{"id":24405,"date":"2019-11-28T23:08:12","date_gmt":"2019-11-29T02:08:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24405"},"modified":"2019-11-28T23:08:12","modified_gmt":"2019-11-29T02:08:12","slug":"golpe-de-estado-na-bolivia-as-razoes-profundas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24405","title":{"rendered":"Golpe de Estado na Bol\u00edvia: as raz\u00f5es profundas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/theintercept.imgix.net\/wp-uploads\/sites\/1\/2019\/11\/bolivia-header-1573588421.jpg?auto=compress%2Cformat&amp;q=90&amp;fit=crop&amp;w=1440&amp;h=720\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Achille Lollo<\/p>\n<p>Bol\u00edvia: golpe de Estado \u201cpor Cristo\u201d? Ou por g\u00e1s, l\u00edtio, cobalto, ur\u00e2nio, ouro, etc.?<\/p>\n<p>Todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o europeus e norte-americanos veicularam as imagens pat\u00e9ticas de Luis Fernando Camacho e de Jeanine A\u00f1ez que se servem da B\u00edblia como arma, com o objetivo de ocultar a responsabilidade estrat\u00e9gica do governo dos Estados Unidos no golpe de Estado na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Antes de falar especificadamente dos respons\u00e1veis pelo golpe, \u00e9 necess\u00e1rio definir alguns par\u00e2metros econ\u00f4micos e pol\u00edticos do governo de Evo Morales, para entender por que em um pa\u00eds est\u00e1vel como a Bol\u00edvia \u2013 onde o PIB passou de 9 bilh\u00f5es, em 2007, para 40 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2018, e onde a infla\u00e7\u00e3o caiu para 4,5%, e a pobreza foi reduzida de 38% para 15% \u2013 , foi planejado e aconteceu, dia 10 de novembro, um golpe de Estado. Isso, apesar de o presidente Evo Morales ter anunciado a realiza\u00e7\u00e3o de novas elei\u00e7\u00f5es, antes do final de seu mandato (22\/01\/2020), seguindo assim a solicita\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio da OEA, Luis Almagro e da pr\u00f3pria Uni\u00e3o Europeia, encaminhada pela respons\u00e1vel pelas rela\u00e7\u00f5es internacionais da UE, Federica Mogherini.<\/p>\n<p>Na realidade, o golpe de Estado encabe\u00e7ado pelo comandante em chefe das For\u00e7as Armadas, general Williams Kaliman, em conjunto com o comandante geral da Pol\u00edcia, Vladimir Yuri Calder\u00f3n, j\u00e1 n\u00e3o podia ser cancelado, muito menos adiado at\u00e9 novas elei\u00e7\u00f5es. Isso porque os grupos paramilitares (Milicias) financiados, organizados e dirigidos pelo chamado Comit\u00ea C\u00edvico de Santa Cruz entraram em a\u00e7\u00e3o antes do referendo, isto \u00e9, no dia 19 de outubro, com in\u00fameras a\u00e7\u00f5es de terrorismo, para induzir crescente instabilidade no pa\u00eds. Essas a\u00e7\u00f5es terroristas multiplicaram-se nas principais cidades da Bol\u00edvia, imediatamente ap\u00f3s o an\u00fancio da vit\u00f3ria eleitoral do presidente Evo Morales. Portanto, \u00e9 poss\u00edvel, a partir desses fatos correlacionados, reconstruir a metodologia operacional, analisar como esse golpe foi constru\u00eddo e, tamb\u00e9m, definir como e por que o governo dos EUA endossou esse projeto subversivo, sem, dessa vez, repetir os erros do passado, quando o embaixador norte-americano, Philip Goldberg, foi expulso, dia 12 de setembro de 2008, acusado de apoiar o movimento separatista da Meia-Lua de Santa Cruz, cujo l\u00edder era Luis Fernando Camacho!