{"id":24468,"date":"2019-12-10T11:12:37","date_gmt":"2019-12-10T14:12:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24468"},"modified":"2019-12-10T11:18:32","modified_gmt":"2019-12-10T14:18:32","slug":"o-ai-5-de-guedes-assusta-mas-nao-espanta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24468","title":{"rendered":"O AI-5 de Guedes: assusta, mas n\u00e3o espanta"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistaopera.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/opera-4.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O ministro da Economia, Paulo Guedes, faz palestra na abertura do semin\u00e1rio Previd\u00eancia: por que a reforma \u00e9 crucial para o futuro do pa\u00eds? no audit\u00f3rio do edif\u00edcio sede do Correio Braziliense. (Foto: Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil)<\/p>\n<p>por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Quando capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, em 1986, Jair Bolsonaro escreveu um artigo criticando os baixos soldos recebidos pelos militares. Um ano depois, planejava explodir bombas em quart\u00e9is e na principal adutora do Rio de Janeiro. O plano foi chamado de terrorista por ju\u00edzes do Superior Tribunal Militar, que acabaram, no entanto, por absolver o atual presidente, a despeito de dois laudos terem confirmado que a autoria do plano de fato a ele cabia, como demonstrou o jornalista Luiz Maklouf em \u201cO cadete e o capit\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O presidente da Rep\u00fablica, ao longo de sua extensa carreira pol\u00edtica, sempre exaltou as ditaduras militares de direita. Falou em \u201cfuzilar uns 30 mil\u201d, fez extensos elogios ao torturador Brilhante Ustra \u2013 inclusive ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff \u2013 e, ao filho do ditador chileno Augusto Pinochet, em 2006, tentou enviar mensagem em que o felicitava por \u201cn\u00e3o se curvar \u00e0s mentiras da esquerda e honrar o nome do av\u00f4\u201d, afirmando ainda que \u201co elevado \u00edndice de desenvolvimento humano ora desfrutado pelos irm\u00e3os chilenos em muito se deve \u00e0s a\u00e7\u00f5es desenvolvidas no Governo do saudoso General Pinochet.\u201d<\/p>\n<p>O governo do \u201csaudoso general Pinochet\u201d se estendeu entre 1973 a 1990, e se inaugurou a partir da derrubada, pela for\u00e7a das armas, do governo democraticamente eleito de Salvador Allende. A m\u00e3o de ferro do general prendeu e torturou ao menos 40 mil pessoas, al\u00e9m de matar outras 3 mil. O manejo da economia, no entanto, foi deixado para as m\u00e3os macias de uma entidade m\u00edstica chamada mercado. Era disso que se tratava a chegada ao Chile de \u201ct\u00e9cnicos\u201d liberais formados nos EUA, os Chicago Boys: liberalizar a economia, sob a defesa indel\u00e9vel das armas e dos coturnos.<\/p>\n<p>O ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, era um destes Chicago Boys, e em 1980 foi convidado para ser professor universit\u00e1rio no pa\u00eds. N\u00e3o fora um convite de qualquer um, nem para qualquer universidade; era de Jorge Selume, ent\u00e3o diretor de Or\u00e7amento de Pinochet, e para a Universidade do Chile, dirigida por militares. Guedes declarou \u00e0 revista Piau\u00ed: \u201cEu sabia zero do regime pol\u00edtico. Eu sabia que tinha uma ditadura, mas para mim isso era irrelevante do ponto de vista intelectual.