{"id":24377,"date":"2019-11-21T23:09:52","date_gmt":"2019-11-22T02:09:52","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24377"},"modified":"2019-11-21T23:09:52","modified_gmt":"2019-11-22T02:09:52","slug":"o-protagonismo-sindical-na-republica-de-lugansk","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24377","title":{"rendered":"O protagonismo sindical na Rep\u00fablica de Lugansk"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm66.staticflickr.com\/65535\/49100900046_5cfa622606_z.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O Brasil de Fato conversou com Andrey em sua vinda a Porto Alegre para falar da luta do seu povo \/ Fotos: Marcelo Ferreira<\/p>\n<p>Entrevistado pelo Jornal Brasil de Fato, Andrey Kotchetov \u00e9 secret\u00e1rio-geral da Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos de territ\u00f3rio, que declarou independ\u00eancia da Ucr\u00e2nia<\/p>\n<p>Katia Marko e Fabiana Reinholz<br \/>\nBrasil de Fato | Porto Alegre (RS)<\/p>\n<p>Em 2014, Donetsk e Lugansk, prov\u00edncias ao leste da Ucr\u00e2nia, declaram independ\u00eancia do pa\u00eds, a primeira no dia 7, a segunda no dia 27 de abril, tornando-se Rep\u00fablicas Populares. Ap\u00f3s referendo em que mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o afirmou sua inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fazer mais parte do pa\u00eds, a independ\u00eancia veio em 12 de maio. A partir de ent\u00e3o, as rep\u00fablicas, que ficam cerca de 700 quil\u00f4metros de Kiev, capital da Ucr\u00e2nia, foram marcadas por bombardeios e conflitos.<\/p>\n<p>\u201cConviviam v\u00e1rios povos, v\u00e1rias nacionalidades nessa regi\u00e3o, e at\u00e9 o fim de 2014 n\u00e3o havia problema nenhum, todo mundo vivia bem, tranquilo, em paz, n\u00e3o se falava em nacionalismo, mas depois do golpe do estado de 2015, o governo ucraniano, esse novo que assumiu, que \u00e9 nazista, come\u00e7ou a falar que a Ucr\u00e2nia \u00e9 s\u00f3 para os ucranianos. Ent\u00e3o foi imposs\u00edvel conviver com esse tipo de mentalidade. Assim mesmo, ningu\u00e9m pensava em guerra contra o governo central, mesmo com essa amea\u00e7a \u2018nacionalista\u2019. Achamos que poder\u00edamos conviver, que iam nos respeitar, nos deixar quietos\u201d, afirma Andrey Kotchetov, secret\u00e1rio-geral da Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos da Rep\u00fablica Popular de Lugansk, que esteve semana passada em Porto Alegre e conversou com o Brasil de Fato RS.<\/p>\n<p>De acordo com ele, o golpe de 2015 teve apoio dos Estados Unidos, que h\u00e1 anos mira a regi\u00e3o. \u201cGrupos nazistas chegaram ao poder no governo central da Ucr\u00e2nia. Desde 25 anos para c\u00e1, praticamente depois da dissolu\u00e7\u00e3o da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os Estados Unidos aproveitaram essa brecha para colocar muito dinheiro e ajudar os grupos de extrema-direita a recuperar o poder\u201d.<\/p>\n<p>Antes da ascens\u00e3o do partido de extrema-direita, Donetsk e Lugansk, que fazem fronteira com a R\u00fassia, tinham uma popula\u00e7\u00e3o de oito milh\u00f5es. Com o golpe, veio o bloqueio e as bombas, e a popula\u00e7\u00e3o, em busca de novas alternativas, caiu quase pela metade. Al\u00e9m de expor a situa\u00e7\u00e3o atual da regi\u00e3o, Andrey falou tamb\u00e9m sobre a import\u00e2ncia do movimento sindical no processo de independ\u00eancia. Seguindo a m\u00e1xima da Karl Marx, \u201ctrabalhadores do mundo, uni-vos!\u201d, a Federa\u00e7\u00e3o congrega 38 sindicatos de diversas categorias.<\/p>\n<p>A conversa com Andrey, que fez a sua segunda visita ao pa\u00eds &#8211; a primeira foi em 2015, em S\u00e3o Paulo, no Congresso das Federa\u00e7\u00f5es Internacionais de Sindicatos &#8211; foi acompanhada por Luciano Vieira, m\u00e9dico da sa\u00fade da fam\u00edlia; Nubem Medeiros, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); e Cl\u00e1udio Lu\u00eds Caminha de Souza Ribeiro, maestro e antrop\u00f3logo, que foi o tradutor da conversa.