{"id":24725,"date":"2020-01-21T22:29:29","date_gmt":"2020-01-22T01:29:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=24725"},"modified":"2020-01-21T22:29:29","modified_gmt":"2020-01-22T01:29:29","slug":"o-petroleo-e-a-guerra-civil-imperialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24725","title":{"rendered":"O petr\u00f3leo e a guerra civil imperialista"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/static.politifact.com\/politifact\/photos\/Burning_oil_well_2.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Fuzileiros norte-americanos junto a um po\u00e7o em chamas, no campo de petr\u00f3leo de Rumaila, Iraque, 2003.<br \/>\nCr\u00e9ditos Arlo K. Abrahamson (marinheiro fot\u00f3grafo de 1.\u00aa classe) \/ US Navy\/wikipedia<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>Um Oriente M\u00e9dio em p\u00e9 de guerra \u00e9 uma alternativa cultivada para afetar regimes e governos que n\u00e3o sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que n\u00e3o seja o d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Estimado leitor, se lhe disserem que os Estados Unidos s\u00e3o autossuficientes em hidrocarbonetos e n\u00e3o precisam do petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio, n\u00e3o acredite. A guerra sem fim montada pelo Pent\u00e1gono atrav\u00e9s de toda a regi\u00e3o e algumas extens\u00f5es geogr\u00e1ficas tem a ver com fontes de energia, o controle das suas reservas, produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. Portanto, o que tem acontecido nas \u00faltimas semanas, por exemplo, a simultaneidade da desestabiliza\u00e7\u00e3o do Iraque e do Ir\u00e3 e a nova fase da guerra na L\u00edbia tem, e muito, a ver com isso.<\/p>\n<p>Outra coisa em que o leitor n\u00e3o deve acreditar \u00e9 nas promessas do poder globalizante de que vai reduzir o consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis para combater o aquecimento global e cumprir as metas da redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono. Nunca, como agora, esteve inventariada uma t\u00e3o elevada quantidade de reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. E ser\u00e3o para consumir enquanto existirem, at\u00e9 \u00e0 \u00faltima gota: o capitalismo alimenta-se delas. Quem as dominar controla o mundo \u2013 um conceito b\u00e1sico de qualquer geopol\u00edtica e geoestrat\u00e9gia bem atuais.<\/p>\n<p>O que se passa no Oriente M\u00e9dio tem, portanto, a ver tamb\u00e9m com hidrocarbonetos. Hoje como ontem.<\/p>\n<p>A era do petr\u00f3leo e do g\u00e1s de xisto, caracterizada pela extra\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do m\u00e9todo de fratura hidr\u00e1ulica (fracking) extremamente agressivo para o meio ambiente, alterou o ranking da produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos e ter\u00e1 conduzido os Estados Unidos ao primeiro lugar entre os produtores. Segundo especialistas, por\u00e9m, o per\u00edodo \u00e1ureo dessa forma de explora\u00e7\u00e3o j\u00e1 ter\u00e1 sido ultrapassado na Am\u00e9rica do Norte, al\u00e9m de ser mais dispendiosa do que a efetuada a partir de reservas mais convencionais. Al\u00e9m disso, em termos norte-americanos, trata-se de mais um neg\u00f3cio com diferentes val\u00eancias: o petr\u00f3leo e o g\u00e1s de xisto, mais caros, s\u00e3o para exportar \u2013 de prefer\u00eancia para os aliados europeus e de outras regi\u00f5es \u2013 servindo para tentar combater produ\u00e7\u00f5es rivais, sobretudo as russas, mesmo que atrav\u00e9s de manipula\u00e7\u00f5es grosseira das \u00ableis do mercado\u00bb; e, por outro lado, os Estados Unidos importam hidrocarbonetos mais baratos de regi\u00f5es onde mant\u00eam dom\u00ednio e controlo, entre elas o Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Dom\u00ednio e controle n\u00e3o se exercem apenas sobre os produtores, mas tamb\u00e9m sobre as reservas identificadas, a investiga\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis novas reservas e os circuitos de