{"id":2428,"date":"2012-02-16T23:35:44","date_gmt":"2012-02-16T23:35:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2428"},"modified":"2012-02-16T23:35:44","modified_gmt":"2012-02-16T23:35:44","slug":"o-caso-eloa-quando-o-tragico-transforma-se-em-degradacao-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2428","title":{"rendered":"O CASO ELO\u00c1: QUANDO O TR\u00c1GICO TRANSFORMA-SE EM DEGRADA\u00c7\u00c3O HUMANA"},"content":{"rendered":"\n<p>O multimidi\u00e1tico julgamento do b\u00e1rbaro crime contra uma mulher, ainda que menina, a pobre Elo\u00e1, mais que um caso de passionalidade ou de torpeza do assassino, reflete imediatamente as formas de consci\u00eancia alienada da sociedade contempor\u00e2nea, em especial da especificidade dessa aliena\u00e7\u00e3o numa socialidade como a brasileira, onde a persist\u00eancia da &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221; machista \u00e9 refor\u00e7ada pela ignor\u00e2ncia do senso comum, pela baixa escolaridade das massas populares e pela manipula\u00e7\u00e3o permanente de uma m\u00eddia sem compromisso com a sociedade e com o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma trag\u00e9dia cotidiana, em que dezenas de Elo\u00e1s e Lindembergs s\u00e3o envolvidos no turbilh\u00e3o de uma forma societal dimensionada pelo mesquinho e pela superficialidade da mercantiliza\u00e7\u00e3o e coisifica\u00e7\u00e3o do ser humano. Uma sociedade mediada pela mercadoria e pela propriedade privada e que por seu\u00a0<em>ser-precisamente-assim<\/em>, gera nas rela\u00e7\u00f5es humanas a concep\u00e7\u00e3o de posse privada e coisificada do outro.<\/p>\n<p>S\u00e3o trag\u00e9dias milenares, \u00e9 verdade, t\u00e3o antigas como a propriedade privada, mas agora<em>redimensionadas \u00a0pela concep\u00e7\u00e3o capitalista da mercadoria<\/em>, que as \u00a0tornam mais perversas e profundamente desominizadoras. Por ser mercadoria, o tr\u00e1gico j\u00e1 n\u00e3o aparece com a forma do mundo grego arcaico, quando a trag\u00e9dia constituia-se em um recurso de reflex\u00e3o cat\u00e1rquica e intuitiva da mis\u00e9ria e dos conflitos \u00a0humanos, mas como circo midi\u00e1tico de mercado para venda dos programas de televis\u00e3o que vivem da explora\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es humanas degradadas.<\/p>\n<p>Pior, esses programas comandados pelos\u00a0<em>performers<\/em> da desgra\u00e7a alheia, fazem da mis\u00e9ria humana o show dos horrores, construindo uma nova e reacion\u00e1ria forma cat\u00e1rquica que refor\u00e7a o senso comum acr\u00edtico e conservador. Se o tr\u00e1gico do arca\u00edsmo grego contrapunha a \u00e9tica ao crime ou \u00e0 viola\u00e7\u00e3o das regras de coexist\u00eancia em sociedade, mesmo quando a a\u00e7\u00e3o violadora da lei apresentava-se com fundo de inconformismo extremo, como em Med\u00e9ia, onde Eur\u00edpedes recoloca o tema da \u00e9tica violentada (retomando a tem\u00e1tica da f\u00faria de Odisseu\/Ulisses contra a viola\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>virtude da lei<\/em> &#8211; Odiss\u00e9ia), agora essa no\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia\u00a0<em>torna-se imposs\u00edvel, porque esvaziada dos conte\u00fados reflexivos e da \u00e9tica<\/em>.<\/p>\n<p>Em tempos do que Luk\u00e1cs definiu como\u00a0<em>capitalismo manipulat\u00f3rio<\/em>, n\u00e3o cabe mais a no\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica do humano contradit\u00f3rio, composto pelo &#8220;bem e pelo mal&#8221; e\u00a0<em>mediado por uma \u00e9tica comunit\u00e1ria<\/em>.\u00a0<em>Em seu \u00a0lugar coloca-se o princ\u00edpio irracionalizado do bem contra o mal <\/em>, mesmo que seja realmente o mal, como no caso da pobre mo\u00e7a. Mas aqui, o mal aparece como pecado b\u00edblico que deve ser punido fundamentalisticamente, com a\u00a0<em>expia\u00e7\u00e3o do pecado <\/em>, o mal descontextualizado da pr\u00f3pria sociabilidade que o determina.<\/p>\n<p>Os\u00a0<em>performres <\/em> da mis\u00e9ria humana refor\u00e7am assim,\u00a0<em>a ideologia da expia\u00e7\u00e3o e da puni\u00e7\u00e3o do pecado <\/em>, n\u00e3o dando a menor chance para que se reflita sobre as &#8220;causas do mal&#8221;. Combate-se o que \u00e9 negativo com a negatividade da repress\u00e3o, como expressam esses arautos do senso comum. Apontam os pobres como os agentes do mal, n\u00e3o a pobreza e a ignor\u00e2ncia, filhas\u00a0<em>ct\u00f4nicas<\/em> da explora\u00e7\u00e3o e da aliena\u00e7\u00e3o da sociabilidade capitalista.<\/p>\n<p>A sociabilidade da mercadoria coisifica o humano, retira dele a no\u00e7\u00e3o de identidade do indiv\u00edduo que se<em>objetiva no outro<\/em>, como definia Marx,\u00a0<em>a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o da objetiva\u00e7\u00e3o da \u00a0individualidade do ser humano \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de si pelo outr<\/em>o, seja no \u00e2mbito da individualidade em si, seja no das rela\u00e7\u00f5es sociais. A\u00a0<em>fragmenta\u00e7\u00e3o da praxis humana<\/em>, a coisifica\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o do outro em mercadoria, recoloca alienadamente o homem como centro atomizado de si e da sociedade. Transforma o outro em instrumento, em meio de manipula\u00e7\u00e3o obscura de seus desejos, refor\u00e7a o individualismo e mercantiliza as rela\u00e7\u00f5es afetivas.<\/p>\n<p>O caminho para uma outra no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a \u00e9 o mesmo da constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociabilidade que n\u00e3o tenha a mercadoria como centro, quer dizer um longo caminho a percorrer mas que n\u00e3o impede que desde j\u00e1 possamos ir construindo formas alternativas de rela\u00e7\u00f5es sociais, como uma\u00a0<em>nova hegemonia <\/em>, que apontem para a hominiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7oes sociais e das formas de reprodu\u00e7\u00e3o da vida e que tenha como pressuposto a\u00a0<em>cr\u00edtica radical da sociabilidade burguesa<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Mazzeo\n\n\n\n\n\n\n\n\nAntonio Carlos Mazzeo, membro do Comit\u00ea Central do PCB\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2428\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-2428","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Da","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2428"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2428\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}