{"id":24462,"date":"2019-12-08T21:43:00","date_gmt":"2019-12-09T00:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24462"},"modified":"2019-12-08T21:43:00","modified_gmt":"2019-12-09T00:43:00","slug":"brasil-o-processo-golpista-em-curso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24462","title":{"rendered":"Brasil: O processo golpista em curso"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/brasil\/imagens\/partido_da_bala.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Cid Benjamin*<\/p>\n<p>&#8220;Se as pessoas m\u00e1s fossem mortas, ficariam apenas as boas, n\u00e3o?&#8221;. A pergunta foi feita a Mafalda, o genial personagem do cartunista argentino Quino, por Manolito, um amiguinho dela. Mafalda respondeu com uma lucidez cortante: &#8220;N\u00e3o. Ficariam apenas os assassinos&#8221;.<\/p>\n<p>Pois a sugest\u00e3o de Manolito parece estar sendo posta em pr\u00e1tica pelos bolsonaristas: matar as pessoas supostamente m\u00e1s. S\u00f3 que os alvos s\u00e3o os pobres, negros e jovens, moradores de favelas ou periferias das grandes cidades. Entre janeiro e agosto, s\u00f3 no Rio de Janeiro, cinco pessoas foram mortas a cada dia pela pol\u00edcia. A fonte dessa informa\u00e7\u00e3o impressionante \u00e9 a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>Em todo o pa\u00eds, as pol\u00edcias militares est\u00e3o sendo estimuladas a humilhar, espancar e matar pobres. Nas 27 unidades da federa\u00e7\u00e3o, contam com cerca de 500 mil integrantes, armados e cada vez mais fascistizados, e t\u00eam armamentos altamente letais, como fuzis e equipamentos como os caveir\u00f5es, que espalham medo e terror entre os pobres. S\u00e3o uma gigantesca reserva para a extrema direita.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio ocorrido semana passada na favela de Parais\u00f3polis, na capital paulista, quando foram assassinados nove moradores pela PM de S\u00e3o Paulo, \u00e9 ilustrativo. A defesa que, no primeiro momento, autoridades estaduais e o governo Bolsonaro fizeram do comportamento dos policiais envolvidos \u00e9 vergonhosa. Deixa claro o incentivo para o assassinato de pobres. S\u00f3 quando essa posi\u00e7\u00e3o se mostrou insustent\u00e1vel trataram de amenizar o discurso. Mas ningu\u00e9m acredita que essa mudan\u00e7a ter\u00e1 alguma consequ\u00eancia pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Para assegurar o alinhamento e o apoio pol\u00edtico das pol\u00edcias, Bolsonaro as compra de duas maneiras: por meio de uma vasta distribui\u00e7\u00e3o de benesses materiais e pela prote\u00e7\u00e3o aos que usam a farda para cometer crimes. \u00c9 algo parecido com o que faz com as For\u00e7as Armadas,<\/p>\n<p>Assim, num momento em que o sistema de previd\u00eancia p\u00fablica \u2013 elemento essencial numa sociedade civilizada \u2013 \u00e9 desmantelado, deixando os trabalhadores comuns sem qualquer cobertura, as vantagens de policiais e militares (assim como as de ju\u00edzes e outras categorias privilegiadas) s\u00e3o ampliadas ao extremo. Para eles n\u00e3o vale o discurso de austeridade.<\/p>\n<p>A bajula\u00e7\u00e3o n\u00e3o para por a\u00ed. Propostas como o tal &#8220;excludente de ilicitude&#8221; para policiais ou integrantes da For\u00e7as Armadas s\u00e3o um claro est\u00edmulo \u00e0 viol\u00eancia e ao assassinato de pobres em geral.<\/p>\n<p>Ela \u00e9, na pr\u00e1tica, uma licen\u00e7a para matar que se assemelha ao &#8220;direito&#8221; que, na literatura de fic\u00e7\u00e3o, encontra similaridade com as prerrogativas do famoso agente James Bond, o 007, uma cria\u00e7\u00e3o do romancista ingl\u00eas Ian Fleming. Bond fazia parte de um seleto grupo de agentes secretos brit\u00e2nicos cujo n\u00famero em c\u00f3digo come\u00e7ava com dois zeros. Estes significavam que aqueles agentes tinham licen\u00e7a para matar quem se atravessasse no seu caminho.<\/p>\n<p>A bandeira do combate \u00e0 viol\u00eancia estimulando a letalidade das a\u00e7\u00f5es policiais \u00e9 um dos carros-chefes da direita. Aproveitando-se da justa preocupa\u00e7\u00e3o das pessoas com a criminalidade urbana \u2013 cujas ra\u00edzes principais est\u00e3o na exclus\u00e3o social, nunca \u00e9 demais dizer \u2013 a direita protofascista prega o exterm\u00ednio dos que classifica como bandidos, ou, na hip\u00f3tese mais branda, um rigor ainda maior no C\u00f3digo Penal para os que escaparem vivos.