{"id":24653,"date":"2020-01-07T20:36:26","date_gmt":"2020-01-07T23:36:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24653"},"modified":"2020-01-07T20:36:26","modified_gmt":"2020-01-07T23:36:26","slug":"zuleide-exemplo-maior-de-militante-comunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24653","title":{"rendered":"Zuleide: exemplo maior de militante comunista"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/F3xgnRl86U7DQS6RS2by-AAiH_MCytroLn1opLJwbGJ_5e2xLBSSTtjQcKJbLrBlF1Enj4FTTawzo2LcCeBNTpkulNgykh-qkVDsWqeMHSBJockiOM1Di-4UWfsO7PGy72UTkEGWolLeZjqYiO093k6rlHFuUS-4AYEOB1COrzwxGRYxkFZy31g8SnV6LJqjEJRGPG0aGmpxT0Cu2QxL8NX3_UA4u7rTw7f4DPRUinxqgYEVN2D9szk9Lf5B7bl3Wpnp4ReBkHt2ggQFcmUS6spOUBhmr6t5aGdm6NlbaDjJEo_TzKTXxmkCNfOvqrwjvM1UoAesRmL67jPkCFyvf-Zgx-xaBffB18nO1i5uWVqf0VZcRLwnjUzDXZiFBlB9ABXp8qO-VflKeMEoDIFm8lk3AnUhSqRguBvt--tZ4As9GfjWIqxVCq3VAPv0eOGwF47Id1r1y0WApUeQkIclaiVKubydQkGnmPZnBrym4bzQBXT5yDXG392TkumZwxCg1YDwkhjF8mU2Z_XInfLi3mHP3QD69HnX-UqSD7VAq-BtWibfuPuIeC8LndAdbwC16pjW7RSTQLxudH49sBA0tC3h4Feyk4gs67szL3-ehH_3YOj2-tbauSUI6q15yaMrhQ1f0pgAp88yBG5yPQ04Q-TMU20k0iscBw=w900-h604-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis<\/p>\n<p>No dia 06 de janeiro de 2020, a professora Zuleide Faria de Melo completou 88 anos. Mulher de coragem, alagoana de fibra, uma comunista brasileira, li\u00e7\u00e3o de vida para todos aqueles que lutam por uma sociedade igualit\u00e1ria. Natural de Limoeiro, Alagoas, Zuleide foi, ainda jovem, para o Rio de Janeiro. Come\u00e7ou a trabalhar, em 1965, na Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, dedicando-se a edi\u00e7\u00e3o, revis\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de livros. Casou-se aos vinte anos e teve duas filhas.<\/p>\n<p>Entrou oficialmente para o PCB no dia 25 de mar\u00e7o de 1965, mas iniciou de fato sua milit\u00e2ncia logo ap\u00f3s o golpe de 1964, quando, ap\u00f3s agir para liberar da pris\u00e3o seu primo Jurandir B\u00f3ia, diretor da UNE, abrigou em sua casa militantes perseguidos pela ditadura, desde membros das Ligas Camponesas a quadros comunistas como Jayme Miranda.<\/p>\n<p>Nos anos 1970, ficou respons\u00e1vel por datilografar e imprimir textos e jornais do Partido, como o Voz Oper\u00e1ria. Em 1974, juntamente com Jos\u00e9 Sales e Marly Vianna, membros do Comit\u00ea Central, participou da viagem de carro a S\u00e3o Paulo para levar para o Rio todo o acervo do Arquivo de Astrojildo Pereira, cuja documenta\u00e7\u00e3o foi para a It\u00e1lia em 1977, passando a compor o Archivio Sociale della Memoria Operaia Brasiliana.<\/p>\n<p>Formada em Ci\u00eancias Sociais pela antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ), por culpa da ditadura somente come\u00e7ou a lecionar a partir de 1979 no IFCS. No ano anterior havia entrado para o CEBRADE (Centro Brasil Democr\u00e1tico), entidade criada por Oscar Niemeyer para avan\u00e7ar a luta contra a ditadura.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1980, ajudou a organizar a luta popular no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. E passou a se dedicar \u00e0 causa internacionalista, ocupando cargos no Instituto Cultural Brasil-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, no CONDEPAZ (Conselho Brasileiro de Defesa da Paz) e na Associa\u00e7\u00e3o Cultural Jos\u00e9 Marti, de solidariedade a Cuba, onde exerceu a presid\u00eancia por muitos anos.<\/p>\n<p>Zuleide entrou para o Comit\u00ea Central do PCB em 1987, no VIII Congresso. Fez parte do Movimento em Defesa do PCB, em 1992, cedendo sua casa para reunir o comando central da resist\u00eancia \u00e0 tentativa de liquidar o Partido. Depois ocupou a presid\u00eancia do PCB, em sucess\u00e3o ao camarada Hor\u00e1cio Macedo, at\u00e9 o ano de 2008. S\u00e3o mais de 50 anos de uma milit\u00e2ncia marcada por generosa solidariedade de classe, grandeza pol\u00edtica e firme convic\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Reproduzimos abaixo mat\u00e9ria publicada em nossa p\u00e1gina em 28 de abril de 2014, contendo entrevista concedida por Zuleide \u00e0 Revista Novos Temas, editada pelo Instituto Caio Prado Jr:<\/p>\n<p>&#8220;A professora Zuleide Faria de Melo \u00e9 um desses personagens pol\u00edticos cujo papel e presen\u00e7a marcaram indelevelmente a hist\u00f3ria do Partido Comunista Brasileiro em momentos cruciais da sua exist\u00eancia, da luta contra a ditadura de 1964 at\u00e9 o processo de reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que impediu a destrui\u00e7\u00e3o do mais longevo partido pol\u00edtico da hist\u00f3ria do Brasil. A milit\u00e2ncia comunista de Zuleide Faria de Melo \u00e9 marcada por uma generosa solidariedade de classe, por uma imensa grandeza pol\u00edtica e por firme convic\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. S\u00e3o 50 anos de presen\u00e7a marcante nas lutas pela transforma\u00e7\u00e3o social do Brasil na perspectiva do socialismo.<br \/>\nDa simples milit\u00e2ncia de base \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1ria-Geral do PCB, Zuleide Faria de Melo cumpriu grande jornada em v\u00e1rios campos da vida pol\u00edtica e social, passando pela resist\u00eancia \u00e0 ditadura no Brasil, pelo apoio \u00e0s lutas populares e oper\u00e1rias, pelo exerc\u00edcio transformador do magist\u00e9rio na UFRJ e pela convicta solidariedade internacional para com os povos em luta, em especial o reiterado apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n<p>Zuleide Faria de Melo \u00e9 militante de toda uma vida pela causa socialista, sempre ao lado do operador pol\u00edtico que escolheu para travar os combates na hist\u00f3ria: o Partido Comunista Brasileiro.\u201d Assim a nona edi\u00e7\u00e3o da revista Novos Temas apresenta rica entrevista com Zuleide Faria de Melo, que transcrevemos a seguir.<\/p>\n<p>Novos Temas: N\u00f3s estamos aqui, pelo Instituto Caio Prado J\u00fanior (ICP) e pela Revista Novos Temas para entrevistar a dirigente hist\u00f3rica do PCB, professora universit\u00e1ria aposentada, que teve uma participa\u00e7\u00e3o importante na hist\u00f3ria do Brasil, nas lutas contra a repress\u00e3o e na reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do PCB, a camarada Zuleide Faria de Melo. Zuleide, quer\u00edamos que voc\u00ea come\u00e7asse a falar sobre a sua forma\u00e7\u00e3o, os seus primeiros momentos e de onde voc\u00ea parte para compreender o mundo e lutar pela sua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Zuleide Faria de Melo: Eu nasci num estado da Federa\u00e7\u00e3o dos mais atrasados do Brasil, Alagoas, que permanece at\u00e9 hoje num grau de colonialismo, pois o colonialismo n\u00e3o acabou e continua, ainda, em boa parte, submetido a novas regras. E nasci numa fam\u00edlia de minifundi\u00e1rios altamente conservadores, uma fam\u00edlia religiosa, com duas av\u00f3s, uma teve 16 filhos e a outra 18, porque a compreens\u00e3o do papel das mulheres era de uma mera matriz reprodutora de filhos leg\u00edtimos. Eu tive 32 tios, \u2013 salvando a minha m\u00e3e e o meu pai \u2013 cada um dos casais teve entre seis e dez filhos. Nasci numa fam\u00edlia extremamente exigente nas quest\u00f5es morais, nas quest\u00f5es de disciplina, mas eu queria abrir um par\u00eanteses para dizer que no Nordeste, apesar disso, o grau de solidariedade \u00e9 maior do que no Sul, as fam\u00edlias se interagem. Por outro lado, as exig\u00eancias de comportamento s\u00e3o muito r\u00edgidas. E uma delas \u00e9 o papel da mulher. A minha m\u00e3e acreditava piamente na famosa educa\u00e7\u00e3o portuguesa, ou seja: escreveu, n\u00e3o leu, o pau comeu. Mas n\u00e3o era s\u00f3 comigo, eu fiquei sempre muito revoltada, at\u00e9 que eu entendi que a minha m\u00e3e fazia o que ela aprendeu, e a minha av\u00f3 fazia, tamb\u00e9m, o que ela aprendeu. E isso foi a minha inf\u00e2ncia toda e a minha adolesc\u00eancia, eu me lembro que eu tinha 10 anos, eu estava no 5\u00ba ano prim\u00e1rio, e a minha m\u00e3e tinha a seguinte concep\u00e7\u00e3o: se eu tirasse menos de 90, eu apanhava, porque o que era da escola eu tinha obriga\u00e7\u00e3o de fazer. Por outro lado, eu n\u00e3o podia ler nada al\u00e9m disso, porque mo\u00e7a de fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 para ficar lendo qualquer coisa, est\u00e1 certo? Com 13 anos, eu me lembro que eu fiz a seguinte pergunta: \u201cMas eu queria entender porque filho de pobre morre mais do que filho de rico\u201d, e a minha m\u00e3e disse: \u201cMas o que \u00e9 isso, voc\u00ea est\u00e1 sendo tentada pelo dem\u00f4nio, como \u00e9 que voc\u00ea pensa uma coisa dessas?\u201d, com aquilo me deu outra surra, mas ela dava com muita facilidade. Uma vez eu levei uma surra porque o meu irm\u00e3o fez l\u00e1 alguma coisa e ela estava dando uma surra grande nele, eu fui l\u00e1 defender o meu irm\u00e3o e ela aproveitou: \u201cAh, ent\u00e3o vamos exemplar os dois\u201d. Ent\u00e3o s\u00f3 para a gente entender aqui, como \u00e9 que eu me desenvolvi. Numa disciplina muito r\u00edgida no fazer, n\u00e3o no pensar.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea nasceu em Alagoas e viveu l\u00e1 quanto tempo?<\/p>\n<p>ZFM: Quando eu terminei o prim\u00e1rio, por volta dos 10 e 11 anos, vim a primeira vez para o Rio de Janeiro, ent\u00e3o eu j\u00e1 fiz o gin\u00e1sio no Rio.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea \u00e9 de Macei\u00f3?<\/p>\n<p>ZFM: N\u00e3o, eu sou de Limoeiro, que \u00e9 um munic\u00edpio que fica perto de S\u00e3o Miguel dos Campos.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00eas vieram para o Rio de Janeiro. O gin\u00e1sio voc\u00ea fez em que escola?