{"id":24679,"date":"2020-01-13T23:51:26","date_gmt":"2020-01-14T02:51:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24679"},"modified":"2020-01-16T23:07:45","modified_gmt":"2020-01-17T02:07:45","slug":"a-america-latina-para-os-americanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24679","title":{"rendered":"A Am\u00e9rica Latina para os americanos?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"369\" width=\"600\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/bolsonaro-trouxa-600x369.jpeg?resize=600%2C369&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->(Washington, DC \u2013 EUA 19\/03\/2019) Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, entrega uma camisa personalizada, simbolizando o esporte nacional, ao Presidente da Rep\u00fablica Jair Bolsonaro. (Foto: Isac N\u00f3brega\/PR)<\/p>\n<p>Am\u00e9rica Latina: entre o porrete ianque e o drag\u00e3o chin\u00eas<\/p>\n<p>por Pedro Marin | Revista Opera<\/p>\n<p>Em 1901, o banqueiro e militar venezuelano Manuel Antonio Matos lan\u00e7ou, com o apoio da Compa\u00f1ia Francesa de Cables Telegr\u00e1ficos (Fran\u00e7a), da Ferocarril Alem\u00e1n (Alemanha) e das norte-americanas New York &amp; Berm\u00fadez Company e Orinoco Steamship Company, um movimento militar com o objetivo de derrubar Cipriano Castro da presid\u00eancia da Venezuela.<\/p>\n<p>No centro do conflito, os interesses de banqueiros norte-americanos e europeus, que insistiam que o pa\u00eds pagasse suas d\u00edvidas. O diplomata alem\u00e3o Theodor Von Holleben, por exemplo, enviou ao secret\u00e1rio de Estado norte-americano John Hay um informe sobre uma d\u00edvida venezuelana com o banco alem\u00e3o Disconto-Gesellschaft no montante de 33 milh\u00f5es de bol\u00edvares. O presidente venezuelano se negava a reconhecer a d\u00edvida, que seria na verdade cinco vezes menor.<\/p>\n<p>Por quase um ano, a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Libertadora de Matos se enfrentou com o Governo Restaurador de Castro, que acabou vitorioso, \u00e0s custas de milhares de vidas. Derrotados, era a hora dos interesses internacionais passarem \u00e0 interven\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>Em 1902, navios de guerra alem\u00e3es, ingleses e italianos bloqueiam os portos venezuelanos, exigindo o pagamento das d\u00edvidas \u2013 em especial aquelas contra\u00eddas para a constru\u00e7\u00e3o da rede ferrovi\u00e1ria no pa\u00eds \u2013 e, para tanto, bombardeando as costas do pa\u00eds e saqueando povoados. Cipriano Castro volta-se aos Estados Unidos, exigindo que o presidente Theodore Roosevelt agisse, mediando o conflito, em conformidade com a Doutrina Monroe.<\/p>\n<p>Anunciada em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe, a Doutrina Monroe tinha como premissa apresentar os EUA como defensor de um continente frente \u00e0s tentativas europeias para submet\u00ea-lo. Em muitos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, era vista com otimismo; Col\u00f4mbia e Argentina, por exemplo, solicitaram a prote\u00e7\u00e3o norte-americana algumas vezes. O ministro chileno Diego Portales (1793-1837) era mais receoso. \u201cN\u00f3s devemos tomar muito cuidado: para os americanos do norte, os \u00fanicos americanos s\u00e3o eles mesmos\u201d, dizia. Mas, \u00e0 \u00e9poca, os norte-americanos eram de preocupa\u00e7\u00e3o menor: eram os pa\u00edses europeus, as maiores pot\u00eancias coloniais daqueles tempos, que faziam as veias abertas pulsar e derramar sangue.<\/p>\n<p>Cipriano se punha em meio de dois blocos, tentando avistar a liberdade por suas brechas. Mas Portales estava certo: americanos, todos \u2013 mas uns mais que os outros. O presidente Theodore Roosevelt, que considerava Castro \u201cum macaquinho indescritivelmente vil\u201d e que j\u00e1 havia declarado que \u201cse qualquer pa\u00eds sul-americano se portar mal frente a um pa\u00eds europeu, que o pa\u00eds europeu o espanque\u201d, lavou suas m\u00e3os, e a surra come\u00e7ou. Cipriano Castro foi for\u00e7ado a aceitar um acordo no qual o pa\u00eds comprometia 30% de seus direitos aduaneiros de seus principais portos para o pagamento dos credores, em troca do fim do bloqueio. Em troca, os europeus se retiravam.