<\/p>\n<p>A seguir a entrevista completa:<\/p>\n<p>Brasil de Fato RS: Andrey, gostaria que nos contasse um pouco a hist\u00f3ria da onde tu vens e toda a quest\u00e3o da independ\u00eancia e os ataques da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Andrey Kotchetov: Vim da Rep\u00fablica Popular de Lugansk, que est\u00e1 situada ao lado leste da Ucr\u00e2nia. At\u00e9 antes de 2015, est\u00e1vamos bem, felizes, e a Ucr\u00e2nia a nossa m\u00e3e. Era um pa\u00eds \u00f3timo e bonito e cheio de paz. Mas em 2015, houve um golpe de estado na capital da Ucr\u00e2nia, Kiev, e grupos nazistas chegaram ao poder. Desde 25 anos para c\u00e1, praticamente depois da dissolu\u00e7\u00e3o da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os Estados Unidos aproveitaram essa brecha para colocar muito dinheiro e ajudar os grupos de extrema-direita a recuperar o poder.<\/p>\n<p>O principal prop\u00f3sito dessa apropria\u00e7\u00e3o, invas\u00e3o colonial norte-americana no territ\u00f3rio ucraniano, foi reescrever a hist\u00f3ria do pa\u00eds do jeito que eles queriam. Para a popula\u00e7\u00e3o dos dois pa\u00edses que se separaram, Lugansk e Donetsk, foi imposs\u00edvel aceitar essa nova forma de governo e essa tentativa de reescrever a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Durante a Segunda Guerra Mundial, o povo russo perdeu 27 milh\u00f5es de pessoas, inclu\u00eddas nessa cifra cidad\u00e3os e cidad\u00e3s da Ucr\u00e2nia. Os av\u00f3s, bisav\u00f3s e mesmo os pais dessas pessoas que hoje est\u00e3o aqui tamb\u00e9m foram mortos nesse pacote da Segunda Guerra. Com toda essa hist\u00f3ria, com essa carga de pessoas que lutaram contra o nazismo, contra o eixo, eles n\u00e3o poderiam aceitar que agora nos Estados Unidos e a direita ucraniana reescrevessem a hist\u00f3ria quase desconhecendo o que aconteceu. Esse grupo que se infiltrou, que queria reescrever a hist\u00f3ria, come\u00e7ou a acusar dizendo que entre esses 27 milh\u00f5es de pessoas estavam inclu\u00eddas a maldade dos comunistas e a crueldade do governo sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>O leste da Ucr\u00e2nia \u00e9 uma regi\u00e3o multi\u00e9tnica, onde vivem v\u00e1rias pessoas de diversas nacionalidades. A regi\u00e3o de onde venho foi muito industrializada durante o per\u00edodo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e convidamos muitas pessoas que quisessem ir, j\u00e1 que estava se desenvolvendo. Ent\u00e3o muitas nacionalidades est\u00e3o vivendo nessa regi\u00e3o de Donbass. At\u00e9 o fim de 2014, n\u00e3o havia problema nenhum, todo mundo vivia bem, tranquilo, em paz, n\u00e3o se falava em nacionalismo, mas depois do golpe do estado de 2015, o governo ucraniano, esse novo que assumiu, que \u00e9 nazista, come\u00e7ou a falar que a Ucr\u00e2nia \u00e9 s\u00f3 para os ucranianos. Ent\u00e3o foi imposs\u00edvel conviver com esse tipo de mentalidade. Assim mesmo, ningu\u00e9m pensava em guerra contra o governo central, mesmo com essa amea\u00e7a \u201cnacionalista\u201d. Achamos que poder\u00edamos conviver, que iam nos respeitar, nos deixar quietos.<\/p>\n<p>Organizamos um referendo nacional nas duas prov\u00edncias, Lugansk e Donetsk, para ver se as pessoas queriam ou n\u00e3o conviver com o nazismo do governo central. Cerca de 80% das pessoas disseram \u201cn\u00e3o, n\u00e3o queremos conviver com o nazismo\u201d. Ent\u00e3o, a partir desse referendo, pedimos para o governo central para sermos considerados como uma nova Federa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o afinada com o governo central.