{"id":24351,"date":"2019-11-19T06:04:37","date_gmt":"2019-11-19T09:04:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24351"},"modified":"2019-11-19T06:04:37","modified_gmt":"2019-11-19T09:04:37","slug":"os-limites-do-progressismo-pos-moderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24351","title":{"rendered":"Os limites do progressismo p\u00f3s-moderno"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/atilioboron.com.ar\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/bolivia-miles-indigenas-simpatizantes-partidarios-evo-morales-golpe-estado-whipala-la-paz-12112019-482x220.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Atilio Boron<\/p>\n<p>Compartilho a excelente nota de N\u00e9stor Kohan sobre o assunto, que destaca a CAPITULA\u00c7\u00c3O TE\u00d3RICA E PR\u00c1TICA do feminismo e autonomismo p\u00f3s-modernos, a primeira indiferente \u00e0s vexa\u00e7\u00f5es e \u00e0 viol\u00eancia desencadeada sobre as mulheres ind\u00edgenas e a segunda negando que na Bol\u00edvia houve um golpe de estado (&#8220;uma revolta popular&#8221;, dizem eles!) e o massacre perpetrado pelos conspiradores. Nomes brilhantes desta t\u00e3o irrepar\u00e1vel quanto previs\u00edvel rendi\u00e7\u00e3o ao discurso e \u00e0 pol\u00edtica do imperialismo e da direita vernacular s\u00e3o os de Silvia Rivera Cusicanqui, Raquel Guti\u00e9rrez Aguilar e Ra\u00fal Zibechi, aos quais cabe agregar os de Ra\u00fal &#8220;Chato&#8221; Prada, Pablo Sol\u00f3n e de alguns outros que, diante das circunst\u00e2ncias tr\u00e1gicas como as da Bol\u00edvia, se puseram num sil\u00eancio que s\u00f3 pode ser descrito como c\u00famplice, caso de Luis Tapia, por exemplo. Em seguida, a nota de Nestor Kohan:<\/p>\n<p>GOLPE DE ESTADO NA BOL\u00cdVIA:<br \/>\nDISCUSS\u00d5ES PENDENTES E SIL\u00caNCIOS C\u00daMPLICES<\/p>\n<p>NESTOR KOHAN<\/p>\n<p>Revista Espoiler (Universidade de Buenos Aires)<\/p>\n<p>Nossa \u00e9poca, ap\u00f3s a crise de 2008, \u00e9 a do neocolonialismo imperialista. As cadeias de forma\u00e7\u00e3o de valor s\u00e3o quebradas, terceirizadas e globalizadas, enquanto a produ\u00e7\u00e3o capitalista &#8211; mantendo o controle das empresas e dos estados centrais &#8211; se desloca em suas unidades produtivas, movendo-se e ampliando-se para o Sul Global. A superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho (principalmente feminina e prec\u00e1ria) \u00e9 intensificada. A busca voraz e opressora pelos recursos naturais do Terceiro Mundo se torna fundamental e vital para diminuir o valor do capital constante e neutralizar a queda na taxa de lucro em meio \u00e0 crise capitalista global. Um processo que, em tempos de cat\u00e1strofes ambientais, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e escassez de recursos n\u00e3o renov\u00e1veis, supera o antigo colonialismo da distribui\u00e7\u00e3o do mundo em &#8220;\u00e1reas de influ\u00eancia&#8221;. As assimetrias entre diferentes forma\u00e7\u00f5es sociais incentivam uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho, reproduzindo hierarquias, depend\u00eancias, domina\u00e7\u00f5es e aprofundando o desenvolvimento desigual do capitalismo em todo o mundo.<\/p>\n<p>Nesse contexto, Nossa Am\u00e9rica \u00e9 atravessada por m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es. Mas o fator principal e determinante \u00e9 a disputa entre: (a) o dom\u00ednio geopol\u00edtico, econ\u00f4mico e cultural do imperialismo dos EUA (principalmente as empresas multinacionais e o aparato pol\u00edtico-militar dos Estados Unidos que as protege) e (b) o bloco latino-americano das classes subalternas (classe trabalhadora, camponeses sem terra, segmentos de trabalhadores precarizados sujeitos \u00e0 superexplora\u00e7\u00e3o do capital) e movimentos rebeldes em luta (dos quais os povos origin\u00e1rios constituem a grande maioria em escala continental, acompanhados por outros cada vez mais mobilizados, como mulheres anti-imperialistas e ambientalistas, entre v\u00e1rias outras).