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio teve especial import\u00e2ncia para a mensagem ao Congresso do presidente norte-americano em 1904, no qual ficava consolidado o Corol\u00e1rio Roosevelt (ou Pol\u00edtica do Grande Porrete \u2013 Big Stick Policy, assim chamada a partir do prov\u00e9rbio africano \u201cfale manso, mas sempre com um porrete em m\u00e3os\u201d). Com o Corol\u00e1rio, ficava definido, de maneira mais concreta, o que a Doutrina Monroe afinal significaria 80 anos depois, quando o poderio dos Estados Unidos j\u00e1 crescia, junto de sua frota naval: \u201cN\u00e3o \u00e9 verdade que os Estados Unidos sentem qualquer fome de terra. [\u2026] Tudo o que este pa\u00eds deseja \u00e9 ver os pa\u00edses vizinhos est\u00e1veis, ordeiros e pr\u00f3speros. Qualquer pa\u00eds cujo povo se conduza bem pode contar com nossa amizade sincera. [\u2026] [Mas] irregularidades cr\u00f4nicas, ou uma incapacidade que resulte num afrouxamento geral dos la\u00e7os da sociedade civilizada, podem em \u00faltima inst\u00e2ncia exigir, na Am\u00e9rica como em outro lugar, interven\u00e7\u00e3o por alguma na\u00e7\u00e3o civilizada, e no Hemisf\u00e9rio Ocidental a ades\u00e3o dos Estados Unidos \u00e0 Doutrina Monroe pode for\u00e7ar os Estados Unidos, ainda que com relut\u00e2ncia, em casos flagrantes de tais irregularidades ou incapacidade, ao exerc\u00edcio de um poder de pol\u00edcia internacional.\u201d De protetores contra os hegemons europeus, os Estados Unidos passaram a proclamar \u2013 e a garantir \u2013 sua hegemonia regional. Era \u00f3bvio: o pan-americanismo n\u00e3o buscava isolar opressores e abra\u00e7ar aliados, mas isolar competidores, na busca de novos escravos.<\/p>\n<p>O general Juan Vicente G\u00f3mez, vice de Castro, assume a presid\u00eancia no ano de 1908, enquanto Cipriano embarca para a Europa, para tratar da s\u00edfilis que o acometia e que havia agravado sua sa\u00fade. Essa viagem \u00e9 aproveitada por G\u00f3mez, que com um movimento apoiado pelos EUA, Fran\u00e7a e Pa\u00edses Baixos d\u00e1 um golpe de Estado em 19 de dezembro. Gom\u00e9z lideraria uma ditadura \u2013 com fachada constitucional e democr\u00e1tica \u2013 durante 27 anos. O \u201cC\u00e9sar democr\u00e1tico\u201d usou da nascente ind\u00fastria petroleira do pa\u00eds para pagar a d\u00edvida externa, orbitando \u2013 principalmente por conta do petr\u00f3leo \u2013 em torno dos Estados Unidos. A depend\u00eancia era tamanha que partes da Lei do Petr\u00f3leo de 1922 foram escritas por companhias petroleiras estrangeiras. O pagamento das d\u00edvidas, com o petr\u00f3leo, afastava os europeus. Mas sua produ\u00e7\u00e3o ati\u00e7ava e aproximava os norte-americanos.<\/p>\n<p>A hegemonia regional<br \/>\nSe nos tempos de Monroe havia l\u00edderes latino-americanos buscando consolidar alguma independ\u00eancia navegando pelas brechas de duas grandes rochas, a virada do s\u00e9culo ficava marcada por um mapa de a\u00e7\u00e3o em que qualquer respiro se encontrava em torno de um s\u00f3 rochedo, ao redor do qual se podia orbitar ou ser esmagado. Os encoura\u00e7ados do Irm\u00e3o do Norte serviam para espantar europeus, mas tamb\u00e9m para subjugar latinos.<\/p>\n<p>Em 1903, por exemplo, ap\u00f3s o Senado colombiano recusar-se a aprovar o Tratado Hay-Herr\u00e1n, que concedia aos norte-americanos o dom\u00ednio sobre as terras na zona do Canal do Panam\u00e1, Manuel Amador e seus rebeldes panamenhos, estimulados por Roosevelt, proclamaram a independ\u00eancia do Panam\u00e1. Quinze dias depois, os EUA conseguiam do novo governo o tratado necess\u00e1rio para a constru\u00e7\u00e3o do canal.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os Estados Unidos se projetavam para o mundo, exibindo seu poderio naval. Em 1909, uma esquadra de guerra da Marinha dos EUA, composta por 16 encoura\u00e7ados, deu a volta ao mundo, saindo de Hampton Roads e passando por Brasil, Argentina, Peru, M\u00e9xico, Hava\u00ed, ilhas Samoa, Nova Zel\u00e2ndia, Austr\u00e1lia, Filipinas, Jap\u00e3o, China, Sri Lanka, Egito, Arg\u00e9lia, Gr\u00e9cia, L\u00edbano, Turquia, Marrocos, Fran\u00e7a e It\u00e1lia. \u201cReconhecida pela sociedade internacional, a emergente Marinha dos EUA dan\u00e7aria uma valsa conduzida pelo balan\u00e7o do mar, como a debutante que, de branco, exibe diante do p\u00fablico que est\u00e1 preparada (e armada!) para ingressar no mundo daqueles que j\u00e1 alcan\u00e7aram a maturidade\u201d, escreveu Luigi Bonaf\u00e9.