{"id":24559,"date":"2019-12-23T02:29:02","date_gmt":"2019-12-23T05:29:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24559"},"modified":"2019-12-23T02:29:02","modified_gmt":"2019-12-23T05:29:02","slug":"franca-brutalidade-estatal-continua-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24559","title":{"rendered":"Fran\u00e7a: brutalidade estatal continua invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/franca\/imagens\/brutalidade_policial_80pc.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por George Galloway [*]<\/p>\n<p>Embora utilizem coletes de alta visibilidade, os que protestam na Fran\u00e7a t\u00eam sido quase invis\u00edveis nos chamados meios de comunica\u00e7\u00e3o &#8220;de refer\u00eancia&#8221;, provocando tamb\u00e9m um sil\u00eancio ensurdecedor do movimento trabalhista e sindical e at\u00e9 mesmo da assim chamada &#8220;esquerda&#8221; no seu bojo.<\/p>\n<p>Se bem que uma cabe\u00e7a quebrada ou mesmo uma vidra\u00e7a partida em Hong Kong ou na Venezuela muitas vezes lidere os notici\u00e1rios, mais de um ano de subleva\u00e7\u00e3o semanal e de movimentos de massa de trabalhadores que se deparam com a extrema viol\u00eancia do estado franc\u00eas e o seu dolorosamente liberal presidente Macron t\u00eam sido ignorados pela imprensa ocidental e pelos jornalistas da r\u00e1dio e TV com estudada arrog\u00e2ncia.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode haver justifica\u00e7\u00e3o racional para isto. Hong Kong est\u00e1 a quase 10.000 km da Inglaterra, Caracas a quase 8.000 km. A Fran\u00e7a est\u00e1 a 50 km de dist\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 barato enviar e manter equipes de jornalistas no outro extremo da terra. Proliferam viagens baratas para Paris.<\/p>\n<p>Nenhum crit\u00e9rio noticioso poderia justificar a quase total aus\u00eancia de cobertura da desordem generalizada e as multid\u00f5es maci\u00e7as no nosso vizinho europeu mais pr\u00f3ximo ao longo de um ano inteiro. Na verdade, \u00e9 tamanha a antipatia entre a elite inglesa e a francesa (e vice-versa) que, tomando emprestada uma palavra alem\u00e3, seria esperado que uma sensa\u00e7\u00e3o de schadenfreude conduzisse a cobertura brit\u00e2nica, \u00e0 velocidade m\u00e1xima! Mas n\u00e3o houve nada disso.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os coletes amarelos. Obviamente, o que aconteceu agora \u00e9 que toda a classe trabalhadora organizada da Fran\u00e7a entrou no campo de batalha. Grandes centrais sindicais \u2013 como o moderado CFDT, bem como a militante CGT \u2013 com milh\u00f5es de membros est\u00e3o agora confrontando fisicamente o poder do estado franc\u00eas.<\/p>\n<p>A causa imediata deste novo desenvolvimento \u00e9 a &#8220;reforma&#8221; das pens\u00f5es de Macron. Nos dias de hoje, reformas s\u00e3o coisas m\u00e1s, enquanto antigamente eram boas \u2013 essencialmente fazendo os trabalhadores franceses trabalharem mais por menos pens\u00f5es ap\u00f3s a aposentadoria.<\/p>\n<p>Mas, tal como com os coletes amarelos \u2013 cujo casus belli original era um imposto sobre combust\u00edveis \u2013 agora trata-se muito mais do que pens\u00f5es.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora francesa est\u00e1 cansada da austeridade, cansada da corrup\u00e7\u00e3o e dos excessos de trono de pav\u00e3o do presidente Macron, cansada da UE, cansada de toda a classe pol\u00edtica. Precisamente a f\u00f3rmula que levou \u00e0 vit\u00f3ria do Brexit do nosso lado da Mancha.