{"id":24372,"date":"2019-11-20T15:50:34","date_gmt":"2019-11-20T18:50:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24372"},"modified":"2019-11-20T15:50:34","modified_gmt":"2019-11-20T18:50:34","slug":"a-luta-contra-o-racismo-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24372","title":{"rendered":"A luta contra o racismo hoje"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.esquerdadiario.com.br\/local\/cache-vignettes\/L500xH400\/arton2405-963ba.jpg?1494067421\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jornal O Poder Popular<\/p>\n<p>Os militantes do PCB Jones Manoel e Gabriel Landi Fazzio lan\u00e7aram a colet\u00e2nea Revolu\u00e7\u00e3o Africana \u2013 Uma antologia do pensamento marxista, pela Editora Ci\u00eancias Revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>O livro, que traz tradu\u00e7\u00f5es de artigos e discursos de te\u00f3ricos revolucion\u00e1rios, como Frantz Fanon, Kwame Nkrumah, Am\u00edlcar Cabral, Eduardo Mondlane, Samora Machel, Agostinho Neto, Thomas Sankara e Samir Amin, \u00e9 o primeiro volume da cole\u00e7\u00e3o Quebrando as Correntes, que prev\u00ea 15 t\u00edtulos com tradu\u00e7\u00f5es de pensadores marxistas e dirigentes revolucion\u00e1rios da luta anticolonial.<\/p>\n<p>Seguem abaixo trechos de entrevista concedida por Jones \u00e0 Carta Capital e reproduzida na \u00edntegra na p\u00e1gina nacional do PCB.<\/p>\n<p>Te\u00f3ricos revolucion\u00e1rios e a luta antirracista<\/p>\n<p>\u201cO movimento comunista, centrado na Internacional Comunista, criada ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, sempre deu import\u00e2ncia \u00e0 quest\u00e3o racial e colonial, e tem uma contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica gigantesca, que, nos \u00faltimos anos, sumiu da consci\u00eancia m\u00e9dia dos militantes. Dos autores publicados no livro, o mais conhecido \u00e9 Frantz Fanon, dirigente da Revolu\u00e7\u00e3o Argelina, hoje muito lido como um pensador p\u00f3s-estruturalista, especialmente a partir de sua tese de doutorado, o livro Peles Negras, M\u00e1scaras Brancas. Mas a contribui\u00e7\u00e3o de Fanon para a luta antirracista radical foi apagada.<\/p>\n<p>&#8230; \u00c9 muito comum hoje, no movimento negro, se falar da ancestralidade africana, da import\u00e2ncia de voltar o pensamento e a epistemologia para a \u00c1frica, s\u00f3 que a contribui\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes revolucion\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 tratada nem estudada para pensar o movimento negro radical revolucion\u00e1rio que combata o racismo, compreendendo que o racismo \u00e9 um fen\u00f4meno estrutural intrinsecamente ligado ao capitalismo. Como diria Malcolm X, n\u00e3o existe capitalismo sem racismo.<\/p>\n<p>&#8230; Hoje, no movimento negro, existe uma centralidade muito grande dos debates culturais e identit\u00e1rios. No sentido de que um conjunto gigantesco de organiza\u00e7\u00f5es da luta antirracista centra seus esfor\u00e7os na ideia de que o combate ao racismo se d\u00e1 combatendo a inferioriza\u00e7\u00e3o do negro e da sua cultura, inserindo o negro em espa\u00e7os estabelecidos, em comerciais de banco, pap\u00e9is em emissoras de TV, cargos eletivos. \u00c9 a ideia de que existe racismo porque a popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o est\u00e1 devidamente representada no \u00e2mbito da cultura das institui\u00e7\u00f5es postas.<\/p>\n<p>Esse debate de que, com a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os institucionais, o racismo seria combatido ou enfraquecido, j\u00e1 foi tratado pelos te\u00f3ricos revolucion\u00e1rios africanos. \u00c9 um debate que j\u00e1 foi travado nos anos 50, 60. O livro ajuda a pensar os limites do \u2018antirracismo de mercado\u2019, que, ao nosso ver, n\u00e3o tem a pot\u00eancia pol\u00edtica necess\u00e1ria para atingir o racismo em suas bases.<\/p>\n<p>Kwame Nkrumah, um revolucion\u00e1rio de Gana, l\u00edder da independ\u00eancia, no texto Socialismo Africano Revisitado, que tamb\u00e9m est\u00e1 na colet\u00e2nea, debate como se configura essa uni\u00e3o org\u00e2nica entre capitalismo e racismo, e como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel destruir o racismo sem transformar radicalmente as estruturas econ\u00f4micas, sociais, culturais, que s\u00e3o a base da sociedade.\u201d<\/p>\n<p>Capitalismo, racismo e colonialismo<\/p>\n<p>\u201cSelecionamos escritos dos autores que versam sobre alguns temas centrais. Primeiro, a rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo, racismo e colonialismo, porque quisemos destacar o car\u00e1ter estrutural do racismo. O racismo n\u00e3o \u00e9 apenas um fen\u00f4meno cultural, n\u00e3o \u00e9 um aspecto de heran\u00e7a da escravid\u00e3o que permaneceu. \u00c9 um fen\u00f4meno estruturante do modo de ser do capitalismo.<\/p>\n<p>Um segundo elemento \u00e9 que os textos tamb\u00e9m refletem sobre a pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria de supera\u00e7\u00e3o do racismo. Por exemplo, Am\u00edlcar Cabral reflete muito sobre organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, forma\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre partido e massas, como um partido vai se organizar para garantir a luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Nos artigos selecionados de Samora Machel, tamb\u00e9m tem essa dimens\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e da estrutura\u00e7\u00e3o do poder popular.