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o, em 1907, de um tratado que tornava ilegal o uso de for\u00e7a militar para a cobran\u00e7a de d\u00edvidas, os EUA passaram a revisar alguns de seus m\u00e9todos \u2013 o que n\u00e3o implicou em um fim do intervencionismo norte-americano na Am\u00e9rica Latina. O presidente republicano William Taft, sucessor de Roosevelt, foi respons\u00e1vel pela virada, que deixava de lado as interven\u00e7\u00f5es como forma preferencial de resolver cobran\u00e7as de d\u00edvida, implicando na \u201cDiplomacia do D\u00f3lar\u201d. O movimento consistia em incentivar bancos dos EUA a comprarem d\u00edvidas de pa\u00edses do Caribe e Am\u00e9rica Central com credores europeus, al\u00e9m de aumentar sua penetra\u00e7\u00e3o na China.<\/p>\n<p>Cunhando moedas de sangue<br \/>\nO senador republicano liberal pelo Estado de Nebraska, George W. Norris, proclamou um discurso no dia 4 de abril de 1917, no qual dizia: \u201cEstamos indo \u00e0 guerra sob o comando do ouro. N\u00f3s vamos arriscar sacrificar milh\u00f5es de vida de nossos compatriotas para que outros compatriotas possam cunhar sua for\u00e7a vital em dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>Com cerca de 20 milh\u00f5es de mortes, muito sangue foi vertido, de fato, nas trincheiras da Primeira Guerra. Mas muito dinheiro era tamb\u00e9m cunhado. De acordo com Moniz Bandeira, em \u201cForma\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Americano: Da guerra contra a Espanha \u00e0 Guerra contra o Iraque\u201d, as exporta\u00e7\u00f5es de a\u00e7o dos EUA durante a guerra quadruplicaram. As de muni\u00e7\u00e3o foram de 40 milh\u00f5es de d\u00f3lares para 330 milh\u00f5es. Os explosivos exportados, em 1914, eram da ordem de 60 milh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 entre 1916 e 1917, eram de 1,7 bilh\u00e3o. A empresa norte-americana DuPont havia suprido, sozinha, dois quintos da muni\u00e7\u00e3o usada pelos pa\u00edses da Entente, testemunhando nas suas a\u00e7\u00f5es de mercado um salto que foi de 20 d\u00f3lares, em 1914, para mil d\u00f3lares, em 1918.<\/p>\n<p>Quando o armist\u00edcio p\u00f4s fim \u00e0 guerra, em 1918, havia 21 mil novos milion\u00e1rios nos EUA. Dos 20 milh\u00f5es de mortos ao final da guerra, somente 116 mil eram norte-americanos, num fato que corrigia a declara\u00e7\u00e3o do senador Norris: cunhava-se dinheiro com for\u00e7a vital, sim, mas n\u00e3o com a de seus compatriotas. Por outro lado, quatro imp\u00e9rios estavam completamente arruinados ao fim da guerra: o alem\u00e3o, o russo, o austro-h\u00fangaro e o otomano. E os poderes aliados haviam acumulado uma enorme d\u00edvida com os EUA, de forma que o pa\u00eds logo se transformou, de devedor, para credor da Europa. Em 1914, os EUA deviam \u00e0 Europa entre 4 e 5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Em dois anos, liquidaram a d\u00edvida, e em 1918 j\u00e1 haviam concedido cr\u00e9ditos no montante de 25 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>\u00c0 guerra seguia a partilha. No Oriente M\u00e9dio, Palestina e Iraque ficavam sob mandato ingl\u00eas, e S\u00edria e L\u00edbano sob o franc\u00eas, que se apossaram tamb\u00e9m de col\u00f4nias alem\u00e3s na \u00c1frica. O Jap\u00e3o e a It\u00e1lia tamb\u00e9m participavam a partilha. Mas a Am\u00e9rica Latina ficava livre da divis\u00e3o. Assim, conservava-se a Am\u00e9rica Latina e o Caribe como protetorado norte-americano.