<\/p>\n<p>ZFM: Fiz no Col\u00e9gio \u201cDois de Dezembro\u201d porque eu morei muitos anos no Graja\u00fa, e a minha fam\u00edlia morava naquela regi\u00e3o do M\u00e9ier, onde eu fiz o gin\u00e1sio e a regra era a mesma, na escola eu n\u00e3o podia tirar menos de 90. E eu queria desbragadamente ler; minha m\u00e3e ia dormir, eu acendia a luz do quarto e ficava lendo. A\u00ed ela acordava, de madrugada, via a luz acesa, pegava o livro e jogava o livro pela janela, era um horror. Mas no dia seguinte eu fazia a mesma coisa e ela nunca conseguiu me impedir de ler. Os meus pais achavam que menina tinha que ser muito mais resguardada do que os meninos \u2013 eu tenho um irm\u00e3o que \u00e9 um pouco mais novo do que eu. E uma coisa que eu observava \u00e9 que o meu irm\u00e3o podia fazer uma quantidade de coisas que eu n\u00e3o podia. Nessa quest\u00e3o, quando eu reclamava, era sempre o seguinte: que o meu irm\u00e3o era homem, portanto, ele podia. E eu tinha que entender que eu era mulher, portanto, n\u00e3o podia. E eu comecei a pensar: \u201cMas, sim, qual \u00e9 a diferen\u00e7a?\u201d, e quando eu formulava qualquer coisa nessa \u00e1rea, era um esc\u00e2ndalo. Tem um epis\u00f3dio que marcou muito, houve uma festa na casa de uma das minhas tias e, l\u00e1 pelas tantas, come\u00e7ou a dan\u00e7a e eu fui para o quarto onde estavam as minhas tias futricando qualquer coisa. E a\u00ed um rapaz veio me tirar para dan\u00e7ar, eu disse que n\u00e3o queria dan\u00e7ar, porque eu n\u00e3o podia. Mas as minhas tias, todas alcoviteiras: \u201cmenina, 13 anos, engra\u00e7adinho, o rapaz veio tirar para dan\u00e7ar, tem que ir\u201d e acabou que eu tive que dan\u00e7ar. Quando acabou a dan\u00e7a, eu voltei para o quarto e ca\u00ed num pranto que ningu\u00e9m entendeu. Eu chorei todas as minhas l\u00e1grimas e ningu\u00e9m entendia. As minhas tias preocupadas se o rapaz tinha feito alguma coisa, pobre do rapaz n\u00e3o fez nada, me tirou para dan\u00e7ar. E eu disse o seguinte: \u201cN\u00e3o, ele n\u00e3o fez nada, mas ele n\u00e3o tinha o direito de vir me tirar para dan\u00e7ar, porque se eu quisesse dan\u00e7ar eu estava na sala como todo mundo, ent\u00e3o ele n\u00e3o tinha o direito de vir aqui me tirar para dan\u00e7ar\u201d. Entende, quer dizer, eu j\u00e1 come\u00e7ava a pensar nos meus direitos, \u201cP\u00f4, n\u00e3o quero dan\u00e7ar, n\u00e3o quero dan\u00e7ar\u2026\u201d<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea era muito rebelde?<\/p>\n<p>ZFM: Quando eu tinha de 15 para 16 anos, a minha m\u00e3e resolveu me casar, o que era comum, ainda. Todos os casamentos eram arranjados. E na estrutura familiar, tamb\u00e9m, casavam uns com os outros, as alternativas n\u00e3o eram t\u00e3o grandes assim. Ent\u00e3o tinha um parente nosso, meu, mais distante, que era primo da minha m\u00e3e\u2026 Esse meu primo era Coronel da Pol\u00edcia e foi o \u00fanico preso em 1937 por ser integralista. Barra pesada! Ele tinha um filho de 20 anos, que estava fazendo Medicina. E a\u00ed um dia a minha m\u00e3e me chama e diz: \u201cSente aqui, vamos conversar\u201d, e eu: \u201cIh, vem coisa\u2026\u201d, e disse assim: \u201c\u00c9 o seguinte, o Euclides e a J\u00falia \u2013 que era a mulher dele \u2013 vieram me dizer que o Wilson est\u00e1 muito engra\u00e7ado\u201d \u2013 as palavras paix\u00e3o e amor n\u00e3o existiam \u2013 era se engra\u00e7ou. Ela falou engra\u00e7adinho, s\u00f3. \u201cE a\u00ed eles est\u00e3o querendo que voc\u00ea namore com ele\u201d. Eu nunca tinha pensado nisso, \u201ccomo \u00e9 que \u00e9? Eu vou namorar? Mas eu nem gosto dele.\u201d Foi o maior insulto, eles nunca esqueceram a afronta que fiz de me negar a casar com o filho deles. Eu estava j\u00e1 com 16 para 17 anos, num canto da sala, com um livro na m\u00e3o, esse Coronel se aproximou e disse: \u201cAh, deixa eu ver aqui o que voc\u00ea est\u00e1 lendo\u2026\u201d, por um acaso era \u201cGabriela, Cravo e Canela\u201d. Ele olhou para mim e disse: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 lendo isso? \u00c9 um comunista, como \u00e9 que voc\u00ea se atreve a fazer isso?\u201d, e tomou o livro. No domingo seguinte, chegou \u00e0s sete horas da manh\u00e3, chamou o meu pai, e disse: \u201cOlha, o que voc\u00eas est\u00e3o fazendo com essa menina? Essa menina est\u00e1 perdida.\u201d, eu n\u00e3o tinha me perdido em nada, mas foi um au\u00ea, e ele n\u00e3o devolveu o livro. Ent\u00e3o foi tudo muito dif\u00edcil, tive que me tornar Filha de Maria. O padre falou com o meu pai: \u201cEla tem que ser Filha de Maria\u201d, disse, \u201cela vai para o convento\u201d.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea fez o 2\u00ba grau (ensino m\u00e9dio) aqui no Rio de Janeiro, tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>ZFM: Sim, na mesma escola. Eu optei pelo Cl\u00e1ssico, porque eu nunca gostei de matem\u00e1tica. Fiz o Cl\u00e1ssico, tanto que eu sabia latim, que era obrigat\u00f3rio, depois fiz cinco anos de franc\u00eas, mas nunca gostei de ingl\u00eas, at\u00e9 aprendi um pouco, mas nunca gostei. E depois eu \u00e9 que descobri o espanhol.<\/p>\n<p>NT: E depois de terminar o Cl\u00e1ssico, voc\u00ea j\u00e1 foi para a universidade?<\/p>\n<p>ZFM: N\u00e3o, houve um espa\u00e7o porque tive problemas de fam\u00edlia. \u00c9 que eu acabei casando cedo, apesar de tudo, com o meu \u00fanico namorado. N\u00e3o sei nem se chegou a ser um amor, porque tamb\u00e9m n\u00e3o era do jeito que \u00e9 hoje. Namorava-se na sala, no domingo, com a minha m\u00e3e fingindo que estava fazendo alguma coisa. E se fosse para ir ao cinema, ela ia junto. Eu fiquei noiva, eu cumpria as regras direitinho, porque tamb\u00e9m nunca tive muita mal\u00edcia. Eu acho que at\u00e9 concordava com boa parte delas, desde que n\u00e3o fosse violento, eu at\u00e9 concordava.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea tinha quantos anos quando casou?<\/p>\n<p>ZFM: Estava beirando 20, 21, por a\u00ed\u2026foi uma das imposi\u00e7\u00f5es do meu ex-marido. Claro, que eu n\u00e3o podia continuar estudando, \u201cporque mo\u00e7a de fam\u00edlia n\u00e3o tem que ficar estudando, dando conversa para qualquer um\u201d. Tive duas filhas, mas eu nunca fui uma pessoa esperta, nunca, ou melhor, eu sempre acreditei que a humanidade \u00e9 boa, todo mundo \u00e9 decente, honesto, voc\u00ea entende. Eu casei no civil e no religioso, v\u00e9u, grinalda e flor de laranjeira, com fita azul de Filha de Maria. Com sete anos de casada e acreditando que o meu marido era t\u00e3o fiel quanto eu. At\u00e9 que um dia, a minha m\u00e3e, que era muito esperta e muito maliciosa, coisa que eu nunca fui, chegou no domingo e disse: \u201cO seu marido tem uma namorada a quarteir\u00f5es daqui, anda com ela para tudo que \u00e9 lugar, todo o bairro sabe, a \u00fanica pessoa que n\u00e3o sabe \u00e9 voc\u00ea que vive no mundo da lua, enfiada nesses livros que n\u00e3o servem para nada\u201d, e eu juro que eu ca\u00ed, de repente, numa nova situa\u00e7\u00e3o. A\u00ed ele chegou l\u00e1 pelas tantas, eu disse: \u201cFulano, o seguinte, senta a\u00ed, vamos conversar, eu soube disso, assim, assim, assim. Eu quero saber se \u00e9 verdade\u201d. A primeira pergunta que ele fez foi assim: \u201cQuem foi que lhe contou?\u201d, eu disse: \u201cA minha m\u00e3e\u201d. Ele disse: \u201c\u00c9 verdade, conheci a M\u00e1rcia, estou apaixonad\u00edssimo por ela\u201d, etc. E eu s\u00f3 perguntei o seguinte: \u201cEla sabe que voc\u00ea \u00e9 casado? Sabe que voc\u00ea tem duas filhas pequenas?\u2019 \u2013 \u201cSabe, porque eu j\u00e1 levei para ela conhecer\u201d. Decididamente, eu n\u00e3o passava de uma idiota.<\/p>\n<p>NT: A\u00ed voc\u00ea se desquitou\u2026<\/p>\n<p>ZFM: Eu, na tentativa crist\u00e3 de n\u00e3o acabar o casamento, disse: \u201cOlha, ent\u00e3o vamos fazer uma coisa, a partir de hoje, um de n\u00f3s dois dorme na sala, mas eu lhe dou um m\u00eas para voc\u00ea pensar, conversar com essa mo\u00e7a, explicar a ela tudo e, daqui a um m\u00eas, a gente volta a conversar\u201d. Quinze dias depois, ele chegou e disse: \u201cConversei com a M\u00e1rcia. Ela faz qualquer coisa para ficar comigo, ent\u00e3o eu quero saber se voc\u00ea assina o desquite\u201d, e eu impulsivamente disse: \u201cAssino\u201d. Eu n\u00e3o discuti mais nada, porque n\u00e3o havia mais o que discutir, n\u00e3o \u00e9 verdade? Foi o desquite mais tranquilo e harmonioso que j\u00e1 houve na justi\u00e7a brasileira, porque eu n\u00e3o exigi nada. Ele trabalhava no com\u00e9rcio, era comerciante, era mais velho do que eu, uns dois ou tr\u00eas anos. Ele morreu h\u00e1 dois anos atr\u00e1s. Foi viver com a M\u00e1rcia e teve tr\u00eas filhas com ela.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea trabalhava naquele per\u00edodo?