{"id":24429,"date":"2019-12-04T02:11:16","date_gmt":"2019-12-04T05:11:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24429"},"modified":"2019-12-04T02:11:16","modified_gmt":"2019-12-04T05:11:16","slug":"os-olhos-do-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24429","title":{"rendered":"Os olhos do Chile"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2019\/11\/os-olhos-do-chile.jpg?w=620&amp;h=465\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Ilustra\u00e7\u00e3o de Mauro Iasi, feita especialmente para esta coluna.<\/p>\n<p>Os jovens cegos enfrentam seus algozes e dizem: \u201ceu posso v\u00ea-los, voc\u00eas n\u00e3o podem\u2026 voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam olhos que voam\u201d!<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>\u201cTriste va mi canto ahora,<br \/>\ntriste camina tambi\u00e9n mi pensamiento.<br \/>\nYa no quiero adornar mi cabello,<br \/>\nya no quiero cantar cuando el sol<br \/>\naparezca en la ma\u00f1ana.<\/p>\n<p>Ir\u00e9 a la monta\u00f1a a esconderme,<br \/>\npara que nadie me mire,<br \/>\npara que nadie me mire.\u201d<\/p>\n<p>Jaqueline Canigu\u00e1n (1974-),<br \/>\npoetisa Mapuche<\/p>\n<p>Em um tempo muito antigo, depois da separa\u00e7\u00e3o dos continentes, da f\u00faria dos vulc\u00f5es, das cordilheiras gigantes e dos montes, o sol aparecia como uma explos\u00e3o de cores para nada. O dia e a noite se alternavam, luz e trevas, sem que as estrelas ou a inclem\u00eancia do sol pudessem percorrer impulsos el\u00e9tricos e nervos, sem que cem milh\u00f5es de fotorreceptores pudessem transformar luz e cores, sem que nenhum c\u00f3rtex pudesse captar os impulsos e formar imagens.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais ou menos quarenta mil anos, quando os p\u00e9s que cruzaram o mundo chegaram pela primeira vez, \u00e9 que a explos\u00e3o de imagens inundou os olhos amendoados. Eles viram o c\u00e9u, o mar, a cordilheira, o condor e o puma, o voo do p\u00e1ssaro e a cor do copihue, eles viram a noite e o dia, batalhas e imp\u00e9rios, grandeza e decad\u00eancia, a terra mineral, a dureza da semente e a promessa do fruto.<\/p>\n<p>Viram quando os conquistadores chegaram e lutaram contra os imp\u00e9rios por seu ouro, viram a sombra da cruz de madeira ofuscar os deuses, a tortura e a iniquidade, viram a morte e o sangue, os corpos despeda\u00e7ados, viram como pode ser profundo o po\u00e7o da maldade e do \u00f3dio. Mas viram tamb\u00e9m os que lutavam, os punhos erguidos que buscavam o abra\u00e7o da cordilheira, viram quando as l\u00e1grimas se fizeram rios que guardavam a vida que foi e a vida que viria.<\/p>\n<p>Viram mais de uma vez a noite derrotar o dia, a escurid\u00e3o das catacumbas, as trevas e as estrelas que resistiam como gritos de luz em meio ao breu do firmamento, e a lua que morria para renascer em seu brilho de prata.<\/p>\n<p>Viram gigantes que andavam sobre a terra. Por tr\u00eas s\u00e9culos viram a luta em defesa de Mapuche Wallontu Mapu, viram com seus olhos a carnificina chamar-se de pacifica\u00e7\u00e3o, viram Leftraru como crian\u00e7a sendo escravizado pela inf\u00e2mia e o viram crescer como Lautaro que olhou seus dominadores para aprender como enfrent\u00e1-los.<\/p>\n<p>Os olhos que se fechavam para dormir, os olhos que despertavam com o sol viram os mineiros saindo das entranhas da terra e marchando por seus direitos, viram m\u00e3es carregando seus filhos, velhos e crian\u00e7as do salitre erguerem seu punho forte e viram as tropas da morte cair sobre eles e o massacrarem em Santa Maria de Iquique.