{"id":24345,"date":"2019-11-17T08:26:31","date_gmt":"2019-11-17T11:26:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24345"},"modified":"2019-11-20T15:59:51","modified_gmt":"2019-11-20T18:59:51","slug":"a-pobreza-num-pais-de-ricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24345","title":{"rendered":"A pobreza num pa\u00eds de ricos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/avoador.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/web-frei-betto-1923-1110x450.jpg?is-pending-load=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Sofia Manzano<\/p>\n<p>Avoador<\/p>\n<p>Segundo dados do IBGE, em 2018, no Brasil, 13,5 milh\u00f5es de pessoas recebiam menos de R$145,00 por m\u00eas, enquanto cerca de 2 milh\u00f5es de brasileiros receberam, em m\u00e9dia, R$ 27.744,00 mensais cada um<\/p>\n<p>Recentemente o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) divulgou os dados sobre a pobreza e a desigualdade no Brasil no ano de 2018. E, apesar de serem extremamente chocantes, para a maioria da popula\u00e7\u00e3o aparecem apenas como mais um amontoado de n\u00fameros e estat\u00edsticas abstratas que n\u00e3o os atinge. Por isso, \u00e9 preciso dar aten\u00e7\u00e3o a eles, de forma menos abstrata e mais concreta. Devemos entender o sentido do que isso realmente representa.<\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 bom lembrar que o Brasil est\u00e1 entre os dez pa\u00edses que mais produzem riqueza no mundo. O PIB (Produto Interno Bruto) do nosso pa\u00eds, c\u00e1lculo de tudo o que foi produzido durante o ano, em 2018, foi de R$ 6,8 trilh\u00f5es e, se toda essa riqueza fosse dividida igualmente entre todos os brasileiros (todos mesmos, inclusive as crian\u00e7as, os idosos, os presidi\u00e1rios, os ind\u00edgenas, enfim, todos os 209 milh\u00f5es de brasileiros), cada um receberia R$ 32.535,00 por ano (PIB per capita), ou R$ 2.711,24 por m\u00eas e, considerando uma fam\u00edlia de 4 pessoas, a renda mensal seria de R$ 10.845,00. Podemos nos questionar: quantas fam\u00edlias tem essa renda mensal?<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o PIB n\u00e3o pode ser simplesmente dividido entre a popula\u00e7\u00e3o, pois tem-se que considerar o investimento e a reposi\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios para a continuidade da produ\u00e7\u00e3o, no entanto, o PIB per capita \u00e9 uma medida muito interessante para verificar o grau de desigualdade de um determinado pa\u00eds.<\/p>\n<p>Passamos agora aos dados divulgados pelo IBGE. Segundo a pesquisa dos indicadores sociais, em 2018, o Brasil tinha 13,5 milh\u00f5es de pessoas que recebiam menos de R$ 145,00 por m\u00eas (ou R$ 1.740,00 por ano). Um quarto da popula\u00e7\u00e3o, ou seja, 52,5 milh\u00f5es de pessoas viviam com menos de R$ 420,00 por m\u00eas. Apenas comparando com o PIB per capita j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber porque a pobreza no Brasil \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o, uma quest\u00e3o que deveria deixar todo brasileiro minimamente indignado, uma vez que este n\u00e3o \u00e9, definitivamente, um pa\u00eds pobre.<\/p>\n<p>Na outra ponta da escala social, o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o, ou seja, cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas receberam, em m\u00e9dia, R$ 27.744,00 mensais cada um (ou R$ 332.928,00 por ano).<\/p>\n<p>Quem s\u00e3o os mais pobres<\/p>\n<p>A pobreza n\u00e3o est\u00e1 apenas na distribui\u00e7\u00e3o da renda entre a popula\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds, ela tamb\u00e9m se concentra, geograficamente, no Norte e no Nordeste. Historicamente, essas regi\u00f5es concentraram a maior parte da popula\u00e7\u00e3o pobre, no entanto, no interior das mesmas, a desigualdade tamb\u00e9m \u00e9 muito significativa e at\u00e9 maior que em outras regi\u00f5es. De acordo com o IBGE, se levarmos em conta apenas os rendimentos m\u00e9dios (o que n\u00e3o inclui a propriedade), no Piau\u00ed, por exemplo, os 10% mais ricos recebem 18 vezes mais que os 40% mais pobres.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a de renda tamb\u00e9m \u00e9 extrema entre o campo e a cidade. Enquanto a agricultura produz apenas 5,1% do PIB (o que comprova que o agroneg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 o trem que carrega o Brasil em seus vag\u00f5es), pelo menos 8,5 milh\u00f5es de pessoas trabalham nessa atividade, o que representa 9,2% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u00c9 importante notar que esse n\u00famero deve ser muito maior, uma vez que estes 8,5 milh\u00f5es envolvem apenas as pessoas com 14 anos ou mais, que \u00e9 o crit\u00e9rio utilizado pelo IBGE para a pesquisa sobre emprego e desemprego. No entanto, sabe-se que no campo as atividades produtivas envolvem as crian\u00e7as desde a mais tenra idade. A renda m\u00e9dia dos ocupados na atividade agr\u00edcola (excluindo os empregadores) foi de R$ 1.300,00. Enquanto essa mesma faixa de trabalhadores nas cidades atingiu de R$ 3.300,00.