<\/p>\n<p>ZFM: Eu j\u00e1 estava na Secretaria de Sa\u00fade do Estado, trabalhando num \u00f3rg\u00e3o que tinha sido criado recentemente que era o Centro de Estudos, Treinamento e Aperfei\u00e7oamento, ligado diretamente ao gabinete do Secret\u00e1rio de Sa\u00fade. Mas o sal\u00e1rio que eu ganhava, naturalmente, n\u00e3o era suficiente para dar tudo que eu achava que eu tinha que dar para as minhas filhas. E foi a\u00ed que, por um golpe de sorte, tamb\u00e9m, eu fui trabalhar com a Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Trabalhei 15 anos com a produ\u00e7\u00e3o de livros, at\u00e9 hoje eu traduzo livros, da capa \u00e0 contracapa, fa\u00e7o tudo. Eu entrei para a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira em 1965. E comecei a trabalhar com revis\u00e3o, copydesk, como eu sabia franc\u00eas bem, espanhol bem e portugu\u00eas bem, rapidamente eu estava fazendo muita coisa. Isso foi um marco na minha vida, porque eu trabalhava na Secretaria de Sa\u00fade, nesse Centro de Estudos, quando se criou a resid\u00eancia m\u00e9dica. Nesse lugar tinha uma senhora que tinha uma filha da minha idade e que gostou muito de mim. Ela disse: \u201cOlha, voc\u00ea sabe portugu\u00eas bem, franc\u00eas, ent\u00e3o eu quero que voc\u00ea venha trabalhar comigo\u201d. Ela ia editar a revista do Estado da Guanabara e me ensinou \u2013 e foi por isso que eu consegui ir para a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira \u2013 como \u00e9 que se fazia a revis\u00e3o, o copydesk, tudo isso. Quando tinha qualquer folga ela me ensinava o franc\u00eas, que eu n\u00e3o sabia, treinava o franc\u00eas, foi uma segunda m\u00e3e para mim, uma mulher muito avan\u00e7ada. Chamava-se Dila Loureiro.<\/p>\n<p>NT: Quando e porque voc\u00ea entrou na universidade, como professora?<\/p>\n<p>ZFM: Depois de um ano e meio de ter terminado o curso de Ci\u00eancias Sociais, que, com a ditadura, foi proibido e n\u00e3o havia concurso p\u00fablico. Ent\u00e3o eu entrei para a UFRJ em 1979, porque no IFCS (Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais) abriu uma vaga, eu soube e a\u00ed eu me candidatei e passei, fui a \u00fanica pessoa.<\/p>\n<p>NT: E a gradua\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>ZFM: A gradua\u00e7\u00e3o eu fiz na Universidade Federal, naquele tempo, que era Escola de Filosofia.<\/p>\n<p>NT: Sim, Universidade do Brasil. Voc\u00ea fez o mestrado antes de entrar para a universidade ou depois que entrou?<\/p>\n<p>ZFM: Logo depois. Em 1980 eu fiz uma sele\u00e7\u00e3o e entrei para fazer o mestrado. Quando eu entrei, era uma admiss\u00e3o tempor\u00e1ria, porque todos os concursos estavam proibidos. N\u00e3o havia nenhum concurso na esfera p\u00fablica, e s\u00f3 houve a partir dos anos 1980, mas naturalmente, eu senti tamb\u00e9m a necessidade de estudar mais um pouco e, como eu fazia pol\u00edtica, de entender tamb\u00e9m um pouco mais, ent\u00e3o fiz mestrado no IUPERJ, em Ci\u00eancia Pol\u00edtica. O trabalho que eu apresentei foi uma pesquisa grande, intitulada \u201cA M\u00e3e Solteira Numa Sociedade de Classes\u201d, um neg\u00f3cio interessante, at\u00e9 hoje\u2026 Claro, voc\u00ea precisa adequar um bocado de coisas. Foi uma pesquisa feita numa casa que tinha aqui em Botafogo que abrigava m\u00e3es solteiras mantidas por mulheres crist\u00e3s, todas ricas. Era uma coisa dantesca, sabe.<\/p>\n<p>NT: Naquele per\u00edodo voc\u00ea j\u00e1 estava na Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira?<\/p>\n<p>ZFM: Sim. Foi no in\u00edcio daquele per\u00edodo. Passei a ganhar um dinheiro razo\u00e1vel, eu trabalhava feito um c\u00e3o, virava noite. Resolvi ir para a universidade, que eu tinha sa\u00eddo no primeiro ano, voltar e acabar. Ent\u00e3o fiquei com o diploma na m\u00e3o, in\u00fatil naquele per\u00edodo, porque n\u00e3o tinha nenhuma vaga, todos os cursos dessa \u00e1rea foram proibidos. Mas, para mim, pessoalmente, serviu. Quando chegou em 1965, com essa hist\u00f3ria de eu precisar complementar o meu sal\u00e1rio, foi a Dila Loureiro que resolveu esse problema. Ela percebeu a minha situa\u00e7\u00e3o e disse: \u201cZuleide, a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira est\u00e1 procurando um bom leitor de livros para fazer revis\u00e3o\u201d. Bom, no dia seguinte fui, era o Ary da Mata que era o editor da Civiliza\u00e7\u00e3o, e ele disse: \u201cOlha, esse livro chegou agora da gr\u00e1fica, voc\u00ea me traz esse livro revisado em tr\u00eas dias\u201d. Tudo bem, levei para casa, comecei de noite, naturalmente, e no fim de tr\u00eas dias, fui l\u00e1 entregar. Ele olhou, passou pela m\u00e3o do \u00canio Silveira, que era o Diretor da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, n\u00e3o tinha um erro. A partir da\u00ed eles me admitiram e virei revisora, tanto que voc\u00ea encontra v\u00e1rios livros com o meu nome. Depois eu trabalhei para a Paz e Terra e at\u00e9 para a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, em trabalhos tempor\u00e1rios, eu fazia por tarefa. Mas isso me permitiu ganhar um dinheiro e como eu n\u00e3o fumo, n\u00e3o bebo, n\u00e3o jogo, n\u00e3o dan\u00e7o \u2026<\/p>\n<p>NT: Dava para fazer algumas reservas, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>ZFM: Sim, sobrava algum dinheiro e em 1971 eu comprei um apartamento no Graja\u00fa. A minha m\u00e3e assumiu a casa, n\u00e3o do ponto de vista dom\u00e9stico, porque isso ela n\u00e3o faria nem morta, tinha que ter empregada, mas de qualquer forma ela cuidava das meninas, levava para o parque, levava para toda parte e foi muito solid\u00e1ria nessa quest\u00e3o. Ent\u00e3o, a\u00ed vem uma quest\u00e3o important\u00edssima, que definiu a minha vida: \u00e9 que em 1964 teve o golpe. Quando teve o golpe, eu fiquei absolutamente furiosa, porque achava que aquilo era uma indignidade. A\u00ed a vida ou a hist\u00f3ria ou sei l\u00e1 o que seja atuou para me mudar.<\/p>\n<p>NT: Como era o seu conv\u00edvio com o \u00canio da Silveira?<\/p>\n<p>Zuleide: Muito bom, ele era uma pessoa fant\u00e1stica. Era a maior editora do pa\u00eds que, mesmo na ditadura, publicava 21 t\u00edtulos por m\u00eas, mesmo na ditadura n\u00f3s faz\u00edamos um bocado de coisa. Pois \u00e9, o \u00canio foi preso tr\u00eas vezes por lan\u00e7amento de livro. Uma das vezes ele foi preso por mandar traduzir um livro de um sovi\u00e9tico. Quem traduziu foi o Miguel Arraes, que j\u00e1 estava exilado. Ele tinha uma livraria em Paris. Naquele per\u00edodo havia um ac\u00famulo de coisas ocorrendo e eu aprendi a responder de forma adequada. Agora, \u00e9 verdade tamb\u00e9m que eu fui assumindo cada vez mais tarefas, porque a\u00ed o Partido me deu uma tarefa de eu cobrar n\u00e3o sei quantas pessoas para fazer finan\u00e7as, exatamente porque eu n\u00e3o era t\u00e3o conhecida assim. A partir de 1965, na Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, eu conheci todos os grandes intelectuais: Ferreira Gullar, Dias Gomes\u2026 Passei a ser a pessoa que fazia revis\u00e3o do Rio inteiro. Por outro lado, eu comecei a ler, na medida do poss\u00edvel, desbragadamente, porque eu tinha acesso aos livros. Na Civiliza\u00e7\u00e3o, quando se trabalhava em um livro, se recebia de gra\u00e7a, e, nos outros, tinha-se 40% de desconto, ent\u00e3o eu tenho uma biblioteca genial. O dia em que cair uma pilha de livro e papel em cima de mim (risos), eu vou morrer sufocada dentro daquilo que eu gosto, a\u00ed eu vou morrer feliz.<\/p>\n<p>NT: Eu gostaria que voc\u00ea falasse da sua entrada no Partido, de como voc\u00ea via a atua\u00e7\u00e3o do PCB na \u00e9poca da ditadura. Como foi a sua participa\u00e7\u00e3o, quem foram as pessoas com quem voc\u00ea conviveu?<\/p>\n<p>ZFM: Eu entrei oficialmente para o Partido Comunista Brasileiro no dia 25 de mar\u00e7o de 1965. Mas eu j\u00e1 vinha militando h\u00e1 um ano, fazendo tudo que o Partido me pedia. Eu comecei a militar em 1964 em fun\u00e7\u00e3o de um primo meu, que foi preso aqui, porque foi eleito pela UNE em Macei\u00f3 e veio para o Rio no final de 1963, Jurandir B\u00f3ia. Ele \u00e9 um m\u00e9dico famoso em Alagoas. O presidente da UNE era o Jos\u00e9 Serra, o Marcelo Cerqueira era o secret\u00e1rio geral, e o Jurandir tinha sido eleito como tesoureiro. Nessa qualidade, ele trancou a matr\u00edcula e veio para o Rio. Ora, quando veio o golpe, o Z\u00e9 Serra e o Marcelo Cerqueira j\u00e1 eram \u201cmacacos velhos\u201d, o meu primo era um garoto de 20 anos, primeiro ano de Medicina, veio para o Rio, n\u00e3o tinha nenhuma experi\u00eancia. Foi o \u00fanico preso da UNE. E desapareceu, ningu\u00e9m sabia dele, ningu\u00e9m sabia se ele estava vivo, se ele estava morto, ningu\u00e9m sabia. E a m\u00e3e dele, minha prima em primeiro grau, me mandando cartas pedindo \u201cpelo amor de Deus\u201d para eu descobrir o filho dela, onde ele estava, porque nesse per\u00edodo o outro filho dela \u2013 ela teve dez filhos \u2013 o Ja\u00edlson estava no primeiro ano de Engenharia, l\u00e1 em Macei\u00f3, na Faculdade Federal de Engenharia. Quando veio o golpe, o Ja\u00edlson, que era muito mais esperto do que o Jurandir e participava muito do movimento estudantil, reuniu o diret\u00f3rio, do qual era o presidente, e ocuparam a R\u00e1dio Nacional em Macei\u00f3. E come\u00e7aram a colocar no ar chamando a resist\u00eancia. Muito bem, isso durou pouco, naturalmente, porque o Ex\u00e9rcito cercou a r\u00e1dio, ocupou a pra\u00e7a e mandou um ultimato, que se eles n\u00e3o sa\u00edssem, come\u00e7ariam a atirar. Mas um primo que era um fazendeiro muito importante, todo mundo conhecia, ficou indignado quando o Ex\u00e9rcito disse que ia metralhar a emissora. Pegou a capangada toda e foi para Macei\u00f3. Chegou l\u00e1, distribuiu os homens, todos armados, procurou o Coronel do Ex\u00e9rcito e disse: \u201cOlha, primeiro o seguinte, eu escutei no r\u00e1dio que voc\u00eas querem atirar na garotada, o meu primo \u00e9 o meu sangue e voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o derramar uma gota de sangue da minha fam\u00edlia\u201d, porque l\u00e1 o problema n\u00e3o \u00e9 se \u00e9 comunista, \u201c\u00e9 o meu sangue\u201d. Ent\u00e3o eles conseguiram sair, o Ja\u00edlson, depois, foi preso, foi mandado para Pernambuco, foi torturad\u00edssimo. E o Jurandir, ningu\u00e9m sabia. Uns dois meses depois eu resolvi e fui com a cara e a coragem ao Minist\u00e9rio da Guerra. Cheguei l\u00e1, falei com um tenente, disse o que era, ele me levou para um coronel. Ao coronel eu disse: \u201cOlha, eu estou aqui pelo meu primo, est\u00e3o aqui todas as cartas da minha prima que quer saber onde est\u00e1 o filho dela, se est\u00e1 vivo ou morto. Eu queria dizer ao senhor que quando ele saiu de Alagoas, ele saiu legalmente, ele n\u00e3o cometeu nenhum crime. E eu preciso saber onde \u00e9 que ele est\u00e1, primeiro se ele est\u00e1 vivo\u201d \u2013 \u201cN\u00e3o, ele est\u00e1 vivo\u201d, \u2013 \u201cOnde?