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar que foi tudo democr\u00e1tico, antes desse referendo, houve protestos, as pessoas estavam mostrando sua desaprova\u00e7\u00e3o ao regime. Como apareceu esse desgosto com o governo central, realizamos esse referendo, n\u00e3o foi imposto. Novos l\u00edderes do povo apareceram nesse momento, e foram eles que propuseram o referendo, que, como falei, foi muito democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>A partir desse referendo, o governo central cortou o di\u00e1logo e come\u00e7ou a bombardear essa regi\u00e3o. Helic\u00f3pteros sobrevoaram a capital da Rep\u00fablica Popular de Donetsk e lan\u00e7aram bombas em 27 de maio de 2015. Em 2 de junho, o mesmo grupo do governo central bombardeou a sede central da administra\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular de Lugansk.<\/p>\n<p>Existem v\u00eddeos no YouTube que mostram os primeiros momentos desse bombardeio, que matou, de sa\u00edda, 80 pessoas. O que tu achas que a m\u00eddia ucraniana publicou a respeito desse epis\u00f3dio?<\/p>\n<p>Eles disseram em claro e bom tom para o mundo inteiro que essa explos\u00e3o foi o problema em um ar condicionado. Al\u00e9m do ex\u00e9rcito da pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia &#8211; imagine toda a alta Ucr\u00e2nia e duas prov\u00edncias pequenas &#8211; a oligarquia poderosa organizou e financiou batalh\u00f5es especiais para lutar contra n\u00f3s. Muitos soldados da Ucr\u00e2nia n\u00e3o queriam matar \u201cirm\u00e3os\u201d. Ent\u00e3o para conter essa pequena rebeli\u00e3o, a pr\u00f3pria oligarquia (pessoal da grana) contratava batalh\u00f5es especiais para suprir essa poss\u00edvel vontade de n\u00e3o ferir irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Antes do ataque de 2015, t\u00ednhamos uma popula\u00e7\u00e3o de oito milh\u00f5es de pessoas (somando as duas rep\u00fablicas). Atualmente temos cerca de quatro milh\u00f5es e meio. Os outros tr\u00eas milh\u00f5es e meio que deixaram as duas rep\u00fablicas, uma parte foi para Ucr\u00e2nia e a outra parte para a R\u00fassia, fugindo da guerra, das bombas. Como a partir desse momento o governo terminou o di\u00e1logo, eles fizeram um bloqueio, as pessoas passaram a perder os empregos, n\u00e3o tinham mais dinheiro.<\/p>\n<p>Os que ficaram, que n\u00e3o fugiram, come\u00e7aram a construir um novo momento. Come\u00e7amos a reconstruir o parlamento, reconstruir as vidas. Mas Kiev continua a dizer que n\u00e3o existe guerra nenhuma, que n\u00e3o existe guerra civil. E eles continuam atacando, n\u00e3o o tempo inteiro, mas armam ataques programados, em um dia destroem um edif\u00edcio, passam uns dias derrubam uma est\u00e1tua. Automaticamente todos aqueles que n\u00e3o se afinam com a ordem central s\u00e3o considerados terroristas, ent\u00e3o fomos considerados como regi\u00e3o terrorista.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para o mundo inteiro, se conseguiu passar essa imagem de que o governo central da Ucr\u00e2nia estava lutando contra terroristas e n\u00e3o pessoas civis como n\u00f3s. De 2015 para c\u00e1, mas de 10 mil pessoas foram mortas pelo governo central. Depois dos \u00faltimos cinco anos, eles disseram que estariam lutando contra o ex\u00e9rcito russo, fizeram investiga\u00e7\u00f5es e ningu\u00e9m descobriu sobre a exist\u00eancia de ex\u00e9rcito russo, mas o governo continua afirmando isso. E o ex-presidente Petro Poroshenko foi para a Europa dizer que eles estavam defendendo a Europa do ataque russo. E n\u00e3o \u00e9 isso, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>BdFRS: Fale sobre a organiza\u00e7\u00e3o sindical nas rep\u00fablicas populares.<\/p>\n<p>Andrey: Meu cargo \u00e9 de secret\u00e1rio-geral de uma parte da secret\u00e1rio-geral da Federa\u00e7\u00e3o dos Sindicatos. Essa parte se chama Sindicato para Inova\u00e7\u00e3o do Desenvolvimento. Esse sindicato trata de projetos inovadores, representa cinco mil pessoas. Ao mesmo tempo, sou membro da Federa\u00e7\u00e3o que re\u00fane todos os sindicatos da Rep\u00fablica Popular de Lugansk. O Sindicato que integro re\u00fane v\u00e1rias categorias, v\u00e1rios campos de atividade. Apesar de estarmos todos juntos nisso, fica dif\u00edcil especificar quem est\u00e1 em projetos inovadores e quem n\u00e3o est\u00e1 ainda.