<\/p>\n<p>Interessante \u00e9 que essas mesmas pessoas se mostram inteiramente lenientes e com uma suspeita compreens\u00e3o no que diz respeito aos crimes praticados pelas mil\u00edcias ou por policiais a elas associados. Basta ver que o plano de combate \u00e0 criminalidade, apresentado pelo ministro S\u00e9rgio Moro no in\u00edcio deste ano, praticamente n\u00e3o trata do combate \u00e0s mil\u00edcias. E nem o Minist\u00e9rio P\u00fablico, nem a Pol\u00edcia Federal, conseguem encontrar o miliciano Fabr\u00edcio Queiroz, amigo \u00edntimo da fam\u00edlia do presidente.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que n\u00e3o se perca de vista que, embora tenha passado pelo Ex\u00e9rcito \u2013 onde, ali\u00e1s, teve uma carreira p\u00edfia e de onde saiu pela porta dos fundos \u2013, Bolsonaro tem uma cabe\u00e7a muito mais de miliciano do que de militar.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que est\u00e1 se conformando mais e mais no Brasil um Estado policial. As pol\u00edcias fascistizadas e as mil\u00edcias tornam-se o bra\u00e7o armado da extrema direita. S\u00e3o uma tropa de choque que pode ser mobilizada para golpes de estado ou assassinatos pol\u00edticos, tal como ocorreu na morte da vereadora Marielle Franco. O recente golpe na Bol\u00edvia, que dep\u00f4s Evo Morales, teve nessas pol\u00edcias e nos seus amigos paramilitares o seu motor, cabendo ao Ex\u00e9rcito apenas a omiss\u00e3o e a &#8220;sugest\u00e3o&#8221; ao presidente para que renunciasse.<\/p>\n<p>Dessa forma, no Brasil, esses contingentes s\u00e3o uma reserva de tropa de choque para a direitiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, talvez, mais adiante para a quebra da institucionalidade e a implanta\u00e7\u00e3o de uma ditadura.<\/p>\n<p>Na legitima\u00e7\u00e3o e no apoio pol\u00edtico a uma sa\u00edda desse tipo jogariam papel importante igrejas neopentecostais, cuja influ\u00eancia \u00e9 crescente, e emissoras de r\u00e1dio e TV voltadas para uma programa\u00e7\u00e3o popularesca. Tanto umas, como outras, j\u00e1 tiveram papel importante na busca de apoio para a contrarreforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando Bolsonaro e os porta-vozes mais pr\u00f3ximos \u2013 entre os quais os filhos boquirrotos \u2013 acenam repetidamente com uma reedi\u00e7\u00e3o do AI-5 n\u00e3o est\u00e3o cometendo destemperos verbais. N\u00e3o se trata de coincid\u00eancia, mas da cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para uma tentativa de implanta\u00e7\u00e3o de uma ditadura.<\/p>\n<p>Da mesma forma, s\u00e3o tamb\u00e9m prepara\u00e7\u00e3o do terreno para um fechamento do regime os ataques do n\u00facleo central do bolsonarismo a institui\u00e7\u00f5es conservadores \u2013 e at\u00e9 mesmo reacion\u00e1rias, mas n\u00e3o necessariamente golpistas, como o Congresso, o Judici\u00e1rio ou certos ve\u00edculos da grande imprensa, como as que integram as Organiza\u00e7\u00f5es Globo ou a Folha de S.Paulo.<\/p>\n<p>Assim, o processo golpista pode ou n\u00e3o chegar ao seu objetivo final, mas j\u00e1 come\u00e7ou a ser desencadeado.<\/p>\n<p>Que ningu\u00e9m se iluda.<br \/>\n06\/Dezembro\/2019<br \/>\n[*] Jornalista , professor e autor dos livros H\u00e9lio Luz, um xerife de esquerda (Relume Dumar\u00e1, 1998), Gracias a la vida (Jos\u00e9 Olympio, 2014) e Reflex\u00f5es rebeldes (Jos\u00e9 Olympio, 2016) e Estado policial, como sobreviver . Organizou, ainda, a colet\u00e2nea Meio s\u00e9culo de 68 \u2013 Barricadas, hist\u00f3ria e pol\u00edtica (Mauad, 2018), juntamente com Felipe Demier.<\/p>\n<p>https:\/\/www.resistir.info\/brasil\/cid_06dez19.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24462\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[224],"class_list":["post-24462","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6my","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24462","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24462\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}