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas depois, em 14 de abril de 1939, o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt enviou um telegrama a Hitler, manifestando sua preocupa\u00e7\u00e3o com uma nova guerra e solicitando a garantia de n\u00e3o agress\u00e3o, por 10 anos, a 31 pa\u00edses. Hitler respondeu duas semanas depois, dizendo que se Roosevelt tinha tanto interesse em saber de suas inten\u00e7\u00f5es na Europa, ele tamb\u00e9m queria saber quais eram as inten\u00e7\u00f5es dos EUA em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. E, evocando a Doutrina Monroe, disse que \u201cn\u00f3s alem\u00e3es sustentamos doutrina similar para a Europa \u2013 sobretudo para o territ\u00f3rio e para os interesses do Grande Imp\u00e9rio Alem\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A guerra de fato viria. E, com ela, \u201cRoosevelt colimava, simultaneamente, alguns objetivos: esmagar a Alemanha, como pot\u00eancia, principal concorrente dos Estados Unidos, e liquidar as possess\u00f5es da It\u00e1lia e do Jap\u00e3o; dissolver o imp\u00e9rio colonial que a Fran\u00e7a, a Holanda e a B\u00e9lgica ainda mantinham, e assumir todas as posi\u00e7\u00f5es e dom\u00ednios da Gr\u00e3-Bretanha, proposta feita a Churchill na reuni\u00e3o de Placentia Bay (9 de agosto de 1941), e estabelecer nova ordem mundial, sob a hegemonia dos Estados Unidos\u201d, de acordo com Moniz Bandeira.<\/p>\n<p>Assim foi feito.<\/p>\n<p>Globalizando a hegemonia<br \/>\nA emerg\u00eancia do movimento anticolonial em todo o mundo representava a retirada de uma parcela consider\u00e1vel do globo do jugo das antigas pot\u00eancias. Aqui estava inclu\u00edda a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, basti\u00e3o desta luta, que conseguira sair da Primeira Guerra Mundial escapando pelos dedos do dom\u00ednio estrangeiro e afirmando a sua pr\u00f3pria independ\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O projeto de Hitler, como ele mesmo dissera, era \u201csustentar teoria similar [\u00e0 Doutrina Monroe] para os interesses do Grande Imp\u00e9rio Alem\u00e3o\u201d. Ocorre que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era um alvo especial dos nazistas.<\/p>\n<p>Heinrich Himmler, comandante militar da SS e uma das principais figuras do partido nazista, disse em um discurso na cidade de Posen, na Pol\u00f4nia: \u201cO que acontece a um russo, ou a um checo n\u00e3o me interessa o m\u00ednimo. O que as na\u00e7\u00f5es podem oferecer na forma de bom sangue do nosso tipo, n\u00f3s vamos tomar, se necess\u00e1rio, raptando os seus filhos e criando-os aqui conosco. Se as na\u00e7\u00f5es vivem em prosperidade ou morrem de fome, s\u00f3 me interessa enquanto n\u00f3s precisarmos deles como escravos para a nossa cultura; caso contr\u00e1rio, n\u00e3o me interessa. Se 10.000 mulheres russas caem de exaust\u00e3o enquanto cavam uma vala antitanque, interessa-me apenas na medida em que a vala antitanque para a Alemanha esteja terminada. Nunca seremos rudes e sem cora\u00e7\u00e3o quando isso n\u00e3o for necess\u00e1rio, isso \u00e9 claro. N\u00f3s alem\u00e3es, que somos o \u00fanico povo no mundo que tem uma atitude decente para com os animais, tamb\u00e9m assumimos uma atitude decente para com estes animais humanos (Menschentieren).\u201d<\/p>\n<p>Assim eram vistos: \u201canimais humanos\u201d. O Generalplan Ost nazista (Grande Plano para o Leste) consistia em genoc\u00eddio, limpeza \u00e9tnica e coloniza\u00e7\u00e3o em larga escala dos pa\u00edses do leste europeu. Escravos seriam ent\u00e3o usados nos esfor\u00e7os de guerra, junto das reservas de petr\u00f3leo do C\u00e1ucaso e as commodities agr\u00edcolas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o leste europeu poderia se tornar col\u00f4nia alem\u00e3.<\/p>\n<p>Para os Estados Unidos, a Alemanha nazista significava, por um lado, uma ponta de lan\u00e7a contra os comunistas (na Europa e em rela\u00e7\u00e3o a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) e, por outro, um ousado competidor no campo geopol\u00edtico. Aquela antiga pot\u00eancia, derrotada na Primeira Guerra e submetida ao endividamento, emergia mais uma vez, estendendo sua influ\u00eancia por todos os continentes com promessas de guerra. E se a guerra fosse declarada contra os Estados Unidos \u2013 como de fato foi, em 1941 \u2013 a Am\u00e9rica Latina seria um territ\u00f3rio chave.