{"id":24595,"date":"2019-12-29T11:54:28","date_gmt":"2019-12-29T14:54:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24595"},"modified":"2019-12-31T20:28:15","modified_gmt":"2019-12-31T23:28:15","slug":"o-atentado-e-a-fascistizacao-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24595","title":{"rendered":"O atentado e a fascistiza\u00e7\u00e3o da sociedade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s1.significados.com\/foto\/soldier-1682561-640_bg.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Atentado protofascista evidencia escalada de terror e viol\u00eancia no primeiro ano de Governo Bolsonaro<\/p>\n<p>Por F. Bezerra<\/p>\n<p>Um dos efeitos sist\u00eamicos da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica que se agravou nos anos que precederam as jornadas de Junho de 2013, chegando ao \u00e1pice em 2016 com o impeachment de Dilma Roussef, foi a aumento acelerado de manifesta\u00e7\u00f5es da cultura conservadora em diversos patamares: morais, ideol\u00f3gicos, eleitorais, jur\u00eddicos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o das reformas neoliberais contribuiu para a expans\u00e3o dessa onda conservadora e dela se retroalimentou. Tais manifesta\u00e7\u00f5es foram produzidas em especial no plano ideol\u00f3gico, atrav\u00e9s da associa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e tautol\u00f3gica relacionando o denuncismo da corrup\u00e7\u00e3o, o aparelhamento do Estado e desvios dos governos petistas, em uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito que justificasse a crise econ\u00f4mica, o aumento do desemprego e a piora da qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 fizemos esse devido balan\u00e7o ao compreender que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as externas e internas havia se alterado de tal modo que a burguesia rentista e dependente do mercado financeiro n\u00e3o se interessava mais em manter o pacto social promovido por mais de uma d\u00e9cada com o Partido dos Trabalhadores. E como em toda crise econ\u00f4mica, por pior e mais avassaladora que seja a sua dimens\u00e3o, sempre se abre uma janela de oportunidades ao Capital. O desmonte do Estado atrav\u00e9s de privatiza\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os p\u00fablicos, a persegui\u00e7\u00e3o aos servidores, o ataque aos direitos e conquistas sociais e ao conjunto da classe trabalhadora t\u00eam sido a t\u00f4nica mais agressiva das chamadas \u201creformas\u201d e ajustes neoliberais nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>O discurso moralista e ultraconservador associa-se \u00e0 ideologia neoliberal de Estado m\u00ednimo &#8211; e essa tem sido a t\u00e1tica na maioria dos pa\u00edses onde essa onda conservadora tem evolu\u00eddo -, destravando uma agenda de ataques que ainda n\u00e3o haviam sido devidamente complementadas no Brasil. O fruto inevit\u00e1vel desse romance dantesco \u00e9 a gesta\u00e7\u00e3o e o parto de um cen\u00e1rio cada vez mais intolerante, repressor, arbitr\u00e1rio e reacion\u00e1rio em todas as suas dimens\u00f5es, pois a redu\u00e7\u00e3o de direitos sociais, os ataques \u00e0s parcas conquistas da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 associados ao aprofundamento da crise estrutural do Capital, eleva a temperatura da Luta de Classes, expondo os limites da sociabilidade do Capital. Nesse contexto, a alternativa fascista \u00e9 o contraponto \u00e0 pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes que outrora foi tolerada at\u00e9 certa medida, mas que j\u00e1 n\u00e3o mais garante ao Capital, frente \u00e0s exig\u00eancias das contrarreformas, sustentar o status quo dessa mesma sociabilidade.<\/p>\n<p>Aqueles que ainda alimentam ilus\u00f5es com um novo pacto social, batizado seja l\u00e1 como for &#8211; \u201cDemocr\u00e1tico-Popular\u201d, \u201cNeodesenvolvimentismo\u201d, n\u00e3o mais encontram eco do outro lado do rio, pois, enquanto houver f\u00f4lego para a implementa\u00e7\u00e3o das contrarreformas com vistas a assegurar o n\u00edvel de lucratividade desejado, a burguesia brasileira manter\u00e1 apoio a essa din\u00e2mica em curso.