<\/p>\n<p>Da nacionaliza\u00e7\u00e3o do g\u00e1s \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o de minerais<\/p>\n<p>A decis\u00e3o pol\u00edtica e constitucional que permitiu ao primeiro governo de Evo Morales impor uma nova defini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para a gest\u00e3o da economia e das riquezas minerais do pa\u00eds foi a nacionaliza\u00e7\u00e3o do g\u00e1s. Isso foi feito mediante o &#8220;Decreto Supremo&#8221; e a subsequente centraliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o na empresa estatal YPFB (Yacimientos Petrol\u00edferos Fiscales Bolivianos). Dessa forma, as empresas bolivianas que representavam ou eram intermedi\u00e1rias das multinacionais perderam os meios muito lucrativos que lhes permitiam continuar a dominar a venda de g\u00e1s dentro da Bol\u00edvia e tamb\u00e9m para as empresas argentinas e brasileiras.<\/p>\n<p>De todos, contudo, o grupo que mais sofreu com esta nacionaliza\u00e7\u00e3o do g\u00e1s foi a SERGAS, que na pr\u00e1tica monopolizou a venda de g\u00e1s em Santa Cruz e foi popularmente conhecido como &#8220;Companhia Camacho&#8221;, de propriedade do pai de Luis Fernando Camacho. Portanto, n\u00e3o foi por acaso que Luis Fernando Camacho integrou a partir de 2005 planos subversivos obscuros.<\/p>\n<p>Mais tarde, de 2006 a 2009, Camacho &#8220;patrocinou&#8221;, juntamente com os membros da seita &#8220;Los Caballeros del Oriente&#8221;, a forma\u00e7\u00e3o do grupo paramilitar \u201cMilicias\u201d, que come\u00e7ou a atuar principalmente na prov\u00edncia de Santa Cruz, com o objetivo de desencadear um movimento de guerrilha separatista. Por\u00e9m, com a cria\u00e7\u00e3o da UNASUL (Uni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Sul-americanas), o projeto subversivo de Camacho foi oficialmente dissolvido, embora a Pol\u00edcia boliviana nunca tenha conseguido desmantelar efetivamente a organiza\u00e7\u00e3o e sua estrutura log\u00edstica. De fato, segundo algumas fontes bolivianas, Luis Fernando Camacho reativou muito facilmente a organiza\u00e7\u00e3o subversiva das &#8220;Milicias&#8221; em 2016, logo ap\u00f3s Evo Morales ter declarado que concorreria nas elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2019.<\/p>\n<p>A outra a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica crucial do terceiro governo de Evo Morares foi a aprova\u00e7\u00e3o da lei que, em 2016, desenvolveu a Estrategia Nacional de Industrializaci\u00f3n (Estrat\u00e9gia Nacional de Industrializa\u00e7\u00e3o[1]). Essa lei previa a realiza\u00e7\u00e3o de grandes projetos industriais relacionados com a transforma\u00e7\u00e3o industrial dos produtos minerais, em particular o l\u00edtio e o cloreto de pot\u00e1ssio, assim como a extra\u00e7\u00e3o de minerais de alto valor estrat\u00e9gico, nomeadamente cobalto, t\u00f3rio, ur\u00e2nio e g\u00e1lio.<\/p>\n<p>E\u2019 imperativo lembrar que quase todos esses minerais est\u00e3o associados ao ouro. A Bol\u00edvia, al\u00e9m de se ter tornado o principal produtor mundial de l\u00edtio, com reservas de 9 milh\u00f5es de toneladas, segundo o US Geological Survey (USGS), j\u00e1 \u00e9 potencial produtora de ouro e dos 35 minerais que o USGS considera \u201ccruciais para a economia dos EUA!\u201d. De fato, Caspar Raweles, analista da Benchmark Mineral Intelligence, declarou, em fevereiro passado, que &#8220;&#8230; No caso do cobalto, o pre\u00e7o subiu de 20 d\u00f3lares para 40, para se estabilizar em 32 d\u00f3lares. Valor que confirma as previs\u00f5es dos analistas do setor, segundo os quais em 2022 haver\u00e1 escassez mundial de cobalto, se n\u00e3o forem abertos novos pontos de produ\u00e7\u00e3o. Por esse motivo, todas as empresas ligadas ao sistema econ\u00f4mico global est\u00e3o tentando reduzir os riscos geopol\u00edticos para seus projetos de explora\u00e7\u00e3o&#8230; &#8220;. Fato \u00e9 que o fen\u00f4meno mais cl\u00e1ssico descrito nessas fontes como &#8220;risco geopol\u00edtico&#8221; \u00e9 a presen\u00e7a, nos estados produtores, de um governo &#8220;n\u00e3o cooperativo&#8221;, quer dizer, que n\u00e3o se alinhe aos interesses das multinacionais do setor!