{"id":24419,"date":"2019-12-01T21:19:41","date_gmt":"2019-12-02T00:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24419"},"modified":"2019-12-05T23:13:00","modified_gmt":"2019-12-06T02:13:00","slug":"cultura-e-resistencia-os-comunistas-caem-no-samba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24419","title":{"rendered":"Cultura e resist\u00eancia: os comunistas caem no samba"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/memorialdademocracia.com.br\/publico\/thumb\/13706\/740\/440\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u201csamba, negro, forte, destemido<\/p>\n<p>foi duramente perseguido<\/p>\n<p>nas esquinas, nos botequins, nos terreiros.\u201d<\/p>\n<p>Agoniza, mas n\u00e3o morre &#8211; Nelson Sargento<\/p>\n<p>\u201cenquanto se luta, se samba tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Viver \u2013 Candeia<\/p>\n<p>\u201co fim de toda opress\u00e3o, o cantar com emo\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>raiou a liberdade\u201d<\/p>\n<p>Por um dia de gra\u00e7a &#8211; Luiz Carlos da Vila<\/p>\n<p>Nath\u00e1lia Mozer &#8211; historiadora apaixonada pela hist\u00f3ria do samba e militante do PCB de Nova Friburgo-RJ<\/p>\n<p>O samba \u00e9 uma express\u00e3o de resist\u00eancia. Essa express\u00e3o cultural \u00e9 cria\u00e7\u00e3o daqueles que sofreram na pele os piores momentos vividos por seres humanos ao longo de quatro s\u00e9culos no Brasil colonial: a escravid\u00e3o imposta aos povos de \u00c1frica. Surge com influ\u00eancia dos ritmos de l\u00e1, do batuque dos negros, das festas do candombl\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer um endere\u00e7o certo para explicar a origem do samba, e pouco importa se foi no morro carioca ou no terreiro de candombl\u00e9 baiano&#8230; O samba \u00e9 um fen\u00f4meno cultural, produto das rela\u00e7\u00f5es entre as diversas camadas sociais, \u00e9 um lugar de mistura de h\u00e1bitos e comportamentos da sociedade, por meio das rela\u00e7\u00f5es que o samba promove. Tornou-se, al\u00e9m de um meio de comunica\u00e7\u00e3o, um espa\u00e7o tamb\u00e9m de disputa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A origem do ritmo est\u00e1 associada \u00e0 mistura dos estilos musicais vindos da \u00c1frica. No s\u00e9culo XIX, a cidade do Rio de Janeiro, capital do Imp\u00e9rio, passou a receber negros vindos de outras regi\u00f5es do pa\u00eds, sobretudo da Bahia. Nesse contexto, se constitu\u00edram os aglomerados urbanos que se formaram pelos praticantes das religi\u00f5es iorub\u00e1s na regi\u00e3o central da cidade, principalmente na Pra\u00e7a Onze. Foi ali que surgiram as primeiras rodas de samba.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1930, o samba come\u00e7a a ganhar espa\u00e7o na ind\u00fastria musical. Noel Rosa foi um dos respons\u00e1veis por trazer o g\u00eanero &#8211; at\u00e9 ent\u00e3o profundamente marginalizado &#8211; dos morros para o asfalto. Get\u00falio Vargas, no per\u00edodo do Estado Novo, utilizou o samba para constru\u00e7\u00e3o do chamado orgulho nacional, que tamb\u00e9m tinha como projeto a incorpora\u00e7\u00e3o do negro no projeto de unidade nacional. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade da \u00e9poca elaborou uma s\u00e9rie de atividades no intuito de valorizar o que chamavam de &#8220;ra\u00edzes do Brasil&#8221;, come\u00e7ando a projetar o samba e as escolas de samba como constitutivas da identidade nacional.<\/p>\n<p>Os comunistas compreenderam na valoriza\u00e7\u00e3o dos sambistas um elemento de resist\u00eancia e de di\u00e1logo com o trabalhador das comunidades e do sub\u00farbio do Rio de Janeiro, fator que deveria tamb\u00e9m contribuir para a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica daquela massa de trabalhadores e trabalhadoras. Veem ser poss\u00edvel construir, atrav\u00e9s do samba, das artes e da cultura, um di\u00e1logo permanente com os setores populares, para a incorpora\u00e7\u00e3o de grandes contingentes da popula\u00e7\u00e3o ao projeto de transforma\u00e7\u00e3o radical no processo hist\u00f3rico brasileiro.