<\/p>\n<p>Para a Alemanha nazista, bastava que os pa\u00edses latino-americanos ficassem neutros. Os Estados Unidos garantiram apoio na regi\u00e3o, no entanto, por meio da \u201cPol\u00edtica de Boa Vizinhan\u00e7a\u201d, aumentando os investimentos na Am\u00e9rica Latina e promovendo interc\u00e2mbios culturais. Os pa\u00edses que tenderam mais \u00e0 neutralidade \u2013 como Chile e Argentina \u2013 foram castigados no campo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Depois que um furac\u00e3o de carne humana, alimentado principalmente pelo sangue sovi\u00e9tico, varreu o governo nazista da Alemanha e imp\u00f4s a rendi\u00e7\u00e3o ao Jap\u00e3o e \u00e0 It\u00e1lia, o tabuleiro global ficou limpo: norte-americanos de um lado, sovi\u00e9ticos de outro. A partilha j\u00e1 havia sido preparada em Yalta, na Crimeia, oito meses antes, e um ano antes os Estados Unidos j\u00e1 haviam decidido, na Confer\u00eancia Monet\u00e1ria e Financeira das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Breton Woods, pela cria\u00e7\u00e3o do Acordo Geral sobre Com\u00e9rcio e Tarifas (GATT, em ingl\u00eas), do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), e do Banco Mundial.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o era promover o com\u00e9rcio multilateral, com livre circula\u00e7\u00e3o de mercadorias e investimentos, por meio da conversibilidade das moedas (tendo o d\u00f3lar como base); a concess\u00e3o de ajuda financeira aos pa\u00edses em troca de medidas de redu\u00e7\u00e3o de gastos e privatiza\u00e7\u00f5es, e a promo\u00e7\u00e3o de investimentos privados e empr\u00e9stimos em massa \u00e0s na\u00e7\u00f5es no p\u00f3s-guerra. Por meio dele, os Estados Unidos n\u00e3o s\u00f3 estariam em luta contra a URSS, mas tamb\u00e9m assegurando o dom\u00ednio sobre as antigas col\u00f4nias brit\u00e2nicas e francesas e, porque n\u00e3o, sobre a Inglaterra e a Fran\u00e7a em si.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a Segunda Guerra, chegou-se \u00e0 chamada Guerra Fria. A disputa geopol\u00edtica entre sovi\u00e9ticos e norte-americanos no p\u00f3s-guerra, cada vez mais, tornaria o estalar de uma nova guerra necess\u00e1rio. No entanto, ela seria contraprodutiva para ambas as partes: as duas pot\u00eancias sa\u00edam vitoriosas de campos de batalha que lhes haviam custado enormes quantidades de recursos, humanos e financeiros. Guerrear n\u00e3o s\u00f3 implicava abrir m\u00e3o dos garantidos e imediatos esp\u00f3lios da Segunda Guerra, como jogar-se, como pot\u00eancia, num mundo em que o caos poderia destronar ambos os reis.<\/p>\n<p>Era necess\u00e1rio guerrear sem armas, mas sempre sob sua sombra. A Guerra Fria foi, assim, feita nos moldes da pol\u00edtica, e a pol\u00edtica era feita como num mapa da guerra. O desenvolvimento da capacidade nuclear sovi\u00e9tica em 1949 transpunha para o campo militar o paradoxo pol\u00edtico ap\u00f3s a Segunda Guerra: vencer o inimigo era necess\u00e1rio, para ambos os lados. Mas para ambos os lados era contraproducente e perigoso demais combater. Neste jogo de xadrez em que n\u00e3o havia mais torres, cavalos, bispos ou rainhas, a vit\u00f3ria seria alcan\u00e7ada pelos pe\u00f5es, convertidos em torres de hegemonia de cada um dos reis.<\/p>\n<p>Torres de hegemonia<br \/>\nA Guerra Fria foi combatida em todo o mundo, na dimens\u00e3o cultural, pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Batalhas militares eram efetivamente travadas, mas com car\u00e1ter limitado.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia, em 1949, a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa ergueu, \u00e0s portas da R\u00fassia, a primeira torre de hegemonia contra os Estados Unidos. Igualmente ocorreu na Pen\u00ednsula Coreana, que acabou dividida e passou pela Guerra da Coreia entre 1950 e 1953. O Jap\u00e3o e a Coreia do Sul, por sua vez, serviram de torres norte-americanas na regi\u00e3o, com centenas de milhares de d\u00f3lares em investimentos e ajuda financeira, e ostensiva presen\u00e7a militar norte-americana. A Tail\u00e2ndia e as Filipinas tamb\u00e9m cumpriram pap\u00e9is importantes na \u201cdoutrina asi\u00e1tica\u201d da Southeast Asian Treaty Organization (Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Sudeste Asi\u00e1tico), um pacto militar que incluiu tamb\u00e9m a Inglaterra, Nova Zel\u00e2ndia, Austr\u00e1lia, Fran\u00e7a e Paquist\u00e3o, com o objetivo de defender o Vietn\u00e3 do Sul, o Laos e o Camboja dos comunistas. A doutrina asi\u00e1tica, como a Doutrina Monroe, considerava que qualquer intrus\u00e3o no sudeste da \u00c1sia era perigosa para a paz e seguran\u00e7a dos EUA.