\u201d<\/p>\n<p>Sucede que, quase quarenta anos depois, aquele Chile de \u201celevado \u00edndice de desenvolvimento humano\u201d, elogiado em carta pelo hoje presidente e constru\u00eddo sob os princ\u00edpios que Guedes no presente busca adotar na economia brasileira, voltou aos notici\u00e1rios para assombrar a direita continental. Em grandes manifesta\u00e7\u00f5es que j\u00e1 duram mais de um m\u00eas, os chilenos se op\u00f5em aos resqu\u00edcios pinochetistas deixados no pa\u00eds, inclusive de uma Constitui\u00e7\u00e3o que se manteve intacta, e se recusam a aceitar as migalhas que o \u201cmoderado\u201d presidente chileno Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era oferece em troca de poder governar.<\/p>\n<p>A primeira cama molhada da matilha governamental foi a de Eduardo, o filho, que escandalizado pelas novas que chegavam do pa\u00eds vizinho, falou em AI-5 caso a esquerda radicalizasse por aqui. O general Heleno se preocupou com aspectos t\u00e1ticos, e declarou: \u201cse falou, tem que ver como vai fazer\u201d. O presidente, ainda que n\u00e3o usando a famigerada express\u00e3o do Ato Institucional, tamb\u00e9m fez reiteradas amea\u00e7as. Disse que as For\u00e7as Armadas estavam atentas, e chegou a propor a elas a concess\u00e3o de licen\u00e7a para matar durante opera\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei e da Ordem. E ent\u00e3o Guedes, o liberal, declarou em Washington: \u201cN\u00e3o se assustem ent\u00e3o se algu\u00e9m pedir o AI-5. J\u00e1 n\u00e3o aconteceu uma vez? Ou foi diferente? Levando o povo para a rua para quebrar tudo. Isso \u00e9 est\u00fapido, \u00e9 burro, n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura da nossa tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.\u201d<\/p>\n<p>Vereis logo que o ex-funcion\u00e1rio de Pinochet, hoje funcion\u00e1rio de nosso nativo adulador de torturadores, se considera apto a dar li\u00e7\u00f5es sobre nossa \u201ctradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d e a medi-la em escala vertical \u2013 a despeito de ontem n\u00e3o considerar todo a carnificina pinochetista um problema para suas elucubra\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas. Fica assim testemunhada a estatura moral do \u201cposto ipiranga\u201d do governo.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novo, nem deveria espantar. O fil\u00f3sofo Vladimir Safatle, em artigo recente, descreveu tudo com clareza: \u201cEsta \u00e9 a verdadeira hist\u00f3ria do neoliberalismo. Uma hist\u00f3ria de alegria com bombas, assassinato, golpes e aplausos \u00e0 ditadura. [\u2026] a liberdade do mercado s\u00f3 pode ser implementada calando todos os que n\u00e3o acreditam nela, todos os que contestam seus resultados e sua l\u00f3gica. Para isto, \u00e9 necess\u00e1rio um estado forte e sem limites em sua sanha para silenciar a sociedade da forma mais violenta.\u201d<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o \u00e9 o que mais importante a a ser visto. O caso \u00e9 que setores da imprensa brasileira, al\u00e9m de nos ter por est\u00fapidos quando elogiavam as reformas de Guedes, agora parecem nos considerar ainda mais imbecis, querendo nos fazer crer que eles est\u00e3o espantados com a declara\u00e7\u00e3o do ministro da Economia. As reda\u00e7\u00f5es n\u00e3o conheciam o ministro do presidente, ex-professor do ditador, o te\u00f3rico da torre de marfim e tutor indiferente?<\/p>\n<p>Os mais cretinos dizem que \u201choje n\u00e3o h\u00e1 nenhum indicativo de que v\u00e1 ocorrer, no Brasil, algo como no Chile\u201d. Demonstram, primeiro, falta de vis\u00e3o: a panela explodir\u00e1 agora ou j\u00e1, \u00e0 medida que nela faltar carne (e j\u00e1 come\u00e7a a faltar!). Mas parecem demonstrar tamb\u00e9m que, caso houvesse cen\u00e1rio \u00e0 chilena no Brasil, a declara\u00e7\u00e3o de Guedes estaria por eles perdoada.