<\/p>\n<p>Em 2014, um colega e eu escrevemos o Estatuto. Nessa Federa\u00e7\u00e3o que engloba todos os sindicatos, propusemos que fic\u00e1ssemos todos dentro do mesmo guarda-chuva, e o artigo 1 diz que \u00e9 proibido haver sindicatos independentes, porque isso divide, n\u00e3o soma. E a t\u00e1tica do outro lado sempre foi o contr\u00e1rio, dividir para governar.<\/p>\n<p>Dentro da Federa\u00e7\u00e3o tem 38 sindicatos que re\u00fane categorias como agricultura, cultura, metal\u00fargicos, mineiros e assim por diante, todos dentro da Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um exemplo simples, como disse Marx: \u201ctrabalhadores do mundo, uni-vos\u201d. Esse foi o slogan da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e os imperialistas continuam com medo dessa frase. N\u00e3o fizemos nada de novo, essa foi uma experi\u00eancia anteriormente praticada.<\/p>\n<p>BdFRS: E qual a for\u00e7a da Federa\u00e7\u00e3o na sociedade?<\/p>\n<p>Andrey: Pergunta interessante. Antes dessa guerra, e acho que at\u00e9 por isso ela aconteceu, o governo central da Ucr\u00e2nia tinha recebido uma ordem do governo americano de destruir todos os sindicatos. Era, na verdade, um \u201crecadinho\u201d para que as pessoas se organizassem em sindicatos independentes, para dar uma ideia de democracia, quando na verdade era para dividir o movimento. Ent\u00e3o eles diziam que essa era uma maneira de democratizar e a\u00ed ent\u00e3o, com essa ordem, come\u00e7aram a surgir grande n\u00famero de sindicatos. Eles queriam que se esfacelasse, que se destru\u00edsse o movimento sindical realmente forte. Ent\u00e3o muitos desses chamados l\u00edderes sindicais acabaram sendo, na verdade, representantes do com\u00e9rcio, banqueiros, cuja \u00fanica tarefa era dizer \u201cpague os sindicatos\u201d. Quando houve esse bloqueio e a invas\u00e3o, os l\u00edderes sindicais que estavam ligados a esse movimento de esfacelamento fugiram para a Ucr\u00e2nia junto com os banqueiros.<\/p>\n<p>O povo atualmente respeita muito a Federa\u00e7\u00e3o, e esse movimento que conseguimos construir de uni\u00e3o dos sindicatos ficou bem visto pela popula\u00e7\u00e3o, pela transpar\u00eancia dos 38 sindicatos que est\u00e3o dentro da Federa\u00e7\u00e3o. Tanto que 14 l\u00edderes desses sindicatos est\u00e3o dentro do parlamento, s\u00e3o deputados. A Federa\u00e7\u00e3o, a partir dessa concep\u00e7\u00e3o sindical e da participa\u00e7\u00e3o da sociedade, pode-se dizer que est\u00e1 sendo fundamental na execu\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias leis que a sociedade vai usufruir. Est\u00e3o partindo dos trabalhadores ent\u00e3o as decis\u00f5es do que se vai se cumprir na na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BdFRS: Com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o passou simplesmente a ser capitalista. Como foi essa transi\u00e7\u00e3o? E esse sentimento ainda est\u00e1 muito vivo?<\/p>\n<p>Andrey: Foi como um conto de fadas, uma ilus\u00e3o, quando o governo de Mikhail Gorbachev (\u00faltimo l\u00edder da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) disse \u201cagora cada um de voc\u00eas poder\u00e1 ser muito rico, ter\u00e3o muito trabalho, e ficar\u00e3o felizes da vida com dinheiro, agora vamos organizar o sistema capitalista e todo mundo vai ficar muito rico\u201d. Na verdade, isso foi uma grande falsidade, porque sabemos que o capitalismo deixou muita gente pobre, mas infelizmente muitas pessoas ainda acreditam em conto de fadas.