{"id":2433,"date":"2012-02-17T16:43:36","date_gmt":"2012-02-17T16:43:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2433"},"modified":"2012-02-17T16:43:36","modified_gmt":"2012-02-17T16:43:36","slug":"eleicoes-armadilha-para-tolos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2433","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es, armadilha para tolos"},"content":{"rendered":"\n<p>O fil\u00f3sofo marxista Jean Salem publicou recentemente um novo livro: \u201cEl\u00e9ctions, pi\u00e9ge \u00e0 cons\u201d. Publicamos a Introdu\u00e7\u00e3o desse importante texto, que coloca uma quest\u00e3o central: nos dias de hoje, em tantos lugares da Europa, \u00e9 atrav\u00e9s dos mecanismos eleitorais das democracias burguesas que for\u00e7as fascistas e de extrema-direita v\u00eam assumindo uma importante parcela do poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Em crian\u00e7a, depois em adolescente, e talvez mesmo at\u00e9 ao in\u00edcio dos anos 1980, interrog\u00e1vamo-nos como fora poss\u00edvel que povos amassados em cultura, como os alem\u00e3es em especial, tenham sido incapazes de prever aquilo que veio a ser feito, aquilo que foi cometido em seu nome antes e durante o per\u00edodo da Segunda Guerra Mundial. De forma acess\u00f3ria, essa interroga\u00e7\u00e3o servia para moderar os ardores daqueles que estavam sempre dispon\u00edveis para se inclinar perante a mais insignificante emo\u00e7\u00e3o popular e, em particular, perante aquelas que pareciam indicar a insatisfa\u00e7\u00e3o de tal ou tal frac\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses do \u201csocialismo real\u201d. E, sobretudo, ela proporcionava aos mais argutos a oportunidade para relembrar em cada dia uma evid\u00eancia que fere, ao que parece, o preconceito democr\u00e1tico: a de que os povos podem equivocar-se. E podem, consequentemente, votar mal\u2026 Hitler (podemos, naturalmente, lament\u00e1-lo) n\u00e3o se apossou do poder por meio de um golpe de Estado! Na elei\u00e7\u00e3o presidencial de Mar\u00e7o-Abril de 1932 tinha obtido 2,75 milh\u00f5es de votos, o que representava 37,3% do eleitorado, mas tinha sido ultrapassado, em qualquer caso, pelo marechal Hindenburg. Num contexto marcado, entretanto, pelas terr\u00edveis ac\u00e7\u00f5es violentas dos bandos nacional-socialistas (contavam-se \u00e0s centenas os mortos que estes tinham provocado apenas no decurso do m\u00eas de Julho, em confrontos de rua desde a Pr\u00fassia at\u00e9 Altona, a norte de Hamburgo), o NSDAP obteve igualmente 37,3% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es de 31 de Julho de 1932.<\/p>\n<p>De forma ainda mais gen\u00e9rica, o t\u00e3o prosaico percurso dos regimes ditos \u201crepresentativos\u201d s\u00f3 pode levar as pessoas de bom-senso a pensar, com Alexis de Tocqueville, que \u201caqueles que encaram o sufr\u00e1gio universal como uma garantia da qualidade das escolhas iludem-se completamente\u201d. O \u201cvoto universal\u201d, acrescentava Tocqueville, \u201cpossui outras vantagens, mas n\u00e3o essa\u201d (De la d\u00e9mocratie en Am\u00e9rique, II parte, cap. 5, Vrin, t. I, p 153). Porque ningu\u00e9m pode afirmar que a maioria tem sempre raz\u00e3o. Sobretudo quando essa maioria \u00e9 t\u00e3o evidentemente fabricada como o \u00e9 nos dias de hoje. Sem falar da imensa massa daqueles que deixaram de participar no jogo eleitoral, t\u00e3o frequentemente enganador, frustrante, entorpecedor mesmo. A tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica em que me integro aliou constantemente, pelo menos at\u00e9 ao s\u00e9culo XVIII, um muito grande optimismo naturalista a um carregado pessimismo em mat\u00e9ria de antropologia. Para o materialismo do Ancien R\u00e9gime, para o epicurismo antigo como para os grandes senhores do libertinismo, n\u00e3o se trata em nenhuma circunst\u00e2ncia de imaginar que, de progresso em progresso, todo o indiv\u00edduo aceder\u00e1 \u00e0s luzes da raz\u00e3o, \u00e0 sabedoria e \u00e0 felicidade. Os \u201cd\u00e9niais\u00e9s\u201d (\u201cdesparvecidos\u201d), como se designavam a si pr\u00f3prios, sabem bem que a religi\u00e3o \u00e9 um instrumento do poder de Estado; mas que o povo, t\u00eam eles o cuidado de acrescentar de imediato, n\u00e3o deixa de crer nela e de continuar a ignorar os seus truques. Em resumo, ser\u00e1 apenas com as Luzes, e a fortiori com o comtismo, o marxismo e outras doutrinas racionalistas datando do s\u00e9c. XIX que se formou, entre os adeptos do materialismo filos\u00f3fico, a ideia de uma poss\u00edvel convers\u00e3o dos humanos a op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas justas, morais, e suscept\u00edveis de trazer a felicidade a todos.