<\/p>\n<p>V\u00eam os mais espertos, declarando: \u201cse houvesse algo similar ao Chile, as manifesta\u00e7\u00f5es deveriam ser respondidas dentro da lei e da democracia\u201d. O que \u00e9 uma resposta \u201cdentro da lei e da democracia\u201d? Est\u00e3o realmente buscando garantir de antem\u00e3o o direito deste governo ao uso da repress\u00e3o \u2013 legal, democr\u00e1tica; ainda assim sangrenta \u2013 para responder a eventuais convuls\u00f5es geradas pelas medidas governamentais? A repress\u00e3o no Chile \u2013 que deixou caolhas mais de 200 pessoas \u2013 \u00e9 feita dentro dos limites democr\u00e1ticos e da lei. Tamb\u00e9m n\u00e3o consideram fora da lei e da democracia o golpe de estado que derrubou o presidente boliviano Evo Morales. Falam de \u201crepress\u00e3o dentro da lei e da democracia\u201d na mesma semana em que nove morreram estupidamente pisoteados ap\u00f3s a a\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em um baile funk de S\u00e3o Paulo. Quer dizer: de fato apoiam o uso da m\u00e3o dura pinochetista em defesa da m\u00edstica m\u00e3o do mercado, contanto que ela carimbe \u201cdemocr\u00e1tica e legal\u201d com o sangue, quando amassar o povo nas ruas.<\/p>\n<p>Por fim, chegam os desesperados: \u201c\u00e9 preciso que o governo pare com essa loucura, antes que seja tarde.\u201d Ocorre que j\u00e1 \u00e9 tarde. J\u00e1 era tarde em 2013, quando os democratas donos de jornais plantavam repress\u00e3o em editoriais e colhiam leis antiterroristas do governo. J\u00e1 era tarde em 2016, quando fecharam os olhos aos vincos do impeachment, \u00e0s ilegalidades de ju\u00edzes transformados em her\u00f3is e ao podre cheiro de militarismo que vinha subindo do ralo do setor de intelig\u00eancia, reformulado e feito todo-poderoso pelo general Etchegoyen \u2013 homem de encardida ficha familiar quando o assunto \u00e9 democracia -, ou da n\u00e9voa negra que se punha \u00e0 altura de nossas cabe\u00e7as sempre que o Comandante do Ex\u00e9rcito, Eduardo Villas B\u00f4as, fazia declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, buscando abertamente trazer \u00e0 caserna a responsabilidade da tutela do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O sangue despejado, as exce\u00e7\u00f5es permitidas, a complac\u00eancia com a ditadura de jornais que falavam de \u201cditabranda\u201d: tudo isso foi o veneno que temperou o cozido que agora \u00e9 disposto sobre a mesa. Algu\u00e9m haveria de com\u00ea-lo, afinal. Imaginavam que o prato n\u00e3o seria disposto tamb\u00e9m frente \u00e0s tuas cadeiras? Que o faz-de-conta democr\u00e1tico n\u00e3o levaria a um circo dos horrores?<\/p>\n<p>E quando o pre\u00e7o da carne, a pris\u00e3o de Lula, o baixo soldo dos militares \u2013 hoje garantido pelo presidente que ontem, contra ele, buscava as ferramentas do terror -, o desemprego ou o espet\u00e1culo montado levar o povo \u00e0s ruas? E se algo ocorrer ao presidente, se algu\u00e9m emergir das sombras, se descobrirem quem matou aquela ou aquele, se os caminhoneiros pararem? O senhor Guedes est\u00e1 correto: ningu\u00e9m deveria se espantar se, em qualquer destes casos ou ainda noutros, algu\u00e9m pedir o AI-5. Menos ainda aqueles que fizeram de tudo para que ele fosse poss\u00edvel. Comer\u00e3o tamb\u00e9m do veneno, agridoce em suas bocas sebentas. A n\u00f3s, resta mandar os cozinheiros embora, incendiar o restaurante e, acima de tudo, derrub\u00e1-los das cadeiras. Caso contr\u00e1rio, seremos sempre ref\u00e9ns de seus ciclos: migalhas para quando h\u00e1 choro, cianureto para quando h\u00e1 gritos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24468\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[227],"class_list":["post-24468","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6mE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24468","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24468"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24468\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}