<\/p>\n<p>No Leste Europeu, at\u00e9 a Alemanha Oriental, a influ\u00eancia foi assegurada \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Na Europa Ocidental, a hegemonia norte-americana era mantida.<\/p>\n<p>Um campo de batalha especial foi o Oriente M\u00e9dio. Ali, a influ\u00eancia norte-americana era forte, com a grande torre de Israel, erguida em 1948, a Ar\u00e1bia Saudita e, depois do golpe contra Mohammad Mossadegh, o Ir\u00e3. A S\u00edria e o Iraque permaneciam alinhadas ao Bloco Sovi\u00e9tico, que teve sua influ\u00eancia expandida tamb\u00e9m para o Egito, cujo l\u00edder, Abdel Nasser, nacionalizou o Canal de Suez em 1956.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, prevalecia a Doutrina Monroe. A hegemonia em alguns pa\u00edses, durante o final dos anos 40 e os anos 50, j\u00e1 era assegurada pelo grande porrete literal do irm\u00e3o do norte: Costa Rica, Guatemala e Paraguai. Em 1959, no entanto, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana estourou, e a ilha se alinhou ao Bloco Sovi\u00e9tico a partir de 1961. A tens\u00e3o, agora no protetorado preferencial dos Estados Unidos, deveria ser resolvida. Argentina, Brasil, Chile, Nicar\u00e1gua, Panam\u00e1, Peru e Uruguai seriam todos alvos do porrete norte-americano e seus representantes regionais: coturnos e milicos.<\/p>\n<p>Novas pot\u00eancias<br \/>\nGay Talese, o lend\u00e1rio escritor e jornalista norte-americano, escreveu certa vez, sobre a final da Copa do Mundo de Futebol Feminino em 1999, disputada entre EUA e China: \u201cEra sim uma vis\u00e3o contrastante e atualizada do tipo de mulher chinesa que Mao havia imaginado capaz de levar o mundo nas costas. Aquelas modernas finalistas chinesas, que viajavam pelo planeta e cal\u00e7avam chuteiras com travas na final da Copa do Mundo de 1999, eram, em certos casos, netas ou bisnetas de mulheres que no passado manquitolavam em sua terra com p\u00e9s atados e, por isso, deformados. Aquelas jogadoras de futebol eram, num sentido hist\u00f3rico, parte de uma longa marcha que ainda continuava, de um grande salto avante rumo ao s\u00e9culo XXI, no qual, como futuras m\u00e3es numa superpot\u00eancia florescente e tecnicamente avan\u00e7ada, seus genes competitivos talvez epitomassem a energia e a determina\u00e7\u00e3o com que novas gera\u00e7\u00f5es de chineses poderiam vir a competir com os americanos na tentativa rec\u00edproca de riscar o outro pa\u00eds do mapa.\u201d<\/p>\n<p>Oito anos antes, a Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas encontrava o colapso, depois dos governos comunistas ca\u00edrem nos aliados Hungria, Tchecoslov\u00e1quia, Bulg\u00e1ria, Rom\u00eania e Alemanha Oriental, e a as rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas da Litu\u00e2nia, Let\u00f4nia e Est\u00f4nia declararem sua independ\u00eancia.<\/p>\n<p>A China, que j\u00e1 se mantinha independente dos sovi\u00e9ticos, havia empreendido a partir de 1976 grandes reformas econ\u00f4micas. Na d\u00e9cada de 1960-1970, a economia do pa\u00eds crescia no passo de 4,5%; entre 1970-1980, 5,8%; entre 1980-1990, 8,5%.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica havia sido destru\u00edda, sim, e a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) se expandia para suas antigas fronteiras. Mas na \u00c1sia Oriental o \u201cperigo vermelho\u201d crescia e se tornava uma pot\u00eancia. Os canh\u00f5es rudimentares viraram modernos e sofisticados m\u00edsseis. A industrializa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava a passos largos. E os p\u00e9s confinados por panos e deformados agora vestiam chuteiras e chutavam ao gol no final da Copa.