<\/p>\n<p>Para confirmar as previs\u00f5es do grupo CRU International Limited, de Londres, e do USGS, o presidente da mineradora estatal boliviana Comibol (Corporaci\u00f3n Minera de Bolivia), Marcelino Quispe, em mar\u00e7o de 2018, declarava \u00e0 ag\u00eancia ABI que: &#8220;As primeiras pesquisas de minera\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es de Oruro, La Paz, Potos\u00ed e Santa Cruz revelaram a exist\u00eancia de grandes dep\u00f3sitos de prata, ouro, g\u00e1lio, cobalto, cobre, zinco, t\u00f3rio e sobretudo de ur\u00e2nio. Este \u00faltimo foi localizado no nordeste da prov\u00edncia de Santa Cruz, de forma que sua extra\u00e7\u00e3o dever\u00e1 iniciar no in\u00edcio de 2019&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>Por esse motivo, o governo de Evo Morales estava preparando o esbo\u00e7o de poss\u00edveis acordos de coopera\u00e7\u00e3o com Argentina, R\u00fassia, Fran\u00e7a e Ir\u00e3, para enriquecer nesses pa\u00edses o ur\u00e2nio extra\u00eddo em Santa Cruz. Em seguida, em 2025, o governo previa implementar o &#8220;Programa Civil de Energia Nuclear&#8221;, investindo 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares na constru\u00e7\u00e3o de duas usinas nucleares nas prov\u00edncias do nordeste.<\/p>\n<p>Ao fazer isso e sem a presen\u00e7a das multinacionais dos EUA, a Bol\u00edvia ter-se-ia convertido no verdadeiro Eldorado mineiro da Am\u00e9rica Latina, com um governo que, certamente, teria reinvestido na sociedade os imensos lucros obtidos com a venda e a industrializa\u00e7\u00e3o dos minerais estrat\u00e9gicos. Tamb\u00e9m, cabe lembrar que na lista dos grandes projetos delineados pelo Presidente Morales, aparecia em primeiro lugar a instala\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica de baterias de l\u00edtio para abastecer carros el\u00e9tricos em todo o mundo, juntamente a uma f\u00e1brica de carros el\u00e9tricos para abastecer o mercado latino-americano.<\/p>\n<p>Nos meses que antecederam as elei\u00e7\u00f5es de outubro, a grande m\u00eddia jamais noticiou que Luis Fernando Camacho \u2013 desta vez sem B\u00edblia \u2013 teria tido \u201creuni\u00f5es reservadas\u201d com representantes de v\u00e1rias multinacionais de minera\u00e7\u00e3o dos EUA, como ALCOA, ASARCO, Newmont Mining Corporation, Southern Copper e Anaconda Copper. Tamb\u00e9m foi minimizada pela m\u00eddia a chegada de Luis Fernando Camacho a Bras\u00edlia, para se encontrar com o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Ara\u00fajo, na primeira semana de maio deste ano. Segundo fontes &#8220;confidenciais&#8221;, Camacho teria antecipado ao ministro brasileiro o plano para derrotar Morales, pedindo-lhe a promessa de um reconhecimento imediato do novo governo por parte do governo brasileiro. Em troca, Camacho ofereceu a redefini\u00e7\u00e3o do novo contrato de venda do g\u00e1s (32,35 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos di\u00e1rios).<\/p>\n<p>Parece coincid\u00eancia: o presidente brasileiro Jair Bolsonaro foi o primeiro a reconhecer Jeanine A\u00f1ez \u201cPresidente ad Interim\u201d. O mesmo Bolsonaro confirmou que j\u00e1 havia enviado para La Paz &#8220;&#8230; uma pessoa para acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o boliviana &#8230; &#8220;. A mesma fonte lembra que Camacho teria garantido ao ministro Ernesto Ara\u00fajo a realiza\u00e7\u00e3o de um programa de privatiza\u00e7\u00f5es semelhante ao brasileiro, pelo qual a primeira estatal a ser privatizada seria mesmo a YPFB.