\u201d, \u2013 \u201cNo DOPS\u201d. E eu: \u201cEnt\u00e3o o senhor vai me autorizar a visit\u00e1-lo\u201d. O coronel me deu um bilhete para eu poder ver Jurandir no DOPS. Ele estava com 40 graus de febre porque alguns ferimentos infeccionaram. A visita foi curta, durou dez minutos e, quando terminou, Jurandir, discretamente, botou um papel na minha m\u00e3o, eu tive a sensatez de n\u00e3o abrir, botei discretamente na bolsa, abri em casa. Esse bilhete dizia o seguinte: \u201cTodos os documentos, livros, materiais da UNE est\u00e3o no Hotel Argentino e voc\u00ea tem que tirar isso de l\u00e1 porque j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 muito tempo\u201d. Antes do golpe, eles tinham alugado dois quartos nesse hotel e levado todo o arquivo para l\u00e1. Dizia ainda: \u201cSe eles pegarem esse material, eu n\u00e3o vivo 24 horas, nem eu, nem muita gente\u201d. Eu li o bilhete, nunca tinha feito nada disso, mas nordestino \u00e9 outra coisa, nordestino, a gente aprende, tamb\u00e9m, muita coisa fora dos padr\u00f5es. A\u00ed eu chamei o meu irm\u00e3o, s\u00f3 tenho um irm\u00e3o, que at\u00e9 hoje acha que eu sou doida varrida, n\u00e3o tenho salva\u00e7\u00e3o mesmo. Fomos l\u00e1 e tivemos uma sorte porque o gerente que estava de plant\u00e3o era um espanhol que tinha participado da Guerra Civil Espanhola. Quando eu cheguei l\u00e1 e eu mostrei o bilhete do Jurandir, ele deu um suspiro de al\u00edvio e disse: \u201cMinha senhora, esse material est\u00e1 aqui h\u00e1 mais de tr\u00eas meses, dois apartamentos fechados que n\u00e3o est\u00e3o sendo alugados e eu estou guardando isso, mas se a senhora levar tudo hoje, eu lhe agrade\u00e7o muito\u201d. A\u00ed, bom, uma hora depois a gente estava saindo. Chegamos em casa, no Graja\u00fa, com todo esse material. Tinha cheque grande do Juscelino Kubitschek, que era para fazer a obra do pr\u00e9dio da UNE, documento de todo tipo. E a\u00ed ficou a seguinte quest\u00e3o, o que fazer com aquilo. A minha m\u00e3e me deu um ultimato, disse: \u201cVoc\u00ea trouxe, agora n\u00f3s teremos que destruir\u201d. Salvou-se pouca coisa, a primeira coisa que eu destru\u00ed foi o cheque do Juscelino, at\u00e9 porque ningu\u00e9m ia apresentar aquele cheque em lugar nenhum, n\u00e3o \u00e9 verdade? A minha m\u00e3e \u00e9 uma coisa muito engra\u00e7ada, ela morreu com 100 anos esperando que eu regenerasse. A\u00ed a ideia foi dela: \u201cOlha, n\u00f3s vamos rasgar esse material, ver se tem alguma coisa que pode salvar, porque n\u00e3o tem onde botar, n\u00e3o d\u00e1 para queimar, porque os vizinhos v\u00e3o ver, vai ficar ruim. A gente, de noite, vai botar tudo isso dentro de um tanque, abrir a torneira e esperar, porque, com a \u00e1gua, a tinta desaparece e amanh\u00e3 de madrugada a gente tira esse papel, vai pondo em saco e pode botar na lixeira, porque ningu\u00e9m vai notar\u201d. Dois meses depois, o Jurandir foi solto, porque n\u00e3o tinham nada contra ele, n\u00e3o havia uma \u00fanica acusa\u00e7\u00e3o contra ele. Foi a partir da\u00ed que o pessoal de Alagoas passou a contar comigo. Porque quando, em Alagoas, se soube disso, todo mundo achou que, a partir da\u00ed, eu estava preparada para qualquer coisa. A\u00ed come\u00e7ou a vir gente do Partido para a minha casa, Jaime Miranda, os sobrinhos dele, e a minha casa come\u00e7ou a ficar cheia e eu, durante esse per\u00edodo todo, at\u00e9 mar\u00e7o de 1965, fiz tudo que tinha que fazer e n\u00e3o era do Partido ainda. E foi a\u00ed que eu comecei, ent\u00e3o, a me inteirar cada vez mais das coisas.<\/p>\n<p>NT: E ent\u00e3o voc\u00ea entrou oficialmente no Partido?<\/p>\n<p>ZFM: Em 1965, porque durante um ano eu fiquei sendo submetida a uma prova que eles n\u00e3o diziam o que era, mas passaram a me dar tudo que era tarefa. N\u00e3o s\u00f3 de alojamento, mas de tudo: \u201cFaz isso, faz aquilo\u201d, acabei come\u00e7ando a cobrar pessoas que pagavam para o Partido. Em 1965, no dia 25 de mar\u00e7o, anivers\u00e1rio do Partido, o Laudo Braga, que j\u00e1 estava no Rio, foi l\u00e1 em casa e disse: \u201cOlha, se arrume que eu vou levar voc\u00ea l\u00e1 na minha casa\u2026\u201d \u2013 \u201cT\u00e1 bom\u2026\u201d, eu n\u00e3o discuti, eu me arrumei e fui, era um domingo e l\u00e1 ele me disse: \u201cOlha, voc\u00ea est\u00e1 aqui porque hoje voc\u00ea est\u00e1 sendo introduzida como membro do Partido Comunista Brasileiro\u201d. A minha vida mudou radicalmente. Primeiro, eu tinha duas filhas para sustentar por minha conta; segundo, porque eu precisava arranjar dinheiro para fazer isso. A partir da vinda de pessoas da fam\u00edlia do Jaime Miranda, do qual fiquei muito amiga, passaram a usar a minha casa dessa forma. At\u00e9 a Marli Vianna diz isso no depoimento que ela deu para a UFF: \u201cO que a Zuleide fez poucas pessoas fazem, porque ela fez tudo isso sem deixar de trabalhar, sem deixar que a vizinhan\u00e7a soubesse, e, na verdade \u00e9 uma atua\u00e7\u00e3o extremamente dif\u00edcil, porque eu\u201d, ela falando, \u201ceu estava escondida, ningu\u00e9m sabia, ningu\u00e9m me achava, mas n\u00e3o era o caso dela, porque, com qualquer den\u00fancia, ela estaria perdida\u201d. Essa coisa da semiclandestinidade \u00e9 uma barra.<\/p>\n<p>NT: Agora, conte um pouco da sua hist\u00f3ria no PCB a partir da\u00ed: o que voc\u00ea teve de tarefas, com quem voc\u00ea conviveu, quando \u00e9 que voc\u00ea entra para a dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ZFM: Eu nunca tive gana por dire\u00e7\u00e3o, nunca tive gana por cargo. Cargo, para mim, \u00e9 uma injun\u00e7\u00e3o, \u00e9 um encargo, n\u00e3o \u00e9 outra coisa. Tudo que eu fiz naquele tempo no Partido eu fiz sem ser da dire\u00e7\u00e3o. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o tinha tempo, porque eu passei a hospedar Alagoas inteira, depois come\u00e7ou a vir gente de Pernambuco e pessoas fugidas, inclusive do campo, das Ligas Camponesas. Com muito cuidado da vizinhan\u00e7a, porque isso a minha m\u00e3e aprendeu tamb\u00e9m, porque chegava esse bando de gente e ela dizia que era tudo parente que estava chegando de Alagoas, ela nunca disse outra coisa. Em 1968, eu recebi um ultimado para ir \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica num grande encontro da Juventude Democr\u00e1tica. Eu estava em Moscou quando o Costa e Silva assinou o AI-5, eu tinha sa\u00eddo por portas transversas e voltei por portas mais transversas ainda. Fiquei dois meses l\u00e1, e a entrada e a sa\u00edda foi com passaporte falso. Para voltar para o Brasil, saindo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, voc\u00ea n\u00e3o imagina os caminhos tortuosos que voc\u00ea tem que passar: voc\u00ea vem at\u00e9 aqui de avi\u00e3o, a\u00ed voc\u00ea sai de trem para outro lugar e pega outro avi\u00e3o. Uma viagem de horas dura tr\u00eas dias, quatro dias. Que era para n\u00e3o deixar pistas. Ent\u00e3o n\u00e3o podia deixar pistas. E foi no meio disso tudo que eu fui tamb\u00e9m aprendendo, aprendendo e come\u00e7ando a estudar e foi muito duro para mim porque eu era Filha de Maria. De uma crente em Deus, virei comunista.<\/p>\n<p>NT: E qual era a milit\u00e2ncia aqui do Partido contra a ditadura, voc\u00ea acompanhou isso?<\/p>\n<p>ZFM: Eu acompanhei sem participar em coisas diretas, fiquei na retaguarda, porque eles acharam, o pr\u00f3prio Jaime Miranda, que o que eu fazia era muito importante, porque eu era aqui quase que a \u00fanica pessoa que recebia gente. Tanto que todo mundo brincava dizendo que era embaixada de Alagoas, embaixada do Nordeste. Quando chegou nos anos 1970 piorou tudo. No governo M\u00e9dici, todos os cuidados eram maiores. No in\u00edcio, o Partido ainda tentou fazer algumas coisas atrav\u00e9s de entidades, mas a coisa foi apertando, foi apertando. Ent\u00e3o eu passei a fazer algo al\u00e9m de receber gente. No final dos anos 60, consegui comprar um mime\u00f3grafo sueco, uma m\u00e1quina de escrever sueca, daquelas pesadas, de ferro, que voc\u00ea bota na mesa, n\u00e3o sai por nada. Passei a rodar todo material que chegava da Europa \u00e0 noite, pois eu n\u00e3o podia fazer isso de dia. Arrumei o quarto de empregada, que tinha espa\u00e7o, e de noite eu ficava l\u00e1, at\u00e9 de madrugada, datilografando os textos e reproduzindo. E os contatos foram rareando, porque a Marli e o Salles, logo depois, foram para a Europa. Havia muita gente saindo no final dos anos 1960. O pr\u00f3prio Jaime Miranda passou a ficar muito tempo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Quando ele voltou para o Brasil, foi pego. Quem ficou no Brasil foi o Isnard Teixeira e o Gerald\u00e3o. N\u00e3o tinha o Prestes. O \u00faltimo que saiu foi o Giocondo Dias. E o Giocondo tamb\u00e9m frequentava a minha casa, porque era seguro. Ent\u00e3o eu creio que, nesse per\u00edodo, praticamente todo o Partido usava a minha casa. Porque n\u00e3o tinha mais onde se reunir, ent\u00e3o todas as reuni\u00f5es eram marcadas l\u00e1 e quando era reuni\u00e3o grande do Comit\u00ea Central, era eu quem arranjava o local. Porque estava trabalhando, conhecia muita gente na Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, entrei em contato com a intelectualidade toda. A Marli at\u00e9 diz na entrevista que ela deu: \u201cOlha, a gente discutia fora, qualquer problema que precisava: vamos passar para a Zuleide\u201d, era assim que resolvia. Porque, como eu tinha um cargo na Secretaria de Sa\u00fade razo\u00e1vel, trabalhava para a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, eu era uma pessoa reconhecida como uma pessoa digna.