<\/p>\n<p>Desde aquela final, em 1999, o PIB chin\u00eas saltou de 1,094 trilh\u00e3o para 12,24 trilh\u00f5es (em compara\u00e7\u00e3o, o PIB norte-americano saltou de 9,6 trilh\u00f5es para 19,3 trilh\u00f5es). O tamanho dessa pot\u00eancia econ\u00f4mica \u00e9 tal que, de acordo com um relat\u00f3rio da Oxford Economics, \u201ca ind\u00fastria chinesa [\u2026] reduziu os pre\u00e7os dos bens de consumo nos Estados Unidos, amorteceu a infla\u00e7\u00e3o e colocou mais dinheiro nos bolsos americanos [\u2026] o com\u00e9rcio com a China [\u2026] economizou at\u00e9 850 d\u00f3lares por ano para essas fam\u00edlias.\u201d Al\u00e9m disso, tudo indica que a China esteja na dianteira no desenvolvimento do 5G, a \u201cquarta revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d, enquanto a ind\u00fastria b\u00e9lica norte-americana se torna cada vez mais dependente de commodities chinesas, em especial das chamadas \u201cterras raras\u201d. Um relat\u00f3rio do Departamento de Defesa norte-americano considera que a China \u201crepresenta um risco significativo e crescente para o fornecimento de materiais considerados estrat\u00e9gicos e cr\u00edticos para a seguran\u00e7a nacional dos EUA, j\u00e1 que o pa\u00eds asi\u00e1tico \u00e9 a \u00fanica fonte ou provedor principal de uma s\u00e9rie de materiais utilizados na ind\u00fastria de defesa.\u201d<\/p>\n<p>Velhos porretes<br \/>\nO ex-Secret\u00e1rio de Defesa dos Estados Unidos declarou em 2018, quando anunciando a nova doutrina estrat\u00e9gica de seu pa\u00eds: \u201cContinuaremos a levar adiante a campanha contra terroristas em que estamos envolvidos hoje, mas a competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias, n\u00e3o o terrorismo, agora \u00e9 o foco principal da seguran\u00e7a nacional dos EUA.\u201d Como escrevi em \u201cCarta no Coturno \u2013 A volta do Partido Fardado no Brasil\u201d, \u201ca retomada da Doutrina Monroe na\u0303o e\u0301 so\u0301 uma teoria; e\u0301 discurso oficial. Se em 2013 o enta\u0303o Secreta\u0301rio do Estado John Kerry declarava publicamente que \u2018a era da Doutrina Monroe acabou\u2019, o enta\u0303o Secreta\u0301rio de Estado de Trump, Rex Tillerson declarava, antes de embarcar para uma se\u0301rie de viagens na Ame\u0301rica Latina, que a Doutrina era \u2018claramente um sucesso [\u2026] ta\u0303o relevante hoje como no dia em que foi escrita.\u2019 Nesta mesma ocasia\u0303o, disse que \u2018hoje a China esta\u0301 colocando um pe\u0301 na Ame\u0301rica Latina. Esta\u0301 usando poli\u0301ticas econo\u0302micas para colocar a regia\u0303o na sua o\u0301rbita. A pergunta e\u0301: a que prec\u0327o? A Ame\u0301rica Latina na\u0303o precisa de novos poderes imperiais que so\u0301 buscam beneficiar seu pro\u0301prio povo.\u2019 O Conselheiro de Seguranc\u0327a Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, tambe\u0301m gosta de rememorar o presidente Monroe. Respondendo a uma pergunta sobre a Venezuela, declarou que \u2018nessa administrac\u0327a\u0303o no\u0301s na\u0303o temos medo de usar a frase \u2018Doutrina Monroe\u2019. Esse e\u0301 um pai\u0301s em nosso hemisfe\u0301rio, tem sido o objetivo de presidentes desde Ronald Reagan ter um hemisfe\u0301rio completamente democra\u0301tico.\u201d<\/p>\n<p>De fato, a China tem posto um p\u00e9 na Am\u00e9rica Latina. Um n\u00e3o; v\u00e1rios. E de chuteiras. Desde 2005, s\u00e3o cerca de 140 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em empr\u00e9stimos enviados \u00e0 regi\u00e3o, dos quais 90% foram para quatro pa\u00edses: Venezuela, Brasil, Equador e Argentina. Os empr\u00e9stimos chineses para o desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina e Caribe nos \u00faltimos anos t\u00eam sido maiores do que os do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do Banco de Desenvolvimento da Am\u00e9rica Latina juntos.<\/p>\n<p>O pa\u00eds que mais recebeu dinheiro chin\u00eas na regi\u00e3o foi a Venezuela (67,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares entre 2001-2018). O pa\u00eds deve \u00e0 China cerca de 19 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em petr\u00f3leo. No Brasil, para o mesmo per\u00edodo, o montante foi de 29,8 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, e a China \u00e9 o nosso principal parceiro comercial desde 2009. O Equador, de 2009 a 2018, recebeu 18 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, e um acordo com o ex-presidente Rafael Correa estabeleceu que 90% das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo cru seriam feitas ao drag\u00e3o asi\u00e1tico. E a Argentina, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, recebeu quase 17 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Grande parte dos investimentos se destinam ao desenvolvimento de infraestrutura.