<\/p>\n<p>A necessidade da reelei\u00e7\u00e3o de Evo e o golpe<\/p>\n<p>Alguns setores da esquerda criticaram a decis\u00e3o do presidente Evo Morales de apelar ao Tribunal Constitucional para obter o que ele havia alcan\u00e7ado com o referendo. Ou seja, a oportunidade de concorrer pela quarta vez nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Para outros, Evo teria pecado por teimosia, ou estaria seduzido pelo poder&#8230;!<\/p>\n<p>Todos esses julgamentos e respectivas \u2018senten\u00e7as\u2019 foram \u2018noticiados\u2019 pelos ve\u00edculos de m\u00eddia bolivianos, estadunidenses e europeus, os quais, quando se trata de criticar Evo Morales trabalham em un\u00edssono, como aconteceu em 2016. De fato, por ocasi\u00e3o do referendo, marcaram a campanha midi\u00e1tica contra Evo Morales com absurdas Fake News e sobretudo com o caso &#8220;Gabriela Zapata&#8221;, conseguindo convencer a classe m\u00e9dia, em particular a de La Paz. A mesma classe m\u00e9dia que depois, em outubro deste ano, apoiou o golpe de Estado, criado e promovido em Santa Cruz de la Sierra por Luis Fernando Camacho.<\/p>\n<p>Poucos hoje lembram que, em 2016, Gabriela Zapata \u2013 foi apresentada pela m\u00eddia como a &#8220;amante&#8221; de Evo disposta a revelar os segredos do presidente. Por isso recebeu milhares de d\u00f3lares por entrevistas que gravou, nas quais descreveu Evo Morales como o indiv\u00edduo mais s\u00f3rdido, mais corrupto e mais imoral da Bol\u00edvia. Al\u00e9m disso, Gabriela Zapata tamb\u00e9m acusou Evo de ter matado uma crian\u00e7a que nunca existiu.<\/p>\n<p>Infelizmente, s\u00f3 no dia 23 de maio de 2017, o tribunal de La Paz descobriu a tramoia de Gabriela Zapata, que foi condenada a dez anos de pris\u00e3o por falsidade ideol\u00f3gica, uso de documentos falsificados, associa\u00e7\u00e3o criminal e uso indevido de bens p\u00fablicos. Infelizmente, em 2017, os bolivianos j\u00e1 haviam votado no referendo contra Evo!<\/p>\n<p>Por isso, para o presidente Evo e para os l\u00edderes do MAS (Movimiento al Socialismo), ficou evidente que a derrota no referendo havia sido determinada pela m\u00eddia, com o caso de Gabriela Zapata, de modo que o pedido ao Tribunal Constitucional parecia amplamente justificado.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os servi\u00e7os bolivianos de informa\u00e7\u00e3o haviam revelado ao presidente que, em caso de vit\u00f3ria do l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, Carlos Mesa, todos os projetos estrat\u00e9gicos criados pelo governo seriam dissolvidos e as empresas estatais privatizadas. Em primeiro lugar, a estatal do g\u00e1s, YPFB, e a mineradora Comibol, respons\u00e1vel pela industrializa\u00e7\u00e3o do l\u00edtio e do ur\u00e2nio.<\/p>\n<p>\u00c9 imperativo lembrar que Carlos Mesa tornou-se presidente da Bol\u00edvia em outubro de 2003, devido \u00e0 ren\u00fancia e \u00e0 fuga para os EUA do presidente Gonzalo S\u00e1nchez de Lozada. De fato, para evitar ser julgado pela dram\u00e1tica repress\u00e3o dos manifestantes que protestavam contra o aumento dos pre\u00e7os do g\u00e1s ap\u00f3s a privatiza\u00e7\u00e3o (80 mortos e 523 feridos), Lozada escapou gra\u00e7as \u00e0 ajuda da embaixada dos EUA. Al\u00e9m disso, \u00e9 bom saber que Carlos Mesa, ent\u00e3o vice-presidente, foi a emin\u00eancia parda que finalizou as privatiza\u00e7\u00f5es em favor das multinacionais, autorizando, inclusive, o aumento das tarifas do g\u00e1s.