<\/p>\n<p>NT: E sem suspeita, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Zuleide: E sem suspeita, porque ningu\u00e9m imaginava que eu fizesse isso tudo, eu ainda fazia mais. Foi assim at\u00e9 o per\u00edodo de 1974 ou 1975. Para mim, 1975 \u00e9 um marco. \u00c9 que de 1974 para 1976, 13 membros do Partido, sendo 10 do Comit\u00ea Central, desapareceram e est\u00e3o desaparecidos at\u00e9 hoje. Basicamente o que restou do Comit\u00ea Central foi saindo do Brasil, foi saindo, at\u00e9 a Marli Vianna e o Jos\u00e9 Salles sa\u00edram no final de 1974. Em 75, quem p\u00f4de, saiu. Ent\u00e3o quem ficou aqui no Rio foi o Gerald\u00e3o, e o \u00fanico contato dele era com o Isnard Teixeira. O Isnard Teixeira, que n\u00e3o ficou na clandestinidade, tinha uma caracter\u00edstica que hoje eu acho que as pessoas n\u00e3o valorizam. \u00c9 que, primeiro, ele era um m\u00e9dico importante, um dos maiores conhecedores de uma determinada doen\u00e7a, ele era, assim, vamos dizer, a pessoa que se dava de corpo e alma para a luta. Um socialista, um m\u00e9dico conceituad\u00edssimo, com curso nos Estados Unidos, enfim, brilhante. E era o chefe do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lises Cl\u00ednicas da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, adorado por todas as freiras, que diziam que ele n\u00e3o era comunista, ele era um santo. Mas na minha fam\u00edlia tamb\u00e9m, na minha fam\u00edlia, as tias diziam: \u201cMinha filha, mas voc\u00ea fique tranquila, ningu\u00e9m vai notar que voc\u00ea \u00e9 comunista, ningu\u00e9m acredita, voc\u00ea \u00e9 uma santa\u201d. Quando o Jaime Miranda desapareceu, o Comit\u00ea Central me deu mais a tarefa de manter a fam\u00edlia do Jaime Miranda no Rio de Janeiro, a Elza, com quatro filhos. Eu consegui manter mais ou menos por um ano. Quando chegou no fim de 1975 eu chamei a Elza e disse: \u201cElza, at\u00e9 agora consegui manter voc\u00ea viva, mas n\u00e3o est\u00e1 dando mais, ent\u00e3o eu queria que voc\u00ea escrevesse para o seu sogro para dizer que vai voltar para Alagoas, porque l\u00e1 voc\u00ea est\u00e1 segura, os seus filhos est\u00e3o seguros, e o menino, quase rec\u00e9m-nascido, pequenininho, l\u00e1 o pai do Jaime Miranda vai resolver o problema\u201d. Ela entendeu, agradeceu tanto que, quando completou 30 anos do desaparecimento do Jaime, a fam\u00edlia dele me convidou para ir \u00e0 cerim\u00f4nia que ia ter l\u00e1 em Macei\u00f3, no Pal\u00e1cio, me mandaram passagem, tudo, porque eles reconhecem que n\u00e3o s\u00f3 o Jaime Miranda, mas a fam\u00edlia do Jaime Miranda s\u00f3 sobreviveu em fun\u00e7\u00e3o do meu trabalho.<\/p>\n<p>NT: Como foi sua rela\u00e7\u00e3o com o Giocondo?<\/p>\n<p>ZFM: O Giocondo Dias foi o \u00faltimo a sair, em 1975, atrav\u00e9s de uma grande opera\u00e7\u00e3o. O Giocondo tinha diabetes alt\u00edssima, estava com todo tipo de problema e ele n\u00e3o tinha mais onde ficar, e a\u00ed \u2013 eu morava num apartamento t\u00e9rreo \u2013 e ele chegava, cinco da manh\u00e3, cinco e meia, batia na janela e eu, que tinha sono leve, abria a porta, e ele, cada vez definhando mais, porque s\u00f3 tinha dificuldades, a diabetes aumentando. Eu fazia ch\u00e1 para ele, quem dava dinheiro a ele para viver mais um pouco era eu, porque n\u00e3o tinha mais ningu\u00e9m que fizesse isso. \u201cOlha, Zuleide, eu n\u00e3o tenho para onde ir, a \u00fanica casa que eu ainda venho \u00e9 a sua, a \u00fanica pessoa em quem eu ainda confio nesse momento \u00e9 em voc\u00ea, que tem feito o que pode e o que n\u00e3o pode, mas n\u00e3o est\u00e1 dando. Ent\u00e3o eu estou tentando sair do pa\u00eds, estou tentando ir para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, n\u00e3o sei se consigo. Ent\u00e3o eu queria lhe dizer, a partir de hoje, se eu, dentro de 15 dias ou por a\u00ed, n\u00e3o aparecer, das duas, uma: ou eu consegui sair ou eu fui preso\u201d. E \u00e9 uma expectativa desesperadora, porque eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o muita boa com o Giocondo, ele dormia a manh\u00e3 toda, eu fazia tudo. Virei uma filha dele, quase, at\u00e9 que ele saiu do Brasil.<\/p>\n<p>NT: H\u00e1 alguma outra hist\u00f3ria importante desse per\u00edodo?<\/p>\n<p>ZFM: Em 1974, o Sales chega l\u00e1 em casa um dia e diz: \u201cOlha, Zuleide, \u00e9 o seguinte, o arquivo do Astrojildo Pereira, eu e a Marli estamos guardando, mas come\u00e7ou a ser procurado. N\u00f3s temos que tirar esse arquivo de S\u00e3o Paulo, e a \u00fanica pessoa que pode fazer isso \u00e9 voc\u00ea. Veja, tal dia eu chego aqui, cinco horas da manh\u00e3 na sua casa, e a gente vai para S\u00e3o Paulo pegar o arquivo\u201d. E l\u00e1 fomos n\u00f3s, umas cinco e meia, a 140 quil\u00f4metros por hora, sem parar, porque o carro estava com a placa na Pol\u00edcia Federal, era procurado, esse carro do Sales. E ele saiu, quando a gente entrou na Avenida Brasil, ele olhou o rel\u00f3gio, disse: \u201cOlha, marca a\u00ed\u201d, tr\u00eas horas depois a gente chegou na Avenida S\u00e3o Sebasti\u00e3o. N\u00e3o paramos nem para beber \u00e1gua, t\u00e1. E um carro antigo, velho, muito velho.<\/p>\n<p>NT: E a\u00ed voc\u00eas trouxeram o arquivo para o Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>ZFM: Trouxemos o arquivo, sa\u00edmos de l\u00e1 de noite, porque at\u00e9 para embalar tudo tinha que ser no escuro. A gente saiu para o Rio e duas horas da manh\u00e3 o carro dele engui\u00e7a, com todo material dentro. O carro estava abarrotado, o arquivo do Astrojildo \u00e9 muito grande. A\u00ed o Sales diz o seguinte: \u201cTiramos duas malas, colocamos aqui na beira da estrada e voc\u00ea e a Marli, juntas, voc\u00eas duas ficam aqui. E eu vou tentar arrastar esse carro at\u00e9 o primeiro lugar que tenha alguma coisa que possa consertar e volto\u201d. Ent\u00e3o, n\u00f3s sentamos na beira da estrada, com as duas malas, esperando por quase uma hora o Sales voltar com o carro pronto para fazer o resto do caminho. Essas coisas contadas parece inacredit\u00e1vel, mas foi assim. A\u00ed cinco e pouco da manh\u00e3, chegamos com esse material todo l\u00e1 em casa, porque eu tinha arranjado outro local, mas n\u00e3o dava para levar, porque n\u00e3o dava mais tempo. Colocamos tudo aquilo l\u00e1 em casa, a minha m\u00e3e reclamava, mas enfim. E a Marli disse na declara\u00e7\u00e3o que ela fez: \u201cOlha, a Zuleide era t\u00e3o segura, que eu nunca soube onde ela guardou o material\u201d. \u00c9 verdade, nunca ningu\u00e9m soube.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea tirou da sua casa?<\/p>\n<p>ZFM: Sim, eu j\u00e1 tinha tudo preparado, era essa casa, que tinha uma casinha atr\u00e1s, era grande, eu aluguei, era de um pessoal da fam\u00edlia, distante, mas era da fam\u00edlia, e era boa, porque a fam\u00edlia tinha muitos filhos, aquela casa com filhos, ningu\u00e9m desconfiava. E eu ia l\u00e1 uma vez por m\u00eas, abria a janela, pagava um aluguelzinho mixo, e nunca ningu\u00e9m soube, nem o Sales ficou sabendo. Voc\u00ea tem que ter uma no\u00e7\u00e3o sobre isso, eu sempre disse o seguinte: \u201cGente, s\u00f3 me digam o necess\u00e1rio, n\u00e3o me digam mais do que eu preciso saber para fazer, porque, se eu for presa, o m\u00e1ximo que pode acontecer \u00e9 me cortarem a cabe\u00e7a, mais do que isso n\u00e3o v\u00e3o conseguir, at\u00e9 porque eu n\u00e3o cedo\u201d, n\u00e3o \u00e9 verdade? Em 1977, a Dora (Henrique da Costa) veio de Paris e me disse: \u201cOlha, eu estou aqui em nome do Partido, para tirar todo esse material, porque em Mil\u00e3o, l\u00e1 no Museu da Classe Oper\u00e1ria, est\u00e3o criando condi\u00e7\u00f5es de receber esse arquivo, ent\u00e3o n\u00f3s vamos tirar da sua casa, de onde estiver, devagar, eu j\u00e1 falei com um cunhado meu que tem uma Kombi e ele vai, devagar, em dois ou tr\u00eas domingos, tirando esse material e colocando na casa dele em Duque de Caxias, e de Caxias n\u00f3s preparamos, embalamos tudo, para mandar para Mil\u00e3o\u201d. Ent\u00e3o foi isso, esse material foi tirado. Depois eu fui l\u00e1 para ver. Eles mandaram fazer nove ba\u00fas de madeira para embalar esse material todo, para despachar. E a Dora deu realmente uma contribui\u00e7\u00e3o boa, porque ela fez esse material sair do Brasil em nome dela, porque, como ela estava fazendo doutorado em Paris, era um salvo conduto, porque, na declara\u00e7\u00e3o desse material, ia para Paris. Ningu\u00e9m entendeu porque ela pegou um navio que ia para a It\u00e1lia, ela deu uma desculpa qualquer sobre o porto de Paris, que n\u00e3o podia, qualquer coisa. Mas, claro que n\u00e3o ia para Paris, ia ficar l\u00e1, em Mil\u00e3o. Foi quando respiramos.<\/p>\n<p>NT: E como \u00e9 que foi a sua milit\u00e2ncia depois de 1979, quando o pessoal voltou do ex\u00edlio e a\u00ed come\u00e7ou a disputa do CC com Prestes, o Secret\u00e1rio Geral do Partido?