<\/p>\n<p>Um terceiro elemento muito presente \u00e9 a ideia de que a luta contra o racismo n\u00e3o vai se dar apenas no \u00e2mbito de um suposto resgate das origens ancestrais. \u00c9 muito comum, hoje, no movimento negro, tratar como se a supera\u00e7\u00e3o do racismo fosse dada numa esp\u00e9cie de recupera\u00e7\u00e3o da ancestralidade africana. V\u00e1rios autores que selecionamos debatem essa ideia de resgate de uma \u00c1frica pr\u00e9-colonial, mostrando que isso n\u00e3o faz sentido, que a \u00c1frica pr\u00e9-colonial foi destru\u00edda. Evidentemente, existem algumas tradi\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, menos individualistas, que ainda sobrevivem e que ainda ser\u00e3o aproveitadas na constru\u00e7\u00e3o do socialismo na \u00c1frica. Mas n\u00e3o se pode partir para a idealiza\u00e7\u00e3o do passado, porque o passado foi superado.<\/p>\n<p>E um \u00faltimo elemento foi a reflex\u00e3o desses l\u00edderes sobre a import\u00e2ncia da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher no combate ao colonialismo e ao racismo, numa constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Thomas Sankara e Samora Machel, em especial, destacam muito a import\u00e2ncia da emancipa\u00e7\u00e3o da mulher e levam a s\u00e9rio uma m\u00e1xima de L\u00eanin, que dizia que o grau de maturidade do socialismo \u00e9 expresso pelo quanto a mulher \u00e9 livre.\u201d<\/p>\n<p>Movimente Negro e ideias liberais<\/p>\n<p>\u201cHoje, existe um liberalismo muito forte no movimento negro, at\u00e9 porque existe um discurso mundial, a partir de diversas ONGs e funda\u00e7\u00f5es, como a Funda\u00e7\u00e3o Ford e Rockefeller, para difundir uma concep\u00e7\u00e3o liberal da quest\u00e3o racial. O movimento negro, em seus setores hegem\u00f4nicos, compreende a luta antirracista como uma luta pela ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os institucionais das estruturas que est\u00e3o postas, como um combate cultural, est\u00e9tico e identit\u00e1rio, procurando valorizar o negro como uma pessoa bonita, que tem cultura, que deve ocupar os espa\u00e7os de visibilidade da grande m\u00eddia. Essa forma de tentar combater o racismo nunca vai conseguir super\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, depois do movimento por direitos civis, houve uma s\u00e9rie de pol\u00edticas de igualdade racial muito semelhante \u00e0s que foram aplicadas no Brasil, nos \u00faltimos anos, como pol\u00edtica de cotas, que n\u00e3o combateram o racismo. Foram importantes para criar um setor negro na classe m\u00e9dia, para fortalecer um setor negro da burguesia, mas enquanto enfrentamento dos fundamentos do racismo, foram totalmente ineficientes.<\/p>\n<p>Outro exemplo pode ser dado pela \u00c1frica do Sul, onde, ao fim do apartheid, o governo Nelson Mandela assumiu um programa econ\u00f4mico neoliberal e estabeleceu pol\u00edticas de igualdade racial muito t\u00edmidas em que a situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra de maneira geral, do ponto de vista socioecon\u00f4mico, n\u00e3o foi transformada.\u201d<\/p>\n<p>A luta contra o racismo no Brasil<\/p>\n<p>\u201cO racismo n\u00e3o \u00e9 uma heran\u00e7a da escravid\u00e3o, que permanece. Ele \u00e9 um elemento estruturante das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas do Brasil, e est\u00e1 totalmente entrela\u00e7ado com as formas de produzir e distribuir a riqueza e com o processo de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A quest\u00e3o racial s\u00f3 pode ser enfrentada por uma perspectiva revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os governos do PT promoveram pol\u00edticas importantes de igualdade racial. Concomitante a isso, o n\u00famero de negros encarcerados e assassinados pelo Estado cresceu durante o per\u00edodo petista. Assim como a situa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a configura\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial da divis\u00e3o social de trabalho n\u00e3o foi alterada. A popula\u00e7\u00e3o negra continua sendo superexplorada, submetida \u00e0 intensa viol\u00eancia estatal, hiperencarcerada.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 a mais afetada pela contrarreforma da Previd\u00eancia, pela contrarreforma trabalhista aprovada no governo Temer, pelo congelamento por 20 anos dos investimentos p\u00fablicos em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a v\u00edtima priorit\u00e1ria da intensifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de repress\u00e3o e de exterm\u00ednio do Estado.<\/p>\n<p>(&#8230;) A fun\u00e7\u00e3o do Revolu\u00e7\u00e3o Africana \u00e9 oferecer para o militante do movimento antirracista um material hist\u00f3rico que mostre que existe uma tradi\u00e7\u00e3o de luta antirracista revolucion\u00e1ria de inspira\u00e7\u00e3o marxista. Resgatar essa mem\u00f3ria \u00e9 um instrumento para difundir a concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dessa luta. \u00c9 fundamental oferecer isso para os militantes do movimento negro para que eles n\u00e3o se afastem ou n\u00e3o neguem o marxismo por puro desconhecimento da contribui\u00e7\u00e3o desse pensamento.\u201d<\/p>\n<p>(mat\u00e9ria publicada no Jornal O Poder Popular n\u00ba 45)<\/p>\n<p>Leia a entrevista na \u00edntegra em https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/23746\/a-revolucao-africana-e-a-luta-contra-o-racismo-hoje\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24372\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[140],"tags":[221],"class_list":["post-24372","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c140-jornal-o-poder-popular","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6l6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24372"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24372\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}