<\/p>\n<p>Por isso, o grande questionamento que pesou na decis\u00e3o de Evo Morales de concorrer a qualquer custo, pela quarta vez, diz respeito \u00e0 mudan\u00e7a pol\u00edtica e econ\u00f4mica que uma poss\u00edvel vit\u00f3ria de Carlos Mesa teria imposto ao povo boliviano com o retorno das privatiza\u00e7\u00f5es, destruindo, assim, tudo o que que havia sido constru\u00eddo durante os tr\u00eas governos. Na pr\u00e1tica, exatamente o mesmo que Moreno est\u00e1 fazendo no Equador e o que Bolsonaro j\u00e1 fez no Brasil!<\/p>\n<p>Outro elemento conjuntural que influenciou bastante a decis\u00e3o de Evo surgiu com a poss\u00edvel candidatura do seu vice-presidente, \u00c1lvaro Garcia Linera. De fato, apesar de ser um antigo l\u00edder da esquerda boliviana perfeitamente ligado ao MAS, o problema era que Garcia n\u00e3o \u00e9 ind\u00edgena \u2013 tra\u00e7o de grande import\u00e2ncia para o eleitorado andino. De fato, de acordo com a Divis\u00e3o Federal de Pesquisa da Biblioteca do Congresso (EUA), a Bol\u00edvia \u00e9 um pa\u00eds onde 58% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 etnicamente ind\u00edgena (28% s\u00e3o qu\u00e9chuas, 19% aimar\u00e1s e 11% de outros grupos \u00e9tnicos ind\u00edgenas), ent\u00e3o 30% \u00e9 formada pelos &#8220;mesti\u00e7os&#8221; (filhos de europeus e ind\u00edgenas) e apenas 12% s\u00e3o de origem europeia. Infelizmente, os outros l\u00edderes e parlamentares do MAS, incluindo Victor Borda, ex-presidente da C\u00e2mara dos Deputados, n\u00e3o alcan\u00e7avam a necess\u00e1ria dimens\u00e3o nacional para substituir a imagem de Evo Morales. Al\u00e9m disso, n\u00e3o t\u00eam a mesma capacidade de Evo para dialogar com as massas e, consequentemente, teriam chances m\u00ednimas de derrotarem a direita e a m\u00eddia nas elei\u00e7\u00f5es de outubro.<\/p>\n<p>No campo da oposi\u00e7\u00e3o, a certeza de que Evo Morales apareceria nas elei\u00e7\u00f5es de outubro, apesar do resultado negativo do referendo de 2016, permitiu a Luis Fernando Camacho transformar seu Comit\u00ea Santa Cruz no centro decisional do golpe; rapidamente se transformou no centro de comando de todas as a\u00e7\u00f5es terroristas que os grupos armados das \u201cMilicias\u201d realizaram em quase todo o territ\u00f3rio da Bol\u00edvia a partir do dia 19, isto \u00e9 na v\u00e9spera do referendo. Essa atividade criminosa e subversiva s\u00f3 foi poss\u00edvel, gra\u00e7as, sobretudo, ao encobrimento pela Pol\u00edcia e ao &#8220;sil\u00eancio&#8221; do ex\u00e9rcito. De fato, imediatamente ap\u00f3s as demiss\u00f5es for\u00e7adas de Evo Morales, para impedir que o Presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Victor Borda, assumisse o cargo de Presidente Interino, as &#8220;Milicias&#8221; de Luis Fernando Camacho atacaram e incendiaram a resid\u00eancia de Victor Borda em Potos\u00ed, para depois sequestrar o irm\u00e3o do pol\u00edtico, amea\u00e7ando-o de morte. Diante dessa chantagem, Victor Borda renunciou em troca da vida do irm\u00e3o!<\/p>\n<p>A Bol\u00edvia de Evo, rela\u00e7\u00f5es com os EUA e presen\u00e7a da China<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a expuls\u00e3o do embaixador dos EUA Philp Goldberg, em 12 de setembro de 2008, as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e pol\u00edticas entre Bol\u00edvia e Estados Unidos passaram por tempos dif\u00edceis. Basta dizer que, no mesmo ano, toda a delega\u00e7\u00e3o da Drug Enforcement Administration, DEA, foi expulsa da Bol\u00edvia, acusada de &#8220;conspira\u00e7\u00e3o&#8221;. Depois, em 2013, todo o pessoal da United States Agency for International Development, USAID (Ag\u00eancia dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) foi expulso pelo governo boliviano. Na