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de novo at\u00e9 aqui se levarmos em conta que essa combina\u00e7\u00e3o, guardada as devidas propor\u00e7\u00f5es, j\u00e1 fora efetivamente percebida nos anos 20 e 30 do s\u00e9culo passado, atrav\u00e9s dos movimentos fascistas (It\u00e1lia e Espanha) e nazista (Alemanha) produzindo governos e regimes autorit\u00e1rios que associaram, por um lado, o aumento e a sofistica\u00e7\u00e3o do aparato repressivo frente \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es sociais inerentes ao aprofundamento das crises capitalistas e, por outro lado, o desenvolvimento de um sofisticado arcabou\u00e7o ideol\u00f3gico e ps\u00edquico que reunia e refor\u00e7ava o controle social atrav\u00e9s da reifica\u00e7\u00e3o do sentimento de pertencimento coletivo pautado em simulacros da p\u00e1tria unida acima das tens\u00f5es de classe. Mesclavam-se, em um mesmo am\u00e1lgama identit\u00e1rio, a defesa da Na\u00e7\u00e3o, a moral de base religiosa e percep\u00e7\u00e3o da propriedade como fruto digno de quem a conquistou pelo merecimento do trabalho.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas similitudes no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro que nos revelam um avan\u00e7o acelerado da fascistiza\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio pol\u00edtico em nossa conjuntura. Avan\u00e7o premeditado e orquestrado.<\/p>\n<p>Do ponto de vista hist\u00f3rico, o fascismo surge como express\u00e3o de descontentamento dos setores m\u00e9dios da sociedade italiana e ganha for\u00e7a justamente junto \u00e0 classe trabalhadora, em especial aos desempregados e ex-combatentes desprovidos de qualquer amparo do Estado nos anos de crise econ\u00f4mica que assolaram o proletariado europeu ap\u00f3s o t\u00e9rmino da 1\u00aa Guerra Mundial. Surge tamb\u00e9m como uma resposta conservadora \u00e0 eminente possibilidade de o pensamento marxista ganhar for\u00e7as no interior do movimento prolet\u00e1rio, diante do aumento das contradi\u00e7\u00f5es sociais e dos limites do Estado burgu\u00eas em dar respostas aos desdobramentos da mis\u00e9ria e piora na qualidade da vida oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Das principais caracter\u00edsticas que marcam o fascismo e sua ascens\u00e3o junto ao proletariado muitas delas ainda se evidenciam como marcas do processo de fascistiza\u00e7\u00e3o recente. Entre elas:<\/p>\n<p>1 &#8211; Valoriza\u00e7\u00e3o do ultranacionalismo;<br \/>\n2 &#8211; Ataques moralistas \u00e0 democracia representativa e apelo ao intervencionismo autorit\u00e1rio como forma de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o;<br \/>\n3 &#8211; Defesa do Corporativismo de Estado (em nosso contexto, do corporativismo militar);<br \/>\n4 &#8211; \u00canfase no militarismo como modelo de conduta c\u00edvica;<br \/>\n5 &#8211; Combate ao pensamento de esquerda em nome da seguran\u00e7a nacional e identifica\u00e7\u00e3o do movimento comunista como inimigo priorit\u00e1rio;<br \/>\n6 &#8211; Desprezo pelos Direitos Humanos, pela manifesta\u00e7\u00e3o cultural que ressalte a reflex\u00e3o cr\u00edtica (intelectuais, artistas e as ci\u00eancias humanas);<br \/>\n7 &#8211; Controle e censura da m\u00eddia;<br \/>\n8 &#8211; Uso ideol\u00f3gico da religi\u00e3o para taxar o mal a ser extirpado e valores a serem padronizados, mesmo que \u00e0 for\u00e7a, no cotidiano social.<\/p>\n<p>Fascistiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que fascismo e essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para se compreender a dimens\u00e3o de nossa realidade, as amea\u00e7as em curso e as possiblidades de a\u00e7\u00e3o para combater esse processo. Entendo a fascistiza\u00e7\u00e3o como um processo que reifica, de modo constante e progressivo, a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e jur\u00eddicas e manifesta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas diversas que referendam as t\u00e1ticas e ou princ\u00edpios pol\u00edticos, organizativos e filos\u00f3ficos do fascismo cl\u00e1ssico, sem que isso corresponda ou esteja associado a todas as dimens\u00f5es do fascismo, como, por exemplo, a defesa de um Estado coorporativo e intervencionista como ocorreu na proposta inicial.