<\/p>\n<p>Agora, todo mundo est\u00e1 dizendo \u201cestamos at\u00e9 aqui (saturados) com o capitalismo\u201d e realmente est\u00e3o sentindo falta da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Claro que na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era dif\u00edcil, por exemplo, uma fam\u00edlia comprar um carro, mas era poss\u00edvel. Agora \u00e9 muito f\u00e1cil fazer isso, s\u00f3 que voc\u00ea fica pagando, na verdade, ao grande mercado.<\/p>\n<p>Um exemplo simples de como o povo est\u00e1 se dando conta \u00e9 o caso dos Pa\u00edses do B\u00e1ltico (Est\u00f4nia, Let\u00f4nia e Litu\u00e2nia). Os capitalistas do oeste n\u00e3o precisaram ser convidados pelos ex\u00e9rcitos desses pa\u00edses. Eles apenas constroem grandes supermercados para vender refrigeradores, televisores, freezer, e a\u00ed colocam bancos nesses supermercados. Ent\u00e3o quando as pessoas simples, pobres, entram nesses grandes supermercados e veem aqueles produtos, querem comprar tudo. \u201cSe voc\u00eas quiserem comprar, n\u00f3s financiamos, podem usar o sistema, simplesmente hipotequem suas terras ou seus bens, que a gente financia\u201d, dizem os bancos. Depois de 20 anos, esses Pa\u00edses B\u00e1lticos ficaram chocados porque descobriram que, por causa disso, os donos das terras dos Pa\u00edses B\u00e1lticos eram ingleses, alem\u00e3es, su\u00ed\u00e7os etc e n\u00e3o mais as pessoas da terra.<\/p>\n<p>E a\u00ed os socialistas desse lugar disseram: \u201cestamos sob uma ocupa\u00e7\u00e3o suave, porque n\u00e3o tem tanque\u201d. Ent\u00e3o o pessoal come\u00e7ou a ver a import\u00e2ncia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, est\u00e1 sentindo falta de algumas coisas. Est\u00e3o sentido falta dessa paz mundial porque na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica todas as na\u00e7\u00f5es que conviviam ali dentro estavam bem. Por exemplo, quando eu servi no ex\u00e9rcito russo, tinha um grupo de diferentes pessoas. O grupo tinha 34 pessoas, sendo 15 de diferentes nacionalidades como Cazaquist\u00e3o, Uzbequist\u00e3o, Arm\u00eania, Ucr\u00e2nia. Inclusive, mesmo depois de tudo que aconteceu, continuamos mantendo contato. Como a gente n\u00e3o vai sentir falta disso?<\/p>\n<p>O pessoal que vivia ent\u00e3o no tempo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, cada ano tinha dias livres, durante 22 dias, tinham medicina livre, sem pagamento, quando as mulheres davam \u00e0 luz, podiam ficar tr\u00eas anos recebendo pagamento do governo. Ent\u00e3o as pessoas come\u00e7aram a se lembrar disso e est\u00e3o sentindo falta do velho St\u00e1lin. Por qu\u00ea? Porque St\u00e1lin disse, depois da Segunda Guerra Mundial, que o mundo anglo-sax\u00f4nico seria o inimigo para sempre, que quando o dinheiro norte-americano entrasse dentro da Federa\u00e7\u00e3o Russa, nos tornar\u00edamos escravos do sistema financeiro ocidental. E o interesse do imperialismo era dividir a R\u00fassia, n\u00e3o deix\u00e1-la junta e sugar a riqueza de cada peda\u00e7o de terra. E agora est\u00e3o se dando conta que isso era verdade. O St\u00e1lin falou isso h\u00e1 70 anos atr\u00e1s e as pessoas est\u00e3o vendo que era verdade, que ele tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>BdFRS: Estamos vendo isso no mundo, Brasil, Am\u00e9rica Latina em ebuli\u00e7\u00e3o, parece que estamos vivendo uma nova Guerra Fria.<\/p>\n<p>Andrey: Queria relembrar que n\u00e3o foi o St\u00e1lin que come\u00e7ou a guerra fria. Foi o Winston Churchill, na famosa palestra de Fulton (Missouri, Estados Unidos, em 1946), que disse que temos que colocar um muro de ferro em frente \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A mesma coisa que est\u00e3o dizendo agora do Vladimir Putin, que \u00e9 um monstro, cruel. Eles diziam as mesmas palavras de St\u00e1lin, agora serve para o Putin, nada mudou.<\/p>\n<p>BdFRS: Gostaria que tu falasse da influ\u00eancia da igreja, principalmente a neopentecostal, se l\u00e1 tem influ\u00eancia como se observa em outros lugares do mundo.