<\/p>\n<p>No Brasil, Bolsonaro fala duro com a China e mole com os Estados Unidos, mas a l\u00edngua \u00e9 mordida, no primeiro caso, e ignorada, no segundo. O presidente chegou a abrir m\u00e3o de benef\u00edcios da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) em troca de uma prometida entrada do pa\u00eds na Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), que foi frustrada. Os EUA tamb\u00e9m negaram a abertura de seus mercados para a carne bovina in natura do Brasil. E Trump tamb\u00e9m disse que taxaria as exporta\u00e7\u00f5es de a\u00e7o brasileiro, para que Bolsonaro depois dissesse que o mandat\u00e1rio norte-americano se comprometeu a n\u00e3o faz\u00ea-lo; o brasileiro j\u00e1 foi enganado pelo amigo do norte antes.<\/p>\n<p>A China, por outro lado, colocou 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Brasil ap\u00f3s a XI C\u00fapula de L\u00edderes do Brics, e foi o \u00fanico pa\u00eds a tomar parte no mega leil\u00e3o do pr\u00e9-sal ocorrido em novembro (de acordo com a Folha de S\u00e3o Paulo, a pedido do pr\u00f3prio Bolsonaro).<\/p>\n<p>Para fazer frente \u00e0 presen\u00e7a econ\u00f4mica da China na regi\u00e3o, os Estados Unidos criaram o programa \u201cAm\u00e9rica Cresce\u201d. O Brasil deve assinar em breve um memorando para participar. Mas concorrer em empr\u00e9stimos com outras pot\u00eancias \u2013 em especial uma liderada por um Partido Comunista \u2013 n\u00e3o \u00e9 o que prega a Doutrina Monroe. For\u00e7ar sua retirada sim.<\/p>\n<p>O presidente brasileiro, com sua pol\u00edtica pr\u00f3-americana, parece buscar, a partir da fraqueza, o apoio incondicional dos Estados Unidos. Acena a todas as posi\u00e7\u00f5es norte-americanas e, tamb\u00e9m no campo diplom\u00e1tico, as repete. Aceitou inclusive sediar um encontro \u201canti-Ir\u00e3\u201d no Brasil em fevereiro. A l\u00f3gica de Bolsonaro, ao que tudo indica, \u00e9 falar mais manso do que quem fala manso. N\u00e3o sem custos internos, econ\u00f4micos e pol\u00edticos. Por outro lado, adotou uma postura chamada \u201cmais pragm\u00e1tica\u201d pelos grandes meios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>Nada disso est\u00e1 ocorrendo nos tempos de Cipriano Castro. Tampouco os eventos ocorrem na Europa, na \u00c1sia, no Oriente M\u00e9dio, nas portas da China ou da R\u00fassia. Os oficiais norte-americanos n\u00e3o est\u00e3o declarando, neste momento, que \u201co mundo \u00e9 assim\u201d ou que \u201cos mercados s\u00e3o livres\u201d. Pelo contr\u00e1rio, est\u00e3o dizendo: o porrete est\u00e1 vivo; n\u00f3s acreditamos no porrete!<\/p>\n<p>No Brasil, e em toda a Am\u00e9rica Latina, chegar\u00e1 o momento em que os governos ter\u00e3o de fazer uma escolha. E, para aqueles que n\u00e3o entendam o falar manso do imp\u00e9rio, o porrete est\u00e1 ao alcance das m\u00e3os. Ele j\u00e1 afastou antes pot\u00eancias muito menos perigosas, j\u00e1 comprou d\u00edvidas, j\u00e1 derrubou governos, j\u00e1 procurou os militares, j\u00e1 autorizou surras. Somente a ingenuidade pode nos permitir acreditar que n\u00e3o far\u00e1 de novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24679\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,165],"tags":[233,219],"class_list":["post-24679","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-eua","tag-6a","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6q3","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24679","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24679"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24679\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24679"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24679"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24679"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}