<\/p>\n<p>Em suma: m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es e v\u00e1rias formas de luta, incluindo em (b) desde movimentos sociais que chegaram ao Estado a espa\u00e7os de resist\u00eancia extra-institucionais, legais, semilegais e clandestinos.<\/p>\n<p>Nesse horizonte social, hist\u00f3rico e geogr\u00e1fico, a Bol\u00edvia constitui uma sociedade heterog\u00eanea na qual, nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas (a partir do decreto privatizante 21.060 de 29\/8\/1985) no campo popular, dois movimentos hist\u00f3ricos convergiram: a tradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e comunit\u00e1ria e a tradi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria dos mineiros. Duas correntes heterog\u00eaneas cujas rebeli\u00f5es e demandas algumas vezes se encontraram e outras n\u00e3o. Evo Morales e o MAS, como movimento pol\u00edtico, conseguiram articular e cruzar as duas tradi\u00e7\u00f5es (n\u00e3o de um suposto &#8220;significante vazio&#8221;, segundo o jarg\u00e3o de Ernesto Laclau, mas propondo um projeto pol\u00edtico-hist\u00f3rico integrador e descolonizador, claramente definido em suas determina\u00e7\u00f5es de hegemonia popular sobre a antiga &#8220;rep\u00fablica colonial, dependente e racista&#8221;).<\/p>\n<p>Os resultados \u00e0 vista. Por ser o segundo pa\u00eds mais pobre da Am\u00e9rica Latina, a Bol\u00edvia passou a ter o maior crescimento do PIB, a maior diminui\u00e7\u00e3o da pobreza, a distribui\u00e7\u00e3o mais radical de renda e uma not\u00e1vel queda da infla\u00e7\u00e3o, contrastando com a crise econ\u00f4mica de todos os seus vizinhos na regi\u00e3o. N\u00e3o iniciou, por\u00e9m, a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, mas o s\u00e9culo XX mostrou que o socialismo n\u00e3o pode ser constru\u00eddo em um pa\u00eds isolado. At\u00e9 agora alcan\u00e7ou uma sociedade muito mais igualit\u00e1ria em um contexto de crise capitalista global, aguda e sist\u00eamica, onde o capital subsumiu formal e realmente a maioria das tentativas de iniciar a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. Tudo isso foi alcan\u00e7ado coletivamente e com a lideran\u00e7a pol\u00edtica, pela primeira vez na hist\u00f3ria, de um presidente ind\u00edgena. Um exemplo para todo o &#8220;altermundismo&#8221; (n\u00e3o apenas latino-americano) que teve que extirpar na raiz, como antes com o amigo de Evo, Hugo Chavez!<\/p>\n<p>Por isso, o aparato pol\u00edtico-militar dos Estados Unidos (pa\u00eds cujo embaixador fora expulso da Bol\u00edvia, bem como a USAID, o NED e outras ag\u00eancias de espionagem dos EUA) planejou, organizou e orientou o golpe de estado contra Evo Morales, que venceu legalmente as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es com uma diferen\u00e7a de 648.439 votos, ou seja, 10,5 pontos, sem nenhuma &#8220;fraude&#8221; [Long, Guillaume; Rosnick, David; Kharrazian, Cavan e Cashman, Kevin (2019, novembro): \u00abO que aconteceu na contagem de votos das elei\u00e7\u00f5es na Bol\u00edvia em 2019? O papel da miss\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o eleitoral da OEA \u00bb. Washington DC, Centro de Pesquisa Econ\u00f4mica e Pol\u00edtica (CEPR). Em http:\/\/cepr.net (acessado em 14\/11\/2919)]. Para conhecer nomes e sobrenomes espec\u00edficos de funcion\u00e1rios dos EUA envolvidos, quantias em dinheiro, tipos de armas, rotas para introdu\u00e7\u00e3o das mesmas na Bol\u00edvia, funda\u00e7\u00f5es e igrejas evang\u00e9licas envolvidas e outros detalhes dos bastidores do golpe de Estado, sugerimos consultar Jalife Rahme, Alfredo (14\/11\/2019): \u00abRevelando o plano dos Estados Unidos para o golpe na Bol\u00edvia: nomes e sobrenomes, rela\u00e7\u00e3o da Embaixada e pa\u00edses vizinhos\u00bb [en www.conclusion.com.ar (consultado el 14\/11\/2019)].