{"id":24602,"date":"2019-12-30T23:28:24","date_gmt":"2019-12-31T02:28:24","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24602"},"modified":"2019-12-30T23:28:24","modified_gmt":"2019-12-31T02:28:24","slug":"o-totalitarismo-da-comunidade-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24602","title":{"rendered":"O totalitarismo da \u00abcomunidade internacional\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.trabajadores.cu\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/ONU-1024x682.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas &#8211; Cr\u00e9ditos \/ HispanTV<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>JOS\u00c9 GOUL\u00c3O<\/p>\n<p>A \u00fanica \u00abcomunidade internacional\u00bb atuante \u00e9 a espelhada nos conte\u00fados dos meios de comunica\u00e7\u00e3o corporativos globais, base de uma \u00abordem internacional\u00bb cada vez mais arbitr\u00e1ria e movida por interesses totalit\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00abComunidade internacional\u00bb e \u00abordem internacional\u00bb s\u00e3o express\u00f5es que nos surgem a cada passo quando se trata de abordar os acontecimentos e as situa\u00e7\u00f5es que se sucedem atrav\u00e9s do mundo. O uso recorrente tem contribu\u00eddo para transform\u00e1-las numa esp\u00e9cie de muletas de linguagem em que v\u00e3o perdendo conte\u00fado, esmaecendo assim a realidade dos seus conte\u00fados e significados atuais. Desse desvanecimento surgem m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es e a confus\u00e3o generalizada \u2013 que nada tem de inocente. Prevalecendo ent\u00e3o o sistema sem mandato que d\u00e1 corpo \u00e0 ordem global neoliberal.<\/p>\n<p>Acompanhando os relatos dos acontecimentos mundiais produzidos pela comunica\u00e7\u00e3o social dominante, de obedi\u00eancia corporativa, conclui-se que a comunidade internacional \u00e9 uma esp\u00e9cie de entidade mais ou menos abstrata que d\u00e1 cobertura \u00e0 ordem arbitr\u00e1ria formatada pelos poderes econ\u00f4micos, financeiros, militares e pol\u00edticos determinantes no mundo. Uma comunidade que decide guerras, san\u00e7\u00f5es, penalidades e medidas de coer\u00e7\u00e3o contra povos e na\u00e7\u00f5es sem que esteja claro como funcionam os mecanismos que estabelecem essas pr\u00e1ticas. A \u00abcomunidade internacional\u00bb de hoje \u00e9, deste modo, uma inst\u00e2ncia de poder cuja transpar\u00eancia n\u00e3o se discute porque supostamente lhe \u00e9 inerente, existe mesmo n\u00e3o existindo.<\/p>\n<p>Procurando dissecar o conceito, retirando-o das amarras dos poderes totalit\u00e1rios e passando do abstrato ao concreto, o caminho mais natural \u00e9 ir ao encontro de uma ideia de comunidade internacional que junta as principais inst\u00e2ncias internacionais, designadamente a ONU, a sua rede de institui\u00e7\u00f5es e as organiza\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter continental que n\u00e3o sejam \u2013 n\u00e3o deveriam ser \u2013 alian\u00e7as pol\u00edticas, econ\u00f4micas e militares: Uni\u00e3o Africana, Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, o pr\u00f3prio Conselho da Europa e outras do mesmo g\u00eanero.<\/p>\n<p>Mais em concreto ainda: do universo das Na\u00e7\u00f5es Unidas e do agregado de tratados, conven\u00e7\u00f5es e conv\u00eanios internacionais emana a legalidade internacional \u00e0 qual todas as na\u00e7\u00f5es, uni\u00f5es e alian\u00e7as de na\u00e7\u00f5es teriam de submeter-se e que deveria ser respons\u00e1vel por todos os mecanismos reguladores das rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>O mundo de hoje, por\u00e9m, est\u00e1 muito longe deste cen\u00e1rio \u2013 aquele que estaria mais pr\u00f3ximo de garantir que todas as na\u00e7\u00f5es ficassem mais equilibradas em termos de direitos e deveres.