferenciadas.<\/p>\n<p>O acampamento inicial dos indignados em Madri funcionou como incentivo a movimentos similares em dezenas de cidades da Europa e dos EUA. Esses jovens sabem o que rejeitam e os motiva a lutar, mas n\u00e3o definem com um m\u00ednimo de precis\u00e3o uma alternativa ao capitalismo.<\/p>\n<p>Inspirado pelos espanh\u00f3is, o acampamento de Manhattan, realizado sob o lema \u201cOcupem Wall Street\u201d, alarmou a engrenagem do poder. A solidariedade de intelectuais progressistas como Noam Chomsky, Michael Moore e James Petras contribuiu para que o movimento alastrasse a muitas cidades.<\/p>\n<p><strong>No caso estadunidense, os protestos foram uma surpressa? Como o senhor analisa a rea\u00e7\u00e3o do governo dos Estados Unidos a estas manifesta\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o Obama foi inicialmente de surpresa. Mas perante a amplitude assumida pelo movimento recorreu a uma repress\u00e3o brutal. As conseq\u00fc\u00eancias dessa op\u00e7\u00e3o foram inversas das esperadas pelo governo. Os acontecimentos de Oakland, na Costa do Pac\u00edfico, demonstraram que a contesta\u00e7\u00e3o \u00e9 agora dirigida contra a engrenagem capitalista respons\u00e1vel pela crise que afeta 99% dos cidad\u00e3os e beneficia a apenas 1% , tema de um\u00a0<em>slogan <\/em>que j\u00e1 corre pelo pa\u00eds. A profundidade do descontentamento popular \u00e9 transparente. Uma certeza: alarma Obama e Wall Street.<\/p>\n<p>Paralelamente aos protestos espont\u00e2neos referidos, desenvolvem-se na Europa outros, promovidos pelos sindicatos e por partidos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A greve geral de novembro, em Portugal, e as grandes manifesta\u00e7\u00f5es de protesto ali realizadas traduziram n\u00e3o s\u00f3 a condena\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de direita impostas por Bruxelas e a submiss\u00e3o ao imperialismo, com perda de soberania, como a exig\u00eancia de uma pol\u00edtica progressista incompat\u00edvel com a engrenagem capitalista.<\/p>\n<p>\u00c9 sobretudo na Gr\u00e9cia que as massas exprimem em gigantescas e permanentes concentra\u00e7\u00f5es populares a sua determina\u00e7\u00e3o de lutarem contra o sistema capitalista at\u00e9 a sua destrui\u00e7\u00e3o Quinze greves gerais num ano, empreendidas sob a dire\u00e7\u00e3o de uma Frente Popular na qual o papel do Partido Comunista da Gr\u00e9cia \u00e9 fundamental, os trabalhadores da p\u00e1tria de P\u00e9ricles batem-se hoje com hero\u00edsmo pela humanidade inteira.<\/p>\n<p><strong>Frente a esse cen\u00e1rio de crise mundial do capitalismo, qual a alternativa para os povos? Como o senhor v\u00ea o futuro da Humanidade?<\/strong><\/p>\n<p>A \u00fanica alternativa cred\u00edvel \u00e0 barb\u00e1rie capitalista \u00e9 o socialismo. O capitalismo conseguiu superar desde o s\u00e9culo 19 sucessivas crises. Desta vez, por\u00e9m, enfrenta uma crise estrutural para a qual n\u00e3o encontra solu\u00e7\u00f5es. Os EUA, polo do sistema que oprime grande parte da humanidade, mostram se incapaze de controlar os colossais d\u00e9fices do or\u00e7amento e da balan\u00e7a comercial. Forjaram um tipo de contracultura monstruosa que pretendem impor a todo o planeta. Mas o decl\u00ednio do seu poder \u00e9 transparente e irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Por si s\u00f3, as gigantescas reservas de d\u00f3lares e os t\u00edtulos do Tesouro norte-americano que a China e o Jap\u00e3o acumularam, estimados aproximadamente em dois mil bilh\u00f5es de d\u00f3lares, s\u00e3o esclarecedores da fragilidade da economia dos Estados Unidos, um colosso com p\u00e9s de barro, hoje o pa\u00eds mais endividado do mundo.<\/p>\n<p>Sou avesso a profecias de qualquer natureza. Mas creio que o socialismo do futuro ter\u00e1 as cores das sociedades que por ele optarem de acordo com as suas tradi\u00e7\u00f5es, cultura e peculiaridades de cada uma \u2013 um socialismo humanizado que abrir\u00e1 ao homem a possibilidade de desenvolver todas as suas potencialidades e de se realizar integralmente, liberto das for\u00e7as que o oprimem h\u00e1 mil\u00eanios.<\/p>\n<p><strong>*<\/strong>Miguel Urbano Rodrigues \u00e9 jornalista e escritor portugu\u00eas. Redator e chefe de reda\u00e7\u00e3o de jornais em Portugal antes de se exilar no Brasil, onde foi editorialista principal do jornal\u00a0<em>O Estado de S. Paulo<\/em>e editor internacional da revista brasileira\u00a0<em>Vis\u00e3o<\/em>. Regressando a Portugal ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, foi chefe de reda\u00e7\u00e3o do jornal do Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP)\u00a0<em>Avante!<\/em>, e diretor de\u00a0<em>O Di\u00e1rio<\/em>. Foi ainda assistente de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, presidente da Assembleia Municipal de Moura, deputado da Assembleia da Rep\u00fablica pelo PCP entre 1990 e 1995 e deputado da Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da Uni\u00e3o da Europa Ocidental, tendo sido membro da comiss\u00e3o pol\u00edtica desta \u00faltima. Tem colabora\u00e7\u00f5es publicadas em jornais e revistas de duas dezenas de pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e da Europa e \u00e9 autor de mais de uma dezena de livros publicados em Portugal e no Brasil.<\/p>\n<p>http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/8729<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Brasil de Fato\n\n\n\n\n\n\n\n\n\u201cO socialismo do futuro ter\u00e1 as cores das sociedades que por ele optarem\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2426\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2426","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-D8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2426"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2426\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}