<\/p>\n<p>Por que desta vez os Estados Unidos n\u00e3o colocaram um ditador militar cl\u00e1ssico na cabe\u00e7a do golpe boliviano, como Barrientos, Banzer, Garc\u00eda Meza ou Videla, Pinochet, Stroessner? Porque o complexo industrial militar dos EUA (Eisenhower dixit) e a Casa Branca decidiram converter as For\u00e7as Armadas da Am\u00e9rica Latina em uma pol\u00edcia antinarc\u00f3ticos interna muito mais d\u00f3cil e administr\u00e1vel (sem abandonar as doutrinas contrainsurgentes), que j\u00e1 n\u00e3o se ocupe mais de exercer seu controle, mesmo desp\u00f3tico, sobre o mercado interno e o Estado na\u00e7\u00e3o. As velhas For\u00e7as Armadas doutrinadas e treinadas no Panam\u00e1, na Escola das Am\u00e9ricas e em West Point poderiam desencadear, sem deixar de ser fascistas, genocidas nem dependentes, uma inesperada guerra das Malvinas ou produzir um Noriega que sairia do controle. Hoje as ditaduras que os Estados Unidos dirigem s\u00e3o civis, policiais e militares! \u00c9 por isso surgem \u00e0 frente que as marionetes e caricaturas de um tal Juan Guaid\u00f3 ou Jeanine A\u00f1ez. &#8220;Democratas&#8221; que se proclamam presidentes sem terem sido eleitos por ningu\u00e9m. Sem poder real, exceto para abrir as portas \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o imperial e \u00e0 entrega de recursos naturais. Simples fotoc\u00f3pias borradas de um Porto Rico oficial (n\u00e3o o independentista), com sonhos de se tornar filiais sulamericanas de Miami.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da Bol\u00edvia, a esse condimento de fascismo dependente, mafioso e lumpen, acrescenta-se o racismo extremo, de origem colonial furiosamente anti-ind\u00edgena, apenas compar\u00e1vel \u00e0 ideologia neonazista em favor da &#8220;supremacia branca&#8221; dos b\u00f4eres e Afrikaners da \u00c1frica do Sul durante o Apartheid. N\u00e3o por acaso, a Bol\u00edvia recebeu criminosos de guerra croatas em Santa Cruz de la Sierra ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, muitos deles ativos na pol\u00edtica dom\u00e9stica at\u00e9 hoje, assim como Klaus Barbie, outro criminoso nazista da SS que, ao chegar \u00e0 Bol\u00edvia, dirigia os servi\u00e7os de intelig\u00eancia nativos, sendo recrutado ao mesmo tempo pela Esta\u00e7\u00e3o da CIA. Esse racismo extremista ficou nu quando os conspiradores contra Evo Morales queimaram publicamente o Whipala, s\u00edmbolo da bandeira dos povos origin\u00e1rios e car\u00e1ter plurinacional do Estado boliviano.<\/p>\n<p>A sujeira desse racismo \u00e9 &#8220;espiritualmente&#8221; envernizada, \u00e9 claro, pelo \u00f3leo sagrado e pelos apelos ao fundamentalismo religioso e ao fundamentalismo do neopentecostalismo, dos m\u00f3rmons e da extrema direita do evangelismo, cada dia mais poderosos na regi\u00e3o, como ficou descoberto n\u00e3o apenas com o discurso ao estilo \u201cPastor \/ Pregador\u201d do Camacho boliviano, mas tamb\u00e9m com o brasileiro Bolsonaro. O suposto &#8220;Deus de ra\u00e7a branca&#8221; retorna, mais uma vez, para acompanhar e legitimar a submiss\u00e3o das comunidades