distribui\u00e7\u00e3o. Por isso as guerras t\u00eam na mira tamb\u00e9m as rotas de gasodutos e oleodutos e nem sempre s\u00e3o travadas com armas. As chantagens pol\u00edtico-econ\u00f4mico-diplom\u00e1ticas envolvendo, por exemplo, os gasodutos sem participa\u00e7\u00e3o norte-americana como o Turk Stream (agora inaugurado), o Nord Stream 2 e o South Stream (ainda bloqueado) s\u00e3o exemplo dos longos bra\u00e7os estendidos sobre o planeta de quem se diz autossuficiente em termos energ\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Dom\u00ednio e controle s\u00e3o ainda mais do que isto: exercem-se tamb\u00e9m tentando prejudicar e inibir a concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo atrav\u00e9s da desestabiliza\u00e7\u00e3o alargada no Oriente M\u00e9dio tem muito a ver com esta guerra multifacetada. E o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, em particular, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Soberanias intoler\u00e1veis<br \/>\nTodos ainda estamos lembrados de que, h\u00e1 algumas semanas, o presidente dos Estados Unidos anunciou a retirada de parte das tropas ocupantes na S\u00edria, mas deixando militares no terreno \u00abtomando conta do petr\u00f3leo\u00bb. De falta de franqueza, nestas circunst\u00e2ncias, ningu\u00e9m pode acusar Donald Trump. A S\u00edria tem vindo a ganhar a guerra que lhe foi movida internacionalmente, mas a restaura\u00e7\u00e3o da soberania ainda tem limites impostos pelos poderes que governam em Washington: as zonas ricas em hidrocarbonetos, a prop\u00f3sito das quais, ali\u00e1s, h\u00e1 not\u00edcia da exist\u00eancia de grandes reservas de g\u00e1s natural \u2013 por sinal no \u00abRojava\u00bb, o \u00abEstado curdo\u00bb criado por Estados Unidos e Israel em parte do Norte da S\u00edria.<\/p>\n<p>Durante muito tempo quase n\u00e3o se ouviu falar do Iraque. Apesar de se tratar de um pa\u00eds em grande parte destru\u00eddo pela invas\u00e3o e a guerra, dividido entre bolsas de poderes exercidos por comunidades \u00e9tnico-religiosas e ocupado militarmente, deixou praticamente de ser not\u00edcia. As condi\u00e7\u00f5es de vida desumana a que est\u00e3o sujeitas milh\u00f5es de pessoas deixaram de chamar a aten\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o social corporativa. O sil\u00eancio e a \u00abestabilidade\u00bb prevaleciam, uma vez que em Bagd\u00e1 estava em fun\u00e7\u00f5es um governo subordinado \u00e0s for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se alterou. N\u00e3o muito, mas o suficiente para incomodar Washington. O governo do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi, descontente com as imposi\u00e7\u00f5es apresentadas pelos Estados Unidos para se envolverem na reconstru\u00e7\u00e3o das infraestruturas do pa\u00eds arrasadas pela invas\u00e3o e a guerra \u2013 receberem em troca metade das receitas de petr\u00f3leo iraquianas \u2013 estabeleceu um acordo com outro parceiro: a China.<\/p>\n<p>O c\u00e9u caiu em cima da cabe\u00e7a de Abdul Mahdi. Donald Trump exige-lhe que revogue o acordo e, segundo o teor de um discurso feito pelo chefe do governo no Parlamento, est\u00e1 por detr\u00e1s das manifesta\u00e7\u00f5es e epis\u00f3dios de viol\u00eancia que t\u00eam como objetivo a dissolu\u00e7\u00e3o do executivo.<\/p>\n<p>Acresce que Abdul Mahdi teve outro ato imperdo\u00e1vel para os ocupantes. Estava a servir de mediador numa aproxima\u00e7\u00e3o feita pela Ar\u00e1bia Saudita em dire\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3 para reduzir o n\u00edvel de tens\u00e3o em todo o Oriente M\u00e9dio. Um passo que poderia beneficiar a regi\u00e3o, designadamente estabelecer pontes para acabar com a guerra que martiriza o I\u00eamen.