<\/p>\n<p>ZFM: A partir de 1974, veio o governo do Geisel. Eu consegui saber que tem no Ex\u00e9rcito uma declara\u00e7\u00e3o do Geisel dizendo o seguinte: \u201cAgora que acabamos com os grupos de guerra, n\u00f3s vamos pegar o pessoal que pensa, que \u00e9 o pessoal do PCB\u201d. Foi quando o Geisel investiu pesado contra o Partido. Porque ele dizia o seguinte: \u201cOlha, esse pessoal da luta armada acabou\u201d, e tinha acabado, de fato, \u201cacabou\u201d; a partir da\u00ed foi muito duro para n\u00f3s. Em 1976, chegou uma pessoa l\u00e1 em casa e disse: \u201cOlha, voc\u00ea tem que sair do Brasil urgente, porque o fulano foi preso\u201d, que era uma pessoa conhecida, \u201ce falou em voc\u00ea. Voc\u00ea tem que sair\u201d. \u2013 \u201cEu n\u00e3o tenho como sair, eu trabalho\u201d. O Sales disse: \u201cAgora, \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou morte\u201d. Eu pedi licen\u00e7a sem vencimento, eu tive uma conversa com o \u00canio Silveira: \u201cEu j\u00e1 trabalhei at\u00e9 de gra\u00e7a aqui quando voc\u00ea esteve preso, quem fez a revis\u00e3o do Capital fui eu, escondido, junto com o tradutor. Fui eu que fiz, n\u00e3o o primeiro volume, mas os cinco volumes seguintes, eu fiz a revis\u00e3o, n\u00e3o recebi um centavo, durante seis meses eu trabalhei de gra\u00e7a para a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, porque o \u00canio estava preso. Eu disse: \u201cOlha, tudo que eu podia fazer eu fiz, mas eu preciso sair do pa\u00eds e eu tenho fam\u00edlia\u201d. O \u00canio foi extraordin\u00e1rio, disse: \u201cSe voc\u00ea tiver como tirar f\u00e9rias, a partir da\u00ed eu mantenho\u201d. E fez isso. Ent\u00e3o eu fui para a Fran\u00e7a, passando pela Su\u00ed\u00e7a. Em Paris eu fiquei hospedada na casa de uma professora \u2013 n\u00e3o lembro mais o nome \u2013 que era do Partido. At\u00e9 que uns seis meses depois, o pessoal l\u00e1 queria que eu ficasse, porque eu falava franc\u00eas bem. Eles criaram um Centro de Estudos de Problemas Brasileiros. Eles queriam que eu ficasse porque eu fazia revis\u00e3o, eu entendia tudo de livro. Mas a\u00ed eu disse: \u201cN\u00e3o, companheiros, na hora que melhorar, eu volto para c\u00e1, porque eu tenho duas filhas para criar e n\u00e3o posso ficar aqui\u201d. A\u00ed, no fim de seis meses, eu voltei. Eu tinha pedido licen\u00e7a sem vencimento e fui readmitida: estava tudo legal.<\/p>\n<p>NT: Zuleide, vamos mudar o rumo de alguns pontos da nossa conversa. Voc\u00ea conviveu com Jaime Miranda, portanto, queremos saber como foi esse conv\u00edvio com ele, como voc\u00ea conheceu o Prestes, Giocondo Dias, Malina, esses quadros hist\u00f3ricos da dire\u00e7\u00e3o do PCB.<\/p>\n<p>ZFM: O Malina menos, muito menos. Esses quadros hist\u00f3ricos, veja s\u00f3, eu s\u00f3 conheci o Prestes quando ele voltou da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ele tinha ido para l\u00e1 bem antes. Logo depois da ditadura, eu n\u00e3o podia ter conhecido o Prestes.<\/p>\n<p>Em 1973, o Comit\u00ea Central da \u00e9poca criou uma assessoria para o Comit\u00ea Central e me pediram para participar dessa assessoria. A Voz Oper\u00e1ria estava sendo feita na Europa, ela vinha e eu n\u00e3o sei como, mas quem datilografava era eu. Eu comprei o mime\u00f3grafo, vinham os documentos, eu datilografava tudo e depois imprimia em mime\u00f3grafo. Tudo num quartinho em casa, porque a gr\u00e1fica do Partido j\u00e1 tinha ca\u00eddo. Nesse momento era o governo M\u00e9dici, em que a ditadura estava absolutamente assanhada, achando que o mundo era dela. Ao mesmo tempo, precis\u00e1vamos duplicar o trabalho do Partido e surgiam quinhentas mil dificuldades, porque a disciplina partid\u00e1ria era muito mais r\u00edgida. Hoje, \u00e9 impressionante como as pessoas n\u00e3o se d\u00e3o conta disso, porque eu trabalhei esse tempo todo e viajei para tudo que foi lugar. Agora, eu nunca abri a boca, eu viajava, mas n\u00e3o falava com ningu\u00e9m. Eu fui uma vez \u00e0 Argentina para pegar um material que estava chegando da Fran\u00e7a, e ningu\u00e9m me disse como \u00e9 que eu tinha de trazer. Eu tinha um casaco \u2013 eu tamb\u00e9m aprendi, pois minha m\u00e3e me ensinou a fazer algumas coisas de costura \u2013 peguei aquilo ali, tirei o forro do casado, botei direitinho e fechei o forro do casado e consegui voltar da Argentina para o Brasil sem transtorno.<\/p>\n<p>NT: Prestes voc\u00ea conheceu quando voltou do ex\u00edlio, e Giocondo Dias?<\/p>\n<p>ZFM: Tem uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada: uma vez tinha uma reuni\u00e3o fora, era uma reuni\u00e3o de tr\u00eas dias, e ele ia, mas n\u00e3o podia ficar o tempo todo. O Z\u00e9 Sales \u00e9 que dirigia, pegou o Giocondo, e ele tinha que voltar no dia seguinte. No dia seguinte, ele diz: \u201cOlha, agora eu preciso ir porque eu tenho outro compromisso\u201d, a\u00ed o Z\u00e9 Sales: \u201cAh, Zuleide, ent\u00e3o entra com a gente para ficar parecendo que \u00e9 um casal, voc\u00ea e o Giocondo no banco de tr\u00e1s\u201d. O Giocondo era disciplinado como qualquer comunista daquele tempo. Ele tinha que fazer o caminho de olhos fechados, porque n\u00e3o podia saber o caminho, onde \u00e9 que era a reuni\u00e3o. Olha a que ponto ia a seguran\u00e7a. Ele era o Secret\u00e1rio Geral do Partido. Ele sentou no banco de tr\u00e1s, e \u00edamos conversando. O carro andando, mais de meia hora depois \u2013 a regra era o seguinte, tem que sair das redondezas, do local, depois se abrem os olhos. E l\u00e1 pelas tantas, ele, participando da conversa, disse assim, muito humildemente: \u201cMas, gente, eu j\u00e1 posso abrir os olhos?\u201d Eu o Sales demos uma gargalhada, porque a gente tinha esquecido que ele j\u00e1 podia abrir os olhos, ele andou quil\u00f4metros de olho fechado, ele, Giocondo Dias, Secret\u00e1rio Geral do Partido. Nesse meio tempo eu passei a ser um contato permanente do Partido, com v\u00e1rias pessoas que eram da dire\u00e7\u00e3o naquele momento, v\u00e1rios dos camaradas que morreram.<\/p>\n<p>NT: Fale um pouco da participa\u00e7\u00e3o de Isnard Teixeira no aux\u00edlio a todas as pessoas, nesse per\u00edodo, como membro do Comit\u00ea Central. Tinha que estar disfar\u00e7ado?<\/p>\n<p>ZFM: Sim, claro, e com isso ele salvou muita gente, ele conseguiu manter o pouco que ficou do Partido, ele e o Gerald\u00e3o. E eu quero dizer que eu dei todo o apoio que pude. Ent\u00e3o, veja, a partir de 1975, o mundo fechou. Porque quase todos eles tinham desaparecido. O Jaime Miranda estava na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, voltou para o Brasil no finalzinho de dezembro, bateu l\u00e1 em casa e disse exatamente o seguinte: \u201cZuleide, eu estou aqui numa tarefa do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, porque n\u00f3s temos todas as indica\u00e7\u00f5es de que h\u00e1 uma infiltra\u00e7\u00e3o grande no Partido, e eu vim aqui para esclarecer isso\u201d. J\u00e1 em 1974 havia ca\u00eddo o David Capistrano, ca\u00edram v\u00e1rias pessoas que estavam chegando de fora. E o Jaime Miranda n\u00e3o foi muito diferente disso, porque algu\u00e9m sabia que ele estava no Brasil. No dia 4 de fevereiro, \u00e0s 11 horas da manh\u00e3, ele passou na casa da Nelinha, cunhada dele. Isso foi ela que me contou, depois. Ele disse para a Nelinha que estava indo para Pilares, um bairro depois do M\u00e9ier, porque tinha um encontro l\u00e1, um ponto, e que de l\u00e1 ele ia para Niter\u00f3i, porque ele ia pegar um passaporte para voltar para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, foi isso. E desapareceu, ningu\u00e9m sabe se foi em Pilares, se foi em Niter\u00f3i, o que se sabe \u00e9 que de noite ele j\u00e1 n\u00e3o apareceu. A\u00ed de noite, eram 10 horas da noite, chega o sobrinho dele, Anivaldo, com outro companheiro, dizendo: \u201cOlha, o Jaime caiu, e a gente est\u00e1 aqui para esvaziar a sua casa, tirar tudo que possa, de alguma forma, comprometer\u201d. Eu disse: \u201cOlha, companheiros, eu acho que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, porque de uma coisa eu tenho absoluta certeza: o Jaime n\u00e3o vai falar.\u201d \u2013 \u201cCompanheira, o problema n\u00e3o \u00e9 se o Jaime vai falar ou n\u00e3o, o problema \u00e9 que isso \u00e9 uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a, portanto, n\u00f3s vamos fazer\u201d. E passamos a noite tirando livro, documentos, etc.<\/p>\n<p>NT: Quando o Prestes voltou ocorreu o qu\u00ea?<\/p>\n<p>ZFM: Por decis\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o fui trabalhar como secret\u00e1ria dele. Tive muitas tarefas, e uma delas, a \u00faltima, foi datilografar na casa dele a Carta Aos Comunistas. Nessa altura, de 1978 em diante, eu tive uma atua\u00e7\u00e3o gigantesca no CEBRADE, que era o Centro Brasil Democr\u00e1tico, criado pelo Niemeyer, que era o Presidente e o Renato Guimar\u00e3es, o grande Secret\u00e1rio. Quero registrar que nisso tudo, mesmo no CEBRADE, em que eu dei uma contribui\u00e7\u00e3o gigantesca, tenho toda documenta\u00e7\u00e3o, eu nunca recebi um centavo, nem para a passagem, jamais algu\u00e9m me perguntou se eu tinha dinheiro para chegar em algum lugar, jamais, eu tamb\u00e9m nunca disse. Ent\u00e3o, com a anistia, que foi no dia 28 de agosto de 1979, no dia 20 de outubro, o Prestes chegava aqui no Gale\u00e3o. E quem foi ver apartamento para o Prestes fui eu, pelo CEBRADE, e quem ajudou a organizar a recep\u00e7\u00e3o para o Prestes fui eu, quem fez o papel, que eu tenho guardado, de sauda\u00e7\u00e3o para o Prestes, fui eu, cujo nome era \u201cO Exerc\u00edcio de Democracia\u201d, t\u00e1 a\u00ed, faz parte da minha documenta\u00e7\u00e3o, foi lido l\u00e1, na chegada dele. E, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, fiquei na seguran\u00e7a do Prestes tamb\u00e9m. Porque mulher alagoana tem que saber fazer tudo, n\u00e3o \u00e9 verdade, ent\u00e3o fiquei na seguran\u00e7a do Prestes. Muito bem, e a\u00ed, o Isnard Teixeira, que era o meu grande contato nesse per\u00edodo, depois que o Giocondo saiu, era Diretor de Laborat\u00f3rio de An\u00e1lises Cl\u00ednicas da Santa Casa, ele ligava: \u201cZuleide, eu quero que voc\u00ea tal dia, tal hora, venha aqui para almo\u00e7ar comigo.