realidade, somente nos \u00faltimos anos, com a chegada do novo Encarregado de Neg\u00f3cios, Bruce Williamson, as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre os dois pa\u00edses estabilizaram-se. Em vez disso, nos Estados Unidos, o Departamento de Estado e a Central Inteligence Agency, CIA, (Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia) decidiram expandir na Bol\u00edvia os efeitos da &#8220;guerra h\u00edbrida&#8221; mobilizada contra o governo bolivariano de Nicolas Maduro. Por esse motivo, v\u00e1rias entidades governamentais, ONGs e funda\u00e7\u00f5es estadunidenses multiplicaram o relacionamento com as for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o boliviana, buscando repetir o processo de infiltra\u00e7\u00e3o j\u00e1 perfeitamente implementado no Brasil, na Venezuela e no Equador.<\/p>\n<p>Foi neste \u00e2mbito que, em janeiro deste ano, a deputada republicana Ileana Ros-Lehtinen declarou no Congresso que &#8220;&#8230; O presidente Morales n\u00e3o pode se perpetuar no poder, ent\u00e3o o povo da Bol\u00edvia precisa da ajuda dos Estados Unidos&#8230;&#8221;. Mais tarde, em agosto, durante a &#8220;miss\u00e3o diplom\u00e1tica&#8221; na Col\u00f4mbia, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikky Haley, declarou: &#8220;A Bol\u00edvia, depois da Venezuela, \u00e9 pa\u00eds que devemos seguir com muito cuidado!&#8221;. Declara\u00e7\u00f5es que confirmam o trabalho de infiltra\u00e7\u00e3o coordenado por ag\u00eancias e subag\u00eancias do Departamento de Estado. Por exemplo, a National Endowment for Democracy, NED (Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Democracia) realiza seus programas com o apoio de 30 ONGs bolivianas e dois institutos privados dos EUA, o Instituto Republicano Internacional e o Centro Internacional de Empresas Privadas, para realizar o programa &#8220;Governo e Sociedade Civil &#8220;. Um projeto que forma os novos l\u00edderes dos partidos da oposi\u00e7\u00e3o, de acordo com as normas do liberalismo estadunidense.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que o governo de Evo Morales nunca conseguiu cortar o cord\u00e3o umbilical que liga a Pol\u00edcia boliviana \u00e0 CIA e \u00e0 DEA, e os oficiais superiores das For\u00e7as Armadas, ao Pent\u00e1gono. Isso ocorreu porque, a partir de 1962, o ex\u00e9rcito da Bol\u00edvia, como tamb\u00e9m o ex\u00e9rcito da Venezuela, foram completamente reestruturado de acordo com as regras da academia militar dos EUA. Basta dizer que na Am\u00e9rica Latina o primeiro batalh\u00e3o de Rangers, especializado em contraguerrilha, foi criado pelo Pent\u00e1gono na Bol\u00edvia, especificamente para cercar e eliminar o foco de guerrilha montado por Che Guevara e o ent\u00e3o nascente Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, ELN.<\/p>\n<p>De fato, o governo socialista-progressista de Evo Morales, assim como o de Rafael Correa e de Lula, nunca puderam contar com o pleno reconhecimento democr\u00e1tico pelos militares de mais altas patentes. Essa situa\u00e7\u00e3o sempre permitiu a infiltra\u00e7\u00e3o de \u2018olheiros\u2019 da CIA, da DEA e do Departamento de Estado dos EUA nas For\u00e7as Armadas e na Pol\u00edcia. Por sua parte, Evo, Correa e Lula sempre acreditaram que o controle das institui\u00e7\u00f5es pelo governo, a atua\u00e7\u00e3o das normas constitucionais e o peso das vit\u00f3rias eleitorais teriam determinado um novo tipo de rela\u00e7\u00f5es com os oficiais superiores das For\u00e7as Armadas, dos Servi\u00e7os de Intelig\u00eancia e da Pol\u00edcia. Rela\u00e7\u00f5es que, infelizmente, ficaram limitadas a um simples respeito hier\u00e1rquico, e que, na maioria dos casos, muitos confundiram com lealdade e fidelidade.