<\/p>\n<p>O general Qasem Soleimani ia a Bagd\u00e1 entregar a resposta do governo iraniano \u00e0 iniciativa saudita, em 3 de janeiro, quando foi assassinado por ordem do presidente dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>De uma assentada, os Estados Unidos creem ter abortado uma iniciativa pacificadora que se desenvolvia, portanto, em sentido contr\u00e1rio \u00e0 estrat\u00e9gia de guerra sem fim; e ativaram um clima de desestabiliza\u00e7\u00e3o que abrange simultaneamente o Iraque e o Ir\u00e3 e se junta ao ambiente de guerra latente que permanece na S\u00edria.<\/p>\n<p>As \u00abintromiss\u00f5es\u00bb da China<br \/>\nO que se passa no Iraque \u00e9 um golpe contra o governo, dado pela pot\u00eancia ocupante de modo a poder contar novamente com um executivo absolutamente d\u00f3cil, que revogue o acordo com a China e assegure a pretendida metade das receitas petrol\u00edferas para o Tesouro de Washington. Ali\u00e1s, Trump j\u00e1 definiu muito bem as cartas do jogo depois da decis\u00e3o do Parlamento de Bagd\u00e1 ordenando a sa\u00edda das tropas de ocupa\u00e7\u00e3o: ou os militares norte-americanos permanecem ou os Estados Unidos bloqueiam a conta do Minist\u00e9rio iraquiano do Petr\u00f3leo na Reserva Federal de Nova York, atrav\u00e9s da qual Bagd\u00e1 movimenta quase todo o seu com\u00e9rcio petrol\u00edfero. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, portanto, que \u00e9 de petr\u00f3leo que se trata.<\/p>\n<p>\u00c9 de mudan\u00e7a de governo \u2013 e de regime \u2013 a trama desenvolvida por Washington contra o Ir\u00e3. As san\u00e7\u00f5es que asfixiam o povo e a economia do pa\u00eds, a aposta cada vez menos velada nas divis\u00f5es entre o presidente Rouhani e a chefia religiosa de Ali Khamenei e a instabilidade nas ruas, tudo sob um clima de amea\u00e7a militar permanente, t\u00eam como fim \u00faltimo o regresso de Teer\u00e3 \u00e0 esfera de Washington. Iraque e Ir\u00e3 s\u00e3o os dois maiores exportadores de petr\u00f3leo mundiais a seguir \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o Trump, como as anteriores, exige um governo de confian\u00e7a no Iraque para poder continuar a usar o pa\u00eds como base da agress\u00e3o ao Ir\u00e3, al\u00e9m de preservar a hostilidade entre Riade e a Teer\u00e3. O assassinato do general Soleimani serviu a estes objetivos.<\/p>\n<p>Um Oriente M\u00e9dio em p\u00e9 de guerra \u00e9 uma alternativa cultivada para afetar regimes e governos que n\u00e3o sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que n\u00e3o seja o d\u00f3lar, como est\u00e1 a acontecer entre a China e o Ir\u00e3, com a agravante de o fazerem contrariando as san\u00e7\u00f5es impostas unilateralmente pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Neste momento, em rela\u00e7\u00e3o ao Oriente M\u00e9dio, pode constatar-se que a China tem em curso investimentos de um milh\u00e3o de milh\u00f5es de d\u00f3lares no Ir\u00e3, acaba de assinar um acordo de reconstru\u00e7\u00e3o com o Iraque e importa da Ar\u00e1bia Saudita a maior parte dos hidrocarbonetos que consome; e a R\u00fassia \u00e9 uma pot\u00eancia determinante na S\u00edria.<\/p>\n<p>Dizem-nos a hist\u00f3ria e a experi\u00eancia que a diplomacia n\u00e3o \u00e9 o forte dos Estados Unidos e que o m\u00e9todo de negocia\u00e7\u00f5es mutuamente vantajosas \u00e9 absolutamente desconhecido em Washington. N\u00e3o surpreende, pois, que a generaliza\u00e7\u00e3o da guerra seja a op\u00e7\u00e3o tomada pela administra\u00e7\u00e3o Trump para proteger os interesses do imp\u00e9rio, no quadro da acarinhada teoria do \u00abcaos criativo\u00bb.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio dos \u00faltimos tempos nesta regi\u00e3o, um concentrado dos interesses que comandam a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, \u00e9 o exemplo mais flagrante da agudiza\u00e7\u00e3o da guerra civil que se trava no sistema capitalista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/24725\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[234],"class_list":["post-24725","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-6qN","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24725"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24725\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}