\u201d, e eu digo: \u201cPronto, chegou coisa\u2026\u201d, ent\u00e3o eu ia para l\u00e1, e realmente almo\u00e7ava. E a\u00ed ele tinha l\u00e1 uma sala que era s\u00f3 dele, sa\u00edamos passeando pela Santa Casa, que \u00e9 muito bonita por dentro. Uma vez \u00edamos passando, ele disse: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o acha que isso aqui parece aquela rua dos conventos da Bahia\u201d, eu disse: \u201cN\u00e3o, eu acho que isso aqui parece com as masmorras da Idade M\u00e9dia\u2026\u2019 (risos) e ele: \u2013 \u201cMas por qu\u00ea?\u201d \u2013 \u201cPorque dos conventos da Bahia eu j\u00e1 me livrei; das masmorras, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade?\u201d. E a\u00ed o Isnard disse: \u201cOlha, o seguinte, eu j\u00e1 combinei com o Geraldo que o Prestes vai precisar de uma secret\u00e1ria na casa dele e que a secret\u00e1ria ideal \u00e9 voc\u00ea, voc\u00ea vai ler para ele e vai escrever\u201d. Eu j\u00e1 estava na universidade, ent\u00e3o durante um tempo eu dava aula de manh\u00e3 at\u00e9 meio-dia, comia um sandu\u00edche e ia direto para a casa do Prestes.<\/p>\n<p>NT: E onde era a casa do Prestes nessa \u00e9poca, Zuleide?<\/p>\n<p>ZFM: Era na Rua Princesa Elisabeth, ali na sa\u00edda de Copacabana para Ipanema, era um apartamento bom. Eu dava aula, eu nunca faltei, sou conhecida at\u00e9 hoje no IFCS como a professora que nunca faltou e nunca chegou atrasada, entrava \u00e0s sete horas da manh\u00e3, eu estava na sala de aula, disciplina ajuda. No Natal eu liguei para casa e disse que n\u00e3o ia porque era uma indignidade deixar o Prestes sozinho, ele e a Marisa, n\u00e3o tinha mais ningu\u00e9m. E a\u00ed passei o Natal l\u00e1. Ent\u00e3o eu batia tudo que ele queria, lia os documentos que chegavam, tudo em franc\u00eas ou espanhol, em russo eu n\u00e3o sei ler, mas eu traduzia\u2026 Isso foi desde que ele chegou at\u00e9 abril de 1980. Em abril ele me deu um documento: \u201cVeja, tem uma coisa aqui que eu quero que voc\u00ea bata.\u201d Comecei a bater, quando acabei de bater, eu me dei conta da grandiosidade da coisa e, pela primeira vez, eu cheguei e disse: \u201cCompanheiro, essa carta aqui vai destruir muita coisa. Isso aqui, quem sabe, d\u00e1 para rever algumas coisas, vamos dizer isso, aquilo\u2026\u201d, ele me olhou e disse: \u201cA carta \u00e9 essa\u201d. N\u00e3o me disse nada al\u00e9m disso. Isso foi perto da Semana Santa e, quando terminou a Semana Santa, ele disse que eu n\u00e3o precisava voltar. Tinha mais ou menos seis meses que eu trabalhava com ele, seis meses e pouco.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea percebia em Prestes uma vincula\u00e7\u00e3o com o marxismo, ele tinha dom\u00ednio disso?<\/p>\n<p>ZFM: Eu acho que no Partido, vamos aqui botar os pingos nos is, pouca gente tinha dom\u00ednio do marxismo, o Jaime mesmo era um estudioso, conhecia O Capital, que ele j\u00e1 tinha lido 20 vezes. Mas eu quero deixar claro o que eu j\u00e1 disse v\u00e1rias vezes: mesmo na maior clandestinidade, quando um companheiro oper\u00e1rio entrava para o Partido, se ele n\u00e3o soubesse escrever e ler, o Partido sempre manteve ensino de portugu\u00eas, porque dizia o seguinte: \u201cUm comunista tem que saber ler e escrever para poder falar\u201d. Ent\u00e3o isso nunca deixou de existir, mas \u00e9 um conhecimento, vamos dizer, residual. E dentro disso tinha um pouco de marxismo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era um estudo te\u00f3rico, era a leitura basicamente do Manifesto. Todos liam o Manifesto. Eu acho que o Prestes leu bem mais do que isso, mas n\u00e3o acredito, at\u00e9 por falta de tempo, que tenha lido muito mais do que isso, era uma pessoa digna, s\u00e9ria, honrada e que queria ajudar a fazer a revolu\u00e7\u00e3o, isso n\u00e3o significa que ele era um te\u00f3rico, e eu tamb\u00e9m n\u00e3o acho que isso seja um crime, est\u00e1 bom?<\/p>\n<p>NT: Muito bem, depois dessa experi\u00eancia com o Prestes, como \u00e9 a sua vis\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e dos anos 1980?<\/p>\n<p>ZFM: A partir de 1977, eu comecei a ter uma vida p\u00fablica vis\u00edvel, vamos dizer, de envolvimento em v\u00e1rias coisas do Partido. No CEBRADE eu fiquei at\u00e9 1983, por a\u00ed. Tanto que o primeiro encontro pela democracia foi feito no dia 10 de dezembro de 1978, aqui no Rio de Janeiro, j\u00e1 com 2 mil pessoas do Brasil todo. E veio a primeira elei\u00e7\u00e3o depois do Congresso Nacional fechado, as minhas filhas j\u00e1 estavam grandinhas e eu morava entre Graja\u00fa e Vila Isabel, e essa foi a regi\u00e3o onde Marcelo Cerqueira, Modesto da Silveira e Heloneida Studart tiveram mais votos. Eu fiz a campanha para a Marli, foi a\u00ed que eu fui a uma favela. A partir da\u00ed foi que eu comecei a ter uma vida, vamos dizer, aberta, legal. Em 1979 eu entrei para o IFCS, porque, no bojo disso tudo, eu consegui me preparar para um concurso interno e tirar o primeiro lugar. E quando teve o atentado do Riocentro, as minhas duas filhas estavam l\u00e1. Eu tinha sa\u00eddo do CEBRADE, \u00e0s dez horas da noite, elas tinham ido com o pessoal do CEBRADE, pois elas estavam l\u00e1 ajudando e, perto de meia-noite, eu estava com o radinho ligado e a\u00ed veio a not\u00edcia do atentado e ningu\u00e9m sabia nada. Olha, \u00e9 uma ang\u00fastia, porque as duas estavam l\u00e1 e, pelo que a imprensa dizia, n\u00e3o tinha ficado nada, porque tamb\u00e9m a imprensa ficou muito assustada. S\u00f3 \u00e0s duas horas da manh\u00e3 foi que eu soube que a rigor n\u00e3o tinha havido a explos\u00e3o l\u00e1, tinha sido antes, enfim. Mas ent\u00e3o foi isso, quando chegou nesse processo eleitoral, eu fui a uma favela ali no Parque de Vila Isabel e l\u00e1 eu ouvi de v\u00e1rias pessoas o seguinte: \u201cOlha, voc\u00eas s\u00e3o muito engra\u00e7ados, porque quando tem elei\u00e7\u00e3o, voc\u00eas aparecem, depois somem\u201d. Eu disse: \u201cN\u00e3o, eu venho fazer um trabalho aqui\u201d, \u2013 \u201cVem nada, isso \u00e9 s\u00f3 conversa\u201d, \u2013 \u201cN\u00e3o, eu venho trabalhar, eu moro aqui, pode me procurar\u201d. E foi a\u00ed que eu fui fazer um trabalho nessa favela, eu agrade\u00e7o aos c\u00e9us, porque eu soube o que era morar numa favela. Eu n\u00e3o sabia. Foi um dos lugares onde eu mais aprendi, na marra, no dia a dia. Fiz um trabalho por seis anos l\u00e1, consegui construir um pr\u00e9dio, uma creche para 100 crian\u00e7as em hor\u00e1rio integral, de um a sete anos. As crian\u00e7as chegavam, tomavam caf\u00e9, almo\u00e7avam, faziam lanche \u00e0s quatro horas, sa\u00edam \u00e0s seis, botei m\u00e9dico l\u00e1. Consegui coisas, assim, incr\u00edveis, entende, de botar luz, que n\u00e3o tinha, fazer encanamento de \u00e1gua, porque eu botava o pessoal da favela num \u00f4nibus, ia para a Light, estacionava na porta da Light, eu entrava para fazer as demandas, dizia: \u201cOlha, tem 40 pessoas aqui e j\u00e1 disseram que, se n\u00e3o sair, eles v\u00e3o invadir\u201d.<\/p>\n<p>NT: E quando \u00e9 que come\u00e7a a atividade importante que voc\u00ea passou a ter de solidariedade internacional?<\/p>\n<p>ZFM: Pois \u00e9, no final de 1982 para 1983 come\u00e7ou uma certa abertura pol\u00edtica, n\u00e3o era o mortic\u00ednio que era, n\u00e3o podia falar muito, mas n\u00e3o havia o controle que tinha antes e come\u00e7ou a vir muito sovi\u00e9tico para o Rio, para muitas coisas. Eu quero dizer a voc\u00ea que, desde 1975, eu participava de alguma forma do Instituto Brasil-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, cujo diretor era o Cust\u00f3dio Gomes. E, com isso, eu passei tamb\u00e9m a assessorar sovi\u00e9tico, fazer coisas, enfim. Mas a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica come\u00e7ava a ter problemas econ\u00f4micos, ent\u00e3o recorreu ao turismo, a partir da\u00ed foi perdendo o controle. Porque, at\u00e9 ent\u00e3o, a gente tem que entender que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica respondeu pari passu a todos os avan\u00e7os t\u00e9cnicos e cient\u00edficos que houve nesse per\u00edodo, todos. Enquanto isso, o Reagan amea\u00e7ava n\u00e3o s\u00f3 com a guerra nuclear, a guerra fria no auge. Isso \u00e9 outra coisa que ningu\u00e9m imagina, porque o sangramento da economia sovi\u00e9tica foi muito grande em fun\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos da guerra nuclear. E nesse meio tempo o povo sovi\u00e9tico passou a exigir mais do que exigia antes e o Ocidente, a criticar. Esse foi um per\u00edodo dific\u00edlimo, porque a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o podia deixar de fabricar armas nucleares, os Estados Unidos faziam uma bomba de n\u00e3o sei quantos megatons, dois, tr\u00eas meses depois, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica fazia uma com tantos e mais um pouquinho de megatons. A gente chamava isso de estabilidade do terror. Era o terror que se estabilizava atr\u00e1s dessa concorr\u00eancia. Os Estados Unidos foram fazer a guerra nuclear \u00e0 custa dos trabalhadores e, assim, o capital vai se acumulando. Mas a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o tinha isso, n\u00e3o podia fazer isso. Tinha que dar tudo igual para todo mundo, porque n\u00e3o \u00e9 uma brincadeira com um pa\u00eds de 300 milh\u00f5es de habitantes, no meio do conflito.