<\/p>\n<p>De fato, se no Brasil as For\u00e7as Armadas, com seus experimentados servi\u00e7os de intelig\u00eancia, e a Pol\u00edcia Federal, estivessem realmente comprometidos com a governabilidade e com os conceitos democr\u00e1ticos da Constitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teriam permitido que fosse organizado e prosperasse o movimento de Impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff; e tamb\u00e9m n\u00e3o teriam deixado que S\u00e9rgio Moro levasse a efeito sua pantomina suposta processual contra In\u00e1cio Lula da Silva!<\/p>\n<p>O mesmo aconteceu no Equador, onde o Judici\u00e1rio, a Pol\u00edcia e os servi\u00e7os de intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito praticamente apoiaram a trai\u00e7\u00e3o cometida pelo novo presidente Moreno, conspirando para provocar a pris\u00e3o do vice-presidente Jorge Glas.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, Evo Morales nunca reprimiu seus oponentes pol\u00edticos usando a for\u00e7a de quem foi eleito com 67%. Basta dizer que, quando implodiu a intentona do movimento separatista \u201cMeia Lua de Santa Cruz de la Sierra\u201d, o governo e o pr\u00f3prio Evo Morales deixaram ao Judici\u00e1rio a tarefa de investigar e de processar os poucos terroristas presos pela Pol\u00edcia. Na realidade, o governo boliviano ficou satisfeito com a vit\u00f3ria pol\u00edtica, achando que as senten\u00e7as judiciais, a coexist\u00eancia pac\u00edfica e a atividade democr\u00e1tica no Parlamento teriam expurgado o hist\u00f3rico v\u00edcio conspirat\u00f3rio da oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, a verdadeira raz\u00e3o que liga o golpe de Estado na Bol\u00edvia ao governo dos EUA \u00e9 o novo e profundo relacionamento pol\u00edtico, econ\u00f4mico e financeiro que o governo de Evo Morales estava desenvolvendo com a China.<\/p>\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o que o ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, Celso Amorim, assim analisa: &#8220;Em termos geoestrat\u00e9gicos, a Bol\u00edvia \u00e9 o centro da Am\u00e9rica Latina, que nos \u00faltimos anos cresceu enormemente, descobrindo um potencial consider\u00e1vel nas suas riquezas minerais. Por esse motivo, quando os Estados Unidos perceberam que o governo de Evo Morales estava abrindo-se para outras for\u00e7as mundiais, em particular para a China, decidiram agir. N\u00e3o tenho d\u00favidas!.(&#8230;) A influ\u00eancia dos Estados Unidos na Bol\u00edvia \u00e9 permanente, e as for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o sempre alimentaram a conspira\u00e7\u00e3o subversiva. E sei disso porque em 2008 eu estava l\u00e1! Portanto conhe\u00e7o o contexto de Santa Cruz que em 2008 estava jogando a Bol\u00edvia no v\u00f3rtice da guerra civil\u201d (&#8230;).<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de Celso Amorim torna-se evidente se considerarmos que, nos \u00faltimos anos, a Bol\u00edvia passou a ser um dos principais exportadores mundiais de l\u00edtio, antim\u00f4nio, estanho, tungst\u00eanio e boro, e dos principais minerais estrat\u00e9gicos dos quais as ind\u00fastrias estadunidenses precisam. Al\u00e9m disso, desde 2016 a Corporaci\u00f3n Minera de Bolivia (Comibol) come\u00e7ou a refinar os minerais extra\u00eddos nas fundi\u00e7\u00f5es espanholas e, sobretudo nas chinesas, com as quais foram substitu\u00eddas as fundi\u00e7\u00f5es estadunidenses.