<\/p>\n<p>Olhos que tanto viram anoitecer, tamb\u00e9m viram a esperan\u00e7a dos dias, viram auroras avermelhadas e suas bandeiras, libert\u00e1rias, socialistas, comunistas. Viram a si mesmos no espelho claro de seus olhos limpos pelas l\u00e1grimas da noite.<\/p>\n<p>E porque viam o passado puderam ver o futuro e ele era de bandeiras e cantos, de abra\u00e7os e de encontros, de poetas e trabalhadores. Viram o presidente com seus \u00f3culos que lhes permitia ver o povo e suas esperan\u00e7as, ver as crian\u00e7as, as mulheres e os oper\u00e1rios, os mineiros, o campon\u00eas e o \u00edndio, cada gota do sangue e das l\u00e1grimas feitas em rio, viu a noite e as estrelas que nunca deixaram de acreditar no amanhecer.<\/p>\n<p>E mais uma vez a noite e suas botas, mais uma vez a morte e seus cortejos, mais uma vez a inf\u00e2mia e a tortura, mais uma vez as trevas. Mais uma vez erguer a cruz e assassinar a Cristo, uma vez mais colocar o deus dinheiro no altar e a fome no prato do trabalhador, escondendo os olhos do mal atr\u00e1s de \u00f3culos escuros e uniformes verdes.<\/p>\n<p>Toda noite, por mais longa, encontra seu amanhecer. Mas nem todo dia nasce por inteiro.<\/p>\n<p>As fogueiras aquecem a revolta das ruas iluminando a insensatez da noite. Por quanto tempo dormimos? Perguntam os que dormiram. Nenhum segundo, respondem os que militam na ins\u00f4nia, pois aprenderam a arte de sonhar despertos. Jovens, palha\u00e7os, meninas, cachorros da rua, senhoras e insanos, professores e alunos, aposentados sem renda e enfermos sem m\u00e9dicos, cantores e poetas, marcham desafiando a noite com o brilho dos olhos abertos.<\/p>\n<p>Na vanguarda centenas de jovens sem seus olhos, avan\u00e7am. No oco do olho arrancado poderia morar a noite, mas habita a luz e denuncia seus carrascos. Uma velha \u00edndia mapuche tira sons ritmados de seu kultrum e entoa uma ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es de olhos, ent\u00e3o, v\u00eam desde o nascimento da cordilheira, do cora\u00e7\u00e3o dos vulc\u00f5es, das geleiras e dos rios, de todos os combatentes ca\u00eddos, das minas e dos desertos, dos n\u00e1ufragos nos mares gelados, das alturas e das entranhas da noite, das cabe\u00e7as decepadas dos guerreiros \u00edndios, dos calabou\u00e7os e c\u00e2maras de tortura, dos por\u00f5es e das avenidas, das f\u00e1bricas e dos campos, dos muros sujos de sangue dos fuzilamentos, dos corpos violentados e estuprados, das gargantas caladas dos que cantavam, dos l\u00e1bios mortos dos poetas. Milhares de olhos agora encaram seus carrascos desde o buraco vazio dos olhos arrancados.<\/p>\n<p>Os jovens cegos enfrentam seus algozes e dizem: \u201ceu posso v\u00ea-los, voc\u00eas n\u00e3o podem\u2026 voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam olhos que voam\u201d!<\/p>\n<p>***<br \/>\nMauro Iasi apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique da TV Boitempo! Nesse quadro mensal do canal da Boitempo no YouTube, nosso comunista de carteirinha apresenta conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre acontecimentos da conjuntura pol\u00edtica e social recente no Brasil e no mundo. Se inscreva no canal aqui e venha tomar este caf\u00e9 conosco! Os dois \u00faltimos epis\u00f3dios foram sobre Chile, Bol\u00edvia e as insurrei\u00e7\u00f5es populares na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24429\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87],"tags":[225],"class_list":["post-24429","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6m1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24429"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24429\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}