{"id":2438,"date":"2012-02-18T15:45:23","date_gmt":"2012-02-18T15:45:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2438"},"modified":"2017-08-25T00:55:35","modified_gmt":"2017-08-25T03:55:35","slug":"a-greve-do-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2438","title":{"rendered":"A greve do carnaval"},"content":{"rendered":"\n<p>Imagine um dia, talvez um s\u00e1bado, ou mesmo uma segunda feira de carnaval. As ruas do Rio vazias. Nenhum bloco; nenhum cord\u00e3o; nenhum baile; nenhum b\u00eabado cantarolando alguma marchinha; nenhum casal brigando por ci\u00fame; nenhum beijo despretensioso. Imaginem um carnaval que os foli\u00f5es fizessem greve. N\u00e3o fossem \u00e0s ruas. Uma greve de carnaval.<\/p>\n<p>As ruas ficariam desertas. Mais desertas que um in\u00edcio de madrugada de segunda feira. Os comerciantes, estes ficariam em p\u00e2nicos: os donos dos bares ficariam loucos pensando na \u201cfortuna\u201d por eles gasta para encher seus estoques \u00e0 espera de foli\u00f5es e b\u00eabados que n\u00e3o mais apareceriam. A pol\u00edcia &#8211; essa coitada! \u2013 perderia grande parte de sua renda extra de extors\u00e3o dos foli\u00f5es exagerados \u2013 presas f\u00e1ceis desse tipo de investimento. Mas o que causaria isso? O que causaria uma greve de carnaval, unindo o foli\u00e3o, o b\u00eabado, os comerciantes ambulantes, os diretores de blocos, os compositores de marchinhas, os sambistas com seus viol\u00f5es e pandeiros?<\/p>\n<p>Esse quadro me foi desenhado por um sujeito que se dizia viajante do tempo, vindo de 2014, ano em que tal fato ocorrera. Eu o encontrara numa rua pr\u00f3xima \u00e0 Pra\u00e7a XV andando perdido em meio aos blocos com suas camisas cheias de patroc\u00ednio e com suas letras que n\u00e3o diziam muito mais do que um montante de vogais.<\/p>\n<p>Ao ser perguntado sobre tal fato, ele responderia direto, com uma certeza n\u00edtida: \u2014 A velha e conhecida de todos n\u00f3s, a gan\u00e2ncia, a \u00e2nsia enlouquecida por lucro, a mercantiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas e seus derivados.<\/p>\n<p>O carnaval havia se voltado para o turismo, para os de fora. Tudo invertido na cidade, preparada para servir de vitrine para os gringos.<\/p>\n<p>Nada contra. Mas se eles s\u00e3o turistas, que aprendam a conviver com as coisas como est\u00e3o, e n\u00e3o as modifiquem para melhor atender seus desejos de \u201ccaricatura de povo\u201d, de &#8220;carnaval&#8221;, de &#8220;mulatas&#8221;, de &#8220;malandro sambista&#8221;. E a Ordem, essa velha inimiga do povo \u2013 essa amante de mentes pequenas e positivistas, que tem medo do povo \u2013 impediu a brincadeira de ocorrer fora de seus padr\u00f5es de \u201cchoques&#8221;, intimidando o povo, acabando com os coretos e com a espontaneidade da brincadeira. Favorece \u2013 isso sim! \u2013 os donos de com\u00e9rcio e bares, que se fecharam nos seus sal\u00f5es com ar condicionado e com suas m\u00fasicas ao vivo, com seus pre\u00e7os exagerados que afastam o foli\u00e3o aut\u00eantico, o brincalh\u00e3o, o fanfarr\u00e3o, o b\u00eabado. Tudo fica perfeito para a \u201cplayboyzada\u201d curtir com os cart\u00f5es de cr\u00e9ditos patrocinados pelos pais, os mesmos pais que assumiram a organiza\u00e7\u00e3o da festa, a nossa burra elite.<\/p>\n<p>Foi assim, diante desse quadro que se organizou \u2013 ou melhor, que se desorganizou &#8211; a greve de s\u00e1bado foi passando pelo domingo (recorde de presen\u00e7a das missas), pela segunda e, quase terminando na ter\u00e7a feira, foi entrando pela quarta. Logo quando todos achavam que a festa tinha ido para o buraco, quando todos consideravam o fim do carnaval carioca; a morte, t\u00e3o decretada, do samba&#8230; Estourou a festa do povo!<\/p>\n<p>Num passe de m\u00e1gica, as ruas foram tomadas n\u00e3o para buscar os bares com seus donos falidos, mas para fazer a brincadeira de rua. Desfilar pela Avenida Rio Branco, pela Presidente Vargas, correndo, brincando, com bate-bola, mascarados, foli\u00f5es, sambistas, diretores de blocos e claro, nosso amigo de sempre, o b\u00eabado, com seu vasto repert\u00f3rio de s\u00e1tiras, de marchinhas antigas e filosofias de botequim.<\/p>\n<p>Foi o ano em que nenhum dinheiro caiu nos cofres da elite. Foi o ano do choque da desordem urbana, pois afinal quem quer manter essa ordem a\u00ed? Eu n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Assim, meu amigo viajante do tempo entrou numa viela, dessas que tem um monte na cidade, e sumiu gritando: \u2014 Viva o povo trabalhador, brincalh\u00e3o, alegre, foli\u00e3o e claro, combatente, valente e brig\u00e3o, como deve mesmo ser.<\/p>\n<p>Heitor Cesar Oliveira \u00e9 historiador, membro do PCB e um dos fundadores do bloco de carnaval &#8220;Comuna que Pariu!&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 1.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Heitor Cesar Oliveira\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2438\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-2438","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Dk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2438"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2438\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}