{"id":24497,"date":"2019-12-13T22:56:45","date_gmt":"2019-12-14T01:56:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24497"},"modified":"2019-12-13T22:56:45","modified_gmt":"2019-12-14T01:56:45","slug":"a-divisao-e-a-fratura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24497","title":{"rendered":"A divis\u00e3o e a fratura"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/dQEG8_l5kexhu5aNmcEgkNDFYi50QA_Mf-Dt8eJCzv85Tu0Z4W-hVaZBCqZSoGcoUN6RJSDrxhx2jQJtNR_GLC6lu_SZtcaEwRAIAENOvGm8PUg6ClhA16fnsOLskbkeaCtBLFsR_MPxS4Te_Y6NDKLyyIFJ8WBSlorL9SzWScxsuK7s3xZN65pBw7S0cRO7cj8Pvj0UPxt3IWHlSASvrsqOozPhxH6e_v2WnaJR2h80cyqBdcFxB8VKg_9GFqmqKpRDIbul2lAy5wAnp-kmR5_5jpAZMi0uEsf1Q0-6HpBallG8S-AYMBY4WciIWLxtNRqwqlJ4EYzFchV24X6Endk1ynuT3Ez7mYpQ4v5tj3anOd_bY5e_iwZ0lw1TAwJTV7xRFZHro_Xn5XyZEIjyBD9YLt83k7f8nt2T72Cd7LIDfUGR95h0LXbB6LThh4kRagQtKvrssx9T3h0PBv45-o_3IJ4BM2GOmlI03zokezt0UTCum33SEPVDulI0X-cuJ6PgTkNZXxzbymucL5hz30tJHPeMva8iLq_oUTLAHiNQEVc6aPcz3fduG4Shv6OeA6LMkmsGQ-z-elCi0LNfdLGOj4vv0RVHrKZxuE0X2kfhJBRt6tIT0M2NLZrPWe7f73qcoTozRuIx5HGOeYIHE6geu8kaijGEnbWZGKKpKg0hdizCP2Fe7Mw=w661-h346-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds fraturado. \u00c9 mais que um pa\u00eds dividido, pelas desigualdades sociais, pela injusti\u00e7a e pela viol\u00eancia. Trata-se de uma sociedade cindida em interesses opostos, antag\u00f4nicos e inconcili\u00e1veis. Mas, qual a natureza destes interesses? Seriam meras diverg\u00eancias de pensamento, compreens\u00f5es distintas de como poder\u00edamos enfrentar as chagas que nos dividem, seria de ordem moral e \u00e9tica? Acreditamos que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Nosso pa\u00eds est\u00e1 fraturado porque se chocam interesses antag\u00f4nicos de classe. De um lado os propriet\u00e1rios privados de meios de produ\u00e7\u00e3o que compram e exploram a for\u00e7a de trabalho, de outro, aqueles que s\u00f3 tem a for\u00e7a de trabalho para vender. Entorno destas classes fundamentais se desdobram diversos segmentos e fra\u00e7\u00f5es, seja pela natureza da atividade desenvolvida (ind\u00fastria, agr\u00e1ria, comercial, banc\u00e1ria, etc.), seja pela fun\u00e7\u00e3o que ocupam na ordem burguesa (burocracias estatais, aparatos repressivos, institui\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas, religiosas, educacionais, etc.). Da mesma forma, no campo das classes trabalhadoras, al\u00e9m dos ramos econ\u00f4micos, temos aqueles que se empregam e aqueles que comp\u00f5e o exercito de reserva, a superpopula\u00e7\u00e3o relativa.<\/p>\n<p>Existem segmentos que n\u00e3o se encaixam nos campos das principais classes em luta, porque comp\u00f5e outras classes, como \u00e9 o caso do campesinato, ou dos segmentos m\u00e9dios que formam aglomerados heterog\u00eaneos que ora tendem para uma posi\u00e7\u00e3o ao lado das classes dominantes, ora para o campo dos explorados.<\/p>\n<p>Parece reducionismo apontar que os interesses das classes estariam no fundamento da divis\u00e3o da sociedade e do car\u00e1ter antag\u00f4nico deste conflito. V\u00e1rias teorias tem apontado para uma nova forma de conflitualidade na sociedade contempor\u00e2nea que n\u00e3o seria necessariamente de classe, como a sociologia de Ralf Dahrendorf ou as teses de Habermas, ou ainda as diversas teses sobre os aspectos identit\u00e1rios, tais como as quest\u00f5es raciais e de g\u00eanero, a religiosidade, a sexualidade e os diversos aspectos culturais e regionais, entre tantos outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos desconsiderar a import\u00e2ncia destes aspectos e o fato que eles est\u00e3o de fato presentes na din\u00e2mica de conflitos, nas diferen\u00e7as e antagonismos que marcam nossa sociedade, da mesma forma que a flagrante injusti\u00e7a que se manifesta no preconceito e na opress\u00e3o sobre tais segmentos, assim como sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ent\u00e3o, porque afirmar a centralidade de classes?<\/p>\n<p>Estamos convencidos que a centralidade das classes n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o subjetiva, uma escolha, ou nos termos weberianos, uma afinidade eletiva. Vejamos de forma mais detida a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o social brasileira, o que implica necessariamente sua hist\u00f3ria e sua manifesta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, assumiu a forma de uma sociedade capitalista dependente e uma particular sociabilidade burguesa que lhe corresponde. Estamos inseridos de forma subordinada no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista mundial que \u00e9 a express\u00e3o do m\u00e1ximo desenvolvimento dos monop\u00f3lios e do imperialismo. Neste contexto somo uma \u00e1rea de exporta\u00e7\u00f5es de capitais, uma plataforma de a\u00e7\u00e3o do capital imperialista, nos termos de Virg\u00ednia Fontes, e isso implica em dizer que o capital passa por aqui para valorizar-se, aproveitando-se das particularidades de nossa forma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos baixos sal\u00e1rios, aspecto fundamental para a manuten\u00e7\u00e3o das taxas de lucro em patamares aceit\u00e1veis para a valoriza\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1ria uma base material, uma infraestrutura (energia, transportes, comunica\u00e7\u00f5es, etc.) e condi\u00e7\u00f5es gerais de manuten\u00e7\u00e3o da ordem e de reprodu\u00e7\u00e3o (pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica, servi\u00e7os essenciais, mercado interno, etc.).