<\/p>\n<p>A atitude protofascista \u00e9 justamente aquela que se p\u00f5e \u00e0 vanguarda da defesa da cultura fascista, seja atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o direta como um atentado, seja atrav\u00e9s da defesa veemente de princ\u00edpios filos\u00f3ficos do fascismo. Os protofascistas s\u00e3o os abre-alas que operaram a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda dessa ideologia, podendo ser um partido pol\u00edtico espec\u00edfico, um grupo de parlamentares, um ve\u00edculo de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o de massas, pessoas com certo prest\u00edgio local, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas diversas como clubes de oficiais da reserva e at\u00e9 mesmo autoridades religiosas. \u00c9 mister destacar que a cultura fascista sempre esteve presente no ide\u00e1rio conservador, em menor ou maior evid\u00eancia e atualmente tem sido enunciada como t\u00e1tica para sedimentar uma nova sociabilidade do Capital que possa dar condi\u00e7\u00f5es de manter as estruturas de poder perante as inevit\u00e1veis contradi\u00e7\u00f5es que tendem a se acumular como efeitos das investidas econ\u00f4micas e pol\u00edticas sob os escombros do Estado atual.<\/p>\n<p>O Estado brasileiro n\u00e3o \u00e9 fascista na atualidade, mas o atual Governo flerta abertamente com fascismo e estimula, pelo discurso de \u00f3dio, manique\u00edsta e segregador, a\u00e7\u00f5es protofascistas em sua base social, fortalecendo a cultura e a mentalidade neofascista dentro da pr\u00f3pria \u201conda conservadora\u201d. Isso explica, em certa medida, o porqu\u00ea de algumas fissuras na base conservadora brasileira, pois alguns de seus expoentes j\u00e1 perceberam que alimentaram um monstro que fugiu do controle. \u00c9 a vertente que vem ganhando cada vez mais espa\u00e7o nesse contexto da chamada \u201conda conservadora\u201d, pela sua maleabilidade pragm\u00e1tica em combinar preceitos neoliberais que atendam aos interesses neocoloniais das elites associadas ao Grande Capital estrangeiro, com os interesses pol\u00edticos de hordas fundamentalistas e grupos recalcados no que h\u00e1 de mais atrasado em nossa hist\u00f3ria e que evidenciam a heran\u00e7a nefasta do colonialismo presente no DNA de nossa cultura: racismo, xenofobia e discrimina\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A fascistiza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira segue esse percurso e vem sendo estimulada h\u00e1 anos tanto pela grande m\u00eddia que alimentou, no senso comum das massas prolet\u00e1rias, a criminaliza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, em geral associando-as aos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o nos Governo Lula e Dilma, quanto pelo cons\u00f3rcio celebrado por igrejas fundamentalistas, ma\u00e7onaria e grandes grupos empresariais em um conluio reacion\u00e1rio que vai para al\u00e9m do plano estrutural dos ajustes neoliberais na economia. O efeito desse processo se, por um lado, atendeu \u00e0s expectativas de todos esses grupamentos que conspiraram contra o Governo de Dilma Rousseff, destilando e orquestrando o Golpe institucional para destravar a agenda das contrarreformas sociais, precipitou, por sua vez, o cont\u00ednuo progresso dessa marcha ultrarreacion\u00e1ria, alimentando um monstrengo que n\u00e3o se cansou de tocar o terror no parque de divers\u00f5es&#8230; Agora esse monstrengo quer aterrorizar n\u00e3o apenas do parque, mas toda a cidade!<\/p>\n<p>Por sua vez, aqueles que sustentam haver incompatibilidade entre o neoliberalismo e a possibilidade de uma cultura pol\u00edtica neofascista, pelas incongru\u00eancias hist\u00f3ricas, se engam profundamente! O neofascismo acompanhou as mudan\u00e7as da din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o capitalista e corresponde no n\u00edvel ideol\u00f3gico ao aparato de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de governan\u00e7a que melhor responde \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es frente \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o social promovida pelo neoliberalismo. Essa simbiose alimenta e retroalimenta-se de uma verdadeira ind\u00fastria de \u00f3dio e aliena\u00e7\u00e3o e que s\u00f3 pode se completar \u00e0 medida que as fr\u00e1geis estruturas democr\u00e1ticas, apesar de burguesas em sua ess\u00eancia, devem ser tensionadas e desgastadas a fim de recompor uma nova ordem social que assegure rela\u00e7\u00f5es de controle sob uma a esfera do poder econ\u00f4mico e financeirizado, que sob a l\u00f3gica neoliberal, subjuga governos de pa\u00edses de democracia fr\u00e1gil levando consigo toda a estrutura do Estado.