{"id":24721,"date":"2020-01-19T21:31:47","date_gmt":"2020-01-20T00:31:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24721"},"modified":"2020-01-19T21:31:47","modified_gmt":"2020-01-20T00:31:47","slug":"fascismo-o-modelo-e-as-resistencias-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24721","title":{"rendered":"Fascismo: o modelo e as resist\u00eancias da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/it\/0\/00\/Manifestazione_antifascista.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Marcos A. da Silva<\/p>\n<p>Materialismo Hist\u00f3rico Geogr\u00e1fico<\/p>\n<p>O modelo cl\u00e1ssico de fascismo implicava viol\u00eancia e consenso, como demonstrou o livro do italiano Gianni Fresu (Nas trincheiras do Ocidente: li\u00e7\u00f5es sobre fascismo e antifascismo. Ponta Grossa: Editora da UEPG, 2017). \u00c9 certo que a pr\u00f3pria ideia de \u201cmodelo cl\u00e1ssico\u201d deve ser tomada cum grano salis, se lembramos uma cr\u00edtica de Palmiro Togliatti \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es de Trotsky do in\u00edcio dos anos 1930 acerca do desenvolvimento do fascismo alem\u00e3o \u2014 um cuidado, deve-se dizer, que n\u00e3o est\u00e1 ausente no livro de Fresu.<\/p>\n<p>Para o grande dirigente do PCI, que n\u00e3o por acaso intitulava seu artigo Contra as falsas analogias entre a situa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 e a situa\u00e7\u00e3o italiana (Sul movimento operaio internazionale. Roma: Riuniti, 1964), o organizador do Ex\u00e9rcito Vermelho esperava um tanto mecanicamente uma nova marcha sobre Roma \u2014 e, tal como a primeira, marcada por forte presen\u00e7a dos setores m\u00e9dios \u2014 para definir o governo alem\u00e3o do in\u00edcio daquela d\u00e9cada como fascista. (1)<\/p>\n<p>Eram os anos do governo von Papen, n\u00e3o ainda o de Hitler, \u00e9 preciso lembrar. Mas Togliatti fazia notar que este era j\u00e1 um governo que realizava \u201ca ditadura fascista com um ritmo acelerado\u201d, pois conduzia a \u201cuma campanha de redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios\u201d, desmobilizava \u201co sistema de assist\u00eancia social e contra a desocupa\u00e7\u00e3o\u201d, e se esfor\u00e7ava \u201cpara cobrir esta sua pol\u00edtica antioper\u00e1ria brutal com uma m\u00e1scara de demagogia social que parece ser inspirada naquela de Mussolini e seus hierarcas\u201d.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil reconhecer elementos de continuidade com o que agora ocorre no Brasil sob Bolsonaro. Mas a despeito desta evid\u00eancia, \u00e9 preciso notar que a defini\u00e7\u00e3o de Togliatti aqui transcrita n\u00e3o aborda a quest\u00e3o da hegemonia, ou seja, do consenso, com o papel que terminaram por desempenhar neste campo os meios de comunica\u00e7\u00e3o (r\u00e1dio, cinema) e o pr\u00f3prio partido fascista, bem como de uma s\u00e9rie de direitos para uma parte dos trabalhadores, organizados pelo Estado fascista (recorde-se a Carta del Lavoro).<\/p>\n<p>Este \u00e9 um processo que se desenvolve na It\u00e1lia fascista apenas na segunda metade dos anos 1920 \u2014 ap\u00f3s o assassinato do deputado Giacomo Matteoti, que havia denunciado as fraudes e a viol\u00eancia que envolveram a vit\u00f3ria de Mussolini nas elei\u00e7\u00f5es de 1924 \u2014 , marcando a diferen\u00e7a entre o que seria o governo e o regime fascista.<\/p>\n<p>E eis onde o governo Bolsonaro parece pretender chegar com as medidas na \u00e1rea da cultura e educa\u00e7\u00e3o no final de 2019, quando deu inicio a um programa de Olavo de Carvalho na TV p\u00fablica \u2014 o \u201cBrasil Paralelo\u201d, a ser exibido na TV escola, administrada pelo MEC \u2014 e agora, com o v\u00eddeo do Secret\u00e1rio Nacional de Cultura, Roberto Alvim, plagiando est\u00e9tica, discurso e programa da propaganda nazifascista de Aldolf Hitler, como se sabe comandada pelo ministro da propaganda Joseph Goebbels.