<\/p>\n<p>Como a riqueza aqui produzida, assim como a riqueza natural dispon\u00edvel para o saque, acaba fluindo para as necessidades da acumula\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o do capital imperialista, uma das caracter\u00edsticas de nossa forma\u00e7\u00e3o social \u00e9 a estrutural forma\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a de trabalho que recebe no m\u00e1ximo o limite de sua reprodu\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o na maioria das vezes abaixo disso.<\/p>\n<p>Torna-se funcional para a superexplora\u00e7\u00e3o a apropria\u00e7\u00e3o de estigmas e preconceitos, tanto no sentido ideol\u00f3gico de manuten\u00e7\u00e3o da ordem e de justificativa de uma criminosa concentra\u00e7\u00e3o de renda, riqueza e propriedades, como na manuten\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da ordem. Da\u00ed a funcionalidade do preconceito e da opress\u00e3o sobre mulheres, negros, migrantes nordestinos, entre outros.<\/p>\n<p>De outra parte, a ordem excludente e predat\u00f3ria do capitalismo plenamente desenvolvido, precisa \u201cmarginalizar e excluir\u201d segmentos estigmatizando-os, como \u00e9 o caso das periferias, das diversidades de manifesta\u00e7\u00e3o da sexualidade, de formas culturais em confronto com as consideradas aceit\u00e1veis, o uso de drogas, religi\u00f5es que n\u00e3o se encaixam na subjetividade ocidental crist\u00e3, etc.<\/p>\n<p>Vejam, nenhuma destas formas \u00e9 diretamente ligada as determina\u00e7\u00f5es da ordem capitalista, muitas delas, como o caso do patriarcado e o racismo, s\u00e3o muito anteriores \u00e0 ordem burguesa, no entanto elas n\u00e3o se mantem por algum tipo de d\u00e9ficit de racionalidade ou insufici\u00eancia moral, mas pela sua funcionalidade para o capital.<\/p>\n<p>Como o interesse do capital e de suas personifica\u00e7\u00f5es \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o e garantia da ordem fundada na valoriza\u00e7\u00e3o do valor e sua acumula\u00e7\u00e3o privada, ordem que beneficia de fato a segmentos muito minorit\u00e1rios, precisa embrulhar seus interesses de forma ideol\u00f3gica, isto \u00e9, apresentando seus interesses particulares como se fossem universais. No discurso ideol\u00f3gico n\u00e3o se trata de garantir as condi\u00e7\u00f5es para a acumula\u00e7\u00e3o provada da riqueza, mas de manter as condi\u00e7\u00f5es \u201cecon\u00f4micas\u201d para o pa\u00eds crescer, n\u00e3o se trata de garantir a ordem da propriedade privada e proteger a riqueza de poucos, mas de garantir a \u201cseguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, n\u00e3o se trata de manter os enormes lucros do capital financeiro, mas de \u201csanear o Estado\u201d, e assim por diante.<\/p>\n<p>Ora, a quest\u00e3o central \u00e9 a quem interessa manter esta ordem? Evidente que \u00e9 uma ordem branca, machista, crist\u00e3, homof\u00f3bica, mas o centro de seu interesse \u00e9 manter suas taxas de lucro e garantir a acumula\u00e7\u00e3o e a propriedade privada. Para as classes dominantes os preconceitos s\u00e3o funcionais, mas contingentes, isto \u00e9, s\u00e3o \u00fateis \u00e0 explora\u00e7\u00e3o mas ela pode ocorrer sem eles. O mesmo n\u00e3o ocorre com a propriedade e as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, uma vez que sem elas a produ\u00e7\u00e3o do capital n\u00e3o se d\u00e1.<\/p>\n<p>No entanto, nos marcos do capitalismo dependente, os preconceitos e opress\u00f5es se tornaram mais que contingentes, assumiram forma estrutural na din\u00e2mica particular da explora\u00e7\u00e3o capitalista aqui presente. As formas ideol\u00f3gicas assumem, necessariamente um aspecto de formalidade, nos limites de uma igualdade jur\u00eddica prec\u00e1ria, porque a explora\u00e7\u00e3o exige formas de opress\u00e3o (por exemplo de g\u00eanero ou etnia) que assumem forma constitutiva da classe e de seus interesses.<\/p>\n<p>Eles querem e precisam manter, n\u00f3s queremos e precisamos mudar. N\u00e3o h\u00e1 campo poss\u00edvel de consenso.<\/p>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24497\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-24497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6n7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24497"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24497\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}