<\/p>\n<p>NT: Certo. Ent\u00e3o voc\u00ea come\u00e7ou nesse processo de solidariedade na luta pela paz, no Instituto Brasil-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>ZFM: \u00c9, e no dia 11 de abril de 1983, a gente criou, na ABI, o N\u00facleo do CONDEPAZ, Conselho Brasileiro de Defesa da Paz. O Isnard Teixeira me deu a incumb\u00eancia de procurar o N\u00e9lson Werneck Sodr\u00e9 por sua participa\u00e7\u00e3o no Movimento pela Paz nos anos 60, e o presidente era o Niemeyer. A gente conseguiu criar em quase todos os estados n\u00facleos do CONDEPAZ.<\/p>\n<p>NT: E como \u00e9 que voc\u00ea foi parar na Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Marti?<\/p>\n<p>ZFM: O J\u00e2nio Quadros, em 1961, rompeu rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Cuba. O meu passaporte, eu tenho esse passaporte, ele tem l\u00e1 um carimbo desse tamanho: \u201cProibido ir para Cuba\u201d. Eu podia ir a qualquer pa\u00eds do mundo, menos para Cuba. A primeira vez que eu fui para Cuba, eu fui porque estava na Europa e da Europa eu fui \u00e0 Cuba e voltei. Em 1984, um grupo de artistas capitaneados pelo Chico Buarque entrou de forma ilegal em Cuba. Quando voltaram, Marieta Severo e uma nata de artistas foram todos presos, ficaram cinco dias aqui na Pol\u00edcia Central, na Pra\u00e7a Mau\u00e1, presos, para dizer se eles tinham ido treinar luta armada. A gente j\u00e1 tinha criado o CONDEPAZ e, em setembro de 1983, tamb\u00e9m foi lan\u00e7ado, na C\u00e2mara de Vereadores, o primeiro manifesto para a cria\u00e7\u00e3o de uma entidade de solidariedade a Cuba. E eu participei disso, tamb\u00e9m. Eu fiquei no Conselho da Associa\u00e7\u00e3o Cultural Jos\u00e9 Marti, embora o meu trabalho mais efetivo fosse no Movimento da Paz no Brasil, que cresceu tanto, ficou t\u00e3o importante, que quando houve um grande encontro na Dinamarca, o CONDEPAZ recebeu um diploma da ONU, que est\u00e1 comigo, atribuindo ao CONDEPAZ o t\u00edtulo de Mensageiro da Paz. No final do ano, foi eleita a primeira diretoria da Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Marti, o presidente era o Dias Gomes. Eu sempre fiquei no conselho. A Associa\u00e7\u00e3o foi criada quase que exclusivamente para o reatamento das rela\u00e7\u00f5es de Cuba com o Brasil, o que s\u00f3 aconteceu quando, no dia 10 de junho de 1986, o Sarney, pressionado, reatou rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Cuba. A partir da\u00ed, a Associa\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Marti incluiu o Cultural no nome, para fazer interc\u00e2mbio cultural com Cuba e trabalhou muito no sentido de levar artista a Cuba, trazer de Cuba, esse entrosamento que agora j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel. Em 1992, acaba a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e Cuba tinha 85% das rela\u00e7\u00f5es comerciais com tr\u00eas pa\u00edses socialistas da Europa: Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Alemanha Oriental e Tchecoslov\u00e1quia. Esses tr\u00eas pa\u00edses municiavam Cuba de grandes coisas: a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica bancava petr\u00f3leo, a Tchecoslov\u00e1quia bancava m\u00e1quinas, a Alemanha Oriental bancava v\u00e1rias coisas. Quando isso tudo desaparece, um pa\u00eds pequeno, n\u00e3o tem terra, n\u00e3o tem nada, n\u00e3o \u00e9 brincadeira\u2026 E foi a\u00ed que, ainda em 1992, n\u00f3s criamos aqui no Rio de Janeiro as Brigadas de Trabalho Volunt\u00e1rio, que eram duas por ano, para colher c\u00edtricos em janeiro e corte de cana em julho. Para o corte de cana ia basicamente o pessoal de sindicato, que tinha a m\u00e3o calejada. A brigada de janeiro era para a coleta de c\u00edtricos, e at\u00e9 hoje \u00e9 assim. Porque havia uma tradi\u00e7\u00e3o desde 1961, quando Cuba fez o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. O Henrique Miranda, companheiro nosso, foi para l\u00e1 dar aula de gra\u00e7a, o mundo inteiro se mobilizou mandando pessoas para Cuba para ajudar na campanha de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Tanto que Cuba, em um ano, venceu o analfabetismo, a UNESCO deu para Cuba um diploma desse tamanho dizendo: \u201co primeiro pa\u00eds das Am\u00e9ricas livre do analfabetismo\u201d. Quando veio o per\u00edodo especial em 1992, o Fidel baixou um decreto que, a partir daquele momento, todas as crian\u00e7as de Cuba, at\u00e9 um ano de idade, recebiam um litro de leite de gra\u00e7a por dia, at\u00e9 hoje recebem.<\/p>\n<p>NT: Voc\u00ea continuava no Partido, evidentemente, e quando \u00e9 que voc\u00ea entra para o Comit\u00ea Central do Partido?<\/p>\n<p>ZFM: Eu entrei para a dire\u00e7\u00e3o estadual, em 1982, por insist\u00eancia do Gerald\u00e3o, porque eu nunca quis, eu n\u00e3o gosto de ter cargo, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, ningu\u00e9m acredita, mas eu n\u00e3o gosto de ter cargo, eu gosto de ficar solta para trabalhar, para fazer o que eu quero. E quando houve o VIII Congresso foi que eu entrei para o Comit\u00ea Central, em 1987.<\/p>\n<p>NT: Ap\u00f3s o processo do racha, primeiro o Hor\u00e1cio Macedo foi o primeiro dirigente do partido e depois, voc\u00ea. Quando \u00e9 que voc\u00ea assumiu a dire\u00e7\u00e3o do Partido, como \u00e9 que foi a sua milit\u00e2ncia \u00e0 frente do Partido?<\/p>\n<p>ZFM: A\u00ed foi outra coisa tamb\u00e9m contra a minha vontade, porque o Hor\u00e1cio renunciou. O Hor\u00e1cio tinha uma caracter\u00edstica, o Hor\u00e1cio era um intelectual de peso, ele n\u00e3o tinha nenhum gosto por administra\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o tinha como aguentar. Quando ele renunciou, como todo mundo conhecia o meu trabalho, o espa\u00e7o que eu tenho na sociedade, enfim, essa coisa toda, a\u00ed disseram: \u201cEnt\u00e3o vamos botar a Zuleide\u201d, e a\u00ed eles me consultaram. Mas eu impus a seguinte condi\u00e7\u00e3o: \u201cOlha, eu s\u00f3 aceito se todos os Estados brasileiros em que o Partido existe disserem que eu tenho de assumir a presid\u00eancia\u201d. E por incr\u00edvel que possa parecer, foi at\u00e9 uma surpresa para mim, todos Estados apoiaram, dizendo que eu que tinha de ser presidente. A\u00ed eu fiquei encurralada e aceitei. Fiquei nessa fun\u00e7\u00e3o de presidente do Partido at\u00e9 2005, quando ocorreu o XIII Congresso. Depois o Ivan assumiu na condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio Geral na Confer\u00eancia de Organiza\u00e7\u00e3o de 2008.<\/p>\n<p>NT: Chegando ao fim dessa entrevista, queremos que voc\u00ea transmita aos leitores sua mensagem final.<\/p>\n<p>ZFM: Ao final dessa entrevista, eu queria reafirmar que continuo acreditando mais do que nunca que a ideologia e as propostas do marxismo e do leninismo s\u00e3o as \u00fanicas que poder\u00e3o salvar a humanidade nesse s\u00e9culo que prometeu ser o s\u00e9culo das luzes e est\u00e1 sendo o s\u00e9culo da escravid\u00e3o. E dizer o seguinte: n\u00f3s precisamos entender adequadamente a for\u00e7a do grande capital e que o capitalismo \u00e9 destruidor pela sua natureza. Ele tem de destruir o que ele construiu para poder jogar um produto novo no mercado e ter novos adeptos. Nunca os meios de comunica\u00e7\u00e3o no mundo estiveram t\u00e3o a servi\u00e7o dos desejos do grande capital. Porque hoje, por exemplo, voc\u00ea tem O Globo, que era um jornal de uma fam\u00edlia, mas hoje os jornais, as revistas, as televis\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o mais agregados \u00e0s fam\u00edlias, \u00e0s pessoas, est\u00e3o agregados \u00e0s grandes empresas, s\u00e3o hoje os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, representando os grandes empreendimentos capitalistas que se desenvolvem no mundo. Esta \u00e9 uma mudan\u00e7a de qualidade. Os Estados Unidos ampliam seu dom\u00ednio sobre o planeta n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s das guerras, mas atrav\u00e9s de todas as formas de representa\u00e7\u00e3o. O d\u00f3lar \u00e9 a moeda de convers\u00e3o internacional, 85% de todas as rela\u00e7\u00f5es comerciais do mundo s\u00e3o feitas em d\u00f3lar. Os Estados Unidos hoje t\u00eam armas suficientes para destruir o planeta. Por outro lado, eu acho que a gente est\u00e1 vivendo um per\u00edodo talvez dos mais dif\u00edceis da humanidade, porque hoje o mercado est\u00e1 introjetado nas veias, em todo mundo, as Casas Bahia fazem o que querem, eu estou dando o exemplo das Casas Bahia, como eu dou da Coca-Cola. A minha faxineira, que mora numa favela, tem tr\u00eas cart\u00f5es de cr\u00e9dito, que ela usa para comprar todas as quinquilharias que ela quer. Agora deu que 50% da juventude brasileira \u00e9 praticamente analfabeta. Como \u00e9 que voc\u00ea faz com um pa\u00eds de 200 milh\u00f5es de habitantes, em que 50 milh\u00f5es s\u00e3o analfabetos? Ent\u00e3o eu creio que a gente est\u00e1 precisando fazer, no Partido, inclusive, discuss\u00f5es mais de fundo sobre o mundo capitalista de hoje, at\u00e9 para a gente mesmo conseguir avan\u00e7ar nesse processo e saber de que forma podemos intervir neste mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24653\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[224],"class_list":["post-24653","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6pD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24653\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}