<br \/>\nra<\/p>\n<p>Outro fato importante a se destacar sobre os dados divulgados se refere ao emprego dom\u00e9stico. Esse tipo de trabalho, t\u00e3o pr\u00f3prio de pa\u00edses com passado recente escravista, empregou mais de 6 milh\u00f5es e duzentas mil pessoas e 72% delas sem carteira assinada. Al\u00e9m disso, \u00e9 um trabalho principalmente feminino, pois do total de 6,2 milh\u00f5es de pessoas, 5,8 milh\u00f5es s\u00e3o mulheres e apenas 400 mil s\u00e3o homens. Pode-se, tamb\u00e9m, considerar sub-calculado, uma vez que a pesquisa \u00e9 feita no domic\u00edlio e respondida pelos e pelas propriet\u00e1rias que podem ocultar a exist\u00eancia de trabalhadoras dom\u00e9sticas vivendo em suas casas, muitas vezes sem qualquer remunera\u00e7\u00e3o. Quando remuneradas receberam, em m\u00e9dia, R$ 878,00 mensais. \u00c9 a menor m\u00e9dia entre todas as divulgadas pelo IBGE.<\/p>\n<p>A pobreza tem cor<\/p>\n<p>As atividades econ\u00f4micas com as mais baixas remunera\u00e7\u00f5es s\u00e3o ocupadas, majoritariamente, pela popula\u00e7\u00e3o negra. No emprego dom\u00e9stico, como assinalado acima, 65% s\u00e3o negras e negros; na constru\u00e7\u00e3o civil s\u00e3o quase 63% e na agricultura s\u00e3o mais de 60%. Ou seja, a heran\u00e7a escravista n\u00e3o foi superada e reflete a segmenta\u00e7\u00e3o racial no mercado de trabalho. A discrimina\u00e7\u00e3o racial fica mais evidente quando se leva em considera\u00e7\u00e3o a diferen\u00e7a de remunera\u00e7\u00e3o que recebem negros e brancos com os mesmos n\u00edveis de escolaridade. Para todos os n\u00edveis, desde os analfabetos at\u00e9 aqueles com superior completo, os brancos recebem bem mais que os negros, chegando ao extremo de, entre aqueles com n\u00edvel superior completo, os brancos recebem 45% mais que os negros.<\/p>\n<p>Nestas tr\u00eas atividades, ou seja, servi\u00e7os dom\u00e9sticos, constru\u00e7\u00e3o civil e agricultura, encontram-se tamb\u00e9m a maioria de trabalhadores informais. Como j\u00e1 ressaltamos acima, entre as empregadas dom\u00e9sticas, 72% s\u00e3o informais; entre os trabalhadores na constru\u00e7\u00e3o civil s\u00e3o 63% e na agricultura s\u00e3o 68% os informais.<br \/>\no<\/p>\n<p>Quando se observa o rendimento domiciliar per capita, ou seja, somando-se todos os rendimentos da fam\u00edlia e dividindo-se pelo n\u00famero de pessoas, pode-se perceber que em todos os crit\u00e9rios de segmenta\u00e7\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e1 sempre em pior situa\u00e7\u00e3o. Em m\u00e9dia, a popula\u00e7\u00e3o branca recebe o dobro da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p>As compara\u00e7\u00f5es que o IBGE faz entre os dados coletados em 2018 e os anos anteriores demonstram a r\u00e1pida deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o mais pobre do pa\u00eds. Em todos os elementos constitutivos das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia numa economia capitalista, ou seja, o acesso \u00e0 renda monet\u00e1ria, os pobres est\u00e3o cada vez mais pobres e n\u00e3o devido \u00e0 crise, mas, fundamentalmente devido \u00e0s decis\u00f5es pol\u00edticas que foram tomadas recentemente.<\/p>\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 queda no n\u00edvel de atividade econ\u00f4mica, tamb\u00e9m reflete a reforma trabalhista que fez aumentar a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e reduzir as garantias legais aos trabalhadores.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do conservadorismo fascista faz piorar as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia de grupos j\u00e1 tradicionalmente segregados, como as mulheres, os negros, e ainda mais, as mulheres negras e a popula\u00e7\u00e3o LGBTQ+.<\/p>\n<p>Neste artigo n\u00e3o tratamos das pol\u00edticas assistenciais do estado, mas tamb\u00e9m a retra\u00e7\u00e3o destas se faz refletir no aumento da pobreza e na concentra\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, vale lembrar que h\u00e1 poucas semanas foram divulgados os dados de lucratividade dos bancos, que alcan\u00e7ou mais de R$ 109 bilh\u00f5es em doze meses.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, esperamos que os trabalhadores e as trabalhadoras entrem em cena.<\/p>\n<p>*Sofia Manzano \u00e9 professora da Uesb, economista (PUC\/SP) e mestre em economia (UNICAMP). Doutoranda em Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica (USP), autora do livro Economia pol\u00edtica para trabalhadores (ICP, 2\u00aa ed., S\u00e3o Paulo: 2019) e pesquisadora nas \u00e1reas de trabalho, desigualdade, pol\u00edtica econ\u00f4mica e teoria econ\u00f4mica. Al\u00e9m disso, ela participa do conselho editorial das revistas Cr\u00edtica Marxista e Novos Temas.<\/p>\n<p>Imagem de capa: www.debatenews.com.br<\/p>\n<p>https:\/\/avoador.com.br\/jornalismo-importa\/a-pobreza-num-pais-de-ricos\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24345\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,20],"tags":[219],"class_list":["post-24345","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-c1-popular","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6kF","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24345\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}