<\/p>\n<p>Ou seja, inten\u00e7\u00f5es h\u00e1, e s\u00e3o bem claras. O historiador italiano Angelo D\u2019Orsi, em recente turn\u00ea pelo Brasil, assinalou justamente isto para falar dos tempos atuais: h\u00e1 o fascismo hist\u00f3rico, este foi superado; mas h\u00e1 o fascismo como modelo, a inspirar uma cultura reacion\u00e1ria que busca reemergir.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que fica, todavia, \u00e9: o modelo poder\u00e1 triunfar novamente? A julgar pelas rea\u00e7\u00f5es negativas que a fala do Secret\u00e1rio da Cultura est\u00e1 produzindo, vindas at\u00e9 mesmo de representantes da direita, talvez fosse melhor observar as notas de inspira\u00e7\u00e3o hegelianas que Gramsci escreveu ao se debru\u00e7ar sobre as fases de regress\u00e3o hist\u00f3rica: \u201cno movimento hist\u00f3rico n\u00e3o se volta nunca atr\u00e1s\u201d, ou ao menos \u201cn\u00e3o h\u00e1 restaura\u00e7\u00e3o \u2018in toto\u2019\u201d, escreveu o sardo nas notas Notas sobre a pol\u00edtica de Maquiavel.<\/p>\n<p>Com efeito, as especificidades que convidam a pensar nas dificuldades de transposi\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica de modelos n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 geogr\u00e1ficas, mas tamb\u00e9m hist\u00f3ricas \u2014 isto \u00e9, dizem respeito \u00e0s resist\u00eancias que lhes imp\u00f5em a pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o, o progresso da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E n\u00e3o importa que a gota d\u2019\u00e1gua para a demiss\u00e3o do Secret\u00e1rio da Cultura tenha sido a posi\u00e7\u00e3o da comunidade judaica brasileira, que Bolsonaro pretende ter como sua base de apoio. A posi\u00e7\u00e3o da comunidade judaica diante de uma quest\u00e3o como esta \u00e9 parte do consenso \u2014 certamente sob amea\u00e7a com o crescimento da cultura de extrema-direita e a investidura de um governo de igual orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2014 de que o que ocorreu na Alemanha da primeira metade do s\u00e9culo passado n\u00e3o pode se repetir.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, se se trata de recorrer ao sardo que sofreu na pr\u00f3pria pele as agruras do fascismo, uma li\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso reter ao tratarmos do tempo hist\u00f3rico \u2014 que jamais se movimenta sem lutas, como nos recorda uma conhecida frase de Marx. Mais do que agarra-se \u00e0 certeza bin\u00e1ria que nos convida a um comportamento ingenuamente otimista ou ent\u00e3o catastroficamente pessimista, trata-se, antes, de p\u00f4r em rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica estes dois sentimentos, sendo ao mesmo tempo \u201cpessimista com a intelig\u00eancia, mas otimista com a vontade\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o passar\u00e3o!<\/p>\n<p>Nota:<\/p>\n<p>(1) Togliatti afirma que ao enfatizar os setores m\u00e9dios, Trotsky termina por negligenciar o papel do capital financeiro. Um texto de Trostky escrito no final de 1930 todavia n\u00e3o confirma essa cr\u00edtica, j\u00e1 que o organizador do Ex\u00e9rcito Vermelho parece fazer explicita refer\u00eancia ao papel do capital financeiro no fascismo (a \u201cgrande burguesia\u201d, escreve). De qualquer modo, do ponto de vista metodol\u00f3gico, permanece v\u00e1lida a advert\u00eancia de Togliatti quanto \u00e0s falsas analogias. O texto de Trotsky aqui referido \u00e9 \u201cO giro da Internacional Comunista e a situa\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u201d, e est\u00e1 publicado em Trotsky. L. Como esmagar o fascismo. S\u00e3o Paulo: Autonomia liter\u00e1ria, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24721\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[221],"class_list":["post-24721","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6qJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24721"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24721\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}