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, a \u00fanica \u00abcomunidade internacional\u00bb atuante \u00e9 a espelhada nos conte\u00fados da m\u00eddia corporativa globais, base de uma \u00abordem internacional\u00bb cada vez mais arbitr\u00e1ria e movida por interesses totalit\u00e1rios.<\/p>\n<p>O \u00abConsenso de Washington\u00bb<br \/>\nNeste ano de 2019 cumpriram-se 30 anos sobre a data em que o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos ditaram a aut\u00eantica \u00abnova ordem internacional\u00bb ao especificarem o chamado \u00abConsenso de Washington\u00bb.<\/p>\n<p>Embora tal n\u00e3o seja assumido do ponto de vista institucional, as dez medidas b\u00e1sicas desse documento s\u00e3o os princ\u00edpios em que assenta o real funcionamento da \u00abcomunidade internacional\u00bb. S\u00e3o os dez mandamentos neoliberais que todos os pa\u00edses devem cumprir para fazerem parte da \u00abcomunidade internacional\u00bb e estarem alinhados com a \u00abordem internacional\u00bb. Caso contr\u00e1rio, s\u00e3o tratados como p\u00e1rias e sujeitam-se \u00e0 arbitrariedade que faz as vezes de lei.<\/p>\n<p>O \u00abConsenso de Washington\u00bb nada tem de consensual: \u00e9 um diktat que instaura o modelo econ\u00f4mico neoliberal, sistema que deve ser posto em pr\u00e1tica pelas pol\u00edticas e os autoritarismos militares que realmente fazem mover a sociedade globalizante.<\/p>\n<p>O mundo chegou ao diktat de Washington ao cabo de uma d\u00e9cada em que os regimes de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e de Margaret Thatcher, no Reino Unido, deram verniz \u00abdemocr\u00e1tico\u00bb \u00e0 primeira experi\u00eancia econ\u00f4mico-pol\u00edtica aplicada pela ortodoxia neoliberal, a ditadura fascista de Augusto Pinochet no Chile, regida economicamente pelos disc\u00edpulos de Milton Friedman da Universidade de Chicago.<\/p>\n<p>O \u00abConsenso de Washington\u00bb marcou a vit\u00f3ria do sistema capitalista na sua vers\u00e3o mais selvagem \u2013 o neoliberalismo \u2013 sobre os escombros da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, do Muro de Berlim, do Tratado de Vars\u00f3via. E estabeleceu uma \u00abnova ordem internacional\u00bb atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de acontecimentos que aniquilaram o que restava da autoridade do grupo das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os assuntos internacionais determinantes, deixando-os nas m\u00e3os de uma \u00abcomunidade internacional\u00bb indefinida mas totalit\u00e1ria. E foi assim que o primado da legalidade internacional saiu de cena.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser exaustivo na enumera\u00e7\u00e3o de fatos e acontecimentos das tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas para se perceber como o \u00abConsenso de Washington\u00bb modelou o mundo de hoje: o Tratado de Maastricht, a neoliberaliza\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia atrav\u00e9s do euro e do apressado alargamento aos pa\u00edses anteriormente aliados com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; o constante refor\u00e7o da OTAN em todas as frentes, n\u00e3o s\u00f3 engolindo o Tratado de Vars\u00f3via como alargando a sua \u00e1rea de interven\u00e7\u00e3o a praticamente todo o planeta; o takeover da RDA pela RFA; a balcaniza\u00e7\u00e3o dos B\u00e1lc\u00e3s atrav\u00e9s da destrui\u00e7\u00e3o criminosa da Iugosl\u00e1via; as duas guerras contra o Iraque; o aproveitamento multifacetado dos atentados de 11 de Setembro, cujas vers\u00f5es oficiais n\u00e3o coincidem com explica\u00e7\u00f5es factuais que v\u00eam sendo demonstradas; a falsa guerra \u00abcontra o terrorismo\u00bb; as guerras do Afeganist\u00e3o, da L\u00edbia e da S\u00edria, as \u00abrevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u00bb de inspira\u00e7\u00e3o norte-americana e as \u00abprimaveras \u00e1rabes\u00bb; a extin\u00e7\u00e3o gradual, mas sistem\u00e1tica, de direitos humanos, democr\u00e1ticos, pol\u00edticos, sociais e laborais conquistados ao longo do s\u00e9culo XX, em especial a seguir \u00e0 Segunda Guerra Mundial; as san\u00e7\u00f5es, golpes de Estado e opera\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a de regime patrocinadas pelos Estados Unidos e aliados contra os pa\u00edses cujos governos se recusam obedecer ao \u00abConsenso de Washington\u00bb.<\/p>\n<p>O descalabro da ONU<br \/>\nA Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) deveria ser a matriz de uma aut\u00eantica comunidade internacional, gerindo-a segundo a legalidade internacional que assenta, sobretudo, na sua Carta.<\/p>\n<p>No entanto, vem abdicando aceleradamente desse papel, submetida como est\u00e1 \u00e0s sequelas do \u00abConsenso de Washington\u00bb, \u00e0 gest\u00e3o antidemocr\u00e1tica do Conselho de Seguran\u00e7a, \u00e0 minimiza\u00e7\u00e3o do papel da Assembleia Geral e \u00e0 subvaloriza\u00e7\u00e3o da atividade das ag\u00eancias da organiza\u00e7\u00e3o, sobretudo em termos de direitos humanos, igualdade e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao compasso deste processo, a atua\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral vem sendo reduzida \u00e0 de mero executor das ordens dos poderes inquestion\u00e1veis, n\u00e3o lhe restando qualquer espa\u00e7o para intervir \u2013 se, por absurdo, quisesse \u2013 de acordo com posi\u00e7\u00f5es que contrariem o diktat neoliberal. Em vez de governarem, as Na\u00e7\u00f5es Unidas s\u00e3o governadas pelo mesmo sistema opaco que funciona como \u00abcomunidade internacional\u00bb.<\/p>\n<p>Mais graves ainda s\u00e3o os estados em que se encontram as organiza\u00e7\u00f5es regionais, como por exemplo a Uni\u00e3o Africana e a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, aut\u00eanticas correias de transmiss\u00e3o de poderes coloniais que ganharam poderes refor\u00e7ados com a instaura\u00e7\u00e3o do totalitarismo neoliberal.<\/p>\n<p>Os verdadeiros poderes<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil identificar quem est\u00e1 por detr\u00e1s da atividade da \u00abcomunidade internacional\u00bb atuante: o establishment norte-americano, os seus bra\u00e7os pol\u00edticos e militares, entre os quais avultam a Uni\u00e3o Europeia e a OTAN, institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o eleitas como o FMI e o Banco Mundial.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, por\u00e9m, a face vis\u00edvel do sistema totalit\u00e1rio. Num mundo onde os golpes financeiros e os grandes neg\u00f3cios que fazem mover a economia decorrem em ambientes opacos, sobrepondo-se \u00e0 pol\u00edtica \u2013 quantas vezes manu militari \u2013 desobrigando-se, por norma, das orienta\u00e7\u00f5es estabelecidas por mecanismos democr\u00e1ticos, a \u00abcomunidade internacional\u00bb \u00e9 uma entidade que ningu\u00e9m elegeu para aplicar uma \u00abordem internacional\u00bb que ningu\u00e9m votou. A defini\u00e7\u00e3o perfeita de totalitarismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24602\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[233],"class_list":["post-24602","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6oO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24602","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24602"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24602\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24602"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24602"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24602"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}