<\/p>\n<p>Tradicionalmente, os franceses \u2013 predispostos ao longo de s\u00e9culos \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o \u2013 est\u00e3o longe de serem conciliadores que se arrastam nos protestos. Por outro lado, a &#8220;pol\u00edcia de choque&#8221; francesa n\u00e3o faz prisioneiros. Uma for\u00e7a irresist\u00edvel depara-se com um objeto inamov\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas uma coisa \u00e9 a pol\u00edcia agredir estudantes ou mesmo trabalhadores comuns. Outra coisa \u00e9 ver a pol\u00edcia com coura\u00e7as a investir com toda a for\u00e7a \u2013 equipamento de prote\u00e7\u00e3o \u2013 como tem acontecido nas \u00faltimas duas semanas. Jamais se viu dois disciplinados servi\u00e7os uniformizados chocarem-se um contra o outro nas ruas de Paris desde&#8230; bem, desde sempre.<\/p>\n<p>A crise parece estar fugindo do controle do estado franc\u00eas; o Natal poderia literalmente ter de ser cancelado. O turismo foi duramente atingido, conhe\u00e7o pessoalmente tr\u00eas casais que cancelaram f\u00e9rias rom\u00e2nticas de Natal na capital francesa. As viagens a\u00e9reas, de \u00f4nibus e de trem amea\u00e7am parar. Ficar\u00edamos menos surpresos ao acordar com a not\u00edcia de que a Assembleia Nacional havia sido saqueada do que Louis Bourbon ao saber do assalto \u00e0 Bastilha.<\/p>\n<p>Dado o desafio quase existencial que est\u00e1 sendo escalado contra um dos pilares g\u00eameos da UE, pode-se come\u00e7ar a entender o sil\u00eancio quase universal nas capitais ocidentais \u2013 principalmente o seu medo do poder do exemplo.<\/p>\n<p>Mas por que o sil\u00eancio da &#8220;esquerda&#8221;?<\/p>\n<p>Em parte, \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de vergonha pelo fato de os trabalhadores franceses estarem avan\u00e7ando a esp\u00e9cie de combate que ela nunca sonharia contemplar. Mas em parte \u00e9 a aus\u00eancia de liberalismo entre fileiras compactas de trabalhadores franceses. Eles rejeitaram com desprezo a pol\u00edtica de identidade que tanto infesta o que passa como esquerda na maioria dos pa\u00edses ocidentais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de direitos dos gays, de emancipa\u00e7\u00e3o negra, de modismos de g\u00eanero neutro. N\u00e3o se trata de requerentes de asilo ou contra o racismo em defesa de imigrantes ou sobre a Bol\u00edvia ou Venezuela ou contra o triste registro colonial da Fran\u00e7a nas atuais guerras na \u00c1frica. Trata-se da classe trabalhadora francesa que confronta o sistema capitalista de frente e com sangue vermelho nas ruas. Trabalhadores franceses negros e (predominantemente) brancos, gays e (predominantemente) heterossexuais, homens e mulheres, que se autoidentificam apenas como trabalhadores cansados de serem roubados. Isto tudo \u00e9 um tanto demasiado&#8230; prolet\u00e1rio para aquilo que se tornou a &#8220;esquerda&#8221;.<\/p>\n<p>E tal como Nelson na Batalha de Copenhagen, eles levantam o telesc\u00f3pio at\u00e9 o seu olho cego e declaram: &#8220;N\u00e3o vejo navios&#8221;. A &#8220;esquerda&#8221; n\u00e3o v\u00ea os franceses em guerra, mas os trabalhadores franceses podem v\u00ea-los. E n\u00e3o \u00e9 uma vis\u00e3o bela.<br \/>\n18\/Dezembro\/2019<\/p>\n<p>[*] Diretor de cinema, escritor e orador. Foi membro do Parlamento brit\u00e2nico durante 30 ano. \u00c9 apresentador de shows na TV e no r\u00e1dio.<\/p>\n<p>O original encontra-se em www.rt.com\/op-ed\/476161-pension-reform-protests-france\/<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24559\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[109],"tags":[227],"class_list":["post-24559","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c122-franca","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6o7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24559","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24559"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24559\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24559"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24559"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24559"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}