<\/p>\n<p>Andrey: A religi\u00e3o tradicional \u00e9 a Igreja Ortodoxa, e ela \u00e9 muito conservadora. Essa igreja faz ora\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, grandes c\u00edrculos, sempre modificando a ora\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m tem mu\u00e7ulmanos ortodoxos e judeus. L\u00e1 est\u00e1 proibida a organiza\u00e7\u00e3o de novas igrejas norte-americanas, porque eles sabem que atrav\u00e9s dessas igrejas, com as quais entra muito dinheiro e organiza\u00e7\u00e3o, se dominam as pessoas, controlam as pessoas. Ent\u00e3o por isso que n\u00e3o tem esse movimento como aqui no ocidente, dessas igrejas.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Lu\u00eds Caminha de Souza Ribeiro: Um ano atr\u00e1s, na Bol\u00edvia, o governo de Evo Morales baixou uma lei que n\u00e3o permitia doutrina\u00e7\u00e3o de mais nenhuma igreja, e voc\u00eas viram quem fez o golpe no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Andrey: Isso aconteceu na Chech\u00eania, h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s, onde foi municiado o movimento mu\u00e7ulmano super extremista.<\/p>\n<p>BdFRS: Como tu enxergas a m\u00e1xima: Socialismo ou Barb\u00e1rie, da Rosa de Luxemburgo?<\/p>\n<p>Andrey: N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comparar. A grande diferen\u00e7a justamente \u00e9 que como cidad\u00e3s e cidad\u00e3os, nascidos nesse esp\u00edrito sovi\u00e9tico, sentimos que o governo realmente se importa com as pessoas. Quanto mais eu convivo com a chamada democracia do oeste, mais eu me aproximo do socialismo.<\/p>\n<p>BdFRS: Falando um pouco a visita \u00e0 Porto Alegre, quem a organizou, qual o objetivo?<\/p>\n<p>Andrey: Essa pergunta meus amigos podem responder.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Lu\u00eds Caminha de Souza Ribeiro: Quem organizou a visita foram a Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) que atrav\u00e9s da sua c\u00e9lula internacionalista convidou o Andrey, e tivemos o apoio da Associa\u00e7\u00e3o dos P\u00f3s-Graduandos Ga\u00fachos (APGs), do Sindicato dos Servidores de N\u00edvel Superior do Poder Executivo do Estado do Rio Grande do Sul (Sintergs), da Assembleia Legislativa, atrav\u00e9s da figura do ex-deputado Pedro Ruas, da Associa\u00e7\u00e3o dos Servidores da UFRGS e UFSCPA (Assufrgs), do Sindicato Nacional dos Docentes das Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior (Andes), da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), da Federa\u00e7\u00e3o dos Empregados no Com\u00e9rcio de Bens e Servi\u00e7os do RGS (Fecosul), e da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).<\/p>\n<p>O Andrey veio compartilhar com trabalhadoras e trabalhadoras dessas e de outras entidades o protagonismo do movimento sindical em um governo de coaliz\u00e3o e a experi\u00eancia da Rep\u00fablica Popular de Lugansk. E conhecer a realidade do Sul do Brasil.<\/p>\n<p>Luciano, Nubem, Humberto Carvalho e eu estivemos ano passado em Lugansk, como observadores internacionais do processo eleitoral de l\u00e1. E conhecemos as universidades, estivemos em v\u00e1rias cidades, fizemos confer\u00eancias. Nossa impress\u00e3o foi a melhor poss\u00edvel, fomos recebidos com grande carinho, fraternidade, solidariedade, com uma agenda bem movimentada. Visitamos museus, vimos cidades destru\u00eddas, bombas intactas fincadas na terra, monumento \u00e0s pessoas falecidas, sobretudo as crian\u00e7as, mortas nos bombardeios.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Marcelo Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24377\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[125],"tags":[234],"class_list":["post-24377","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c138-ucrania","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6lb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24377\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}