<\/p>\n<p>E eis entretanto o estado em que estamos: os herdeiros do fascismo e do nacional-socialismo voltam a levantar a cabe\u00e7a na Europa\u2026 Aqui, \u00e9 um movimento fundado por um antigo torcion\u00e1rio que obt\u00e9m, desde h\u00e1 mais de vinte anos, entre 10% e 18% dos votos expressos. Acol\u00e1, o NPD, o Partido nacional democr\u00e1tico alem\u00e3o, obt\u00e9m 9,2% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es de 2004, no Saxe. Desde 1986 que os resultados obtidos pelo muito mal designado Partido austr\u00edaco da liberdade (FPO) n\u00e3o cessam de aumentar em elei\u00e7\u00f5es legislativas, chegando a atingir 27% dos votos expressos em 1999. Nessa altura o FPO era a segunda for\u00e7a pol\u00edtica na \u00c1ustria. Depois de uma descida transit\u00f3ria ressurgiu em for\u00e7a nas legislativas de 2008 com um resultado de 18%, ao qual devem ser acrescentados os 11% recolhidos pela Alian\u00e7a para o Futuro da \u00c1ustria (BZO) \u2013 ela pr\u00f3pria resultante de uma cis\u00e3o do FPO \u2013 o que d\u00e1 um total acumulado de 29% dos votos expressos a favor da extrema-direita! Na Noruega tamb\u00e9m, o FrP, o Partido do progresso, imp\u00f4s-se como a segunda for\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds ao alcan\u00e7ar 23% dos votos expressos quando das elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2009. Nos Pa\u00edses-Baixos, finalmente, 17% dos votos foram para a extrema-direita nas elei\u00e7\u00f5es europeias de Junho de 2009. Por todo o lado, ou quase, h\u00e1 governos aos quais n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o repugna formar alian\u00e7as com a extrema-direita ou mesmo a pedinchar o seu apoio (Dinamarca, Hungria); h\u00e1 governos \u2013 em geral eleitos, \u00e9 certo, ou pelo menos que alcan\u00e7aram o poder por meio de elei\u00e7\u00f5es \u2013 que entregam pastas de minist\u00e9rios a racistas certificados ou a aut\u00eanticos fascistas reconvertidos de fresca data em muito sinceros democratas (It\u00e1lia). Por toda a parte, o perigo ainda-rastejante-mas-j\u00e1-muito-pouco do regresso da peste negra ou da chegada das suas reencarna\u00e7\u00f5es p\u00f3s-modernas (B\u00e9lgica, Su\u00ed\u00e7a).<\/p>\n<p>Para sintetizar, existe j\u00e1 um problema que pode legitimamente agitar os nossos neur\u00f3nios: as campanhas eleitorais, as boas inten\u00e7\u00f5es e os escrut\u00ednios que a\u00ed v\u00eam ser\u00e3o suficientes para evitar que aqueles que militam \u00e0 esquerda, neste XXI\u00ba s\u00e9culo que come\u00e7a, n\u00e3o venham a acabar em campos (estilo antigo) ou em est\u00e1dios (estilo chileno)? Tanto mais que, como me dizia um estudante no decurso de uma prova oral bastante frustrante, \u201co capitalismo tem um grande problema: foi demasiado longe\u201d. Ou, dito por outras palavras, poderia culminar em apocalipse\u2026E nem os votos \u201c\u00fateis\u201d nem os p\u00e2nicos sem grande futuro dos pequenos burgueses poder\u00e3o constituir uma barreira eficaz contra o que a\u00ed vem! \u00c9 pensando nisso sobretudo, ou seja, no estado vacilante da nossa civiliza\u00e7\u00e3o que eu gostaria aqui de falar:<\/p>\n<p>1-\tDaquilo que eu chamarei de boa vontade o actual circo eleitoral;<\/p>\n<p>2-\tDa confisca\u00e7\u00e3o do poder que este circo autoriza e realiza perante n\u00f3s;<\/p>\n<p>3-\tDo regime de elei\u00e7\u00e3o ininterrupta no qual se faz viver nos dias de hoje o cidad\u00e3o das nossas esgotadas democracias, regime que \u00e9 parte integrante de um per\u00edodo de crise sobreaguda do capitalismo, de um per\u00edodo de perturba\u00e7\u00f5es e de ansiedade, de um per\u00edodo em que se sente o odor que antecede a guerra.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2380\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2380<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nJean Salem\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2433\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2433","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Df","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2433"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}