<\/p>\n<p>\u00c0 medida em que as contradi\u00e7\u00f5es se acumulam e a instabilidade tende a aumentar, o apelo a \u201cessa alternativa\u201d fascista ser\u00e1 para esses agrupamentos protofascistas, a rota natural ao desfecho das elei\u00e7\u00f5es de 2018. Ou seja, a fascistiza\u00e7\u00e3o poder\u00e1 evoluir para um modelo de Estado mais pr\u00f3ximo daquilo que a humanidade vivenciou nas d\u00e9cadas de barb\u00e1rie dos anos 30 e 40 do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Ao fazermos o balan\u00e7o de 2019, nesse primeiro ano de Governo Bolsonaro, dever\u00edamos enumerar e qualificar a amplia\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es protofascistas em todos os n\u00edveis, em especial o aumento da repress\u00e3o armada contra lideran\u00e7as sociais, ind\u00edgenas, ambientalistas e movimentos populares, o fortalecimento da arbitrariedade dos aparelhos de repress\u00e3o com o pacote \u201canticrime\u201d de S\u00e9rgio Moro, o crescimento das mil\u00edcias e grupamentos paramilitares de extrema-direita em todo o pa\u00eds, em especial no campo, a prolifera\u00e7\u00e3o da militariza\u00e7\u00e3o do ensino p\u00fablico e o recrudescimento de ataques \u00e0 liberdade de imprensa, \u00e0 defesa de preceitos constitucionais, \u00e0s Universidades P\u00fablicas, ao conhecimento cr\u00edtico, \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o Laica, \u00e0 diversidade \u00e9tnico, religiosa e cultural, aos Direitos Humanos e a entidades civis como OAB e ABI, que, ao emitirem cr\u00edticas \u00e0s condutas arbitr\u00e1rias e antidemocr\u00e1ticas do Governo, sofreram intensos ataques de \u00f3dio nas redes sociais pautadas por acusa\u00e7\u00f5es fundamentadas em fal\u00e1cias, preconceitos de classe e argumentos sediciosos frente a qualquer postura contr\u00e1ria aos disparates do Governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>O exemplo mais recente da gravidade desse cen\u00e1rio foi o atentado contra a produtora do programa humor\u00edstico \u201cPorta dos Fundos\u201d. Ao assumir o atentado promovido com dois coquet\u00e9is molotov, um autoproclamado grupo integralista traz em seu discurso as bases moralistas do fascismo cl\u00e1ssico: defesa da fam\u00edlia e dos \u201cbons costumes\u201d, contra o marxismo e as institui\u00e7\u00f5es degradadas da democracia burguesa, leia-se o judici\u00e1rio e o congresso. E mesmo que possamos classificar, a priori, essa a\u00e7\u00e3o como um arremedo pat\u00e9tico e falsificado, do que foi o Integralismo nos anos 1930 ou a a\u00e7\u00e3o de um grupelho fundamentalista religioso em busca de repercuss\u00e3o e fama, o epis\u00f3dio n\u00e3o pode ser subestimado. Pouco importa nesse momento a relev\u00e2ncia do \u201cgrupo\u201d autoproclamado integralista e se de fato \u00e9 ou n\u00e3o integralista, mas sim o que simboliza esse acontecimento e o sentido que poder\u00e1 enunciar para o futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Fechamos o ano com um atentado n\u00e3o apenas \u00e0 liberdade de express\u00e3o \u2013 sem entrar no m\u00e9rito do que representou a imprensa na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no per\u00edodo do golpismo e no processo eleitoral de 2018 -, mas um atentando que apresenta o cart\u00e3o de visitas de mil\u00edcias fascistas que poder\u00e3o celebrar mais ataques a tudo aquilo que possa ser taxado de inimigo da tr\u00edade P\u00e1tria, Fam\u00edlia e Propriedade.<\/p>\n<p>As provoca\u00e7\u00f5es e os atentados fascistas entre o final dos anos 20 e in\u00edcio dos anos 30 do s\u00e9culo passado, como dizia William Reich, buscavam incentivar, atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es diretas pautadas pela for\u00e7a da coer\u00e7\u00e3o, o modelo da intimida\u00e7\u00e3o como modus operandi a ser seguido a fim de mudar a ordem pol\u00edtica e social e dessa forma ganhar mais e mais adeptos, alimentando principalmente junto aos setores m\u00e9dios e em parte do proletariado uma v\u00e1lvula de escape alienada frente ao descontentamento das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e a falta de perspectivas imediatas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais como negar o intento de reproduzir no Brasil um cen\u00e1rio que justifique poss\u00edveis investidas contra as fr\u00e1geis estruturas da democracia representativa, o que significa que atentados e outras provoca\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ocorrer em escala cada vez mais frequente e diversa contra outros \u201cinimigos da P\u00e1tria, da fam\u00edlia e dos bons costumes\u201d, podendo inclusive servir como justificativas futuras para apelos ao intervencionismo autocr\u00e1tico convenientes \u00e0 Lei e \u00e0 Ordem, como recentemente foi enunciado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro e o ministro da economia Paulo Guedes, ao fazerem refer\u00eancia \u00e0 poss\u00edvel reedi\u00e7\u00e3o de um Ato Institucional restritivo aos direitos pol\u00edticos, como foi feito em dezembro de 1968.