ind\u00edgenas nativas. Uma heran\u00e7a da conquista europeia pelo \u00f3leo sagrado e pelos apelos ao fundamentalismo religioso e ao fundamentalismo do neopentecostalismo, dos m\u00f3rmons e da extrema direita do evangelismo, cada dia mais poderosos na regi\u00e3o, como foi descoberto n\u00e3o apenas com o discurso &#8220;Pastor \/ Pregador&#8221; Camacho boliviano, mas tamb\u00e9m com o brasileiro Bolsonaro. O suposto &#8220;Deus branco&#8221; retorna, mais uma vez, para acompanhar e legitimar a submiss\u00e3o das comunidades ind\u00edgenas nativas. Uma heran\u00e7a da conquista europeia. Diante de um ataque anunciado e previs\u00edvel da extrema direita golpista, por que em 13 anos de gest\u00e3o estatal o MAS n\u00e3o preparou ou conseguiu organizar uma defesa futura do processo de mudan\u00e7a que n\u00e3o dependesse das institui\u00e7\u00f5es tradicionais, do ex\u00e9rcito e da pol\u00edcia?<\/p>\n<p>Mat\u00e9ria de saldos pendentes &#8230; e, talvez, de futuras autocr\u00edticas?<\/p>\n<p>No entanto, sem subestimar ou ocultar defici\u00eancias dos anos de gest\u00e3o do MAS ou discuss\u00f5es abertas no futuro, a pat\u00e9tica interven\u00e7\u00e3o [divulgada no YouTube e transcrita em: https:\/\/desinformemonos.org\/esta-coyuntura-nos-ha-dejado- uma-grande-li\u00e7\u00e3o-contra-triunfalismo-silvia-rivera-cusicanqui-da-bol\u00edvia \/ (acessado em 14\/11\/2019)] da famosa ensa\u00edsta Silvia Rivera Cusicanqui fornece elementos para a an\u00e1lise. Sua interven\u00e7\u00e3o controversa e indefens\u00e1vel, que nega sem vergonha a exist\u00eancia do golpe contra Evo, a torna &#8230; em nome do feminismo p\u00f3s-colonial (feminismo curioso e ex\u00f3tico, seu, que n\u00e3o denuncia a vexa\u00e7\u00e3o das mulheres ind\u00edgenas por parte dos golpistas, os ataques com bazucas de grupos paramilitares contra mobiliza\u00e7\u00f5es de mulheres que se manifestavam em apoio a Evo nem sequer a viol\u00eancia f\u00edsica exercida contra a dirigente do MAS Adriana Salvatierra, presidenta do Senado).<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses sil\u00eancios c\u00famplices, o interessante est\u00e1 em seus questionamentos. Desqualificando com um ar de arrog\u00e2ncia e suposta superioridade &#8211; uma c\u00f3pia do estilo de Gay Spivak e seus ataques a Marx? &#8211; Silvia Rivera ataca a &#8220;nostalgia da esquerda&#8221; [sic] na Bol\u00edvia. E da\u00ed se encoraja e acusa o nome e sobrenome Juan Ram\u00f3n Quintana, ex-ministro da Presid\u00eancia da Bol\u00edvia, autor de um volumoso trabalho sobre interfer\u00eancia americana no pa\u00eds andino e m\u00e3o direita de Evo Morales, de tentar armar os povos origin\u00e1rios e formar um ex\u00e9rcito indiano. Acusa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m se estende contra Hugo M\u00f3ldiz. Como se fosse um pecado e houvesse um mandato para &#8220;dar a outra face&#8221; contra a viol\u00eancia irracional da extrema direita racista!<\/p>\n<p>Diante de tal absurdo ideol\u00f3gico e pol\u00edtico, n\u00e3o podemos deixar de interrogar: quem financia esse distinto expoente do oenegerismo &#8220;p\u00f3s-colonial&#8221;?