<\/p>\n<p>Uma depend\u00eancia que Evo Morales pensou em acabar, ampliando a &#8220;coopera\u00e7\u00e3o financeira&#8221; chinesa (7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares) e assinando contratos para a constru\u00e7\u00e3o de centros metal\u00fargicos para o refino do zinco, de onde \u00e9 extra\u00eddo o \u00edndio (s\u00edmbolo qu\u00edmico \u201cIn\u201d), que \u00e9 outro material estrat\u00e9gico do qual as ind\u00fastrias dos EUA t\u00eam necessidade absoluta. Sempre com a contribui\u00e7\u00e3o e a coopera\u00e7\u00e3o de empresas chinesas, russas, francesas, canadenses e alem\u00e3s, o governo de Evo Morales havia planejado aumentar a capacidade de extra\u00e7\u00e3o de todos os minerais estrat\u00e9gicos presentes no subsolo boliviano, quer dizer, l\u00edtio, cobalto, pal\u00e1dio, antim\u00f4nio, bismuto, c\u00e1dmio, cromo, tungst\u00eanio e ur\u00e2nio, al\u00e9m de aumentar o volume de exporta\u00e7\u00e3o dos minerais tradicionais, a saber: ouro, estanho, mangan\u00eas, zinco, prata, platina, pot\u00e1ssio, n\u00edquel, ferro e cobre.<\/p>\n<p>Esse contexto n\u00e3o escapou aos analistas envolvidos no processo de desenvolvimento econ\u00f4mico da Bol\u00edvia. De fato, Axel Ar\u00edas Jordan, em 20 de setembro de 2018, revelando o interesse dos Estados Unidos em promover mudan\u00e7a pol\u00edtica na Bol\u00edvia, assim escrevia: &#8220;O confronto eleitoral que ocorrer\u00e1 em outubro de 2019 promete ser um dos grandes desafios para uma poss\u00edvel mudan\u00e7a pol\u00edtica na Bol\u00edvia. \u00c9 por isso que devemos ter muito cuidado em analisar a maneira como o governo e o setor privado dos Estados Unidos avaliam esse contexto, e se decidir\u00e3o intervir de acordo com seus interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos relacionados \u00e0 Bol\u00edvia. De fato, al\u00e9m dos interesses tradicionais pelo controle de um pa\u00eds que se tornou mundialmente famoso por seu potencial de minera\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos t\u00eam outros interesses fundamentais ligados \u00e0 defesa e aos v\u00ednculos comerciais existentes entre a Bol\u00edvia e a China. Por fim, enquanto os EUA continuam mantendo a Venezuela sob press\u00e3o, \u00e9 muito prov\u00e1vel que a Casa Branca endure\u00e7a as diferentes formas de press\u00e3o sobre o governo boliviano! &#8230; &#8221;<\/p>\n<p>Infelizmente, o endurecimento do imperialismo ocorreu aos 10 de novembro de 2019, com um golpe de Estado \u2013 um golpe que j\u00e1 estava previsto para ser implementado em maio. Golpe que, hoje, h\u00e1 quem queira ocultar por tr\u00e1s de uma B\u00edblia. Um golpe que \u00e9 a en\u00e9sima solu\u00e7\u00e3o imperialista para enriquecer-se pelo roubo das imensas riquezas minerais da Bol\u00edvia!<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>[1] Sobre o tema, parece haver material interessante em \u201cABC del litio sudamericano (&#8230;) Alternativa productiva para la soberania energetica\u201d (NdE)<\/p>\n<p>A vers\u00e3o em portugu\u00eas foi editada no dia 22\/11\/2019 por Coletivo de tradutores Vila Mandinga<\/p>\n<p>A vers\u00e3o italiana foi publicada por CONTROPIANO no dia 18\/11\/2919 e no dia 19 por TLAXCALA. Em seguida este realizava as tradu\u00e7\u00f5es em espanhol, ingl\u00eas e em franc\u00eas, dispon\u00edveis no sito de TLAXCALA (tlaxnetwork@gmail.com).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24405\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[44],"tags":[227],"class_list":["post-24405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c55-bolivia","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6lD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24405"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24405\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}