<\/p>\n<p>Essa breve an\u00e1lise sobre a fascistiza\u00e7\u00e3o em curso merece em outro momento uma cr\u00edtica mais detalhada sobre as responsabilidades diretas que o PT e correligion\u00e1rios do projeto Democr\u00e1tico-Popular tiveram ao longo desse processo, pois o avan\u00e7o da cultura conservadora junto \u00e0 classe trabalhadora n\u00e3o pode ser debitada apenas \u00e0 crise estrutural do capitalismo e seus desdobramentos no Brasil. Devemos levar em conta outros aspectos, entre eles as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para manter o acerto da concilia\u00e7\u00e3o de classes em tempos de conturbadas manifesta\u00e7\u00f5es sociais, como as que ocorreram em Junho de 2013, conhecidas como Jornadas de Junho, que tiveram como resposta do Governo Dilma a edi\u00e7\u00e3o, em 19 de dezembro daquele ano, da Portaria Normativa N\u00ba 3461 que dispunha sobre as \u201cGarantias da Lei e da Ordem\u201d (GLO).<\/p>\n<p>Ao meu ver, o que cabe nesse cen\u00e1rio \u00e9 compreender o avan\u00e7o acelerado da fascistiza\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro e a disputa operada no sentido de precipitar justificativas ao golpismo institucional e ao aprofundamento de medidas reativas e autocr\u00e1ticas que servir\u00e3o de esteio para uma repress\u00e3o cada vez maior e \u201cnaturalmente\u201d justificada pelo senso comum contra todo e qualquer tipo de resist\u00eancia e oposi\u00e7\u00e3o aos intentos autorit\u00e1rios do grupo sediado no Pal\u00e1cio do Planalto. Isso implica em compreender quais s\u00e3o as reais pol\u00eamicas em nossa estrat\u00e9gia para lidar com o mundo real, cen\u00e1rio das disparidades e contradi\u00e7\u00f5es de nosso tempo presente e o que est\u00e1 em jogo nesse contexto de crise e ascens\u00e3o neofascista, assim como importa e muito compreender quais s\u00e3o os reais inimigos a serem destacados, distinguindo-os dos diversos matizes de advers\u00e1rios, que ora se apresentam aqui e ali no atual contexto.<\/p>\n<p>Por fim, aqueles que ousam resistir contra as agress\u00f5es de classe e lutar contra os retrocessos impostos pelo Governo Bolsonaro devem entender que as condi\u00e7\u00f5es de temperatura e press\u00e3o da Luta de Classes na Am\u00e9rica Latina e no Brasil v\u00eam aumentando aceleradamente num patamar que exige de n\u00f3s maior aten\u00e7\u00e3o diante das evid\u00eancias da escalada autorit\u00e1ria, preparo ideol\u00f3gico e unidade pol\u00edtica contra a horda neofascista que encontra respaldo em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Devemos exigir veementemente das autoridades imediata e ampla investiga\u00e7\u00e3o sobre os ataques \u00e0 sede do grupo \u201cPorta dos Fundos\u201d, bem como imediata puni\u00e7\u00e3o dos envolvidos, pois essa provoca\u00e7\u00e3o fascista, assim como tantas outras provoca\u00e7\u00f5es e agress\u00f5es pautadas pela intoler\u00e2ncia &#8211; a exemplo dos ataques cada vez mais frequentes \u00e0s sedes e s\u00edmbolos das religi\u00f5es afrobrasileiras &#8211; n\u00e3o podem se tornar arremedos da banaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie cotidiana, correndo um s\u00e9rio risco de no futuro pr\u00f3ximo um simulacro daquilo que foi o atentado fascista que incendiou o Reichstag (Parlamento Alem\u00e3o em Berlim) em fevereiro de 1933, servindo como justificativa para o Golpe de Estado de Adolf Hitler, precipitar o intento e o desejo autocr\u00e1tico em um pesadelo real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24595\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[221],"class_list":["post-24595","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6oH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24595"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24595\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}