<\/p>\n<p>Se para o p\u00f3s-modernismo de Silvia Rivera, o golpe de estado contra o presidente constitucional Evo Morales \u00e9 t\u00e3o somente \u00abuma hip\u00f3tese\u00bb [sic], um relato, um discurso [os jovens mutilados, as mulheres violentadas e os ind\u00edgenas assassinados pelos golpistas sofre essas agress\u00f5es no imagin\u00e1rio e no \u00e2mbito dos discursos narrativos ou acontece no \u00e2mbito do real?], para a acad\u00eamica Raquel Gutierrez Aguilar a derrubada violenta do presidente boliviano que ganhou as elei\u00e7\u00f5es com mais de 10% de diferen\u00e7a se explicaria pela enorme semelhan\u00e7a entre a Bol\u00edvia do MAS e \u2026 o autoritarismo do M\u00e9xico do PRI [https:\/\/www.elsaltodiario.com\/bolivia\/bolivia-la-profunda-convulsion-que-lleva-al-desastre- (Consultado em 14\/11\/2019)]. Extravagante utiliza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo comparativo! Como se Evo Morales pudesse ser comparado com a hierarquia corrupta do PRI mexicano! Como se a constante consulta eleitoral da Bol\u00edvia nos \u00faltimos 13 anos e o di\u00e1logo com os movimentos sociais pudessem ser associados ao fisiologismo da velha pol\u00edtica anti-ind\u00edgena mexicana. A que grau de involu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica pode levar o ressentimento das pessoas que se transformam em EX revolucion\u00e1rias, perdendo a b\u00fassola na cartografia da luta de classes latino-americana!<\/p>\n<p>Mas quem ganhou todos os pr\u00eamios em desorienta\u00e7\u00e3o acad\u00eamica diante dos tr\u00e1gicos eventos recentes na Bol\u00edvia foi o autonomista Ra\u00fal Zibechi. O mesmo que tentou nos explicar quem estava na rua na rebeli\u00e3o popular de 19 e 20 de dezembro de 2001, o que, pobrezinhos e pobrezinhas, n\u00e3o hav\u00edamos entendido e ele, iluminado por seu suposto \u201chorizontalismo\u201d ou oenegero, veio nos revelar. Superando a si mesmo, desta vez ele quebrou todos os recordes anteriores, defendendo um apoio &#8220;cr\u00edtico&#8221; embara\u00e7oso ao golpe contra Evo, chamando-o de &#8220;revolta popular&#8221; [https:\/\/desinformemonos.org\/bolivia-un-levacimiento-popular-aprovechado-por-la-ultraderecha \/ (Acessado em 14\/11\/2019)]. Esse publicit\u00e1rio at\u00e9 argumenta que Evo Morales, com certeza, &#8220;fraudulento&#8221;, permaneceu no governo &#8230; gra\u00e7as \u00e0 OEA. Por Zeus! Plat\u00e3o exclamaria &#8230; em um de seus di\u00e1logos pedag\u00f3gicos. Agora vimos a luz, gra\u00e7as ao inocentes, bem-intencionados e humanit\u00e1rios dinheirinhos das ONGs.<\/p>\n<p>Apesar dessa not\u00e1vel virada \u00e0 direita das ONGs p\u00f3s-coloniais, &#8220;feministas&#8221; e autonomistas de sal\u00f5es &#8230; nem tudo cheira a podre na Dinamarca, digo, na Am\u00e9rica Latina. Felizmente, outras vozes dissidentes denunciaram o golpe de estado e o encobrimento da m\u00eddia (tamb\u00e9m acad\u00eamico) dos quatro ventos. Essas vozes desobedientes nos lembraram que a atividade intelectual pode ser exercida e at\u00e9 obter algum reconhecimento internacional sem a necessidade de subordinar a voz do mestre ou repetir o script &#8220;humanit\u00e1rio&#8221; financiado por &#8220;institui\u00e7\u00f5es altru\u00edstas que apoiam a sociedade civil&#8221; com d\u00f3lares ou euros do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Por exemplo, Leonardo Boff, Enrique Dussel, Gilberto L\u00f3pez e Rivas, Atilio Bor\u00f3n, Pablo Gonz\u00e1lez Casanova, entre tantas pessoas, se manifestaram contra o GOLPE DE ESTADO e em defesa do processo liderado por Evo Morales e os movimentos sociais. Trazendo ar fresco, Ram\u00f3n Grosfogel, um defensor hist\u00f3rico dos estudos descoloniais, repreendeu duramente Silvia Rivera Casucanqui por sua nega\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna do golpe na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Os desafios contra essa suposta &#8220;esquerda progressista&#8221; que fala do meio ambiente, dos povos subalternos, do patriarcado e que podem substituir L\u00eanin, Bol\u00edvar ou Che pelo veganismo e aloe vera &#8230; mas n\u00e3o coram contra a queima p\u00fablica da bandeira ind\u00edgena Whipala na Bol\u00edvia, nem fica com vergonha de marchar a reboque da agenda pol\u00edtica das Embaixadas (com letras mai\u00fasculas) dos EUA ao redor do mundo, permite-nos distinguir os projetos radicalmente anticolonialistas das imposi\u00e7\u00f5es que seguem a moda do momento.