<\/p>\n<p>A volta do PCB \u00e0 legalidade na d\u00e9cada de 1940 possibilita uma nova forma de inser\u00e7\u00e3o do Partido junto \u00e0s camadas populares, fazendo com que a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda dos comunistas tomassem novos contornos. Com o boom da imprensa comunista entre 1945 e 1947 (em todo o pa\u00eds passam a ser produzidos jornais com circula\u00e7\u00e3o di\u00e1ria ou semanal, sob controle direto e orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PCB), surge a Tribuna Popular, jornal de circula\u00e7\u00e3o di\u00e1ria no Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital do pa\u00eds. O jornal rapidamente adquire grande import\u00e2ncia na pol\u00edtica de aproxima\u00e7\u00e3o do Partido com as camadas populares.<\/p>\n<p>O PCB procurava abra\u00e7ar uma ampla variedade de a\u00e7\u00f5es na esfera das artes e da cultura e, obviamente, n\u00e3o deixou para tr\u00e1s o mundo do samba, que tinha na Tribuna Popular duas colunas mais constantes: \u201cO povo se diverte\u201d e \u201cO samba na cidade\u201d. Ainda que publicadas de forma mais espa\u00e7ada ao longo do ano, entre dezembro e fevereiro se tornavam bem mais constantes.<\/p>\n<p>O carnaval de 1946 teve especial destaque: ficou conhecido como Carnaval da Vit\u00f3ria, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Havia grande expectativa em rela\u00e7\u00e3o a esse carnaval, pelo valor simb\u00f3lico que trazia. Os sambas-enredo para esse carnaval receberam espa\u00e7o exclusivo para divulga\u00e7\u00e3o na Tribuna Popular. Os temas das m\u00fasicas publicadas eram, centralmente, a vit\u00f3ria das for\u00e7as democr\u00e1ticas e a participa\u00e7\u00e3o dos brasileiros na guerra.<\/p>\n<p>A Portela foi campe\u00e3 desse carnaval com o enredo \u201cAlvorada do Novo Mundo\u201d.<\/p>\n<p>Ao considerar que as comunidades que produzem o samba podiam se transformar em fortes elementos de resist\u00eancia \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista, o PCB abriu um canal diferente de participa\u00e7\u00e3o dos artistas prolet\u00e1rios e promotores da cultura popular, garantindo uma inser\u00e7\u00e3o do Partido nos assuntos do samba. Constantemente eram publicadas cartas das escolas de samba simp\u00e1ticas \u00e0 Tribuna Popular. A abertura deste espa\u00e7o conquistou o mundo do samba de tal modo, que, em 15 de novembro de 1946, no campo do S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, aconteceu um dos maiores eventos pol\u00edtico-culturais da hist\u00f3ria do PCB: um concurso de samba em homenagem a Luiz Carlos Prestes e \u00e0 Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Participaram deste evento 22 escolas de samba, comprovando o sucesso dos comunistas no trabalho com as agremia\u00e7\u00f5es e as comunidades de origem popular.<\/p>\n<p>Durante toda a sua hist\u00f3ria o PCB buscou aproxima\u00e7\u00e3o com a cultura popular como canal de di\u00e1logo com a classe trabalhadora. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que \u00e9 poss\u00edvel encontrar, nos arquivos da repress\u00e3o pol\u00edtica, uma grande preocupa\u00e7\u00e3o das autoridades de plant\u00e3o, agindo como c\u00e3es de guarda dos interesses da classe dominante, com a rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre os comunistas e as escolas de samba. Mesmo com toda a vigil\u00e2ncia do Estado burgu\u00eas, o Partido conseguiu em um curto espa\u00e7o de tempo um s\u00f3lida rela\u00e7\u00e3o com as comunidades populares, atrav\u00e9s do samba.<\/p>\n<p>Bibliografia:<\/p>\n<p>Tribuna Popular, jornal carioca di\u00e1rio, criado em 22 de maio de 1945 e fechado em dezembro de 1947, vinculado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).<br \/>\nGUIMAR\u00c3ES, Val\u00e9ria Lima \u2013 O PCB cai no samba: os comunistas e a cultura popular(1945 \u2013 1950). 1\u00b0 edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro, 2009.<\/p>\n<p>Roxo, Marco e Sacramento, Igor (orgs.) &#8211; Intelectuais Partidos: os comunistas e as m\u00eddias no Brasil. 1\u00b0 edi\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro, FAPERJ, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24419\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,20],"tags":[223],"class_list":["post-24419","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-c1-popular","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6lR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24419"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24419\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}