<\/p>\n<p>Lembremos que esses alinhamentos j\u00e1 estavam surgindo diante da autoproclama\u00e7\u00e3o do novo rei Guaid\u00f3, da dinastia do Departamento de Estado, contra o suposto &#8220;autoritarismo&#8221; do movimento bolivariano na Venezuela. O golpe de estado contra Evo Morales aprofundou o que vinha ocorrendo na Academia desde as den\u00fancias e pedidos contra o &#8220;autoritarismo&#8221; de Nicol\u00e1s Maduro. Muitos e muitos desses denunciantes em s\u00e9rie exigem que os povos origin\u00e1rios continuem sem hospitais, sem asfalto, com casas prec\u00e1rias e sem a possibilidade de se comunicar com \u00e1reas e aldeias distantes, enquanto eles e elas viajam de avi\u00e3o, t\u00eam o \u00faltimo modelo de computador, o telefone celular mais caro e sofisticado e casas com empregadas dom\u00e9sticas (&#8220;a garota que me ajuda&#8221;). S\u00e3o defensores e defensoras hip\u00f3critas de Pachamama, desde que sejam os &#8220;bons selvagens&#8221; idealizados, mas em sua vida privada n\u00e3o renunciam a nenhum avan\u00e7o tecnol\u00f3gico nem ao luxo da modernidade ocidental. Essas mesmas pessoas com discurso duplo e moral tripla agora d\u00e3o as costas aos ind\u00edgenas, trabalhadores e movimento popular boliviano. Estamos indignados, mas n\u00e3o surpresos.<\/p>\n<p>Finalmente. Foi uma boa decis\u00e3o se exilar da Bol\u00edvia? Somente a hist\u00f3ria pode responder. Mas lembre-se de que, quando ocorreu o golpe de Estado contra Ch\u00e1vez, ele entrou em contato com Fidel Castro. O antigo l\u00edder da revolu\u00e7\u00e3o cubana o aconselhou a n\u00e3o se imolar como Salvador Allende. Fidel estava certo. Antes da revolta popular de seu povo, Hugo Ch\u00e1vez, que foi capturado pelos golpistas determinados a assassin\u00e1-lo, voltou. Evo retornar\u00e1 como presidente constitucional do Estado Plurinacional da Bol\u00edvia?<\/p>\n<p>A resposta depende da capacidade organizacional, resist\u00eancia e insurg\u00eancia das comunidades ind\u00edgenas e da classe trabalhadora mineira, herdeiras dos levantes de Tupak Katari, Bartolina Sisa, Z\u00e1rate Wilka, da Revolu\u00e7\u00e3o de 1952 e da rebeli\u00e3o de Che. Os povos da Bol\u00edvia t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o esmagadora de luta. Quem disse que tudo est\u00e1 perdido?<\/p>\n<p>15 de novembro de 2019<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"28DQvS7cmQ\"><p><a href=\"http:\/\/atilioboron.com.ar\/el-golpe-de-estado-en-bolivia-y-los-limites-del-progresismo-posmoderno\/\">EL GOLPE DE ESTADO EN BOLIVIA Y LOS L\u00cdMITES DEL PROGRESISMO POSMODERNO<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&#171;EL GOLPE DE ESTADO EN BOLIVIA Y LOS L\u00cdMITES DEL PROGRESISMO POSMODERNO&#187; &#8212; Atilio Boron\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"http:\/\/atilioboron.com.ar\/el-golpe-de-estado-en-bolivia-y-los-limites-del-progresismo-posmoderno\/embed\/#?secret=28DQvS7cmQ\" data-secret=\"28DQvS7cmQ\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24351\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[233],"class_list":["post-24351","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6kL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24351"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24351\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}